MASSACRE DE CADÁVERES PODRES - Parte 2
E.R.Corrêa
Minha noite.
Qual múmia solitária, arrasto minhas pernas pela escuridão.
É tarde. É frio. E sigo.
Cambaleando, sigo em direção a lugar algum, para matar minha fome. A fome de destruição que carrego em minha alma. Em minha alma repleta de vermes. Dormi por um longo tempo, ninguém veio me liquidar, e agora chegou minha vez. E ali está: o primeiro. Um corpo inerte e putrefacto, mas intacto, esperando a ira que acumulei durante todos esses anos sombrios de esquecimento. Blá! Já não passa de uma pasta viscosa repleta de vermes esmagados. Suja. Imunda. Infecta.
Ainda tenho forças, e sigo.
Tomo de um porrete e dele faço minha arma de vingança.
Um crânio, dois, três, quatro, cinco crânios informes empilhados numa cripta gotejante. Uma, duas, três, quatro, cinco violentas porretadas e tudo o que restou foi um amontoado sorridente de ossos estilhaçados, em meio à lama sem fim. Splafthhh!!
Chove. Faz frio. Torço-me nas trevas, envolto numa pestilência infernal.
Sigo em frente, e um novo corpo: Rapidamente transformo-o numa massa sangrenta e amorfa, de indizível configuração. Deixo-o para trás. Vejo a Lua, em meio aos vermes nojentos e peludos que passeiam pelo meu olho esquerdo, devorando-o. Sinto dor. Mas também a fome de vingança, por isso sigo em frente no cemitério infinito.
Desolação. Cruzes em torno. Lama. Vermes. Criptas, horrendas e informes. Esvoaçar solitário de criaturas da noite. Corpos. Blá! Blá!!
Minha fúria não tem limites. Corto, dilacero, esmago, esmurro, estilhaço, piso, vou de encontro e devoro. Sangue podre e massas em decomposição escorrem pelo meu queixo sequioso. Babo uma pasta esverdeada e sigo em frente, observando. Caio. O mármore pontudo vem de encontro ao meu olho e o vaza, fazendo esguichar o líquido pestilento que o preenche. Não importa. Sigo às apalpadelas e por instinto sinto os corpos em suas covas imundas e rasas. Não economizo porretadas e dilacero-os todos, numa fúria crescente. Blá! Blá!! BLÁ!!!
Já não os vejo, mas sinto sua miséria sem fim e dela me alimento. A lama é profunda, dificulta meus movimentos, e por isso me arrasto, já sem forças, tentando puxar a todo custo a carniça de que é feita meu corpo semi-devorado. Perco o perna esquerda no caminho. A noite vai passando. Continuo.
Um novo corpo. Já não tenho o porrete, por isso uso as mãos de garras afiadas, e dilacero-o, esquartejo-o, devorando suas entranhas e rolando em sua polpa semi-líquida e pegajosa, perdida num saco de moscas infinito.
Mas já não tenho forças, e paro. Silencioso, ouço o gotejar da garoa nos corpos em decomposição. Já se foi minha vez. Espero. Estremeço. Tenho fome.
Sinto a presença de cães carniceiros. Se aproximam, uivando, querendo-me. Grammmmm!!! Dilaceram-me. Focinhos raivosos atravessam minha barriga putrefacta. Já não tenho braços. Minha noite, prematura, esvai-se como miasmas pestilentos de podridão inexorável. Sinto crescer ao meu redor o nevoeiro e toda sua desolação fria e pegajosa, enquanto as bestas me esquartejam com avidez. Lá se foi minha outra perna. Brigam por ela. Dor. Sinto-me uma pasta dilacerada. Um trapo rasgado. Um toco de carne e ossos arrebentados, jazendo no lodo, arrastado para lá e para cá, numa fúria incontida. Meu pescoço, e agora...
GRHHHHHH!!!!!UORHHHHH!!!!! CRASHHHHHH!!!!!!!!!
NOTA: Esse texto foi inspirado numa história chamada "Conto Splatter-Trash Bradburyano", escrita por E. R. Corrêa e publicada originalmente no fanzine Astaroth # 25 (maio/2000), editado por Renato Rosatti, e que depois foi rebatizada como "Massacre de Cadáveres Podres" e publicada novamente em 15/11/02 no site Boca do Inferno.
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