FÔLEGO
Elton Menezes
Ao abrir os olhos, ele teve a terrível sensação de estar imobilizado. Tentou observar em volta, descobrir o que estava lhe acontecendo, mas a cabeça bateu com força logo acima. Ele estava totalmente impossibilitado de se mover muito além da posição deitada em que se encontrava. E estava mergulhado na escuridão.
Com calma, procurou se mover ao máximo que se lhe era permitido. Seus braços só conseguiram realizar um movimento vertical e, como sua cabeça, bateram em algo acima. Ele virou as mãos, tateando aquela barreira. Por mais que seus olhos se acostumassem à escuridão, não conseguia enxergar coisa alguma. Os dedos tocaram em algo pequeno, duro, que subitamente se afastou, e ele sentiu profunda repugnância ao concluir que era uma barata. Que diabos de lugar seria aquele?
Ele descobriu, em seguida, quando seus dedos tocaram um entalhe de cruz. Estava dentro de um caixão. Uma imediata sensação de claustrofobia se apossou de seu corpo. Ele começou a gritar por socorro, chutando e esmurrando as paredes. Quanto mais o barulho ecoava e se concentrava naquele exíguo espaço, mais desesperado ele ficava. Sua reação histérica durou poucos mais de meio minuto.
Inconscientemente, ele decidiu manter o controle. Pensou, então, que, quanto mais se afobasse, mais estaria fadado a morrer naquela clausura. Seu ar, em breve, se tornaria cheio de gás carbônico, e ele morreria asfixiado. A histeria só serviria para fazer ele respirar mais, acelerando a própria morte.
Quando sentiu a pulsação e a respiração se acalmarem, tentou pensar de forma racional. Dormira tranqüila e normalmente na noite anterior. Lembrava que tivera bons sonhos, mas não conseguia se lembrar quais. Não acordara até o momento de abrir os olhos ali dentro. Alguma coisa lhe acontecera nesse intervalo. E, lentamente, se convencia do pior.
Fora enterrado vivo.
Por mais assustadora que a idéia parecesse, não conseguia imaginar outra explicação. Alguém, por qualquer motivo, convencera a todos que ele havia morrido, e o enterraram. Por um momento, tossiu. A tosse foi seca, agoniada, e ficou com medo de seu ar acabar. Deu-se conta da fragilidade de sua situação, e o desespero se instaurou outra vez; ele recomeçou a esmurrar e gritar. Lágrimas lhe vieram aos olhos, e ele desatou em um choro piedoso, passando a sussurrar desejos insanos de liberdade.
Sua mente remoeu, tentando imaginar quem seria vil o bastante para colocá-lo em tal pesadelo. Logo ele, possuidor de uma conduta impecável, digno de honrarias por honestidade e altruísmo. Um trabalhador exímio, um amante incomparável. Como, e por que desarranjados motivos, acabara ali, sepultado, enquanto ainda respirava essa sórdida desfaçatez humana?
Recompondo-se, outra vez dono de si, girou a cabeça para limpar, com alguma dificuldade, as lágrimas na camisa. Com o rosto de lado, ouviu alguma coisa e tentou ver, sem conseguir. O som era como algo rastejante, seguido de leves batidas. Quando se deu conta, sentiu um arrepio percorrer os pêlos. A barata. Instintivamente, jogou-se para o lado e a pancada que sofreu no corpo o fez urrar de dor.
Começou a tossir e, quando parou, sentiu várias patas subindo por seu braço. Com um nojo sobre-humano, deu-se conta que havia ali em torno de três ou quatro baratas, aproximando-se, sentindo no ar o odor quente de sua morte iminente. Ele passou a pensar na própria família. Nos pais, no irmão mais novo, na mulher que tanto amava. Sempre tentara tratá-los da melhor forma. Nunca lhes dera motivos para terminar assim.
Ou dera?
Sentiu duas baratas subindo-lhe o pescoço, aproximando-se de seu rosto. As demais - agora tinha certeza que eram, no total, cinco daquelas pequenas coisas - caminhavam por sobre a roupa que cobria seu peito, movendo-se em direção a braços e pernas. Os insetos agiam como se examinassem seu corpo, atraídos pelo cheiro de pavor que brotava de cada poro seu.- Pareciam se deliciar com esse cheiro, e caminhavam a esmo por sobre sua pele, como que para tornar aquela fragrância sepulcral ainda mais envolvente.
Sentiu uma vertigem ainda maior quando uma das baratas se aproximou de sua fossa nasal. Expirou com força para assustá-la, mas a ignóbil criatura não recuou; desistiu da narina e subiu até o topo do nariz, descobrindo adiante os olhos. A sensação do que estava por vir fez com que ele se remexesse desesperadamente, um pânico tomando sua garganta como uma golfada explosiva. A barata rolou até uma das sobrancelhas.
O asco e o terror aumentaram quando ele sentiu uma dor fina em um dos dedos, e imaginou que seria outra barata, roendo-lhe a pele, a carne, a cartilagem, a vida. Gritou e chorou, implorando a ajuda de cada santo que conseguia lembrar, esperando um milagre desmedido que tornasse incólume seu próprio sepulcro.
Os gritos só serviram para que, com a boca aberta, uma barata se aproximasse e resolvesse explorar. A outra, a essa altura, já caminhava por sobre sua córnea, deslizando no humor de seu olho, entorpecida pelo brilho e pelo gosto irrisório que lhe proporcionava. Enquanto a dor aguda aumentava em seus dedos, a barata lhe atravessou os lábios com velocidade e começou a examinar o sabor amilolítico de sua saliva.
Para evitar que a barata lhe descesse pela garganta, passeasse e até resolvesse se reproduzir em seu interior, ele esperou que caminhasse até sua arcada inferior, então mordeu com força, atravessando com os dentes sua dura couraça, provando com a língua o paladar séptico de suas entranhas.
Quis estar morto. Não conseguia entender por que alguém fora tão cruel a ponto de enclausurá-lo daquela forma. Pensou nos pais, na distância do convívio, apesar de morarem na mesma casa, no tempo que estavam perdendo sem se curtir, quando tudo poderia de repente acabar. Pensou no irmão, nas brigas rotineiras, na forma como o destratava e no quanto o amava e sentia sua falta. Pensou na namorada e em cada segundo de amor não correspondido que ela lhe dedicava. Pensou nos amigos que ficaram pelo caminho, porque ele fora egoísta demais para mantê-los em sua vida. Pensou nos filhos que não mais teria e no quanto privaria deles também o próprio amor.
Enquanto uma barata punha ovos abaixo da esclerótica de seu olho, enquanto outras pareciam supostamente se deliciar com a textura cálida de suas hemácias, enquanto sentia a aproximação lenta e persistente de fungos e micróbios decompositores, gritou. Não foi um grito de dor ou medo. Foi um grito de dó. Dó de si mesmo.
O grito pareceu sugar-lhe todo o resto de fôlego que possuía. Podia sentir apenas pela intensidade do toque do ar em sua pele que ali não mais havia oxigênio suficiente. Aturdiu-se quando a mucosa da garganta se ressecou, implorando por um mínimo de ar puro. Teve vontade de rir da efemeridade humana; sempre ambiciosos e, em momentos como aquele, desejam a coisa mais simples, que têm sempre. Vida.
A tosse ficou mais forte, e seus alvéolos se constringiram. Ele, já sem fôlego, sentiu uma dor no peito, que estava longe de ser a morte; era arrependimento, por toda uma vida mal vivida. E só então, quando sentia o corpo desfalecer, quando sentia cada membro pesar, compreendeu o que acontecera consigo. Enquanto suas pálpebras se fechavam, enquanto as dores e até o movimento das baratas não mais incomodavam, entendeu que não foram os pais, o irmão, a namorada ou amigos que o colocaram ali.
Fora ele mesmo. Porque quem é morto em vida está criando para si o próprio túmulo.
eltonmgs@yahoo.com.br
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