EPIGRAYNE
Anderson Siqueira
Ai está!
Foi o que pensou, depois de quase seis horas na biblioteca, folheando livros antigos, rabiscando notas impacientes.
Ai está ela, uma figura impressa em tinta que foi negra sobre um papel que foi branco.
Ai está ela, indo para o inferno.
Um desenho representando Epigrayne, a bruxa celta crucificada pelos romanos em 46 da era Cristã.
Seus olhos, mesmo concebidos por um artista, mostravam o ódio que sentia no momento em que os cravos de ferro abriam caminho por sua pele, músculos e nervos.
Seus lábios, se abriam em um sussurro abafado por dezoito séculos... :“Eu volto!”
”Eu estarei esperando” respondia o soldado que limpava o sangue respingado em sua face. “Eu estarei esperando” repetiu em um tom mais alto que o barulho do martelo que batia e pregava, pregava, pregava!
Epigrayne a bruxa.
Epigrayne a maldita.
Gritava o inferno quando a cruz foi levantada. Por três dias o soldado a contemplou.Por setenta e duas horas, o soldado olhou para aqueles olhos, em nenhum momento, em nem uma fração de segundo, os olhos da bruxa deixaram de expressar qualquer outro sentimento que não fosse o ódio.
Quando a alma, (se é possível que exista algum deus responsável por forjar tal alma.)foi expulsa daquele corpo com um grito tão medonho – conta-se - que rompeu os portões do inferno.
Aqueles olhos não abandonaram o ódio que neles se fixaram. Terrível olhar. Que se a alma de Epigrayne levou uma pequenina parcela de seu ódio, é certo que nenhuma das cabeças de Cérbero ousou espiá-la quando Epigrayne passou.
Esta era a história que o livro contava.
Ele passou sua mão na testa e percebeu que estava suando; o ar condicionado da biblioteca deveria estar quebrado, o que era um absurdo naqueles dias tão quentes.
Juntou seus papéis e saiu.
Não sabia que era tão tarde, e a rua se mostrava movimentada com o fim do expediente.
Uma velha cigana apareceu em sua frente, ele se desvencilhou com certa dificuldade, e entrou em um táxi que por milagre parou ao seu lado. Quando acomodou-se no carro, balbuciou o endereço e meteu as mãos no bolso procurando algum dinheiro. Puxou um punhado de papéis. Seus olhos por extinto, leram a primeira palavra que viram... Epigrayne. Olhou para os lados, tentando focar sua atenção em outra coisa. Só viu a velha cigana, que ainda falava algo que ele não compreendia.
A casa era velha demais, os velhos degraus que levavam até a porta de entrada reclamavam do seu peso.
Quando entrou na casa, caiu no sofá cansado, suas mãos pousaram em uma carta amassada. Novamente a leu. “Caro Arkibald, lamento dar-lhe essas noticias, seu tio Frederick morreu ontem. Peço que venha, para tratar do inventário e de algumas coisas de família que algum interesse deve ter para você, ele dizia que você saberia o que fazer. Até breve Norma”
Norma era a velha enfermeira do Tio Frederick. Algumas vezes pedia que viesse vê-lo. Visita que nunca foi feita. Apesar das discussões sobre ele ser a única pessoa que restava da família e que a linhagem terminava. Norma dizia que deveria ter filhos, que a família é a coisa mais importante que alguém poderia ter, etc, etc, etc...
As caixas ainda estavam empilhadas, não fazia ainda quarenta e oito horas que tinha chegado a velha casa. Não completava um dia ainda que viu, poeirenta, a carta que seu tio lhe escreveu. Talvez poucas horas antes de morrer... Ordens. Era isso que seu tio havia escrito. Ordens para procurar e destruir.
Um segredo de família. Como escreveu seu tio, passado de geração em geração. “A bruxa Epigrayne” você sabe, seu pai lhe contou.
Não sabia.
Por isso as horas na biblioteca local. “Sabe como proceder, já é passada a hora de por fim a essa maldição, não de ouvidos as histórias de riqueza que seu pai disse. Não vale a pena! Destrua. Lembre-se o que seu pai disse.”
Ele não lembra. Seu pai não disse nada. Era ainda muito pequeno quando seu pai morreu no acidente.
Riqueza? Sim. Seu pai era rico, e toda a família também... mas foram morrendo e sua mãe levou tudo e... desapareceu. Riqueza! Um tesouro de família, “guardado em uma caixa trancada com uma chave. Chave que esta dentro da estatua de São Lucas na Igreja da Imaculada Conceição” Chave que estava na estatua, pois Arkibald, passou na igreja antes de ir na biblioteca. Chave que agora esta em sua mão que a aperta com ferocidade.
Ferocidade nascida da cobiça. Ouro, deve ser ouro.
Que veio da bruxa crucificada. Passando por gerações... Jóias? Talvez... Talvez ouro e jóias! Na caixa! Onde está a caixa? Onde?
Ele revira as caixas até acabarem as caixas.
Os móveis, até acabarem os móveis. De cômodo em cômodo, até acabarem os cômodos. Arranca os quadros das paredes, e por fim as paredes! E começa a puxar as tábuas do chão. Até ser só chão.
Onde esta a caixa, velho? Ele grita como se falasse com o fantasma do seu tio! Onde escondeu a essa maldita caixa?Ele grita e cai exausto.
Um brilho fez com que abrisse os olhos, um brilho vindo de um buraco de rato na parede. Como não havia percebido uma coisa brilhante dentro da parede? Ele chuta até que a parede quebra.
Ai está! Uma pequena caixa de prata adornada com joias.
Ai esta ela! Pequena sim, mas já vale algum dinheiro... Tem um desenho na tampa... Sim.
Ai esta ela, indo para o inferno. O desenho da Bruxa Epigrayne sendo crucificada com ódio. E o soldado batendo seu martelo.
A chave! Ele a busca com impaciência, suas mãos tremem quando as velhas engrenagens em contato com a chave trabalham mais uma vez, ele a gira... até ouvir um barulho, um barulho como se os portões do inferno fossem arrombados!
A caixa estava aberta. E dentro da caixa... dentro da caixa, vivos como se fossem colocados hoje. Repletos de todo o ódio do mundo, estavam dois olhos! “Não olhe para os olhos”, disse seu pai antes de morrer preso nas ferragens do carro. “Queime a caixa, Não abra! Não abra!”.
O carro explodiu, seu pai havia dito! Mas o trauma apagou de sua mente nesse instante.
Ele fez errado, ele não sabia! Os olhos agora estavam vermelhos, como que uma chama os envolvesse. É a vingança da bruxa contra o último soldado!
Sim! Só podia ser.
Ele era o último da linhagem. Ele era o último soldado! Ele larga a caixa em pânico enquanto as chamas como se vindo do próprio inferno tomam conta de toda sala. Ele cai e desesperado tenta se erguer, suas mãos tateiam procurando alguma coisa para se apoiar. Seus dedos tocam os pés de um homem, vestido como um soldado romano. O soldado o agarra com força e o empurra para a parede.
Arkibald sente um prego de ferro abrir caminho por sua pele, músculos e nervos. E quando enfia o prego o soldado grita num tom mais alto que o barulho do martelo que batia e pregava:
”Tentando viver de novo, Bruxa?!? Tentando viver de novo?!?”
E todas as cabeças de Cérbero uivaram.
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