JÚLIA
Diego Vivaldo
Alberto acorda atordoado, em meio a uma praia isolada.
- Onde estou?Como vim parar aqui?!Ai, parece que minha cabeça vai explodir! Que dor horrível!
De um lado o mar, com ondas altas e fortíssimas, nas duas pontas do lugar havia rochedos, e logo atrás uma mata fechada, aonde o barulho dos insetos chega a ser ensurdecedor. O vento uiva em um sopro gelado, provocando calafrios no pobre homem solitário. A luz do luar alivia o breu da noite. Alberto espana a areia em sua roupa, e sai andando a esmo completamente perdido e confuso.
- Meu Deus, estou perdido!Não tem ninguém!Está completamente deserto!Preciso sair daqui!Mas por onde saio?Num tem nenhuma trilha nessa mata!
Repentinamente ele escuta uma cavalgada, percebendo um lustroso cavalo branco se aproximando. Pode-se ver alguém montando o animal.
- Obrigado meu Deus!Quem quer que seja com certeza irá me ajudar a sair desse lugar!
Quando o eqüino aproxima-se dele, é possível perceber que quem o conduz é uma bela jovem com um longo vestido branco, pele pálida e longos cabelos negros.
-Me ajude, por favor!-grita Alberto desesperado.
A moça desce do cavalo e aproxima-se do pobre homem.
-Não se preocupe, eu posso ajudá-lo?–respondeu a jovem com uma serenidade impressionante.
- Estou perdido, não sei como vim parar aqui! Onde estou? Quem é você?-indaga o rapaz bastante nervoso.
-Meu nome e Júlia. Suba aqui no cavalo, e acompanhe-me. Fique tranqüilo que tudo tem uma explicação.
Alberto bastante confuso, e percebendo a situação em que se encontrava, viu que não tinha outra saída a não ser acompanhá-la. Subiu na garupa e Júlia passou com o cavalo no meio de uma fresta entre as árvores, e adentrou a mata fechada, por onde havia uma trilha escondida.
-Você não se lembra de nada?-perguntou a bela jovem no caminho.
-Não sei o que aconteceu. De repente eu acordei e estava no meio dessa praia. Nossa, como é frio aqui!Mas vamos ao que interessa, me diga logo onde estou!
-Tudo a seu tempo. Primeiro você precisa se lembrar de como veio parar aqui.
-Pra que?Eu quero é saber como vou sair daqui!
-Acalme-se. Sou uma amiga. Minha intenção é ajudá-lo.
-Que amiga que nada!Quer saber, eu vou seguir sozinho nessa trilha!Você é muito estranha!-disse Alberto, pulando do cavalo que trotava lentamente.
-Você está cometendo um erro! Não conseguirá sair daqui sem mim!Essa mata é muito perigosa para você, ela pode se revelar um inferno!-disse a garota, perdendo a compostura, demonstrando certa preocupação.
-Que perigo?!É só uma mata!Já sei, isso tudo deve ser um sonho!Só pode!Olha, não sei quem é você, ou o que quer, só sei que está me irritando e eu preciso sair daqui!
-Está bem, você tomou sua decisão. Seguirei meu caminho e espero que você consiga sair daqui são e salvo.
-Me deixa sua maluca!-disse Alberto, e logo em seguida seguiu a trilha caminhando, visivelmente com os nervos a flor da pele.
Depois de duas horas andando, o homem exausto e guiado somente pela luz do luar encontra um pequeno rio, e com a garganta seca, faz uma pausa para sentar e beber um pouco de água. Força a cabeça para tentar lembrar o que aconteceu, e com muita concentração, a verdade vem a tona.
-Agora eu posso lembrar!Tudo é culpa de Tony, aquele bastardo!
Alberto lembra que estava ali por causa de Tony, agiota famoso por sua crueldade na cobrança de dividas. Era comum seus capangas esquartejarem os caloteiros vivos. E Alberto vendo sua loja de materiais de construção beirando a falência, teve que apelar para o dinheiro do criminoso, e desesperado ignorou seu histórico de violência, afinal, tinha acabado de nascer seu filho, e a ultima coisa que queria era passar a imagem de fracassado para a mulher. Infelizmente, mesmo com o empréstimo, seu negócio não andou como esperava, e a falência foi inevitável. Os juros que Tony pedia eram cada vez maiores, e Alberto não tinha condições de pagar. Depois de muitas ameaças sem êxitos, os capangas do agiota resolveram fazer a cobrança do jeito que mais gostam. Surpreenderam o rapaz em uma rua sem movimento, e o seqüestraram para mais um ritual de puro sadismo com um devedor. Vendaram seus olhos e o carregaram com as mãos amarradas. Quando tiraram a venda, o rapaz percebeu estar no alto dos rochedos que beiravam uma praia deserta. Quando o desamarraram para começar a tortura, Alberto conseguiu se desvencilhar dos agressores, e desesperado se jogou no mar, lá no fundo ele ainda viu os tiros passarem ao seu lado, até o momento onde ele bateu a cabeça e a vista escureceu.
-É isso!As ondas devem ter me levado até a praia onde eu acordei! Ué, mas como eu não me afoguei?!Isso tudo é muito estranho!
-Ainda bem que se lembrou de tudo. Eu lhe ajudei. Tirei você da água. Porém eles sabem que você não morreu, estão na mata a sua procura.-diz Júlia, aparecendo repentinamente em seu vistoso cavalo branco.-E vamos sair daqui depressa, pois estão por perto!
A moça estava certa, Alberto viu os capangas aproximando-se na outra extremidade do rio. Eram três homens, dois eram fortes como touro e altos e um era magro e tinha um aspecto abatido. Todos estavam armados com calibres 38.
-Ali está o nosso presunto!-apontou o mais magro reconhecendo Alberto.
-Vamos suba!-disse Júlia, percebendo a proximidade dos sujeitos-Vamos fugir daqui!
Alberto subiu em um só pulo no cavalo, e a garota o guiou em um rápido galope pela trilha. Os criminosos começaram a disparar, porém a distância fez com que errassem todos os tiros.
-E agora, para onde vamos?!-perguntou Alberto bastante assustado.
-Estamos perto de uma rodovia, e do outro lado dela há um posto policial. Quando chegarmos lá estaremos seguros. E além do mais, eles já ficaram pra trás.
-Eles não deixarão isto impune! Virão atrás de mim novamente!-raciocinou o rapaz, temendo a represália dos bandidos.
-O importante é o presente. Assim que você estiver seguro, pegue sua família e fuja para outro estado. Tony jamais encontrará você.-disse Júlia, consolando o homem.
-E se ele achar?!-retrucou Alberto.
-Jamais achará. Confie em mim.- disse a misteriosa jovem, ao mesmo tempo em que chegavam a rodovia. Estranhamente a afirmação dela tranqüilizou o rapaz.
Chegando ao posto policial, Alberto desceu do cavalo, tocou a campainha, e o oficial que estava de plantão dirigiu-se a porta para atendê-lo.
-Bem, desculpe por tudo, e muito obrig...-quando virou-se agradecendo a Júlia, ela havia desaparecido como mágica.
-Pois não senhor?-surge o oficial na porta, atendendo Alberto.
-Estou perdido e acabei de sofrer uma tentativa de homicídio!Por sorte uma garota da região me salvou, porém ela desapareceu sem ao menos se despedir.
-Que garota? Não mora ninguém nessa região. Tanto é que aqui é um prato cheio para criminosos desovarem cadáveres. Esse é o motivo da implantação desse posto, senhor.-retrucou o policial.
-Mas como?! Bem, ela é bonita, pele pálida, longos cabelos negros... Seu nome é Júlia, usava um longo vestido branco, e me trouxe aqui em seu cavalo!
-Mas isso não é possível, senhor!-disse o policial bastante assustado.-Siga-me, e veja com seus próprios olhos.
Alberto o seguiu, e ele o levou a uma curva da rodovia, que ficava a 100 metros do posto. Ali havia uma cruz fixada no acostamento.
-Nãããooo!-disse Alberto ao ver a fotografia fixada no cruzeiro. Começou a tremer, seus olhos arregalaram, ficando completamente em estado de choque.
-A menina que o senhor descreveu morreu em um acidente nessa curva há 30 anos. E o que mais me assusta é que muitos colegas já afirmaram terem visto a tal garota perambulando pela mata em um cavalo, com o longo vestido branco que o senhor citou.-disse o policial ao rapaz, que não alterou seu estado catatônico. Podiam-se ver lágrimas escorrendo de seus olhos, em um misto de gratidão e profundo medo.
Quanto aos capangas, seus corpos foram achados na mata um mês depois. O policial que os encontrou disse que jamais esquecerá as feições de extremo pavor no rosto dos cadáveres. Anos se passaram, e o espírito justiceiro de Júlia jamais foi visto novamente.
manosdefe@ig.com.br
|