MARE IGNUS


E.R.Corrêa


Talvez devessem estas idéias e estas lembranças jamais serem expostas à luz de outras visões e a símile de outros pensamentos. Contudo, sou tomado por alguma espécie de força semi-oculta e no entanto distinta que me faz, forçosamente, aqui retomá-las e torná-las notórias.
Não há razão aparente para que tudo isso seja novamente trazido à tona, já que as cicatrizes que causaram jamais hão de desaparecer - talvez se auto-devorem como um túmulo de sangue... ou talvez à custa de minha memória e de minha sanidade se desabem num caos inumano de dor para arrastar-me definitivamente aos abismos sem volta da loucura e da danação... aos abismos intocáveis do Universo negro e palpitante, aos abismos tenebrosos do mar sem fim, de cujos segredos os homens um dia hão de ser devorados...
Mas por que o firmamento celeste, com sua abóbada gigantesca e ilimitada, não lançou-me uma luz que contrariasse a idéia de fazer-me ao mar? O oceano revolto estava à minha espera, e ainda assim...
Por que não alvejou-me o cérebro como uma luz cegante que me inspirasse à advocacia, que estava tão ao meu alcance na paulicéia por ocasião da criação dos cursos jurídicos em 1827?
Se fosse, hoje, um homem das leis, não haveria de Ter singrado os mares dos segredos indizíveis, que, a despeito de pavorosos e inimagináveis, conseguem exaltar n'alma uma certa áurea ao mesmo tempo terrífica e excitante, por poucos presenciada. Entretanto, a idéia de me tornar um advogado não me atraía, o que me fez instintivamente percorrer as terras d'aventura e atravessar o Atlântico para, na mui renomada e recomendada Universidade de Coimbra, buscar o acolhimento das ciências naturais, que tanto me fascinavam desde os primórdios da adolescência.
Mas o que de início parecia elevar nos ares o aroma celestial das rosas de Babilônia acabou por empestear com o pútrido bafejo dos esgotos do inferno.
Lancei-me, contudo, ao mar.

Era então o ano do senhor de 1830, e estava eu às portas de desfolhar as páginas amareladas de vinte primaveras. Talvez fosse uma temeridade me lançar sozinho e ao impulso da excitação a uma viagem que de início já parecia dotar o ambiente com algo carregado, sobrenatural, poderia até se dizer... inumano. As nuvens se dispunham de forma estranha, no porto, que tremia rubro ao calor sufocante do verão; era novembro, e as águas ferviam sob a austeridade incontida do sol avasalador.
Afora as idéias que me incendiavam com tal fragor que pareciam ofuscar o que existia de coragem no meu ímpeto, pus-me de mala e cuia no camarote cinco, se é que eu possa me exprimir dessa forma, da mui confortável porém velha e carcomida caravela Santa Inês, onde dir-se-ia balouçar demasiado frágil ao impulso das vagas veranis. Fora forçada, é verdade, a sulcar por anos sem conta os vagalhões impiedosos do Atlântico. Mas era uma daquelas naves que tanto conhecemos na intimidade através da leitura de contos fantásticos, que percorrem o espírito como uma idéia, ou uma lembrança de algo cuja significação talvez possamos encontrar no cérebro de algum capitão baleeiro europeu de épocas remotas. Épocas que povoavam o mar com toda a sorte de monstros; como polvos gigantescos cujos tentáculos facilmente abraçariam a maior escuna holandesa e a amassaria sobre as espumas como uma massa flácida de material gelatinoso; ou um daqueles cachalotes imensos e famintos, com o boca escancarada de forma a abocanhar arpoadores incompetentes, e de cujas fileiras brancas de dentes grotescos se escorriam algas podres de séculos passados; ou ainda as serpentes marinhas que tanto haviam assombrado uma geração de marinheiros nas épocas sangrentas das batalhas navais... Todos esses pensamentos me vinham à mente cada vez que encarava a indiferente Santa Inês.
Contudo, era uma embarcação que inspirava confiança. Hoje, porém, sabe Deus, talvez nem mesmo Ele saiba, que espécie de coisa ou ser guarda seu casco escuro de madeira lavada. É provável que já estivesse escrito em seu traquete de proa, na parte açoitada e dobrada pelo vento salgado do mar, como uma página d'ouro amarelecida pela história, os horrores mil pelos quais todos nós viajantes, marinheiros, visionários, sonhadores, haveríamos de passar. Talvez nas letras vermelhas que lhe santificavam a existência houvesse, escondido, camuflado, de forma inumana e hedionda, um enigma final para um pesadelo iniciado em eras pré-humanas, e guardado, com afinco, por algo que, cedo ou tarde, haveríamos de encontrar.
Tudo isso já circunavegava no meu cérebro; não sei dizer, entretanto, o porquê. É provável que seja a imagem desse livro vermelho de capa corroída e enrrugada como a pele de um verme que tenho diante de mim, agora, que me inspire essa lembrança.
Essa lembrança terrível!

Eu tinha uma bagagem relativamente volumosa, já que pretendia permanecer em Portugal por bastante tempo, além de visitar outros pontos da Europa, para pesquisas e aquisição de livros e novos espécimes. Levava, por isso, quase toda a minha coleção de conchas - que não era extensa, mas congratulava-se de abrigar exemplares raríssimos e de beleza sem igual. Com tudo acertado e todos à bordo, lançamo-nos exatamente no dia 22 de novembro de 1830 aos quentes mares do Atlântico.
É praticamente impossível descrever os sentimentos de excitação que invadiram o meu espírito no momento em que o balançar leve e ritmado da Santa Inês indicava estarmos engatinhando a passos curtos pelo gigantesco oceano. Jamais tinha navegado antes. Era um novato, assim como grande parte da tripulação, composta sobretudo de estudantes.
Mas ali estava o mar!
Soberbo, gigantesco, azul como as safiras que orlam os umbrais ciclópicos dos templos pagãos da antiguidade, e espumoso como os sonhos transparentes dos elfos do Éden! O mar!
Talvez fosse uma emoção demasiada a que eu senti naquele momento, mas, oculto em sentimentos carregados sobretudo de temor, somados à inquietante efervescência do espírito, encontrei-me inteiramente enlevado
Conforme, porém, íamos avançando sobre as águas em direção à Portugal, essas impressões de sonhos e aventuras iam, pouco a pouco, desvanecendo, tal como haviam surgido. Uma estranha espécie de mal-estar ia tomando conta de todos os que, assim como eu, singravam pela primeira vez as águas do mar. O calor, provavelmente, era um dos responsáveis por esses incômodos de viagem, que tão assustadoramente se apossavam de nós.
Os primeiros dias foram realmente um suplício. Reflexo, talvez, dos últimos dias...
A febre, a terrível e corrosiva febre do mar, abraçou-me e aos meus amigos por muitas e muitas noites. Às vezes eu me esforçava por imaginar como o capitão e aqueles demais homens conseguiam manter-se firmes e saudáveis a despeito de toda aquela rotina dura e inexorável, onde dir-se-ia estar a mais cruel e cansativa das obrigações humanas. Contudo, aqueles homens pareciam de bronze, em caráter e aspecto; provavelmente eram filhos longínquos do gigantesco Talos!
Mas preocupava-me certas impressões referentes ao que se costuma creditar à viagens de novatos. Eu estava bem ciente delas, mas tudo transcorreu sem maiores dificuldades, naqueles primeiros dias. Entretanto, preocupava-me, também, o fato de estarmos no verão, com o vento demasiadamente carregado de salinidade, quando era normal formarem-se tempestades veranis avassaladoras. Mas à vista daqueles homens experientes e do capitão sempre calmo e tranquilo, me causava uma reconfortante áurea de quietude. Mas não completamente...
Além do mais, eu nada podia fazer, a não ser confiar naqueles marujos e na providência.
Avançamos.
Eu, como já foi dito, pouco ou nada entendia das técnicas de navegação, e também não tinha interesse algum em tentar descobrí-las ou entendê-las, mas pude perceber que singrávamos águas extremamente profundas, já bem longe da costa brasileira.
O dia 29 de novembro amanheceu escuro, ameaçador; o horizonte estava inteiramente tragado por nuvens roxeadas e de formação estranha, que causava um reflexo sangrento e cintilante na superfície luminosa das águas do mar. Não havia dúvidas que seria um longo e preocupante dia de ameaças.
O mar estava agitado. Algo indescritivelmente repugnante pairava no ambiente, em forma de miasmas urtigantes e blasfemos, e eu pude ler na fisionomia do capitão e dos demais marinheiros a expressão terrífica que marca o início dos problemas que tão bem caracterizam os cursos de navegação nesse período de chuvas. Fora mister, portanto, tomar todas as precauções necessárias.
O vento assoviava cada vez mais forte, trazendo uma salinidade causticante que chupava as nossas energias.
As velas, naturalmente, estavam recolhidas, e vagávamos apenas com o impulso cada vez mais violento da maré, que desde o princípio do dia parecia desprender o véu caliginoso das brumas do inferno e da caligem sufocante do estige. Era o prenúncio do pânico.
- Velas a estibordo!... - gritou o gajeiro, lá do alto da gávea.
Todas as lunetas voltaram-se para a direita, onde, de fato, podia ser visto uma embarcação como um ponto indistinto no horizonte longínquo. Aumentando cada vez mais seu tamanho, todos percebemos que o navio seguia em nossa direção, e, passados muitos minutos, talvez uns quinze ou vinte, pudemos avistar o volume amarelado das velas amainadas.
Uma embarcação estrannha, mas reconhecível.
Ela me causava uma espécie de tremor, pois havia algo de errado naqueles modos rápidos e repentinos de orçar; uma maneira demasiada ousada, levando-se em consideração que estávamos prestes a ser açoitados pela tempestade eminente.
O nosso navio, felizmente, era provido com toda a sorte de atifícios de guerra, o que despertava uma certa..., "tranquilidade", com relação a possíveis temeridades que pudessem vir a efeito em mares tanto disputados.
- Todos à postos - disse o capitão, com sua voz característica e expressiva.
Entretanto, antes mesmo que essa ordem fosse inteiramente cumprida, houve nova particularidade inesperada:
- Objeto não identificado à estibordo!... - novamente gritou o gajeiro, lá do alto da gávea.
E novamente as atenções foram surpreendidas de maneira repentina.
Qual foi a nossa surpresa ao avistar a pouca distância da Santa Inês, no mar bravio e violentamente agitado pelas vagas, uma estranha espécie de escaler, em cujo interior se abrigavam um homem e uma moça aparentemente desfalecidos? Não parecia ser verdadeiro, mas era...
Todos buscamos uma maneira de içá-los à bordo. Entretanto, a empresa era difícil, pois o mar estava demasiado agitado, jogando o pequeno escaler de alto a baixo como se fose um pequeno brinquedo. Estava perto, balouçando vertiginosamente, e só um milagre poderia mantê-lo por mais tempo sem soçobrar. Na realidade, fora um imenso milagre ele ainda estar ali, sobre aquelas águas escuras e revoltas.
A agitação a bordo do navio era imensa - o capitão dava mil ordens ao mesmo tempo, os marinheiros pareciam ratazanas gordas a andar para cá e para lá, em meio aos cordames e mastros, e nós, viajantes leigos a abismar com o oceano e seus segredos pavorosos, buscávamos a melhor maneira de observar os acontecimentos. Por fim, começamos a perceber que seria praticamente impossível resgatar aquelas pessoas. Mas isso seria tentado, indubitavelmente.
A Santa Inês fora manobrado de forma a não perder terreno para o pequeno escaler, de forma que, num vagalhão repentino e violento, ele fora jogado em direção ao nosso navio. Para alguns - inclusive eu - houve tempo.
Caímos todos ao chão, num violento impacto. O tombadilho estava repleto de homens desfalecidos, alguns esmagados por barris e madeiras desprendidas, outros foram levados pela onda traiçoeira e jogados ao mar, na maioria estudantes. Estes jamais foram vistos novamente.
O escaler era pequeno, mas a força com que foi arremessado à nossa embarcação foi o suficiente para causar uma série de danos. Imediatamente homens foram postos a calefetar aonde havia necessidade, e um desses homens conseguiu, embora tenha dado a vida para isso, prender o escaler ao navio, já que estavam praticamente encostados um ao outro. E, graças a essa manobra rápida e fatal, pudemos resgatar os desconhecidos. Foram rapidamente levados ao gabinete do capitão. Um verdadeiro milagre fora o resgate daquelas pessoas - talvez um milagre predestinado e não concebido por Deus...
Eu e mais alguns homens fomos incubidos de reanimar aquelas pessoas, enquanto que o capitão e os outros marujos se ocupavam com o veleiro que fora visto no horizonte e que se aproximava cada vez mais depressa.
Provavelmente fora daquele veleiro que aqueles dois desconhecidos tinham escapado, por algum motivo que imediatamente me pus a averiguar. Porém, o estado em que aquelas pessoas se encontrava era lamentável: a moça, que estranhamente dava a aparência de ser bastante jovem e possuidora d'antes de uma beleza singela, estava terrivelmente magra, decrépita, chupada - muito pouco lhe faltava para tomar as características de uma múmia egípcia de três mil anos! Seus cabelos louros estavam oleosos, enriçados cadavericamente de uma maneira bizarra, etérea, e seus olhos quase inteiramente apagados arquejavam sob o peso da agonia. Dentro em pouco, certamente, a morte roubaria a escassez de vida que insistia em abrigar n'alma...
O rapaz que fora resgatado ao lado dela se encontrava em situação sensivelmente pior, para não dizer que um fio de cabelo podre era o elo que o separava do império de Hades... De alguma forma, porém, mantinha-se consciente, ao contrário da rapariga. Sua pele estava assustadoramente queimada de sol, e em todas as extremidades de seu corpo afloravam hematomas e pústulas sangrentas de odor insuportável e configuração extremamente repulsiva. Onde ainda haviam trapos pendurados, cujo formato muito dificilmente poderia ser associado à idéia de roupa, escorria um líquido sangrento, pulsante, fétido, tal qual aqueles causado pelo derramamento de ácidos fortes. Era quente...
Uma particularidade bizarra, entretanto, chamava a atenção de todos os que presenciavam a cena do possível passamento daqueles moribundos. Na realidade, uma particularidade tão horrenda e repulsiva que, ao lembrá-la, enevoa-me a mente de tal forma que quase me leva ao vômito.
O braço direito do rapaz estava assustadoramente negro e chupado, em tudo parecido com o restante do corpo, com exceção da cor. E de seu pulso brotava uma corrente, que estava de tal forma cravada na carne sangrtenta e pulsante que mais parecia ser uma extensão de seu próprio corpo infectado. Provavelmente a dor não lhe incomodava mais, se é que posso me valer de uma afirmação tão vaga quanto essa. Na outra extremidade da corrente se encontrava um livro - um livro médio, avermelhado, de capa corroída e enrrugada como a pele de um verme, unido inusitadamente por uma grotesca e enferrujada cantoneira de ferro. Toda a sorte de líquidos corporais pútridos se encontravam naquele volume, o qual ele mantinha firmemente fixado ao peito.
Fora difícil, nos primeiros momentos, associar aquela visão ao que se costuma pensar das idéias de salvamento. O próprio nojo que aquilo causava, somado ao estado terminal em que se encontravam os náufragos, impedia a mim e aos outros de tomar uma iniciativa que pudesse auxiliar em alguma coisa.
Contudo, essa iniciativa deveria ser tomada, e quando me propûs a fazê-lo houve repentino choque do navio, que se balançou violentamente num impacto ensurdecedor.
O ataque do navio avistado no horizonte!

Um barulho terrível, estrondoso - não demorei a perceber que os canhões fumegavam à chama da guerra!
Caí violentamente no chão e quase perdi os sentidos. De repente, tudo se fundia numa massa indizível de pânico e caos, gritos e pragas, abalos e quedas! Eram piratas, e estavam sedentos de sangue! Tudo quanto de pavoroso poderia ocorrer naquele mar estava prestes a recair sobre nós... e de uma maneira avassaladora!
Procurei a melhor maneira de me salvar, e àqueles náufragos, que, de repente, me pareciam tão familiares... A rapariga, porém, já fora ceifada, como pude perceber depois de alguns minutos - um enorme caibro lhe caíra no corpo, esmagando-o inteiramente. O rapaz, percebendo isso, se rastejou em direção a ela, deixando atrás de si um rastro líquido de podridão inimaginável, e o livro, que não se encontrava em situação melhor. Corri, também, em direção a eles.
Intrigava-me, sobretudo, aquele livro!... Aquele livro.
Meus olhos curiosos e sedentos estavam como que hipnotizados por ele!
O rapaz mantinha-se, a despeito de todos os flagelos, consciente, e, numa convulsão frenética e terminal, recitou-me algumas poucas e quase indistintas palavras sussurradas, que rolaram de sua língua como um eco burbulhante e peçonhento, antes de expirar e cair pateticamente no sono da morte. Embora ele tenha dito num inglês difícil e arrastado, e com uma dificuldade que ultrapassava as linhas habituais do desespero, eu pude decifrar alguma coisa, já que conhecia fluentemente esse idioma. Embora não talvez ao pé-da'letra eram mais ou menos assim: "- Não morto... está... o que... jaz... na... na... eternida...de... mas... em... em... seu refúgio... ele... ele... espera... a sonhar...". Nesse ponto ele caiu violentamente com a cabeça no chão, já morto. Enquanto isso, os estrondos ensurdecedores e o balançar vertiginoso do navio me tomavam com outras espécies de pavores. Tudo o que pude fazer foi pegar o livro, que veio acorrentado junto ao braço podre do moribundo recém falecido, e voltar correndo ao convés do navio, onde me esperava a mais sangrenta das batalhas.
- Ingleses!!! - disse o timoneiro, antes de cair sobre o timão com o crânio cravejado de chumbo.
Em toda extensão do navio só se via sangue e corpos mutilados. Ele vinha em nossa direção proa contra proa e já estava demasiado perto. Chegaram. Atacaram. Revidamos.
Fiz parte da batalha, saquei da espada, e quando eles abordaram fiz muitos corpos dormirem longe de suas cabeças. Sangue... muito!
Enquanto as bocas dos canhões fumegavam incandescentes, espadas retiniam e nuvens de balas assoviavam sobre as velas, os corpos iam caindo, decepados, queimados, sobre o navio e sobre o mar - jamais se poderá imaginar o horror concebido numa batalha como aquela! Só haviam carniceiros ali!...
As balas retiniam de ambos os lados, enquanto os navios vomitavam homens armados uns sobre os outros, num embalo ritmado por Satã! Fogo.
Enquanto a fumaça negra subia ao céu escuro e tempestuoso, chamas vivas jogavam-se ao mar torcendo-se em maldições e pragas impronunciáveis. Haveria, porém, de chegar um horror maior do que aquele...
O mar estava agitado, a tempestade se insinuava cada vez mais próxima e os homens pareciam tomados do espírito da guerra e benzidos com o sangue virgem da alcova acetinada do diabo. Foram-se, com isso, as esperanças. Matar-nos-íamos uns aos outros, sem escolha... A sorte fora lançada e afundada com seu próprio peso, no oceano negro e vivo. Entretanto, a batalha ia alta a ferro e fogo. Livrei-me o quanto pude das garras de um demônio para quase cair nas garras de outro. O capitão há muito fora envolvido pelas espadas inglesas, cujas lâminas ansiavam pelo meu pescoço - não lhos entreguei!
Desde que eu tomara posse daquele livro, que mantinha incontinente sobre o meu casaco, parecia que alguma força ao mesmo tempo terrífica e benéfica me auxiliava. Valendo-me dessas sensações eu pude tirar forças da fraqueza e da inexperiência para manter-me vivo. Vivo!... VIVO!...
Mas, horror dos horrores!
Pasmo entre os delírios mais insanos da mente humana! Caos e trevas sem precedentes na história, dos quais fui vítima e testemunho vivo. Vivo!... VIVO!...
Quando o sangue e o suor há muito já imperavam sobre as espumas rubras do mar, por onde boiavam cadáveres a perder de vista, surgiu uma coisa, um ser, uma entidade, , algo cuja definição extrapola tudo quanto de fantástico já foi escrito ou mesmo imaginado pelos cérebros mais tendentes ao horror. Era uma gigantesca criatura tentacular, escamosa, indecisa entre o vermelho e o marron, com um gigantesco olho aquoso, negro, desprovido de brilho, a boiar na extremidade, envolto do qual emergiam bizarros filamentos alongados, formando uma espécie de cílios demoníacos. Não poderá ser descrito o horror e o medo que causou aquela aparição inesperada. E tão pouco o horror que causou aquele som ululante e gutural vindo de suas gargantas - gargantas que certamente conduziriam ao inferno!
Aquilo, contudo, não era algo que pudesse ser classificado na longa lista que engloba todos os seres conhecidos do reino animal. Com a facilidade com que me vem à mente aquela forma hedionda e como participante ativo dos horrores pelos quais fomos todos tomados a bordo do Santa Inês posso, indubitavelmente, lhe atribuir o nome de demônio - não haveria de Ter mesmo uma designação mais apropriada àquela hedionda e indizível forma de monstro. Das profundezas do oceano revolto e escuro, varrido a cada instante por ondas colossais e arrasadoras, o ser chacoalhava seus tentáculos pegajosos e espumantes, que segregavam uma espécie de ácido cor-de-rosa altamente corrosivo e fétido, como aqueles exalados por laboratórios de porão.
O ser deveria Ter mais de vinte tentáculos. Em alguns aspectos mais proeminentes, ele lembrava um polvo, não tanto pela disposição desses tentáculos e de suas ventosas, mas sim pela configuração pouco volumosa da cabeça, que se projetava de uma forma relativamente parecida com a dos grandes moluscos octopus.
A imagem fora tão repentina e inesperada que sou levado a crer que todos, naquele momento de caos sem precedente, estivessem ainda sob seu impacto para voltar uma centelha sequer de atenção a qualquer ataque mútuo e eminente das embarcações. De repente, a nossa guerra, que a essas alturas já fora interrompida, não passava de um episódio mesquinho e insignificante, cujas piores eventualidades não poderiam causar mais terror do que aquela enorme criatura - tanto a nós quanto aos piratas ingleses. Estávamos, pois, em equilíbrio de condições. De tudo por tudo, só posso lembrar que daquele mar salpicado de espumas sangrentas e pútridos bafejos se levantava apenas um miasma etéreo de desolação e lágrimas.
No momento em que subiu à superfície, a criatura estava mais próxima da escuna inglesa, e seus tentáculos se puseram imediatamente a envolvê-la. O mar balançava em ritmo vertiginoso e os homens se jogavam às águas em meio ao mais desenfreado pânico, na esperança de, pelo menos, não morrerem nos braços daquele monstro. De imaginação é difícil conceber o horror que fora instalado naquele momento. Uma imensa mancha rubra tomava conta do mar, em meio a destroços de madeira e cadáveres frescos que eram rapidamente dissolvidos. Na esperança de salvar um de nossos homens, que caíra no mar envolto desajeitadamente nos cordaimes de um mastro quebrado, puxei-o de volta ao navio com toda a força do meu ser. Mas, ao içá-lo completamente, percebi que da cintura para baixo, que tudo que restara era uma massa escorrida e pútrida de gosma gotejante. Com total repulsa e pavor joguei-o de volta às águas. Parecia uma vela derretida, condensada e embebida por algo cuja definição estou longe de compreender... mas ainda assim procuro compreender!
Dezenas de outros homens tiveram o mesmo fim. Nem sequer o fogo, que consumia o navio inimigo em labaredas cada vez mais altas, conseguia afugentar aquela enorme entidade oceânica, que chacoalhava seus tentáculos com uma fúria avassaladora e incontida, destruindo mastros e jogando marinheiros em seu ácido corrosivo e efervescente.
Nossa embarcação também sofreu as influências daquele turbilhão inesperado, de forma que só não fui arremessado também por estar firmemente amarrado a uma pilastra do convés, que estava bem acima do nível invadido pela água. Tinha, ainda, esperanças de me salvar, e ao livro, a despeito de tudo...
Provavelmente foi do seio mais recôndito do inferno que proveio aquela hedionda besta ciclópica e terrífica. Era uma entidade inimaginável movida a sangue e vísceras - dissolvia e engolia os homens com uma saciedade crua e torturosa, onde dir-se-ia atravessar o inferno para cair, enfim, na dimensão além onde os tormentos são de longe imaginados pela mente mais insana e cruel! Ali estava a personificação demoníaca das forças ocultas do mar, embalada pela espuma corrosiva e cor-de-rosa, enquanto se nutria de homens.
Poucos ainda restavam vivos naquele caos.
Nosso navio fora terrivelmente avariado, mas não havia sido inteiramente consumido pela água. Estava, porém, assustadoramente inclinado, de forma a mostrar que em pouco tempo soçobraria. Naquele instante pude perceber que um de nossos escalers ainda estava intacto. Esforcei-me o quanto pude para chegar até ele e soltar as amarras para lançá-lo ao mar pela popa, na parte posterior. Mas imediatamente percebi que a idéia seria impraticável - a probabilidade de êxito era nula: seria o mesmo que soltar um brinquedo no centro caótico de um furacão!
O mar se agitava em violentos vagalhões; o céu estava escuro, as águas salpicadas por gigantescos círculos multi-coloridos de espuma e massa corrosiva, fazendo uma impressionante variação cromática e fantasmagórica de branco, vermelho, cor-de-rosa, verde e negro. Uma áurea luminosa pairava sobre essas águas. Ou seja, não havia esperanças...
Era certo que caminhávamos para uma morte terrível, a qual esperei que viesse me abraçar o quanto antes. Mas ela não veio, ainda...
Num balançar brusco do navio, caí violentamente ao convés, batendo com a cabeça em alguma coisa... sólida.
Perdi os sentidos.

A príncipio pensei estar acordando em um outro Universo.
Tudo estava calmo, tranquilo, irreal - o ar estava puro, respirável, não com aquele odor nauseante e tóxico.
Fazia um calor agradável. Porém, meu corpo doía em toda sua extensão; estava tomado por um cansaço extremo, exagerado. Minha mente febril era um turbilhão de imagens amorfas e distantes, como se um quadro terrivelmente colorido tivesse sido colocado à minha frente e eu tivesse que decifrá-lo, a quilômetros de distância. Não havia dúvida que eu não podia fazê-lo, assim como não podia decifrar de imediato o que se passara a bordo da Santa Inês durante todo o tempo.
Minha vista ainda estava turva, dolorida, cansada, e só com muita dificuldade consegui distinguir os objetos e o gigantesco oceano azulado que se estendia à minha frente. Mas aos poucos ela foi se recuperando, e só depois de alguns minutos pude perceber que escapara da morte e estava no que sobrara de um daqueles escalers... aquele!
A minha primeira visão daquilo tudo foi o suficiente para injetar um fio de estímulo no meu cérebro conturbado e amorfo, de forma a fazê-lo voltar ao passado.
Mas antes não tivesse feito...
Lembrei-me de tudo, e, como que tomado de um espasmo vertiginoso e peçonhento, comecei a tremer. Por um primeiro instinto, procurei por um outro sobrevivente. Não o encontrei, e tão pouco encontrei qualquer cadáver.
O céu estava azul, calmo, com mechas volumosas de nuvens brancas e macias como o algodão. Uma brisa refrescante soprava à minha direita, trazendo-me o odor mais acolhedor que se pode esperar do oceano infinito... o cheiro da terra!
Não pudia vê-la, é claro, mas pudia sentí-la, o que já era o suficiente para me tranquilizar. Mas, no final das contas, eu sabia que não tinha nada a temer...
Ainda assim, porém, comecei a temer os males piores...
Lembrei-me do moribundo acorrentado ao livro, e, consequentemente, lembrei-me do livro. Eu ainda o tinha comigo, mais firme do que nunca, e sabia porquê.
Ninguém fora poupado. Somente eu.
Talvez porque somente eu tivera a prudência de salvar aquele volume de capa vermelha e enrrugada como a pele de um verme. Talvez porque aquele jovem não tivera competência o suficiente para fazê-lo, a despeito de Ter se acorrentado a ele de forma a conseguir escapar das mãos sanguinárias dos piratas ingleses. E talvez porque, mesmo causando repugnância e asco, esse volume consiga me transmitir alguma idéia oculta, vaga, submersa, mas possuidora de um poder hipnótico e fantasioso, que inspira respeito e admiração.
Somente isso explicaria o meu temor por ele.
E somente isso explicaria porque consigo entendê-lo, ainda que esteja escrito numa língua estranha e inumana. Pelo menos não tive que acorrentá-lo a mim para salvar-me - se é que estou, aqui na Terra, salvo. Poderá um elo ainda mais terrífico estar me esperando... Poderá haver num futuro indeterminado um braço ainda mais negro para me levar, na hora certa, e no momento certo, aos abismos inumanos das trevas e do caos. Haverei então de, antes disso, passá-lo para outras mãos, até que não reste mais nenhuma.




Nota: Esse conto foi publicado originalmente no fanzine "Juvenatrix" # 45 (Junho de 2000), editado por Renato Rosatti.