FANTASMAS TÊM GARRAS?


E.R.Corrêa


Da fita cassete suja de sangue encontrada do lado de fora da casa:

"(Clic!) Paranapiacaba, três de Agosto de mil novecentos e noventa e um.
Primeira Sessão.
Só mesmo a madeira da velha Europa, em sua insalubridade remota, é capaz de vergar aos caprichos do vento e produzir, no processo, esse lamento triste e sibilante das coisas velhas e esquecidas pelo mundo. São duas da manhã e estamos dispostos a passar a noite aqui, iniciando uma série de experiências psíquicas que pretendemos realizar ao longo de toda a semana. As lendas malignas que envolvem essa casa são muitas e, naturalmente, poucas são dignas de crédito, mas acreditamos que deve haver alguma base para tudo isso. A casa é velha e está em ruínas: pisar num prego aqui significa pegar tétano e morrer, ou, na melhor das hipóteses, amputar um pé. A umidade e o cheiro são terríveis, e a cerração que vem da serra parece achar as estreitas brechas entre as madeiras verdadeiras portas de entrada, como nem mesmo no inferno seria capaz de existir. Mas não é cheia daquelas anomalias geométricas bobas, sugerindo talvez uma entrada para o próprio inferno, que enfeitam os livros de terror. A arquitetura é feia, sem dúvida, mas tem a singular aparência de estar ao mesmo tempo escancarada e fechada, exposta e protegida, com cada centímetro de seu madeiramento carcomido levando à mente a inafastável idéia da putrefação. Uma fina garoa começa cair nesse exato momento, e faz frio. Estamos usando faroletes pequenos para percorrer a casa, pois acender velas ou lamparinas seria arriscado. Não há móveis algum, somente entulhos semi apodrecidos e muita sujeira, remanescentes da época em que o local era freqüentado por drogados e outros tipos de marginais, e em vários locais telha e forro estão faltando. Aconteceram muitas mortes estranhas por aqui, o que atraiu a atenção da polícia; conseqüentemente, os marginais se afastaram. Há muito que deixaram de visitar a casa, e disso estamos certos. O lugar é realmente opressor e solitário; não fica tão afastado assim das outras casas, mas o fato de ficar relativamente no alto, e envolto por árvores enormes, algumas completamente secas, faz com que sua áurea sinistra se expanda sob formas que realmente assustam. Talvez resida aí o início de sua má fama pelo local, geralmente considerado tranqüilo e acolhedor, a despeito de seu clima denso. É claro que não esperamos encontrar aqui nenhuma... Ai! Droga!... Cuidado aqui... Não esperamos encontrar aqui nenhuma "Hill House" repleta de fantasmas. Acreditamos que extravagâncias desse gênero não existam. É sugestivo, porém, o fato de os casos clássicos de visões espectrais e fenômenos correlatos terem se tornado populares na Inglaterra, o país de origem desse modesto vilarejo paulistano, noventa por cento do tempo envolto por brumas e garoas que, por sua vez, tão bem caracterizam a cidade de Londres. Mas por exaustivos estudos anteriores, coleta de informações e relatos de diversas partes do país, sabemos que os ditos fenômenos paranormais, ectoplasmáticos, como preferem alguns, são... Ha! Ham!... Desculpe... são no mínimo passíveis de verificação. Há fraudes, naturalmente, em pelo menos noventa em nove por cento dos casos, mas também há casos verídicos ou, pelo menos, casos em que nenhuma explicação, nenhuma explicação alternativa, tenha se ajustado de maneira completa às brechas deixadas em suspenso. Segundo grandes especialistas, fantasmas são entidades energéticas positivas, emanações capazes de... digamos, de alterar a estrutura física de determinados locais, em determinadas situações, e sob determinadas formas. Incapazes de agir materialmente, essas entidades estão presas a ciclos fechados de existência. Algumas vezes, porém - e ainda segundo os especialistas -, esses ciclos podem afetar, ou distorcer, campos negativos, campos onde crimes brutais, traumas psíquicos profundos, ou simplesmente propícios a determinadas anomalias de campo supranaturais, tenham acontecido. Assim como na física tradicional, onde negativo com positivo se atraem, também no campo das experiências espectrais algo peculiar, característico de sua própria forma, acontece; não necessariamente uma atração, mas um fenômeno ainda em fase de estudo, uma lacuna ainda não preenchida pelas modernas pesquisas nesse campo assombroso e geralmente desdenhado, mas que vem ganhando respeito e adeptos sérios a cada dia. Uma coisa é certa... Escute!... (ruídos da garoa batendo sobre madeira e o vento rugindo sob as telhas; madeira rangendo; em seguida, passos abafados). Uma coisa é certa: esses fenômenos existem, e são assustadores! (Clic!).

(Clic!) Aqui é Júnior falando. Crimes dos mais bárbaros foram cometidos nessa casa há vários anos atrás, misteriosos e não resolvidos. O local, como já foi dito, era freqüentado por marginais. Nada mais natural do que associar estes crimes a esses próprios marginais, e nós mesmos acreditamos nisso - em partes. Afinal, quando uma galera de fumadores de maconha se reúne num lugar assim, coisa boa não pode acontecer. Não, não coisas abençoadas pelos anjos do Senhor. E o fato de estes crimes terem sido cometidos das maneiras mais brutais, resultando em verdadeiras carnificinas, como aquelas dos filmes do Lucio Fulci, também não é de surpreender. O que surpreende, pelo menos a nós, é o que se veio a seguir: mistério total e completo repudio do local, uma desolação e um abandono, enfim, que não são característicos dessas casas ermas e extremamente propícias ao vandalismo e à prática de atos ilegais, como fumar maconha, cheirar pó, meter e ouvir rock and roll. Dizem que até rituais de magia negra foram realizados aqui e eu serei o último a duvidar. (Silêncio; um cão uivando ao longe; madeira sendo partida; o vento). É verdade que a polícia tá de olho e a amedrontada vizinhança também, mas não creio que isso seja obstáculo pra esses caras. Só sei que os que passaram por aqui sabem que voltar é bobagem (leia-se: loucura!), e aos que não conhecem basta um olhar à... digamos à mansão, pois a casa é velha e está caindo aos pedaços, mas é grande... basta um olhar à sua desolação sinistra para se chegar à conclusão de que é melhor escolher um outro local. Afinal, aqui na vila de Paranapiacaba é cheio de lugares afastados e casas de madeira abandonadas, ou até mesmo aqueles restos de vagão de trem que estão caindo aos pedaços de tão podres, mas que ainda servem pra algumas coisas. Quanto aqui... até mesmo de dia é escuro, talvez por causa da sombra das árvores enormes, que estão sempre balançando, com vento ou sem vento, que nem naquele conto do Lovecraft. E o frio também é constante. Ou seja, se este lugar não é assombrado e se tudo o que a galera diz por aí é pura sacanagem, então os fantasmas estão desperdiçando um ótimo local, e... Me dá isso aqui! (a primeira voz). (Clic!).

(Clic!) São três e cinco da manhã. Desligamos os faroletes e passamos mais de meia hora na escuridão total, somente com o ruído da garoa na telha e o vento fazendo vergar algumas das pranchas das paredes. O cheiro de mofo e coisas podres é quase intolerável, e até mesmo os ratos parecem querer distância desse lugar: até agora não vimos um sequer, o que é estranho. Lá embaixo, perto das outras casas, há alguns postes, mas sua luz amarelada não chega nem perto daqui. Os vidros das janelas há muito se encontram no chão, moídos. Em algumas partes o chão chega a ser macio, tamanha é a camada de musgo verde que o recobre. Escutem: (ruídos de passos ressoando em algo evidentemente molhado e profundo). As paredes de madeira estão todas rabiscadas e arranhadas, quando não recobertas com esse musgo esquisito ou por uma espessa fuligem marrom, certamente o resquício acumulado de manchas de sangue. De vez em quando um ruído forte de asas batendo se sobressai ao cântico dos ventos, mas são apenas corujas solitárias que não se intimidam com a chuva. É pena que essa casa não tenha lareira, pois seria realmente excitante ouvir o assobio do vento sob a chaminé. Seria clássico. Estamos agora tentando localizar o porão, cuja entrada deve ficar em algum lugar por aqui, na parte detrás da casa, próximo ao que provavelmente foi a cozinha. Foi no porão que encontraram os pedaços da última das vítimas mortas na casa: uma garota de dezesseis anos. Mas, por enquanto, nada de anormal. Não esperamos que um espectro se materialize em nossa frente, porque sabemos que isso é impossível, segundo o que se conhece dos fenômenos espectrais e de além túmulo. Na verdade estamos esperançosos de captar algo original, algum ruído característico que possa ser gravado, talvez uma luminescência difusa e antinatural que possa ser captada pela nossa câmera ou máquina fotográfica especiais, alguma coisa diferente, enfim, que possa ser apurada sem distorção pela nossa mente para ser futuramente repassada aos nossos filhos e netos. A experiência em si já é compensadora, eu suponho. (Passos abafados; madeira arrastada; gotas d'água; vento). (Clic!)

(Clic!) Três e trinta e três. O que nos traz de volta às velhas teorias. Há escolas de pensamento que supõe ser o fantasma uma entidade maligna, disposta, de alguma maneira, a causar o mal, o prejuízo para o ser vivente, do qual ele está irremediavelmente separado. Dessa forma, esse ser, essa entidade, não poderia causar o mal físico direto, uma vez que isso é impossível: emanações ectoplasmáticas não podem possuir garras ou unhas afiadas, assim como o mais afiado dos facões jamais poderá cortar em dois pedaços uma aglomeração supranatural. O que se imagina que possa ocorrer, nesse caso, é o mal indireto, incorpóreo, ou seja, por meio de influências. Um espectro, sem dúvida, é capaz de se apossar da áurea de uma pessoa e, por meio dessa áurea, leva-la a cometer atrocidades, loucuras inimagináveis, em meio a visões e alucinações diversas. Ou simplesmente levar alguém à insanidade completa, sem prejuízo para um terceiro - lembrando que áurea, na concepção sobrenatural, é somente o quociente energético, ou elétrico, da mente consciente. Sellman, em seu trabalho clássico, argumenta: 'Como via de entrada às portas do sobrenatural, a malignidade não é necessariamente o único fio condutor; esse fio é, sim, um espelho convexo destinado a exibir, num contexto amplo e multifacetado, não a personalidade do morto, mas a personalidade do vivo, sendo, portanto, neutro'. Filtrando a metafísica do texto, percebemos que: a) o fantasma (o 'espelho') não detém as rédeas da situação; b) ele apenas intensifica a personalidade sob sua influência; e c) se essa personalidade é boa ou má, nada há que se possa fazer. Já Latimier é categórico: 'A entidade é uma quase materialização do mal puro, pois as emanações neutras ou positivas, pelo simples fato de serem neutras ou positivas, não tem vias de acesso à mente humana, já por sua própria natureza positiva'. Ele quer dizer que positivo com positivo não se atraem. Num volume posterior ele ainda vai mais longe, convicto: 'A materialização de entidades espectrais não só é possível, como há casos relatados de tais fenômenos, invariavelmente oriundos de estados profundos e de extrema concentração negativa'. Naturalmente que ele cita tais casos, aliás famosos nos meios acadêmicos de estudos paranormais, embora passíveis de ulteriores verificações à luz da moderna pesquisa mediúnica. De nossa parte, entretanto, acreditamos que tal não seja possível. O cinema foi pródigo em mostrar estes dois diferentes tipos de atuação, nem sempre com brilhantismo, e acredito que grande parte das chacinas misteriosas que ocorreram aqui, senão todas, foi cometida por influências negativas advindas do além - isso, é claro, se conseguirmos provar que a casa, de fato, é uma fonte viva de ebulição subplasmática e antinatural, um depositório do mal em seu estado absoluto. O grande problema é que essas ebulições nem sempre estão dispostas a cooperar, às vezes exigindo trabalho árduo e concentrado, além de aguda percepção e afinadíssimo senso de captação. É certo que existem pessoas propensas a isso, e eu não sei se esse é o meu caso ou o de Júnior, mas estamos dispostos a descobrir. Afinal de contas, o medo é um estado de espírito como qualquer outro, e pode ser controlado. Porque o mal... (barulho de madeiras sendo partidas; latas chutadas; vento e assobios estranhos; de fundo: "me ajuda aqui"). Parece que encontramos a entrada do porão. (Clic!)

(Clic!) Meu deus, é pavoroso! E no entanto... (Clic!).
(Clic!) Emanações pútridas sem um resquício de normalidade. Não cheira a sangue, não parece sangue, mas que diabo de líquido é esse? (ruídos indefinidos) Que cheiro! Borbulha que nem... Meu deus, Júnior, o que são essas coisas? Vamos embora! A influência! Preciso virar a fita... Vou dar o fora... (Clic!)
(Clic!)...ectros não matam... Não tem garras! Meu deus! Júnior, cadê você? (passos apressados sobre algo líquido; coisas sendo empurradas). Ai! A parede é preta que nem... e é dela que escorre esse... Merda! O medo pode ser controlado... JÚNIOR! JÚNIOR! ONDE ESTÁ VOCÊ! PERDI MEU FAROLETE! (Ruído de metal sendo chutado). (Clic!)
(Clic!) Preciso gravar. Não vejo nada, mas... está brilhando agora! O medo... Eu... Eu... Mas isso é uma cabe... Matar... Matei... Matamos... Nos vingamos. Sim, sim, nos vingamos. Torcemos o pescoço dela - clack! - e em seguida arrancamos fora sua cabeça. Assim fazemos com todos vocês. Ahhhhh!!!!!! (diversas vozes; mais gritos; ruídos rápidos, molhados, de ossos sendo partidos, descolados, e coisas sendo arrastadas; muitos gritos; ruídos secos, estalantes, não como o de relógio envolvido em algodão, mas como o de garras cortantes sendo enfiadas no abdômen e arrancando vísceras; Ahhhhh!!!!!!!!!!!!!!!!!!!). Arrancamos fora seus membros intrometidos e depois vazamos seus olhos enxeridos. E nos banhamos no seu sangue. Engano seu: não é essa a primeira sessão. Porque lembre-se: fantasmas tem garras! (Clic!)".

***

Se tudo foi iniciado tendo em vista uma brincadeira de mau gosto, então seu desfecho foi realmente trágico e irônico: foi difícil, pela manhã nevoenta, reunir e identificar os pedaços dos corpos dos garotos ao redor da propriedade. Resta saber quem foram os outros cúmplices desse crime horrendo. De mais esse crime horrendo. Porque... bem, o fato de ainda não termos posto as mãos em cima do sujeito - ou dos sujeitos - que vem cometendo esses assassinatos, não significa que acreditamos que seres do além estejam por detrás disso, não obstante todos os Sellmeres e Latimieres do mundo! Não, não acreditamos. Mas talvez seja a hora de demolir logo essa casa velha...