EMPREGO TEMPORÁRIO
E.R.Corrêa
Já era tarde da noite e eu ainda me encontrava perambulando pelos arredores do circo. Um circo vagabundo, eu admito, e estava na cidade já fazia um mês, num lugar deserto e silencioso, outrora um campo de futebol. As coisas não iam realmente muito bem, e estávamos nos preparando para partir em um ou dois dias no máximo. Pudera: aquela merda de cidadezinha só havia trazido prejuízo. Nelsão, meu braço direito e pau pra toda obra, bem que me avisara. Ele é um sujeito inteligente - diria absurdamente inteligente - apesar de sua aparência de troglodita das cavernas; não é à toa que é o encarregado de alimentar os leões.
Estava mascando com raiva e frustração a ponta do meu charuto quando um cara esquisito, meio maltrapilho, se aproximou e perguntou se eu era o dono do circo. Respondi que sim e ele perguntou se por acaso não havia trabalho para ele, se por acaso eu poderia empregá-lo de alguma maneira, e toda aquela conversa mole da qual já estou me tornando especialista. Respondi que não, que já havia excesso de pessoal, e que...
- Mas eu sei fazer muitas coisas, e...
- Que tipo de coisas? - perguntei, só por perguntar. Os olhos dele brilharam.
- Muitas coisas. Eu sei fazer trabalho de pedreiro, de eletricista, sei fazer faxina, sei tratar de animais, posso me fantasiar de palhaço e...
- Tem gente de sobra aqui que já faz tudo isso. Não preciso de você. Dê o fora.
- Mas, doutor, eu tô mesmo precisando de um emprego e a coisa tá difícil aí fora; talvez dê para o senhor dá um jeitinho e... Eu não peço muito.
- Já disse pra dar o fora. A coisa tá ruim aqui também. Aliás, tá péssima; tô devendo pra meio mundo, tem gente demais aqui e serviço de menos e não há nenhuma possibilidade de você vir com a gente. Sacou?
Comecei a me afastar. Escutei um dos leões rugir, talvez de fome; são o orgulho do circo, esses bichos, mas comem que nem o diabo. O mesmo eu não poderia dizer daquele sujeito.
O cara aparentava uns 50, 55 anos e estava em situação miserável. A princípio cheguei a ficar intrigado com ele; confesso que cheguei até mesmo a ficar com um pouco de receio. Por quê? Porque eu imaginei que talvez ele fosse um cara da polícia disfarçado. É que aconteceu de eu instalar meu circo naquela cidadezinha miserável no mesmo momento em que pessoas do local começaram a desaparecer misteriosamente. Foi um mês de muita correria e confusão, e isso foi um dos fatores para o nosso fracasso ali, o que é lamentável. A polícia, é claro, caiu de pau em cima de nós - principalmente em cima de mim -, com investigações, revistas e coisas do gênero, pensando que talvez pudesse haver alguma ligação entre nós e o desaparecimento daquelas pessoas.
Mas essas investigações, naturalmente, não levaram a nada, e pudemos continuar com as apresentações, apesar de tudo. Coisa que fizemos tranqüilamente, diga-se de passagem, apesar de a polícia continuar nos olhando torto.
E agora me aparecia aquele sujeito estranho pedindo emprego em plena meia-noite. Achei no mínimo suspeito, e fiquei de sobreaviso, mas depois percebi que ele era mesmo um João-Sem-Braço perdido na vida.
- Mas, doutor - continuou ele, me seguindo insistentemente - Eu sei aplicar vacina, sei dizer se os bichos estão doentes ou não, sei fazer curativos, sei...
- Ah, você sabe? - me virei para ele, bruscamente - Gostaria de alimentar os leões? Saberia fazê-lo? - ele estremeceu.
- Não, mas poderia aprender, já fiz...
- Todo mundo aqui sabe fazer isso, e muito bem. Deu pra entender agora? Se manda, antes que eu perca a paciência.
- Mas, doutor...
- Qual a sua idade? - perguntei a ele, de súbito. Os olhos dele brilharam na hora:
- Quarenta e oito, mas, como pode ver, tenho uma saúde de ferro, graças a deus, e topo qualquer parada. É só mandar.
- Tem família?
Ele hesitou, como quem deve ter um monte de filhos espalhados por aí, sem eira nem beira.
- Não. É só eu no mundo, o que já é muito.
- Mora sozinho?
- Sim, doutor, moro numa casinha ali pra cima, daqui dá pra ver...
Encarei-o por alguns instantes enquanto ele falava sem parar e cheguei a sentir pena de sua figura patética. Mas eu não estava tentando enganá-lo: não havia mesmo nada pra ele fazer ali.
- Tá legal - eu disse - Mas é uma pena: não tenho serviço pra você. Sinto muito.
A fisionomia dele mudou na hora, que nem quando você joga um papel branco no fogo e ele se entorta e amarela de repente, enrugando e pretejando nas bordas até se transformar num amontoado preto e quebradiço de algo que se dissipa ao menor vento. Pelo menos foi essa a impressão que me causou.
- Mas doutor...
- Já disse, camarada. Sinto muito, mas não posso fazer nada por você - e fui me afastando, sem deixar de prestar atenção à retaguarda; afinal, o cara poderia ficar bravo, ou louco, e querer me agredir. Não seria a primeira vez, e, com as devidas precauções, não seria a última. Ao em vez disso, porém, ele continuou me atazanando. E eu continuei pacientemente com as mesmas negativas, até que cheguei à porta de meu trailer. Imaginei que ele se cansaria e daria o fora; caso não o fizesse, eu poderia pedir para um dos rapazes expulsá-lo de lá a pontapés - coisa que ele faria com o maior prazer do mundo, tenho certeza. Quando estava prestes a entrar no trailer o cara disse, mudando o tom de voz subitamente:
- E se eu disser que sei muito bem dos raptos que vocês vêm fazendo?
- O que você disse?
- Isso mesmo que o senhor ouviu: sei de tudo. Como já disse, moro aqui perto, ali em cima, tá vendo? E sei de tudo. Vejo tudo.
- Vê tudo o quê?
- Não se faça de besta. O fato de seu circo aparecer justamente no momento em que pessoas normais começam a desaparecer misteriosamente poderia ser uma simples coincidência, como não? O seu problema é que eu sei de tudo, eu vi tudo, e agora o senhor está encrencado.
- Você é da polícia? - eu perguntei, voltando a fechar a porta do trailer. Ele enfiou a mão direita embaixo do casaco rasgado e no mínimo havia uma arma ali dentro. Dei alguns passos cautelosos em sua direção e ele se afastou, sorrindo maliciosamente.
- Não. Não sou da polícia - ele respondeu, olhando ao redor com cautela e desconfiança - Mas de qualquer forma o senhor tá encrencado. E sabe por quê? Porque se recusou a me dar um emprego. Eu estava mesmo disposto a ficar quieto e seguir com o senhor em seu circo. Sou sozinho no mundo e não tenho nada a perder. Além do mais, nunca fui mesmo um cara muito honesto.
- E agora o que pensa que vai fazer comigo? - me irritei com a estranha confiança com que ele me encarava, como alguém evidentemente acostumado a fazer aquele tipo de acusação. Como se costuma dizer nos livros de mistério, um gatuno.
- Como disse - ele respondeu - eu estava mesmo a fim de trabalhar pro senhor e ficar de boca fechada, mas já que desperdiçou essa chance, agora vai ter que pagar. Pagar pra eu ficar quieto e me mandar daqui.
- Ficar quieto do quê?
- Não se faça de inocente, eu sei de tudo.
- Você está louco. Não sei do que está falando - e ameacei me afastar.
- Pra que raptou elas? - ele perguntou, me encarando seriamente e mostrando a ponta de seu revólver - O que fez?
- Você se refere às pessoas que desapareceram da cidade? Refere-se a elas?
- É claro!
- Ora, ora, e quem é você pra ficar me acusando? Quem tá pensando que eu sou? Quer dinheiro, é isso?
- Um sequestrador. O senhor é um cara que rapta pessoas, mas que não é muito esperto, pois deixou seu único vizinho ver tudo. E agora é o seguinte: amanhã neste mesmo horário virei aqui pegar vinte mil reais do senhor. É o preço pra eu ficar quieto.
Dá para acreditar nisso? Um pequeno chantagista de merda. Pensei que essas coisas só ocorressem nos filmes.
- Se eu tivesse esse dinheiro - respondi - seria um cara muito feliz nesse momento.
- Isso é problema seu. E não quero saber de truques; sei tomar as devidas precauções em casos como esse. Portanto, mantenha isso entre nós, ou vai se arrepender.
- Quer dizer que você é perito em chantagear pessoas inocentes.
- O senhor não é inocente. Tenho provas de tudo, se é o que está querendo saber. Portanto, fica na sua que eu fico na minha, e ninguém se prejudica.
Ele tinha um sorriso torto que me dava nos nervos.
- Tem provas - eu disse - porque foi você mesmo quem as providenciou, sumindo com essas pessoas e as matando para depois achar um jeito de me incriminar e jogar a culpa em mim, um inocente. Acabou de dizer que nunca foi uma pessoa muito honesta.
- O senhor é um cara de pau que me dá nojo. E fique feliz de eu só pedir vinte mil reais por isso tudo. E só faço isso porque sei que está mesmo na pior.
- Se sabe que estou mesmo na pior como acha que poderei arrumar essa fortuna?
- Já disse que isso é problema seu, e não banque o palhaço comigo. Deve ter amigos. E agora vá andando naquela direção.
Fui andando na direção que ele apontou, em meio à escuridão e ao silêncio da noite, e não escondo o fato de que fiquei terrivelmente divertido com a situação. Era tudo que eu precisava para ter uma tranqüila noite de sono. Ainda perguntei, só por perguntar:
- E qual minha garantia nisso tudo?
Mas quando me virei ele já tinha desaparecido.
Um louco idiota. E com a ambição do tamanho da inteligência, ainda por cima.
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Tá legal: o cara insistia por um emprego e então eu daria um emprego a ele. Mas eu não costumo pagar salários de vinte mil reais.
Assim, adiei a partida para mais dois dias e, na noite seguinte, lá estava eu, esperando por ele. Segui suas instruções: não participei o fato a ninguém, nem mesmo a Nelsão, somente para ver até onde aquilo chegaria. Se chegasse a um ponto crítico, eu tomaria a devida providência. Apesar de tudo, eu havia ficado com um pouco de pena do velho, e chegara até a simpatizar com ele. Ele se mostrara sem escrúpulo algum, e eu admiro pessoas assim. Não são raras, mas raramente chegam a extremos ousados como esse. Poderia ser um dos nossos.
Deram onze horas, deu meia-noite, deu uma hora, e nada. Havia desistido? Melhor, assim eu poderia esquecer aquela comédia e cuidar de coisas mais importantes. Estava seguindo de volta ao trailer quando vi Nelsão se aproximando com um saco nas costas. Era uma e cinqüenta cinco da manhã, e uma leve neblina caía sobre nós.
- O que andou fazendo? - perguntei a ele, enquanto acendia um charuto.
Ele me encarou com aquela típica cara de "e o que mais?" e jogou o saco aos meus pés. Senti o cheiro do sangue. Estávamos perto da barraca dos malabaristas e era bem escuro ali.
- Eu disse pro senhor que era melhor irmos embora logo desse lugar - disse ele, como que se desculpando - Platão e Diana estão inquietos e acho que não vai dar mais pra segurar a onda por aqui. Tá ficando arriscado.
Platão e Diana são nossos leões.
- Tá legal - eu falei - amanhã começamos a arrumar as coisas, pode avisar o pessoal. Mas onde conseguiu este? - e apontei para o saco, indiferente. Confio em Nelsão; ele é um cara esperto.
Ele deu um sorrisinho sinistro: - Aqui perto. Foi tão fácil. O sujeito tava pedindo pra morrer.
- Sabe quem é?
- Não. Nunca tinha visto antes. Não é grande coisa, mas acho que dá para esses bichos ficarem quietos até amanhã.
- Deixa-me ver.
Ele abriu o saco. Se você adivinhar quem estava lá dentro ganha um doce!
Bem, minha intenção até que foi boa, vocês estão aí pra provar. Como já disse, o Nelsão é um cara inteligente - absurdamente inteligente - mas muito impulsivo e, coitado, tem um coração de manteiga: detesta ver Platão e Diana com fome. De qualquer forma, ele garantiu um emprego ao velho - o de alimentar os leões; o velho mesmo disse que não sabia como fazê-lo, mas tava aí sua chance de aprender. Espero que ele não se importe de ser um emprego apenas temporário. Cada uma que me aparece...
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