HERDEIROS, OS
E.R.Corrêa
Liu Rael se aproximou da cabine de comando.
Rham estava lá, apenas observando a imensidão à frente, com seu “strudverg” pendurado no canto da boca. A fumaça avermelhada era expelida com toda satisfação, e ele, satisfeito, se sentia o dono do universo.
- É engraçado... – argumentou melancolicamente Liu Rael.
- É engraçado o quê? – Rham agora estava de frente, voltado para o amigo.
- Este planeta! Parece... parece que essa cor não lhe é natural. Entende? É algo...
- É algo pavorosa!? Sim, eu também percebi isso. Mas é besteira! Esqueça. Estamos apenas cansados. Tome. – Rham deu mais uma e profunda tragada no “strudverg” e o passou para o amigo, que agradeceu.
O ambiente na cabine estava carregado; uma sufocante nuvem avermelhada pairava sobre os controles e painéis, que irradiavam miríades de pontos cintilantes e estridentes, como que se prestes a explodir. Acima dos painéis estava o visor, moldurado esplendorosamente por pequenas placas douradas, e no visor era possível observar o planeta.
Um planeta relativamente grande, envolto por uma espessa camada de nuvens cinzentas e pesadas, que brilhavam de um modo estranho e ameaçador ao reflexo do gigantesco sol que pairava tranquilamente no espaço.
- O que você acha? – Liu Rael estava com os braços apoiados na chapa metálica que protegia os controles manuais.
Rham balançou afirmativamente a cabeça, enquanto conferia os últimos números dados pelo computador: - É seguro.
- Você vai?
- Não posso. Estes testes finais não são tão confiantes assim. São os tubos, eles... e se você...
- Se eu fosse? – interrompeu Liu Rael – Eu sabia! Você é um espertalhão mesmo. Tem medo de um planetinha desse...
- Não é nada disso. Preciso consertar os purificadores, e, pelo que me consta, você não é especializado nisso. Da última vez...
- E se fossemos nós dois?
- Impossível. Os tubos podem não aguentar muito tempo e romperem, de modo que... – Rham se colocou de pé, lentamente, e seguiu em direção ao corredor. Suspirou, e quando estava prestes a sumir na sombra concluiu: - de modo que começarei agora.
- Tá legal, eu vou. Mas não pense que...
As portas se fecharam lentamente atrás de Rham, de modo que ele não pode mais ouvir as últimas palavras lamentosas do amigo.
Liu Rael estava agora no planeta.
Seus olhos se maravilhavam a cada instante com aquela imensidão cinzentada e nevoenta, que filtrava uma aterrorizante luz alaranjada e insuficiente, por entre os primeiros lampejos da manhã. Tremeu, por debaixo dos pesados trajes espaciais.
Os três robôs que o acompanhavam pareciam mini-tratores guarda-costas, inteiramente munidos de ferramentas e aparelhos, mas completamente desprovidos de elegância. Um deles tinha uma pequena antena receptora nas costas, de modo que Liu Rael podia manter comunicação constante com Rham, que estava enfurnado nos maquinários quentes e sufocantes da nave em órbita do planeta.
- Rham? Está me ouvindo? Aguardo.
Apenas alguns sons intranquilos de estática. Em seguida:
- Sim. Ouço-o, mas o som está impuro. Não tão impuro quanto a atmosfera aqui dentro dessa nave, mas...
- Você deveria diminuir os “strudvergs”, ou vai acabar se matando!
- Tá legal... e aí, como está indo?
- Tudo normal. Desci numa espécie de deserto, com alguma pouca vegetação, que mais parece uns trapos desfiados e podres, com uma tonalidade... sei lá! Indizível. Até agora não vi nenhuma forma de vida animal, mas os meus sensores detectam corpos orgânicos à frente; seres pequenos, de corpos quentes, estou seguindo!...
- Cuidado. Mantenha as...
- Espere!
Liu Rael se surpreendeu com um movimento brusco à sua direita e já estava totalmente alerta e preparado quando uma estranha criatura saiu despreocupadamente de uma encosta íngreme e arenosa. A criatura não se deu conta da presença de Liu Rael, e continuou seguindo pela encosta, parando algumas vezes para cavar o solo com suas unhas afiadas e compridas.
Liu Rael foi seguindo-a lentamente, a uma distância segura de uns dez metros, embora não houvesse necessidade de fazê-lo, já que a pequena criatura não conseguia inspirar outra coisa senão curiosidade.
- Você deveria estar aqui, é incrível! – disse ele, enquanto seguia a passos leves pelo solo arenoso e confortável. Os robôs seguiam-no, indiferentes.
- O que é? – Rham parou repentinamente seu trabalho para ouvir os comentários excitados do amigo.
- O que é eu não sei, mas o que não é... Pelo menos aparenta ser inofensiva. Mas age de modo estranho, imprevisível. É primitivíssima e, provavelmente, desprovida de inteligência.
- Assim como você!...
- Cale a boca!... Espere... Ela me viu.
- Liu Rael? O que é?
Houve uma breve pausa, onde se podia ouvir apenas alguns ruídos abafados de estática. Em seguida Liu Rael cortou esse silêncio nervoso:
- Minha teoria estava certa: ela não tem inteligência, do contrário teria fugido, mas simplesmente me ignorou.
- Está aí, ainda? Fazendo o quê, agora?
- Sim, está. Continua fazendo o que estava fazendo antes, ou seja, nada.
- Mas você ainda não me disse como é essa criatura.
Novamente houve breve pausa.
- Liu...
- É uma criatura pequena, mas volumosa. Tem o corpo inteiramente coberto de pelos cinzentos, assim como tudo que tem nesse planeta. Tem focinho curto e quatro membros, sendo que se utiliza dos quatro para locomover. Os olhos cintilam de uma maneira anormal, e brilham avermelhados, como se estivessem refletindo a luz difusa dessa atmosfera pesada. Ela cava o chão rotineiramente em busca de animais ainda menores, aparentemente insetos ultra-primitivos. Não sei como um planeta desse consegue abrigar vida!
- E o horizonte? O campo de visão? O que você vê além?
- Não muita coisa. Existe uma espécie de névoa, ou nuvem, que não permite uma boa observação, senão no espaço de poucos metros. Até agora nenhum vestígio de vida inteligente. É essa atmosfera! Essa maldita atmosfera, ela é... fantasmagórica, demasiado luminosa...
Rham apenas conseguiu dar uma risadinha infâme.
- Se você estivesse aqui você não iria rir, seu idiota! Quando falo que ela é fantasmagórica não estou brincando. Existe algo errado, mesmo!
- Tudo bem. Mas e o sol desse planeta, como ele é daí?
- Apesar de tudo ele é belo. É possível ver perfeitamente o seu disco avermelhado a aproximadamente três quartos da linha do horizonte. Ele causa um efeito óptico inacreditável; parece irreal, etéreo!
- Sei... queria estar aí.
- Agora você queria, né imbecil?! Mas você não iria aguentar muito tempo sem os “strudvergs”. Aqui... Ei!... Espere...
Agora a pausa foi um pouco maior.
- Rham?...
- Na escuta.
- Eu não sei dizer o que é realmente, mas acho que tropecei numa placa metálica cheia de sinais!
- Sinais de que tipo? – Rham agora estava completamente tomado por curiosidade e excitação.
- Não sei, Rham. Ainda não posso ver muita coisa, mas é provável que haja vida inteligente nesse planeta! Essa placa... Rham... ela... indica isso!
Agora Liu Rael estava na nave, ao lado de Rham.
Eles observavam atentamente a placa de metal trazida da superfície do planeta. Era uma placa pequena, carcomida, velha, e indistinta. Ainda assim, porém, inspirava um certo temor e admiração, pois indicava que, sem dúvida, fora produzida por uma espécie inteligente.
Havia apenas um único sinal na superfície plana do objeto, mas um sinal tão geometricamente perfeito que não deixava dúvidas quanto ao fato de ter sido confeccionado por algo cujo instinto havia sido dotado daquilo que, exatamente, Liu Rael e Rham caçavam pelo universo: a inteligência!
- Você disse uma placa cheia de sinais? – disse Rham, com um sorrizinho patético.
- Sim, eu disse. Olhe!
- Isso não são sinais, seu imbecil! Isso é algum peculiar efeito químico que aquela atmosfera causou nesse metal.
- Mas é perfeito!
- Apenas uma peculiaridade rara da natureza daquele planeta. Mas o que realmente nos interessa aqui é esse sinal central. Este sim, não foi um capricho químico da natureza... Observe.
Rham passava o dedo lentamente pelo contorno perfeito da placa, que, a despeito daquelas particularidades, se encontrava perfeita. Não estava amassada, mas apresentava um certo grau de inclinamento em uma de suas quatro extremidades, que certamente faria com que um observador desatento não a percebesse.
Mas Rham era demasiado atento:
- Percebe?
- É estranho. É fina, mas ainda assim continua praticamente intacta!
- Não restam dúvidas de que tenha sido produzida por alguma raça inteligente. Se ao menos eu pudesse descer ao planeta!!! Mas aqueles malditos tubos estão a ponto de... e se eu não consertá-los logo, poderemos jamais sair de órbita e, o que é pior, poderemos ficar sem ar puro em poucas horas. Portanto, meu amigo, cabe a você descer e recolher dados para averiguação.
- Eu sei.
- Você sabe que eu daria o meu braço direito para descer ao planeta, mas não daria nossa vida por isso... Teletransporte-se agora mais ao noroeste, e leve mais três robôs; poderá precisar. E mantenha contato.
- Ok!
Rham levava o “strudverg” de um lado ao outro da boca, num ritmo nervoso e excitado. Parecia querer engolí-lo. Mas tudo o que podia fazer era expelir e inspirar sua fumaça vermelha e reconfortante. Ele sabia que a probabilidade de ainda existir vida inteligente naquele planeta era praticamente inexistente, mas...
- Rham! – disse Liu Rael, já na superfície do planeta.
- Na escuta!
- Você não vai acreditar!
- É claro que vou! Diga.
- Encontrei uma cidade, em ruínas!
- Descreva!
- É desolada. Não aparenta abrigar sociedade. O que quer que seja que tenha existido aqui não existe mais. Um silêncio praticamente mortal, a não ser alguns gemidos que vez ou outra chegam aos meus ouvidos – provavelmente de animais primitivos.
- Continue.
- Não posso ainda lhe dizer se é uma cidade grande ou pequena, pois o nevoeiro me impede. Estou me aproximando dela agora. É cinzenta, frágil e de aspecto estranho e conturbado. Provavelmente pertenceu à civilização nível 3.
- Nível 3? Tem certeza? Nesse sistema longínquo?!!
- Sim. É realmente fantástico. Talvez pertenceu a alguma civilização que, no auge de seu desenvolvimento, se aniquilou com alguma guerra bacteriológica, ou coisa assim, pois não existem sinais de devastação. Apenas o silêncio e uma grossa camada de pó e refugos, com algumas quantidades de ossos dispersos. Vou seguir em frente.
- Ok. Quero detalhes.
Liu Rael seguia tranquilamente pelos arredores silenciosos e desorganizados da velha cidade, mas sentia uma espécie indissoluvelmente mórbida de calafrio ao olhar ao redor e não ver nada senão aquela bruma seca e poeirenta, exaladora, provavelmente, de miasmas putrescentes e esquecidos.
O sol agora estava bem mais alto, mas tudo o que conseguia transmitir era novas impressões ópticas fantásticas, indescritíveis, como se seus raios alaranjados e doentes disputassem com a neblina a posse apertada da atmosfera do planeta cinzento.
Liu Rael não podia sentir, é claro, mas essa atmosfera lhe dava a impressão de calor. Ele sabia que existia esse calor, pois seu termômetro externo lhe indicava isso, assim como os demais aparelhos indicavam os níveis mortais de dióxido de carbono e radiação. A pressão atmosférica também era assustadora – ele poderia viver, segundo seus próprios cáçculos, por apenas trinta segundos antes de ter sua cabeça explodida por ela!
Apesar disso, ele tinha vontade de tirar toda aquela parafernália irremediavelmente insuportável de seu corpo e expirar longamente a todo o pulmão aquele ar tóxico e corrosivo. E ele fazia isso!... Dentro de seu traje isolador, pois lá dentro o ar era confortavelmente equilibrado.
- É fantástico, Rham! Fantástico... Jamais vi algo assim antes!...
Liu Rael se referia a um aspecto inteiramente novo e inesperado daquela atmosfera brumosa e pouco dispersante. Ele via as nuvens escuras se abrirem no horizonte como verdadeiras cachoeiras multi-coloridas de poeira incandescente, o que causava um efeito óptico extremamente agradável, etéreo, único. Pela primeira vez ele via alguma coisa estimulante naquela superfície. Agora os raios amarelos do sol se espreguiçavam com total liberdade sobre o nevoeiro seco do planeta agonizante. Agora seus raios se incidiam sobre esse nevoeiro e o fazia brilhar, com uma luz assustadoramente ofuscante e límpida, de uma forma jamais imaginada.
Na cidade, que agora demonstrava ser gigantesca e imponente, miríades de pequenos pontos refletores alcansavam os olhos aquosos de Liu Rael e os faziam brilhar, como nunca tinham brilhado antes. De repente, era como se estivessem inteiramente tomados de vida...
Ele até podia jurar que conseguiu, por um momento ínfimo, mas marcante, avistar, entre as nesgas e nuvens enfumaçadas, uma áurea luminosa e esvoaçante de um azul límpido e tranquilo. Não fosse a rapidez com que o fenômeno surgiu e desapareceu, ele podia até mesmo ter deixado rolar uma lágrima pela face pálida e marcada. Era, de fato, um fenômeno belo, único, passado.
- O que é que você viu? – Na nave, Rham suava incontrolavelmente sobre aquelas máquinas quentes, mas seus pensamentos estavam presos, com certeza, naquele turbilhão indizível de efeitos luminosos que, nem sequer, podia imaginar.
- Não importa. Não conseguiria explicar mesmo...
- Você tem razão. – disse Rham, lá do interior da nave. – Esse fenômeno não vai acontecer de novo, pois consegui algumas leituras do computador central referentes à composição química do planeta. E elas me informaram que esse planeta se encontra inteiramente saturado de algo que, a milhões de anos atrás, não existia. É provável que...
- Espere, Rham! Há alguma coisa estranha aqui... São animais, centenas deles!...
- E o que fazem? Estão próximos?
- Estão a uma distância segura, não se preocupe. São estranhos, indizíveis, e parecem... parecem hipnotizados comigo. Provavelmente nunca viram algo assim, como eu e esses robôs...
- E como eles agem?
- Eles se locomovem com agilidade, mas são débeis, com suas duas pernas raquíticas. Fazia tempo que eu não via seres bípedes. Não são inteligentes, como tudo indica; andam uns sobre os outros como insetos, e parecem assustados. Vou dar mais alguns passos na direção deles...
- Cuidado.
Houve longa pausa, mas Liu Rael cortou-a, por fim:
- Rham!?
- Na escuta.
- Definitivamente são seres inferiores, irracionais, mas com certeza são os mais avançados em termos de desenvolvimento biológico que eu encontrei nesse planeta. Eles se afastam conforme eu avanço.
- Descreva-os, por favor.
- São bípedes, como eu havia informado, e diferem-se uns dos outros de uma maneira inacreditável! Mas tenho pena deles, pois se forem a casta mais evoluída desse planeta, eles herdaram apenas uma terra desolada e praticamente inóspita.
- Sem comentários, por favor, os fatos!
- Possuem a pele demasiado amarelada, lisa; alguns possuem pelos distribuídos irregularmente pelo corpo, mas quase todos apresentam tufos regulares de pelos na extremidade da cabeça...
- Nossa!
- E a cabeça é desproporcional ao corpo... e de uma maneira terrível! Alguns possuem graves deformidades. Talvez sejam experimentos genéticos de alguma outra raça. Que indiscriminadamente deixou aqui.
- E eles fazem algum tipo de comunicação entre si? Algum tipo de barulho, gemido...
- Sim, eles fazem. Barulhos frenéticos e sem sentido – uma tentativa muito rudimentar de comunicação; não propriamente uma fala. Eles pulam e me apontam a cidade, talvez haja alguma coisa lá, ou talvez eles me considerem um Deus!
- Um Deus? Você?... Duvido!
- Estou brincando... Se são irracionais, como é que poderiam acreditar em algum Deus? Como poderiam tê-lo criado? Ainda assim, porém, me comparando com eles, posso me considerar um Deus...
- Escuta... e eles apareceram exatamente no momento em que ocorreu aquele fenômeno que você observou?
- É!!... Isso mesmo! Não tinha pensado nisso. Houve uma claridade repentina e eles saíram de algum local profundo nos subterrâneos da terra. Até agora estão olhando para o céu... quando não olham para mim.
- Então, provavelmente, estão associando o seu aparecimento com a claridade repentina no horizonte!
- Eu, sinceramente, gostaria de ser o responsável por ela, como eu acredito que eles imaginam que sou. Deve ser por isso que me apontam a cidade...
- E há muitos deles?
- Sim, há bastante. Mas estão quase todos na mesma direção, à minha frente.
- Tudo bem, traga um deles à nave. Vamos investigar melhor. Mas, por favor, dessa vez não esqueça de ativar corretamente o “escudo biomagnético individual”... , não queremos pegar nenhuma doença primitiva, e também não queremos matá-lo. Ah! E por favor, escolha um exemplar apresentável!
- Será difícil, mas vou tentar...
- É estranho, é muito estranho... – Agora Liu Rael estava na nave, envolto inteiramente pela fumaça vermelha do “strudverg”, que fumava com todo o prazer do mundo. – Vê as narinas dele? Quase não existem... É certo que aquela atmosfera é a última coisa que eu desejaria para um ser vivo respirar, mas eles dependem dela, caramba!... E sendo do jeito que é como conseguem ingerí-la com essas orifícios... medíocres?
- Simplesmente estão adaptados. – Rham não tirava os olhos da criatura, que estava seguramente trancafiada numa jaula eletromagnética com quantidade suficiente da atmosfera do planeta para passar horas.
- Mostre a placa para ela. – disse Rham, enquanto acendia lentamente um novo “strudverg”. Liu Rael levantou a placa de metal num gesto interrogativo, bem próximo à criatura. Ela encarou seriamente a placa, mas não fez qualquer movimento; seus olhos estavam esbugalhados, hipnotizados pelo objeto que, a despeito de familiar e compreensível, não conseguia lhe inspirar outra coisa senão profunda abstração.
Rham estava distante, mergulhado nas sombras fantasmagóricas da sala de testes. Era possível ver apenas o ponto vermelho do minúsculo objeto que constantemente levava aos lábios, para puxar fumaças longas e pausadas.
- Nada. – disse Liu Rael, balançando a cabeça – Ela não esboçou nenhuma reação. Provavelmente não conhece a raça que criou esse objeto, do contrário ela teria, ao menos, feito algum movimento, ou algum ruído, indicando familiaridade e conhecimento. Mesmo as criaturas irracionais e inferiores são capazes disso. O que acha?
Rham estava distante – em pensamentos – mas teve uma idéia.
Se aproximou lentamente da jaula e levou o “strudverg” à boca, olhando fixamente para a criatura, mas sem proferir qualquer palavra e sem estimular qualquer movimento. A criatura também o encarava, fixamente, muito fixamente... Seus olhos fundos e marcados brilhavam mais do que o normal, quase derramando uma lágrima perdida no tempo e no espaço. Os lábios tremiam, numa convulsão involuntária. Rham pode perceber o terrível conflito que existia no seio mais recôndito e profundo daquela criatura inopinada.
Por fim, ele falou: - Sabe por que a criatura não esboçou nenhuma reação com relação à placa?
- Não... Não sei.
- Porque não foi a placa que a arruinou.
- Ahnnn? O quê? A placa arruinou...?
- E sabe por que ela reage discretamente, mas triste e profundamente com relação a esse... “strudverg”?
- Porque ele... ele... não, não entendo...
- Porque isso aqui, meu amigo – Rham balançava o toco do “strudverg” com impaciência - ... é algo similar ao que arruinou aquela criatura! Bom... não aquela criatura em específico, é claro, mas os ancestrais dela. Foram os ancestrais dela que criaram essa placa!
Liu Rael parecia confuso, mas compreendia perfeitamente o que o amigo queria dizer.
- Então você sugere – disse ele – que essa criatura patética, disforme, proveio da raça que levantou aquelas cidades imponentes que eu vi com meus próprios olhos, naquele planeta?!
- Sim; sem tirar nem por. Foram exatamente os ancestrais dessa criatura... patética, dessa raça medíocre, que criaram aquilo tudo, antes de seu planeta ser inteiramente tomado pela poluição e sucumbido ao peso da mutação e da... inevitável involução.
- É triste... Talvez seja por isso que eles olhavam fixamente para mim e para a gigantesca cidade quando houve aquele fenômeno atmosférico raro... e ancestral. Fazia quanto tempo que eles não viam o céu azul?
- Você viu o céu azul?
- Por pouquíssimo tempo, mas vi... e foi incrível!
- Então fazia muito tempo, com certeza. Talvez milhares de anos. Mas, a despeito disso tudo, sobreviveram, e, com isso, provaram ser uma raça biologicamente adaptável e forte. Quem sabe não voltem a evoluir!... Se olharam para você naquele momento de claridade repentina de modo tão expressivo como você afirma que foi, tudo indica que existe, ainda, um estímulo, uma lembrança, uma semente longínqua plantada em seu ego instintivo. Pode ser que... Ah! Venha ver.
Rham conduziu apressadamente Liu Rael pelos espaçosos corredores da nave até chegar à cabine de comando, onde estava o computador central, repleto de informações. Rham apertou algumas teclas e a tela do computador imediatamente se encheu dessas informações, para fazerem brilhar os olhos pesados de Liu Rael.
- Vê?! – disse Rham, franzindo o cenho azulado – A atmosfera dessa planeta era basicamente constituída de oxigênio, nitrogênio e hidrogênio, além de gases raros em menores concentrações. Mas também havia dióxido de carbono, dióxido de enxofre, e outros tipos de gases ácidos – mas, igualmente, em menores concentrações. Tentei lhe dizer isso anteriormente, mas não pude; não tinha certeza, ainda, e também não tive tempo. O caso é que a poluição do planeta em determinada época era tamanha que a concentração desses dióxidos aumentou gradativamente e irremediavelmente. E veio aumentando ainda mais, durante todo esse longo período de tempo, até se estabilizar no nível em que se encontra agora. Mas isso não acarretou a morte da civilização inteligente e dos demais seres vivos, mas causou, via de regra, a involução, ou a perda de inteligência da civilização (que também teve de se adaptar biologicamente) e a mutação e a morte de determinadas espécies. Compreende?
Liu Rael compreendia.
Olhou para o canto e viu as ferramentas com que Rham vinha trabalhando nos tubos de purificação, e sentiu um tremendo desconforto. Engoliu em seco, com tristeza.
E sentiu ainda mais tristeza ao encarar pela última vez a criatura, antes dela ser teletransportada novamente à TERRA.
Prometeu a si mesmo nunca mais levar um “strudverg” à boca, pois agora não se considerava mais um Deus.
Esse conto foi originalmente publicado no fanzine “Juvenatrix” número 49, de Fevereiro de 2001.
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