LICANTROPIA


Alexandre Cthulhu

1971 – Guerra de Angola.

O nosso objectivo era uma pequena província a nordeste de Nambuangongo, onde se conservava um foco de resistência de contra-guerrilha, cuja missão era produzir e distribuir propaganda politica, pró – independência, que servia para incitar as populações a agirem contra nós. Eu comandava a companhia nº 23 do corpo de fuzileiros especiais, e já contava com duas comissões no Ultramar.

A estrada por onde seguíamos, fora cortada por uma grande vala, que tornou impossível a progressão motorizada por aquele caminho, então, a companhia teve de prosseguir a pé pela mata cerrada.

A progressão era lenta. Seguíamos em duas colunas, por uma longa picada que se estirava pelo meio do mato denso e húmido. Segundo os meus cálculos, estávamos a uns dois quilómetros do nosso objectivo, e logo ordenei concentração total à minha companhia, que já manifestava alguma fadiga física. Contudo, eu conhecia-os, e sabia até onde eles podiam ir, portanto, não seriam alguns quilómetros que os iam derrotar.

Um estranho silêncio quebrou todos os ruídos que a mata desprendia, e mesmo antes de eu ordenar aos meus homens para cessarem a progressão, escutei um rugir grave e profundo, que me assombrou de terror. Um leão monstruoso irrompeu do meio do denso capim, e de garras ao alto, lançou-se sobre os meus homens de uma forma violenta e atroz, atacando-os com ferocidade. De imediato, fiz pontaria à cabeça da fera, e mesmo antes que ela arrancasse a perna ao cabo Esteves, disparei uma rajada de tiros que o fizeram tombar inerte no chão. Depois deste incidente concluí que, caso caíssemos numa emboscada, não sobraria ninguém para contar a história, tal não era o cansaço que se tinha apoderado da minha companhia.

Por fim, alcançámos o nosso objectivo. A primeira aldeia abria-se para nós, como que expelida do meio do mato cerrado e sombrio.

O cheiro carbonizado a esturro invadiu-me as narinas, o que me fez sentir o azedume da destruição e da morte. Ordenei para que a companhia se mantivesse queda, e formei uma equipa de reconhecimento, da qual eu me incluí. Éramos cinco e avançámos devagar. À medida que fomos progredindo em direcção à aldeia, mais me convenci de que aquilo que nos esperava, não ia ser nada bom. O Demónio tinha estado por ali, era certo. As casas estavam queimadas e destruídas, os corpos humanos jaziam, desmembrados pelas ruas a céu aberto, onde só os cães sarnentos se deslocavam com vida, num cenário mórbido e lúgubre, devorando o que restava dos cadáveres já dilacerados. – Eu não fazia ideia do que se tinha passado aqui, mas algo muito mau deixara a sua marca, por certo. Um ataque aéreo?...Um genocídio?...mas, perpetrado por quem? Éramos nós, e apenas nós quem tínhamos como missão (confidencial), atacar aquela província, e destruir os seus núcleos activos!

Inesperadamente, as minhas indagações foram interrompidas por um gemido agudo e medonho, que me assombrou. Um grito humano; de uma criança, talvez. Eu e os meus homens avançámos na sua direcção, com a esperança de ainda poder salvar alguém. Alguém que nos pudesse traduzir o que se tinha passado ali. Penetramos pela senzala adentro, e oh, Céus! Um cenário macabro de horror residia diante dos nossos olhos incrédulos. Corpos humanos jaziam ali, desfeitos em pedaços, completamente rasgados e dilacerados pelos cães esfomeados, e no âmago daquele cenário macabro, conservava-se uma criança efémera. O inocente chorava, gesticulando os seus braços ossudos, demonstrando um claro desespero, o que fez com que eu me aproximasse dele para o aclamar; afinal eram os seus familiares quem jaziam ali, mesmo à sua frente. Ao tentar agarrar-lhe os bracitos, fui inesperadamente atacado pelo miúdo, que me mordeu nas mãos, e de seguida no braço e peito. Atirou-se a mim como um cão selvagem, tal não foi o vigor das suas dentadas.

Os meus instintos de combatente acusaram...receio. Oh, aquilo não era uma criança normal, ela tinha-se transformado em algo. Num animal raivoso, e eu...tentei matá-lo, mas mesmo antes que o fizesse, vi a sua vida a esvair-se dos seus olhos pequenitos, mas terrivelmente medonhos.

* Abril irrompera pela vida dos portugueses, como o sol, depois da tempestade.

Eu, tal como milhares de camaradas regressava para a minha vida, que tinha deixado anos antes, para combater na maldita guerra. Ansiava voltar a abraçar Leonor, a namorada que deixara desfeita em lágrimas quando parti no Stª Maria, naquela manhã fria de Janeiro de 68. Pretendia também voltar para o emprego que tinha na Siderurgia Nacional, onde eu era electricista. Eu estava de volta. Vivo e cheio de vontade de devorar a vida.

Mas nem tudo estava como eu sonhava. Oh, não de maneira nenhuma. O pior dos pesadelos ainda estava para vir. Na manhã seguinte ao meu regresso, vesti a minha melhor farpela e saí em demanda da minha querida Leonor. Pelo caminho ainda tive tempo de comprar um arranjo com rosas vermelhas. As suas favoritas.

Ela vivia numa habitação dois quarteirões abaixo da minha, e foi num instante que me dirigi à sua porta, onde bati com suavidade. Do outro lado surgiu um indivíduo fininho com ar patético, mas distinto.

- O que deseja? – Inquiriu ele com um ar desdenhoso.

- Quero falar com a Leonor, não se importa de a chamar? – Requeri eu.

- Ela não está...mas já agora, quem é o senhor?

- Sou...espera lá!... – Impacientei-me – E, quem é o senhor? – Perscrutei eu, robustecendo o meu tom de voz.

- Sou o marido!

A frase suou-me como um tiro pela cara adentro. A minha garganta gelara-se e eu não consegui dizer mais nada. Voltei costas. Como pôde ela ter-me feito uma coisa destas? Eu amava-a, e prometi-lhe voltar vivo e inteiro. Casaríamos, assim que eu voltasse...mas ela não quis esperar.

No dia seguinte, dirigi-me a Paio Pires, onde ficava a siderurgia Nacional, pois pretendia falar com o encarregado, o senhor Figueiredo, para voltar para o posto de trabalho que eu deixara vago. Um tipo gordo e de cabelo desgrenhado apareceu-me pela frente e apresentou-se:

- Chamo-me Baltazar. Estou a substituir o velho Figueiredo, que Deus tem... – grunhiu ele.

- Que aconteceu ao senhor Figueiredo? – Apressei-me a indagar.

- Bateu a bota. – Respondeu ele, desdenhosamente. – Mas, o que queres tu?..emprego?

- Hã?...sim. Eu sou electricista, e... – Balbuciei eu, recobrando do choque da notícia.

- Não há emprego rapaz. Tenho apenas uma vaga para as limpezas. Estás interessado? – Perguntou ele com um escárnio repugnante.

Nunca esperei que a minha vida se transformasse neste inferno. Sentia-me tão triste e só, que a ideia de ter morrido em Africa com uma bala na cabeça, perfurou no meu espírito como um consolo mórbido e cruel.

Nessa tarde, regressei a casa cansado e indolente, pois pelo regresso tinha bebido várias cervejas e vinho, que me deixaram meio atravessado. Assim que me deitei, adormeci logo, sem pensar em mais nada.

A lua cheia perturbou a noite com a sua magnitude perversa. O silêncio nocturno incomodou-me, e eu ergui-me da cama num grande impulso irracional. Sentia a cabeça vazia, mas em compensação, o corpo estava forte. Forte como nunca. Tinha fome. Oh, mas não uma fome qualquer. Fome de sangue e de carne crua. O que estava a acontecer comigo?...Os meus braços estavam mais volumosos e...peludos. E os meus dentes!? Oh, céus! Os incisivos sobressaíam até ao lábio inferior! Contemplei a lua, e uivei estridentemente.

- Um pesadelo! Tudo não passou de um pesadelo.

– Suspirei eu, entre suores frios. Mas nem tudo fora um sonho. A fome que eu sentira, mantinha-se, e até se adensara. Olhei-me ao espelho e...estava tudo normal comigo. Mas havia algo que ainda me incomodava e persistia: A fome. Não uma fome vulgar, daquelas que se sacia no frigorifico. Não. Era uma fome voraz e desconforme, que me consumia e descontrolava por completo. Fome de carne crua, de sangue, associada a uma impiedosa vontade de...matar!

Então não esperei mais tempo e sai janela afora em demanda de uma vitima. Ah, mas não uma vitima qualquer. Aqueles que me traíram e me desconsideraram ainda tinham contas a ajustar comigo. Agora, corria-me nas veias um ímpeto de retaliação que eu não conseguia dominar.

Da minha casa, até à moradia de Leonor, demorei poucos segundos, e não pensem que fui bater à porta de novo. Não, desta vez entrei pela varanda das traseiras. Penetrei pelo quarto deles adentro, e vi que o barulho o tinha acordado. A ele, aquele finório que me roubou a minha querida Leonor, enquanto eu combatia pela pátria. Observei que ele pegara numa arma para atirar em mim, mas nem lhe dei tempo para pensar. Pulei para cima dele, e ataquei-o com toda a força das minhas garras, que lhe abriram um rasgão no peito. Seguidamente mutilei-lhe o braço direito com uma dentada apenas. Oh, se vocês vissem o que ele grunhiu enquanto o sangue lhe jorrava do membro amputado. Já não era o mesmo ser desdenhoso que me atendera à porta naquela tarde. Agora ele era a minha vítima. Sorvi o seu sangue e acabei com a vida dele quando lhe ferrei o pescoço, mais precisamente na zona da veia jugular.

O rosto belo e gentil de Leonor transfigurara-se num cariz de horror e pânico perante a minha carnificina canibalesca.

- Eu amo-te! – Suspirou ela entre soluços.

- Por que me esqueceste? – Grunhi.

- Pensei que não voltavas.

- Lembro-me de te ter prometido que voltaria...

- Desculpa!... – A voz dela embargara-se nas lágrimas que lhe escorriam pela face. Considerei em deixá-la viva; ponderei pedir-lhe que casasse comigo conforme prometera. Mas mesmo antes de terminar as minhas reflexões, já as minhas garras a lhe tinham desmanchado a cara, outrora...encantadora. Ela ainda gritou algo, que não cheguei a compreender, mas julgo que fora uma súplica pela sua vida. Mas a traidora não merecia misericórdia e por isso foi esquartejada como uma porca numa festa alentejana. Fi-la sofrer em cada um dos golpes que lhe desferi, até ao último suspiro em agonia mortal. Estava morta. Parecia que dormia, o que me fez recordar, quando dormia em paz, ao meu lado.

Por fim percebi que já me demorava na sua habitação, e de imediato me ausentei dali, sem qualquer estardalhaço para ninguém me ver. Saltei sobre a cobertura, e de telhado em telhado caminhei vários quilómetros, até chegar ao rio. Dirigi-me até ao pontão, e dali mergulhei nas águas sujas do Tejo. Nadei tranquilamente até à outra margem, e levado pelo meu faro agudo, segui o rasto do odor daquele homem nojento que se riu na minha cara durante a tarde. Oh, não pensem que foi difícil dar com ele. Havia uma casa de meninas, onde os encarregados tinham a mania de pernoitar, e foi ali mesmo que fui dar com ele. Esperei que ele saísse para o abordar.

- Lembras-te de mim?

- Oh, claro. És o gajo que quer trabalho. Já te disse: tenho uma vaga para as limpezas...

Nem o deixei terminar a frase, pois parti-lhe o maxilar apenas com a força que imprimi, apertando o polegar e o indicador contra a sua queixada. Depois, levei-o de rojo até um pinhal que havia ali próximo. E foi aí que me vinguei dele.

Dei-lhe um golpe tão forte no estômago, abrindo-lhe um rasgo de meio metro, que lhe fez saltar as vísceras para fora. Seguidamente chacinei-o em todas as partes do corpo, até ele ficar transformado num monte de carne defecada.

Olhei para lua, e notei que ela se degradara no firmamento, tal como a sede de sangue e vontade de matar se tinha esgotado no meu corpo. Apenas restava o meu espírito, que nunca se alterou, e agora estava só. Tinha de regressar a casa. Queria parar com tudo aquilo, e foi o que fiz.

Caí na cama, antes do relógio da igreja irromper pela madrugada, anunciando as sete da manhã. Dormi longa e tranquilamente até ao fim da tarde desse mesmo dia. Quando despertei, recordei-me logo de tudo o que fizera na noite anterior e chorei. Não havia forma de demonstrar o meu arrependimento. Olhei pela janela e vi as pessoas a transitarem livremente pelas ruas. Oh, como eu desejava voltar a ter uma vida normal. Eu sentia que estava doente. A fome de sangue e carne crua, bem como a vontade demoníaca de matar seres vivos, assolava-me a alma, e embrenhava-se no meu esqueleto, deixando-me à beira da loucura. Não sabia o que tinha, mas com certeza fora infectado por alguma doença...O miúdo em África. Teria sido ele?...Os cadáveres que jaziam em seu redor, completamente dilacerados, teriam sido assassinados por ele?... – Talvez! Não havia maneira de saber. Então, só me restavam duas saídas: Continuava a matar até ser preso, ou então, apontar uma pistola à cabeça e carregar no gatilho...