O ÍNDIO PARAGUAIO
Augusto Carlos Curvello de Muros
Eles vão matar o meu amigo. Ouço os gritos, ouço os passos, está tudo muito confuso na minha cabeça. Tudo sempre foi muito confuso na minha cabeça, sempre. Sempre. Fechado aqui no meu quartinho, eles não vão me procurar, eles não vão se lembrar de mim. Eu sou o melhor amigo dele, o único amigo dele nessa cidade. E ele é meu único amigo também, o único amigo que tive em toda a minha vida. E eu me lembro bem de quando ele chegou aqui, nesta cidade tão pequena. Eu me lembro bem de quando ele chegou e montou seu negócio na pracinha. Vendendo remédios e ervas. Um índio bonito, de cabelo preto e liso escorrendo pelos ombros. Eu parei e fiquei olhando para ele. Nunca aparece ninguém diferente por aqui.
Sua pele queimada foi que me chamou a atenção, e seu jeito de falar tão diferente de todas as pessoas que eu conheço. E que nunca tomaram conhecimento de mim. Acho que é pela minha maneira, sempre calado, e sem nunca conseguir falar direito com ninguém. Não entendo como as pessoas conseguem falar tanto entre elas, mas falam comigo tão depressa, sem olhar direito para mim. Ou riem de mim. Que tenho eu de tão engraçado para elas rirem assim, quando me olham? O índio, não. Ele olhou pra mim, e me chamou pra junto dele.
- Você quer me ajudar? - ele me perguntou.
- Sim. - eu falei - Como?
- Preciso de uma pensão para eu ficar.
- Eu conheço uma. Da dona Alice. No fim da rua.
- Depois você me leva lá. Eu vim de longe. Sou um índio paraguaio.
Que será um índio paraguaio? Nunca ouvi falar disso.
As pessoas foram chegando, e o índio ia mostrando seus remédios, seus embrulhos, umas folhas, umas frutas. Eu fiquei do lado dele, me sentindo importante, ajudando aquele índio que chegava de longe.
Quando foi ficando de tarde, ele me pediu para ajudar ele a guardar aquilo tudo, e mais um dinheiro que ele ganhou vendendo suas mercadorias.
- Me leva na pensão da dona Alice.
- Te levo.
Nós saímos pela ruazinha da minha cidade, e fomos indo para a pensão da dona Alice, uma viúva nova ainda, que alugava quartos e servia refeição. Ela é amante do seu Salim da loja. Seu Salim tem a família que mora num sobrado perto da outra praça, e se encontra com dona Alice toda terça e toda quinta-feira. Eu observo todos aqui na minha cidade, mesmo que eles não dêem importância nenhuma para mim. Seu Salim é um turco gordo e baixinho, acho que dona Alice gosta mesmo é do dinheiro dele. Ela é uma mulher muito bonita, tem dois filhos que moram com ela na pensão. O índio e eu chegamos quando ela estava ainda na cozinha. Veio receber a gente, disse que a pensão dá café da manhã, almoço e uma sopa na janta, o quarto não tem banheiro.
- Tem um banheiro no fim do corredor. Chuveiro quente, vaso, pia e bidê.
O índio sorriu e disse que estava ótimo.
- Vai ficar muito tempo?
- Não sei ainda, depende do movimento na cidade.
- Hum...Movimento por aqui... É difícil. Você vende o que?
- Vendo remédios, ervas. Tudo para a saúde das pessoas, os remédios de farmácias envenenam, as ervas são bem mais saudáveis.
- Pode ser. O senhor tem que pagar uma semana, adiantado. Desculpe, é que de vez em quando aparecem uns vigaristas por aqui. Hospedam-se, comem e depois fogem sem pagar.
- Eu entendo.
Deixei o índio na pensão. Ele me pediu para ir lá no dia seguinte, às nove da manhã, para a gente trabalhar de novo. Disse que vou. Claro que vou.
Pena que já é tarde, perdi a saída do colégio das freiras. As meninas sempre saem às cinco da tarde, e eu fico escondido olhando as meninas saindo do colégio, com suas saias curtinhas. Para falar a verdade, eu fico escondido olhando apenas para uma delas. É a Julinha. O pai dela é o prefeito da minha cidade. Doutor Custódio. Passaram a chamar ele de Doutor, depois que ele virou Prefeito. Julinha é linda, tem onze anos, gordinha, cabelinho curto, desce a rua do colégio com seus livros e cadernos. Ri para todos, conversa, mas nem sabe que eu existo. Fico ali, escondido, olhando para ela sem saber porque, faço isso todas as tardes. É a única hora que gosto de ver a Julinha, só quando sai do Colégio das Freiras, com seu uniforme e seu andar, e seu joelhinho redondo.
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O índio paraguaio é meu amigo. Tenho certeza disso, porque é o único que me leva para almoçar com ele, todo dia. Vendemos aquela mercadoria dele, e paramos meio - dia e vamos almoçar. Na pensão da dona Alice. Depois, continuamos vendendo pelo resto da tarde. Até umas quatro horas, mais ou menos, aí, eu peço a ele para sair que tenho um compromisso. Eu invento, eu minto, vou mesmo ver a saída do Colégio das Freiras. E só vou me encontrar com o índio de novo na manhã do dia seguinte. Fico andando na cidade enquanto isso. O tempo está passando, o índio já está por aqui há quase um mês. Mas nem todos estão contentes com isso, acho que só eu. As pessoas parecem ter medo de sua presença entre nós. Foi o que observei, indo no café do Eugênio, numa noite. Estavam lá, o seu Salim, o Neco que é dono da farmácia, e o seu Oliveira, que tem um armazém. Acho que falavam do índio, porque logo que eu cheguei, me chamaram. Eles sabem que eu sou o único amigo do índio paraguaio.
- Oh maluquinho,vem cá! - chamou o Neco.
Não gosto que me chamem assim, minha mãe me deu nome.
- Que foi? - perguntei desconfiado, cabeça baixa. Não gosto de encarar as pessoas,acho que tenho medo delas.
- Esse índio que chegou aí, você trabalha com ele, não é?
- Sim, senhor.
- Cuidado com ele, tem cara de bandido.
- Tem não senhor...
- Ah, ah, ah, ah, ah!!! - eles sempre riem de mim - E você lá sabe distinguir um bandido de um padre?
- Já falei pra Alice pra ter cuidado com ele - falou seu Salim, naturalmente - esse vigarista vai dar um golpe na coitada.
- As mulheres, principalmente, agora deram pra falar dos meus remédios - falou o Neco - que as ervas curam sem causar problemas à saúde. Andam recitando o que aquele maluco fala para enganar a elas. Onde já se viu, curar rins, fígado, estômago... ora vejam só... com uns matos??!!
- Mulher tem merda na cabeça! - falou seu Oliveira - Já me deu vontade de procurar o Custódio, para ver se uma Lei Municipal, alguma coisa assim, expulsa esses caras da cidade. Sabe-se lá quem é esse sujeito, de onde veio...
- Ele é um índio paraguaio.
- Ah, índio paraguaio.. isso ele falou pra você, que é maluco, não entende nada. O que é um índio paraguaio?
- Eu... num sei...
Eles riram muito. Mais uma vez. O riso deles me deixa mais maluco ainda. Saí correndo dali, vontade de ir falar com o meu amigo, para ele ter cuidado com aquele pessoal. É um pessoal ruim. Eles não conhecem o índio paraguaio que é a melhor pessoa que já apareceu por aqui, ele é melhor e mais amigo que eles todos juntos. O índio vende remédio que cura, conversa comigo. E até me dá um dinheirinho, todo dia. Mas ele precisa saber que não gostam dele aqui na cidade.
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Dona Alice serve um almoço muito gostoso para nós. Acho que ela - além de mim - é a única pessoa que gosta do índio paraguaio aqui na cidade. Conversa com ele, pergunta como anda o negócio dele, se está vendendo bem, e sempre serve o prato dele. Os dois conversam muito durante o almoço, ela deixa o que está fazendo para falar com o meu amigo, é a única hora que ele dá mais atenção a outra pessoa que não sou eu. Os dois falam, riem, se olham. O meu amigo é muito mais bonito que o seu Salim da loja, eu fico olhando os dois conversando, mesmo não entendendo direito o que eles falam. Também, eles falam muito baixinho, eu não consigo ouvir o que eles falam. Não ligo. Fico pensando na Julinha saindo do Colégio.
Eu tenho que subir pelo morro para poder assistir a saída do Colégio das Freiras. O morro é alto, subo por um caminho complicado, cheio de mato, de pedra, e fico sempre escondido numa moita alta, quase na beira da rua. Julinha quase sempre vem sozinha, as outras meninas seguem pela rua do outro lado, só Julinha desce por essa aqui. Até hoje, eu não sei o porque dessa minha mania de ficar vendo ela passar, mas tenho medo que Julinha arranje um namorado qualquer dia desse, tão bonita que ela é, e esse namorado nunca que vou ser eu, podem me chamar de maluco, mas eu sei que Julinha não vai nunca querer namorar comigo, mesmo eu sendo amigo do índio paraguaio.
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Gozado, o índio paraguaio não apareceu hoje. Toda a manhã passou, e ele não deu as caras. Fico rodando pela praça, será que ele se esqueceu? Hoje não é domingo, nos domingos nós não trabalhamos, mas hoje é quarta-feira, por onde andará o meu amigo? Já passou da hora do almoço e ele não veio. A tarde já está chegando... Acho melhor eu ir à pensão de dona Alice, saber o que aconteceu com o meu amigo, será que ele foi embora sem me avisar? A pensão de dona Alice fica no final da rua.
Custa um pouco para chegar lá, e no caminho vou pensando no pior, que o meu amigo foi embora da cidade, a mando do seu Salim e do Prefeito, bem que eles falaram que deviam proibir ele de ficar na cidade. Por que será? Um homem tão bom como o índio paraguaio.
Está tudo quieto na pensão da dona Alice. Entro bem devagar, passo pela sala onde a gente almoça, não tem ninguém. Os filhos de dona Alice devem estar no colégio. Vou andando, e ouço uns gritos no quarto da dona Alice. Vou devagar. Tenho medo. Dona Alice parece gritar, ou gemer... Ouço vozes do índio também. O que estará acontecendo? A porta está encostada apenas, eu empurro bem devagar. Que coisa esquisita. O índio está deitado na cama e dona Alice está em cima dele, pulando, mexendo e gemendo. Por que será que os dois estão sem roupa? Fico cada vez mais confuso, não sei o que sinto vendo aquilo... O índio agarra dona Alice, puxa ela para cima dele... Ela grita, ele ri, ela joga os cabelos para trás, ele puxa ela pela cintura. Meus olhos não conseguem desgrudar dos dois, dos seus movimentos.
Saio correndo dali, mas sem chamar a atenção, tenho medo que os dois briguem comigo por estar ali olhando eles fazerem aquilo. São quase cinco horas. Vou subir o morro... Vou ver Julinha saindo do colégio. Mas estou muito confuso. Muito confuso. Muito. A cena dos dois na cama não me sai da cabeça.
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A noite está estranha na cidade, no bar do Eugênio, todos falam quase ao mesmo tempo. Fico olhando de longe. Não vi mais o meu amigo hoje, só na pensão com dona Alice.
- Que crime! Que barbaridade! Nunca se viu isso na cidade!
- A Julinha... uma menina... morta dessa maneira.
- Já prenderam o índio?
Prenderam o índio. Por que prenderam o meu amigo? Que foi que ele fez?
- Ele é o principal suspeito. Ninguém aqui da cidade faria isso com a menina, nascida e criada entre nós.
- O Delegado está com ele na Delegacia, mas ele nega o crime. Diz que nem conhecia a menina, o malandro. Assassino! Estuprar e matar uma criança!
- Perguntei a Alice sobre ele - falou seu Salim - Ela está muito nervosa, disse que não acredita que foi ele! Uma tonta, a Alice, chegou a me dizer que tem certeza que não foi ele, tem certeza... pode isso? Como pode ter certeza, só se ele estivesse com ela na pensão. Ela disse que não. Ora, se não estava lá...
- O que está faltando para a gente pegar esse índio? Vamos nos juntar e vamos lá na Delegacia, matar esse bandido que infernizou a nossa cidade, desde que chegou aqui!!
- É isso mesmo, o Neco tem razão! Eu, por mim, a Alice não recebia ele naquela pensão.
- Pois vamos lá, foi a filha do nosso Prefeito! Ela tem que ser vingada!
Estão todos gritando. Não quero que eles me vejam. Eu sou amigo do índio paraguaio. Acho melhor correr, sair daqui. Saíram todos do bar do Eugênio, e estão indo para a Delegacia. Eles vão matar o meu amigo. Eles são maus. Mas ele é muito bom. É meu amigo, e amigo da dona Alice... Não posso fazer nada por ele. Eles vão matar o meu amigo!!! Acho melhor ir à pensão, falar com dona Alice.
Dona Alice está chorando muito, quando chego na pensão. Ela me vê e se abraça comigo, seu peito está arfando, ela prende minha cabeça no meio deles, fico mais nervoso e choro junto com ela.
- Ele não matou a menina! Não podia! Não podia! Falei com Salim...
- Eles vão matar o meu amigo!!!
- Matar?? - dona Alice se assusta e me solta, no momento que seu Salim chega na pensão.
- Viu? Aquele seu hóspede? Aquele tarado... assassino! Vai ser linchado pelo povo.
- Mas ele...
- Cale essa boca, você e esse maluco foram os que deram guarida a esse índio! Eu não quero mais ouvir você falar que ele não podia ter feito... por que???
- Não sei... não sei...
Seu Salim e Dona Alice estão discutindo muito. Seu Salim tem raiva do meu amigo. Todos na cidade têm raiva dele.
Saio correndo, e deixo os dois na pensão. Vou me trancar no meu quarto. Já é madrugada.
Os gritos estão cada vez mais altos. Já chegaram na Delegacia.
Nunca mais vou ter um amigo igual a ele.
Nunca mais.
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