MASSACRE DE CADÁVERES PODRES


E.R.Corrêa


Parecia que sua vez jamais chegaria.
Demorava. Demorava. Anos no lodo e na lama, no esquecimento e na podridão. Anos sem conta a romper o silêncio inabalável do túmulo. Urna de pedras a guardar as cinzas...
Aquela noite, assim como todas as outras, seria longa. A Lua clareava os túmulos. Sua luz amarela despejava raios incandescentes e frios, mortos e vivos, brilhantes e baços, entre a neblina.
Uma luz sulfúrica que clareava os corpos, as cabeças, as carcaças decepadas, arregaçadas, trituradas, dependuradas, como um retorcer funéreo na noite longa dos séculos...
E o sortudo daquela noite, sua única noite, a qual esperava por séculos, caminhava, chutava, espancava, dilacerava e, em meio a sangue fresco e restos putrescentes de épocas remotas, saciava sua sede de horror e maldição. Era a sua noite, era a única noite, e ele devia aproveitá-la...
E ele conseguia aproveitá-la.
Dezenas de corpos eram arrancados de suas sepulturas e esfacelados impiedosamente até que não sobrasse nada além de massas pútridas de irreconhecível composição. Até que lodo verde e carne cinza não pudessem ser mais distinguidos. A cada cair de porrete, blá!... Um estouro... e o miolo saltava pelo chão. Mais uma lápide de mármore a cair e blá!!... Todo o corpo se fundia na lama para desaparecer no caos da podridão infinita e inexorável. Com dificuldade ele arrastava suas pernas para lá e para cá, entre os arbustos. A Lua rompia as nuvens e apontava um túmulo novo, um túmulo fresco, um cadáver ainda branco e reconhecível, e lá ia ele. Blá! Blá!! Blá!!!... Só restava um resquício perdido entre massa amorfa de carne pútrida.
Um túmulo velho, corroído, roto, esquecido, servindo de vaso a aparar o líquido fétido e nojento que gotejava das criptas... e os ossos, muitos, dezenas, centenas de ossos, amarelos, embolorados, úmidos, indignos, qual pérolas brilhantes a gargalhar da vaidade humana... Um levantar de punho e eram todos transformados em pó pela fúria incontida. Blá!
Mas a noite ainda era uma criança, e lá ia ele.
Uma jovem - ceifada da vida com a beleza ainda resplandescente. Ele a encarava, com seu olho dependurado por um fio de nervo vermelho e corroído de vermes. A beleza da jovem durava pouco naquela cripta de mármore. Uma cruz era feita de porrete e pronto. Vermelho, branco, cinza, verde, amarelo, e a massa pútrida da jovem exalava pelo mausoléu... As gárgulas olhavam, indiferentes, na sua frieza de pedra enregelada. Frio. Chuva. Lama. Podridão. Neblina. Madrugada... Cruzes em torno, arrastar de trapos qual múmia do deserto. Viagem sem volta, escuridão infinita, como cair de olhos abertos num ramo de espinhos...
Seu pé esquerdo ficara para trás, em meio à lama... Pouco importava. Seus braços estavam ali e era tudo de que necessitava naquela noite tranquila.
Uma coruja, e um pio funéreo. Bater de asas na neblina densa e arrastar de corpos no lamaçal sem fim. Garoa. Neblina. Já não há mais Lua. Escuridão e cruzes, restos e lápides, números, identificação de corpos. Um crânio, e uma porretada. Pedaços.
Seu braço direito não aguentara o impacto e se rompera. Talvez devesse parar, afinal. Sua ira, sufocada na frieza imponderável da terra, fora toda descarregada naquela noite e ele podia, agora, dormir em paz... até que viesse um outro na noite seguinte a lhe espatifar. Sua ira de duzentos anos fora descarregada. E agora, a aurora, num fio de luz a romper a neblina e a se insinuar no horizonte. E ele, enfim, reconhecera o término. Sua carcaça ambulante, vacilante, fétida, nojenta, horrível, asquerosa, inominável, volta, rastejante, ao seu túmulo. A noite esperada por duzentos anos acabara. A dele.
A minha começa amanhã