RUA LDB, SEM NÚMERO
Carlos Paraná
“Rua LDB, sem número”, foi como indiquei ao motorista onde queria ser levado.Pareceu fingir que não havia me entendido.Pediu que eu repetisse. “Rua LDB, sem número”.O carro começou a se mover.
Desde nove de abril não volto para casa.Hoje é dia vinte cinco ou vinte e sete de julho, não tenho certeza.Pode ser até mesmo o dia vinte e seis, mas isso não é importante.O motorista utilizou um atalho muito eficiente, pois gastamos a metade do tempo para chegar.Entramos na Rua LDB, onde ficava a casa nova que tão pouco havia desfrutado.Chegamos perto da casa.Apenas perto, pois havia uma multidão ao seu redor.Desci do carro apreensivo, e não paguei a corrida ao motorista.Ouvi-lo gritar e me amaldiçoar.Quando cheguei mais perto da aglomeração, sua voz desapareceu.
Procurava por Daniela e Leonel entre a multidão, mas não os via.Era difícil seguir.Não perguntei a ninguém o que havia ocorrido, o que fora capaz de gerar tamanha concentração de pessoas naquela rua tão pacata.Havia um cordão de isolamento e, além dele, homens de uniformes azuis perambulavam ao redor da casa na rua LDB.Obviamente, fui impedido de ultrapassar o cordão num primeiro momento, mas me permitiram chegar mais perto quando me identifiquei.Também não perguntei o que ocorrera aos homens e mulheres de uniforme azul.Nada de Daniela ou Leonel.Não os via em nenhum lugar.
Dentro da casa, o piso de madeira havia sido removido completamente, revelando a terra vermelha sob qual a casa havia sido construída.Não restara nada da mobília pertencente ao térreo.Os ocupantes da casa também pareciam ter sido substituídos.
Ratos do tamanho de cães entraram e saiam de buracos que haviam cavado na terra.Colidiam entre si e, quando isso ocorria, emitiam um guincho de protesto.Cobras, dezenas delas, dançavam sobre a terra.Percebi algo remanescente do andar superior num canto qualquer.Era a cama que jamais ocuparia novamente.Insetos, certamente desconhecidos, além de mais ratos e mais cobras infestavam o lençol, indicando–me que a cama, como todo o resto daquela casa, não mais me pertencia.
Atrás de mim, um dos que vestiam uniformes azuis tocou meu ombro, me dizendo algo consolador logo que o olhei:
“Eles devoraram a mulher e o menino que moravam aí. Parece que o pai estava fora. Que desgraça, não?”.Ele parecia ter certeza do que dizia.Mas, a terra vermelha era cor de sangue e me deixou por demais confuso para acreditar no que o homem acabava de me dizer.
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