HORA DA VIDA, A


E.R.Corrêa


Ali estavam, a observar as estrelas. E é certeza que pensavam na notícia recentemente dada. É muito provável...
E remoíam, nos seus cérebros pequenos, fatos estranhos e fabulosos, cuja compreensão, muitas vezes, se esvainham entre os brilhos quase imperceptíveis das idéias abstratas.
Mas ali estavam eles e, apesar de tudo, pensavam e meditavam.
É certo que uma insignificância lhes envolvia a mente. Mas no fundo, na parte mais profunda do órgão que lhes dava a razão e a emoção, eles nutriam pensamentos grandiosos, glorificados e voltados - é certeza - para o futuro.
E não só eles - todos, agora, nutrimos estes sonhos!
Sonhos de um futuro que, iniciado com a descoberta daquele longínquo e quase imperceptível ponto brilhante, nos espera. Sim! Nos espera... fervilhante de vida. Dezenas? Centenas? Milhares? Não importa. O que importa é que pelo menos uma destas vidas possui, assim como nós, inteligência - só que ao contrário de nós, usufluem desta inteligência de maneira quase que inacreditável, bastando lembrar que conseguiram realizar um sonho que consome o nosso espírito desde o surgimento de nossa vida: a conquista do espaço.
É... É inacreditável! Mas os filhos da mãe conseguiram isto! À custa de quantos sacrifícios? Jamais saberemos dizê-lo...
Basta, no entanto, lembrarmos da nossa própria insignificância, sem esquecermos, porém, que a juventude de nossa vida é considerável. Não habitamos porventura um mundo demasiado jovem? Sim!... E é isso que banha, como um vento suave, a nossa face, cujo refresco nos impulsiona e nos reanima, lembrando que temos a eternidade para buscar... e evoluir!
E - o que é mais importante -, iguais a eles, conquistarmos o espaço!
Temos esperanças? Sim! Plenas!
Somos jovens, habitamos um mundo jovem e nosso potencial é, com toda certeza, capaz de dar largas passadas rumo ao infinito. Nossa espécie entrou em existência nos quatro últimos milésimos da história deste planeta e nossa duração mal abrange um milionésimo desse tempo. Não é assim?
E lá, ao longe, eles brilham; e as suas luzes viajam, por anos-luz, insultando a nossa existência! Mas podemos aprender com eles os vastos caminhos a se percorrer em busca do progresso e da ciência, e insultar, com nossa luz, os outros mundos...
Somos jovens - eles são velhos. Carregam o conhecimento que a velhice proporciona; talvez sejam superiores a nós por milhões de anos de desenvolvimento.
É mais do que provável que a aventura deles pelo espaço infinito seja, atualmente, brincadeira; enquanto para nós isto é um objetivo cuja visão malogra em alcançar...
Mas não somos orgulhosos... e talvez valha a pena resignar-mos, e utilizar a nossa humilde tecnologia para alcançá-los e com eles aprender. Isto é provável!
Buscaremos! Sim! Buscaremos este ponto brilhante, extraindo de sua luz tudo que possa ser conhecimento e união! Seremos felizes no espaço; dividiremos nossa galáxia e tornaremo-nos amigos, pois é quase impossível acreditar que uma civilização tão evoluída e capaz seja má...
É certo que eles são infinitamente superiores a nós em termos de desenvolvimento e tecnologia, mas quem sabe não sejam também modestos esses tais seres humanos!?...

Esse conto foi originalmente publicado no fanzine “Juvenatrix” número 35, de Julho de 1999.

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