DISSOLUÇÃO - UM ILÍCITO


Alberto Santana


Noite de sábado.
A faculdade de Direito está morta. Deserta. Calma. Sólida e rígida como um cadáver.
Poças de escuridão engolem e cospem fora corredores. O negror cobre paredes, chão e portas.
Ruídos de acomodação fazem ecos sinistros soarem. Prestando atenção, quase se pode ouvir o prédio...respirar.
Centenas de cadeiras desertas ocupam solenemente seus lugares. À luz da lua pálida que ilumina o Vale, parecem acomodar fantasmas esqueléticos.

Uma brisa fina e cortante por vezes faz farfalhar as plantas. As folhas se tocam com delicadeza. Soam como gritos distantes, vindos do fundo de um poço em outro mundo.

As escadas descem e sobem pras trevas silenciosas. Parecem convidar a um passeio.
Os armários dos livreiros fechados exalam um sentimento de fim. O balcão vazio da cantina parece o covil de um animal imenso e agachado. Canibal. Carnívoro. Assassino. A luz zumbe nervosamente em tom baixo.

O saguão está violentamente iluminado. Do caixa do banco na entrada ouve-se um ronco impessoal. O porteiro cochila levemente com os pés em sua mesa. Lá fora ouvem-se grilos.

Os poços do SAJU e do aquário afundam em suave torpor. Também parecem convidativos.

O ar parado carrega desilusão, frustração e um ódio furioso, um urro sem som de dezenas de gerações torturadas e esmagadas sobre podridão intelectual.

Mas... espere.
O ar denso, antes parado, mostra agora uma suave movimentação.
Uma expiração lenta e maligna faz-se ouvir no topo da escada da cantina. É como escutar um último suspiro. A temperatura da área começa a cair vertiginosamente e dá início a um frio cortante que condensa os vapores em suspensão. Traços de uma névoa leitosa começam a descer os degraus e a se espalhar no ar.

Inexplicavelmente, surge um forte vento nos corredores invisíveis.
Este vento corre para baixo vindo dos pontos mais altos do prédio. Corre pela rampa da biblioteca, dobrando no laboratório, seguindo para o colegiado e descendo as escadas. Vem dos fundos das salas para os corredores. Portas batem violentamente no silêncio. Vai do saguão dos murais, no segundo andar, em direção aos degraus da cantina. Lá embaixo, parece sair dos banheiros, passar pelas desconfortabilíssimas cadeiras de metal e sugar a poeira pela escada acima. Inexplicavelmente, a névoa branca continua a descer os degraus. As chaves penduradas no bolso do porteiro tilintam suavemente. Seus sonhos tornam-se agitados.

O ponto de confluência é o topo da escada da cantina, de onde se vê o pequeno mural e o chão sujo lá embaixo. Ali, após o último degrau, cria-se um rodopio fino, que vai se alargando em segundos. Poeira gira em torno de si mesma. Anéis escuros de movimento se alternam com flashes de aparência gelatinosa, abrindo-se e fechando rapidamente. Neste contorcer de formas, figuras se formam e desaparecem muito rapidamente, como um filme projetado numa tela. Crianças chorando. Dentes. Olhos arregalados. Tentáculos. Fezes.

A névoa que flutua assume uma forma de raiz. Escorre em finas e tortuosas faixas. O vento chega a uma velocidade máxima.

E pára. Como se nunca tivesse existido.
A faculdade está mais fria agora. Muito. Gotas de água deslizam pelas paredes como lágrimas.
O prédio inteiro geme. Sussurros, gritos, choros, risos, se misturam e sobrepõem. Soam muito distantes, a milhões de quilômetros, e formam um coro de desespero e horror.

A forma escura que surgiu no topo da escada começa a descer. Ela flutua com suavidade entre os filetes de neblina. Não lança sombras coerentes no chão, mas toda a atmosfera ao seu redor é escura e sombria feito um papel carbono em água suja. Ela parece abrir um buraco na realidade, exaurando feixes de mal-estar.

O que se afigura como visível, assim que a entidade sai da escuridão que envolve o segundo andar e lança-se na luz das lâmpadas do saguão e da cantina, é simplesmente um manto preto. Enrolado em si mesmo, de aparência macia e sedosa, parece um tipo de cobertor envolvendo um corpo humanóide.

De baixo desse manto, não se vêem pés. Não se vê nada.
Em cima, abre-se um espaço redondo como se abrisse passagem pra uma cabeça. Não há cabeça.
O ser parece ser total em sua cobertura de tecido escuro, um pano que, numa lentidão enlouquecedora, controlada, planejada, se deixa levar por um cabide invisível na direção pretendida.

Sem hesitar, passa direto pela entrada do CARB. Nada lhe interessa ali. Não dá atenção alguma às cadeiras e mesas atrás de si, no saguão da cantina. As dobras de seu manto movimentam-se com indolência, como se algo abaixo dele respirasse. Ou se mexesse constantemente, fracamente, alguma coisa moribunda coberta por um tecido flutuante. E quem saberia se não o é?

As luzes do térreo enfraquecem-se sensivelmente. A luminosidade diminui assim como a temperatura e as rampas subitamente se vêem envoltas na penumbra. A coisa não gosta da luz.

A entidade deslizou silenciosamente até a entrada da descida do aquário. Pára ali, e ali fica, imóvel, sua capa quase tocando o cinzendo corrimão de metal. Estaria olhando para baixo? impossível dizer, já que não existem olhos. Pensativamente (?) se deixa ali prostrar em pé.

Silvos distantes e vozes que parecem sair de gargantas apodrecidas vêm de lá de baixo. Parecem arrastar de cadeiras.

Subitamente, a figura escura parece se aprumar, ajeitar a postura. E então parte velozmente em direção à escada do SAJU, do outro lado, passando em frente aos murais. Lá na frente, nos vidros da Secretaria, nada se reflete, apenas um borrão indefinível.

Ela tem fome.
Enquanto afunda no escuro, descendo a escada do auditório, pode-se perceber que uma luminosidade difusa parece se refletir nas dobras de seu espaço aberto em cima. Ela muda de cor a cada segundo. São as luzes interiores que ardem. Elas têm fome também.

Um perfume de shampoo é perceptível ali embaixo. Um rastro como um farol, que se espalha pelo chão marmóreo, gira em volta da viga e segue direto para a porta do SAJU. Cheiro de vida, tão feminino quanto uma bolsa, tão atrativo quanto uma boca carnuda.

A coisa passa agora em frente à porta do auditório. As cortinas atrás dela deveriam estar fechadas. Não estão. Lá dentro, mais cadeiras encontram-se pacientemente esperando seus ocupantes. Ou talvez não. Talvez os movimentos furtivos e disfarçados que se vêem lá dentro sejam de seus ocupantes noturnos. Os que chegam quando o saltos e gravatas se vão. Seriam cabeças se virando lá dentro para mirarem o nada que ocupa o espaço aberto em cima do manto? Provavelmente não, mas...

A sala externa do SAJU está vazia e também escura. A lâmpada está desligada.
Há um sentimento de pressa, de gula, de mórbido prazer quando a capa pára em frente à frágil porta trancada.

Ela não a atravessa como um fantasma. Ao invés disso, o trinco gira sozinho do lado de dentro. Destranca-se. A porta se abre delicadamente, como se ao sabor do vento. Range e pára. Range de novo e pára de novo.

Alguém ri. O riso parece vir do nada.
A figura se põe em frente à porta interna. Também trancada. A sala está agora muito mais fria do que há meio minuto atrás.
Novamente, o trinco gira gentilmente lá dentro. A maçaneta dobra, a porta abre muito lentamente, e a figura é visível enquanto flutua pra dentro, confundindo-se com as sombras internas.

Nenhuma luz está acesa. Nenhum ventilador está ligado. O computador descansa, a tela tão negra quanto a noite lá fora. O cheiro de shampoo é mais forte lá dentro.
A coisa move-se entre as sombras e vai para o corredor. Passa pela sala de aula. Lá no fundo, a luz da sala de reuniões é visível por debaixo da porta. No silêncio, escuta-se também o barulho do ar condicionado.

O ser escuta mais. Escuta uma respiração lenta e compassada, um expirar e inspirar em pleno sono profundo. Sente o cheiro de shampoo se intensificar. Sente o calor de um corpo quente, vivo em sua densidade. Sente uma mente que viaja sem coerência, indo e voltando no tempo. Tecidos comuns, normais, roçam em uma pele limpa, impecável. Os odores do corpo são perceptíveis em meio ao caos de shampoo perfumado. Uma língua se move dentro de uma boca e saliva estala entre dentes.

Voracidade, ferocidade exalam da criatura em pé no corredor. Ar gelado rodopia pelos pés das cadeiras e por debaixo das mesas. Papéis se movem.
Ela se move também. Decididamente, controladamente, avança pelo corredor. Passa pelo banheiro. Pela sala de estudos.
Chega à porta amarela fechada.
Um coro de vozes afetadamente infantis canta com alegria falsa, sem fôlego. O som vêm de todos os lugares e lugar nenhum, reflete-se em todos os lugares e lugar nenhum e parece ser sugado pelos vazios do tecido negro em suspensão. Rancor, morte e maldições inaudíveis vêm dessas vozes e suas origens devem permanecer desconhecidas.

Uma mão que não se vê se põe na maçaneta. Ela se dobra pra baixo.
De novo uma porta se abre. Para a luz que vem de dentro.
À primeira vista, a sala está vazia. Depois, passando pela porta da biblioteca, vê-se uma garota sentada no canto esquerdo da mesa. Ela descansa a cabeça em cima de um caderno aberto. Dorme profundamente. Seu braço direito está esticado sobre a mesa amarela, o esquerdo caído no ombro, a mão em forma de concha no colo. Seu cabelo negro, longo e liso foi juntado num feixe sobre o ombro esquerdo, caindo sobre os seios. É dele que se emana uma aura enjoativa de perfume de shampoo, quase visível. Ela usa um macacão jeans com uma camisa branca do SAJU por baixo. Seus pés estão cruzados no pé da cadeira. Seus olhos se movem de um lado pro outro por dentro das pálpebras.

Ternura é o que se desperta na entidade ao vê-la. Sentimentos de carinho e amor despontam no inimaginável conteúdo do manto, mesclados a imagens sangrentas de órgãos humanos enfiados em estacas de madeira, corpos pendurados por gravatas, togas de juízes empapadas de sangue escuro e velho, folhas de papel vermelhas e emboladas, um homem vestido de terno mas de cabeça decepada, uma mulher estrangulada pelos próprios cabelos. Tudo isso se funde ao amor sublime que vem de outro mundo. A entidade está em paz.

A garota subitamente abre os olhos. Por alguns segundos, esquece-se que ficou no SAJU, depois do plantão, pra estudar pra prova de segunda. Esquece dos sonhos que acabou de ter. Esquece onde está e quem é. O que lhe vem à cabeça é uma das últimas frases que ouviu antes de ficar sozinha:

- Você já fez o relatório?
Ela ergue a cabeça esperando encontrar a amiga que lhe perguntou isso há horas atrás. Está muito, muito frio e um tremor lhe percorre o corpo inteiro. A boca está cheia de saliva grossa e mal-cheirosa e seus olhos estão inchados.

Mas vê outra coisa.
Parado, perto do telefone, está um rapaz.
Ele está nu.
Por um momento, ela não assimila o que vê. Sua mente procura em seus arquivos quem é que está ali. Depois manda um aviso dizendo que ela não o conhece. É junto com este aviso que vem a percepção de que ele está completamente nu.

- Hã... eu... você... - balbucia ela. Está ofendida. Antes de assustada, ela se sente desrespeitada. O que soa em sua cabeça é: "não é assim que fui criada".

Depois, aí sim, ela está assustada. Um conhecimento instintivo, animal e humano ao mesmo tempo, explode dentro dela. O coração ameaça estourar então. Seus músculos estão todos tensos e seu intestino parece se mover como numa montanha russa. Inexplicavelmente, sente vontade de rir.

Mas não ri, porque o homem à sua frente irá estuprá-la. Finalmente ela vê sentido em todos os medos de suas colegas que se trancam no SAJU após determinado horário. Finalmente, ela vai poder dizer a todas elas que elas tinham razão. Mas não vai poder dizer como acreditou que tinha se trancado há pouco, mas não se trancou.

O rapaz tem um cabelo castanho claro. Seus olhos são escuros, tão escuros que a assustam mais que sua nudez. Parecem passagens pra outro mundo. Criam sombras em seu rosto. São artificialmente intensos e parecem zumbir dentro do crânio dele, com fúria, luxúria e ânsia. É como se babassem.

Ela está paralisada. Sua mente se esvazia e tudo que há nela são aqueles olhos.
Substituindo gradualmente o medo, um calor intenso brota de dentro dela. Queima, mas não machuca. Ela demora a perceber que, na verdade, é agradável. Seu corpo já não lhe pertence e, em seus últimos momentos de vida, toda a sua existência fora dessas paredes está afastada, apagada de sua cabeça. Ela pertence a ele, ela é ele. Ela se vê nos olhos dele e se sente derretando, esvaindo. É dor e prazer, é distanciamento de si mesma. É uma sucção irreversível.

O rapaz se aproxima e é extraordinariamente alto e pálido. Seus lábios estão contraídos, seus dentes são tão brancos quanto os de um ator. Os olhos não se movem. Parecem pintados no rosto.

Ele não dá passos. Parece flutuar.
Dá a volta na mesa. Está tudo muito, muito frio, congelante, enregelante. O conta-gotas do ar condicionado torna-se um filete de água gelada e a humidade se condensa em cima dos arquivos e dos papéis.

Ele a ama. Ela o ama. Há um diálogo mudo que apela para a base do ser dela quando ele está a seu lado.
Ele a toca. Seu toque é gelado, desconfortável, úmido. Frio. Não é o toque de uma coisa viva. É escorregadio, esquivo, pegajoso.
Mas ele sorri. Ela sente o braço ficar dormente onde foi tocada, mas não se importa. Deixou de ser a pessoa que sempre foi, no segundo em que foi capturada pelos olhos dele. Foi sugada e desapareceu dentro dele. Espiritualmente. E agora ocorrerá fisicamente.

O corpo dele se desvanece, torna-se uma forma nebulosa do pescoço pra baixo. Transparente, instável como visto através de um vidro, esfumaçado, borrado. E de repente a cabeça dele está no nível da dela.

Ouvem-se gritos e risos altos e dissonantes que parecem sair dos cantos das paredes. São ruídos terríveis e alucinantes, vozes de entes completamente insanos. Mãos são visíveis batendo nos vidros das janelas, brancas, doentias, algumas com três dedos, outras com dez, batendo violentamente, com força.

Os olhos deles se encontram.
Ela morre fisicamente quando a língua dele salta pra fora de sua boca. É rachada, amarelada, cheira a sangue. Penetra na boca dela com força, primeiro envolvendo e arrancando-lhe a língua inchada de sono, depois descendo pela garganta, rasgando o esôfago, perfurando o estômago, cavando pelos pulmões.

Os olhos dos dois continuam fixos.
Alguém grita de novo. Uma criança louca ri.
As mãos dele seguram a garganta dela e a esmaga, tão facilmente como se amassassem purê de batata.

O coro de gritos e risos aumenta mais, torna-se ensurdecedor.
A temperatura de repente começa a aumentar, enquanto algo morto segura um cadáver.
E, então, o corpo dela explode. Não se despedaça em fragmentos molhados, ao invés disso torna-se uma bola de fogo brilhante, quase bonita, com uma luminosidade pura e sincera.

O amor a queima. Sua alma foi sugada pra dentro dele, e agora seu eu físico arde. E tudo é amor, amor, amor! A mesa e as cadeiras tremem, se arrastam como se quisessem fugir. Ela continua queimando, se incinerando, desintegrando-se até a última partícula, consumida pelo amor que ele lhe deu, desparecendo da face deste mundo em nome do amor que lhe deu, e ele a sente dentro de si, uma energia tão refrescante quanto um banho de água fresca, mesclando-se, contorcendo-se e finalmente fundindo-se a si em um só.

Ele desaparece. O corpo incerto, a cabeça que sorri e as mãos ensanguentadas. Ela brilha, brilha, queima, exala um cheiro de carne queimada que é puro amor, sublime devoção e entrega. Várias vozes riem, riem muito, vindas dos cantos e das janelas, risadas roucas, graves, agudas, de todo tipo.

Subitamente, a desintegração cessa. No lugar da linda luz do amor, uma fumaça negra como betume surge, rodopiando em volta de si mesma, um redemoinho negro de formas irregulares e gasosas que gira cada vez mais rápido.

Vozes gritam e riem e de repente a fumaça encolhe-se em si mesma. Suga-se pra dentro de si própria, diminui girando, e ouve-se um som como de uma bolha de ar puxada por um ralo. Depois um forte estalo.

E tudo é paz de novo.

A essência dela se juntou à dele. E a essência dele é o amálgama das muitas essências devoradas pelo amor dentro do prédio. E ela agora é ele. Ela é eles e eles são ela. Mais uma alma se juntou, mesclou-se à faculdade de Direito. Elas, as almas consumidas, são o prédio. As paredes, o chão, as cadeiras, os livros, o veneno, o ódio e a desilusão. Revestidas de uma camada de amor sublime e podre, rançoso, cinzento e doente.

Ela, a faculdade, está viva.

betodabahia@hotmail.com