MEMORANDO
E.R.Corrêa
"Tenha piedade Satã, desta longa miséria!"- Baudelaire
A obra está feita. Resta-me agora registrá-la nestas folhas para posterior utilização como um manual prático para práticas horrendas. Dir-se-á após a leitura de tão estranho documento que nada mais sou do que um bruxo. No entanto, tal rotulação não me ofende, e está longe de me causar qualquer tipo de aborrecimento. Porém é necessário deixar registrado este meu trabalho, fruto de noites em claro e dias em planejamento, e certamente o leitor terá a certeza de que sou um expert em assuntos que se referem à táticas de crimes monstruosos, porém perfeitos.
Há algum tempo atrás, numa cidadezinha paulistana (que prefiro manter no anonimato), aluguei um pequeno porão de cujas paredes não se achava nenhuma janela. Ao penetrar-se ali, dir-se-ia fétida; não obstante, até que fosse por mim ocupada, a sinistra furna gozara de boa fama. Para chegar a tão obscuro covil, era necessário enfrentar uma íngreme escada de pedra, escorregadia e gelada, dificilmente acessível à pessoas doentias.
Ninguém se atrevia a descer às profundezas de meu lar, pois minha reputação nunca foi muito boa aos olhos da humilde população. Orgulhava-me de minha pequena coleção que, embora bizarra aos fornecedores, eram completamente normais, e antes disso, eram úteis, como utensílios de trabalho.
Sobre minha lousa, que era mais útil como mesa, viam-se frascos assim rotulados: venenos.
E os continha de todas as espécies e para todos os efeitos; sutis, violentos, vertiginosos, convulsionantes, estupefacientes, isto é, que proporcionam a morte, mais ou menos lenta, mais ou menos rápida, conforme o equilíbrio orgânico da vítima. Encontrava-se de tudo naquela prateleira capaz de fornecer o óbito a um exército inteiro: desde a beladona, o estramônio, a mandrágora, o ópio e todos os seus derivados, o arsênico, a estricnina, a cicuta, até o terrível veneno das bórgias e o afamado elixir da dupla vista, que fazia enxergar através dos corpos mais densos e opacos; fórmulas estas que consegui graças a humilde generosidade de um cigano que se dizia de origem romena.
Porém, todo esse acervo de "felicidade" era ignorado por mim como fonte de alívio aos pobres mortais. Sempre tive como objetivo dar passaporte "dessa para melhor" de forma ousada e trabalhosa. A não ser em casos extremos de necessidade urgente de se providenciar a morte de um rival ou simples aborrecedor. Ao meu ver, toda obra deve ser fruto do trabalho e não do acaso, ela deve ser trabalhada e esculpida, para se gozar plenamente após o seu enceramento.
E era com esse objetivo que eu pretendia lançar-me de corpo e alma a uma tarefa demasiado trabalhosa.
Numa das dependências acima de meu fétido porão, a mais soturna, se domiciliara um modesto operário, mais conhecido como .A..., casado com interessante rapariga, que ele, por sua vez, mantinha guardada à sete chaves. Porém, certo dia, pude encará-la de frente, e desde então tracei imediato plano de destruição e ruína. Passei um bom tempo a estudar todas as características de minhas vítimas, sem, no entanto, ser-lhes indiferentes, pois jamais costumo cometer vulgaridades comuns. Pude notar, com o passar do tempo, que o tímido casal passou a alimentar um certo receio de mim, inclusive evitando a todo custo, saírem na rua às horas da noite que geralmente eu me encontrava. Porém, este receio só me causou maior excitação, pois para um aventureiro como eu, o medo da vítima é de bom agouro nas aventuras arriscadas.
A pobre mulher era mais atingida pelo meu cerco psicológico, ocasionando um medo voluntário, que poderíamos chamar de "medo procurado". Deste medo passou para o terror, do terror resvalou na curiosidade; e quando a filáucia feminina se desperta e aguça, necessário se torna amplamente satisfazer. E foi o que aconteceu.
Então, obedecendo unicamente aos meus instintos sanguinários, cogitei ferino em isolá-la do resto do mundo, não porque a amasse, mas por motivo de ódio implacável à humanidade. O marido porém, sempre fora meu estorvo e cumpria liquidá-lo, e de forma horrenda e desumana, com o intuito somente de satisfazer minhas vontades, já que estas eram impulsionadas pelo ócio.
Para acelerar meu processo de destruição, procurei insinuar-me na intimidade do infeliz casal, o que, depois de um longo cerco e empréstimos de favores, consegui. Eu bem poderia ter-me socorrido de qualquer meio fácil, do magnetismo por exemplo, para coagir aquele desgraçado ao julgo de minha vontade; mas tudo isso seria um trabalho sem dificuldades e - o que é pior - excessivamente rápido. E preferi, como já disse antes, chegar a resultados, não menos expeditos em seus processos, porém calculadamente frios e perversos em seus ativados efeitos.
Pensei então no modo de impelir o infeliz A... ao suicídio, e isso foi para mim, relativamente fácil, levando-se em consideração a minha superioridade cultural em relação ao pobre homem.
Depois de mostrar-me inofensivo e, diria até útil, ao infeliz casal, passei a frequentar-lhes a casa e fazer companhia a ambos embora com dificuldade em tirar da cabeça de A... a idéia de visitar o meu covil, já que este, uma vez exposto, pudesse levar todo o meu plano por água abaixo. Despistei-lhe o quanto pude, mas a persistência de A... causou-me embaraço e vi que seria forçado a ceder-lhe o pedido. Finalmente levei-o ao meu aposento com o pretexto de pedir-lhe ajuda numa experiência científica, pois apresentei-me a ele como químico, para contornar, senão de tudo, grande parte do problema que achei ser perigoso. Mas estava totalmente equivocado, pois a ignorância e a inocência de A... excedia, em muito, o limite que eu havia determinado.
De fato, ele achou estranho todo aquele equipamento que compunha o ambiente de minha furna solitária, mas não demorou a se acostumar com a idéia de residir próximo a um cientista (não sou um cientista, usei este termo por achar que mais estava perto de se comparar com a natureza antropofágica de meu aposento).
Após certo período de convivência, comecei a incutir-lhe no espírito idéias de grandeza, de glória, abri-lhe um novo horizonte, indefinível, longínquo, alcançado somente pelos deuses. O pobre A... se via maravilhado ante a idéia de se tornar um homem honrado perante os amigos e poderoso ante seus semelhantes. Depois, acendi-lhe na alma o delírio das riquezas, dos vastos caminhos a se percorrer em busca da fortuna e conforto. Não pude deixar de notar um brilho enlouquecedor nos olhos do pobre homem ante a idéia de se tornar um homem rico e livre do fatídico trabalho ao qual se via forçado para suprir o seu sustento.
Através de meus discursos ilusórios e comoventes, podia manipular aquele infeliz como desejasse, tornei-lhe todos os sonhos um emaranhado de idéias possíveis e joguei-lhe na alma uma centelha de esperança. E o pobre se nutria desses sonhos para devanear sua nova perspectiva de vida.
Depois dessa fase de grandiosidade utópica, comecei a desenvolver, no pobre diabo, a mania de perseguição. E com esse intuito, criei-lhe inimigos por toda parte, rivais nos afetos da consorte, concorrente ao seu lugar nas oficinas, vizinhos que o tocaiavam, oficiais de polícia que o espionavam, monstros e criaturas de toda sorte que o espreitavam nos obscuros confins da sua mente. O desespero e a paranóia era total. Eu via A... corroendo-se aos poucos em sua agonia; era penoso o seu estado psicológico. Passou a maltratar a esposa.
Eu me surpreendia pelo fato de não saber como aquele cerebelo, por mim assim empolgado, resistia a tão fixas maquinações!
Porém, o inevitável aconteceu. E seguiu-se, ao meu ver, um tanto demorado, pela capacidade psíquica da vítima.
O rude operário enlouqueceu; seu espírito, sempre assombrado, sempre inquieto e alerta, descobria a cada passo inimigos ocultos, até ali não existentes, impossíveis, inimagináveis. Ele via monstros de outros planetas atacando a Terra, cada sombra ocultava um vampiro, uma poça d'água era um mar de torturas e vertigens que causariam a sua morte.
Se o torcia uma cólica, logo atribuía a um planejado envenenamento. Não comia, não bebia, nem mesmo água fresca. Renunciara ao próprio sono, com medo que seus perseguidores, aproveitando-se desses momentos de passivo repouso, penetrassem, favorecidos pela escuridão da noite, no seu aposento, e pusessem em prática seus planos malévolos.
A moléstia progrediu de maneira avassaladora; quem o visse dir-se-ia um louco arrasado e corroído pelo caos da insanidade. Despediram-no da fábrica. Sobreveio, então, a miséria, e com ela, as vissitudes, os desgostos, o abandono de si mesmo: e daí as frequentes rixas com a companheira, os pugilatos, recrudescências da mania, um louco furioso.
Passou a manter-se trancado sozinho no quarto, hora gritando, hora chorando, hora rindo; por vezes o ouviam blasfemar e condenar-se por não possuir um palácio distante dos homens para viver em tranquilidade. Por fim, num acesso de fúria, o pobre infeliz veio a mim com o intuito de pedir-me ajuda, e me forçou a todo custo que colocasse um término em suas infelicidades e desgostos.
Assediado por tantos males, atormentado pelas figuras imaginárias que eu pusera em ação, e por tantas outras reais que, a seu turno, a vítima reconhecia, justa ou injustamente, que importa!
Ele sabia que não restava outra alternativa a não ser, morrer. Porém, negava-me a ajudar o pobre infeliz - não era a hora ainda - meu intento era levá-lo além da ruína humana; mostrar-lhe o próprio inferno em vida e assegurar-lhe que se morresse, seus sofrimentos seriam infinitamente maiores. Mas foi em vão - a minha frustrante tentativa de prolongar seus tormentos não funcionou. A pressão das angústias do infeliz, era maior.
Para escapar aos seus algozes, refugiou-se, por fim, na morte: atirou-se pela janela do aposento em que ocupava no terceiro andar com uma corda no pescoço. Pude presenciar o espetáculo: seu corpo contorcia freneticamente e parecia lutar instintivamente contra a morte, mas já era tarde. Pelo impacto do salto, seu pescoço não aguentou e partiu. Sua cabeça rolou próximo aos meus pés e seu corpo magro e desajeitado caiu violentamente em uma poça de lama, que, em poucos minutos, se transformou numa poça de sangue.
Nem a mais pequena suspeita recaiu sobre mim; um crime perfeito.
Cumpria agora elaborar a ruína da pobre companheira de A....
Instintivamente a infeliz moçoila veio procurar consolo em mim, pois estava relativamente familiarizado com ela desde algum tempo antes da morte do infeliz moribundo. E foi demasiado fácil tomar-lhe toda a confiança e respeito; e mais fácil ainda impor-me como senhor absoluto da situação. Aos poucos, eu adentrava nos confins do pensamento da jovem viúva e ditava-lhe as novas regras, embora estas fossem camufladas nos favores e cordialidades.
Aos olhos da população daquela pequena cidade, eu apenas estava prestando uma ajuda à moça, já que a trágica morte do marido, havia comprometido cruelmente a sua saúde. De fato, tal pensamento era bastante aproveitável e resolvi levá-lo adiante como uma realidade, pois tornaria meu intento mais praticável.
No início fui-lhe um companheiro normal, embora aproveitando ocasiões para importuná-la, sem, no entanto, evidenciar que tais aborrecimentos provinham de mim. Pequenos aborrecimentos como causar-lhe impressões de pesadelos, embora estas impressões eram causadas com a ajuda de uma droga que eu possuía, e quando ministrada em doses adequadas, colocava quem a tomasse, num estado de semi-sonolência, causando a impressão de estar dormindo.
Aproveitando-me dessas ocasiões, eu praticava com a infeliz moçoila, toda sorte de promiscuidades. Pequenas incenações causavam longos e horrendos pesadelos na viúva. Houve uma ocasião que, munido de coragem e força de vontade, eu trouxe, do cemitério local, a cabeça descarnada, mas ainda definível, de A..., a moça não aguentou a visão de tal artefato e no dia seguinte disse-me que era necessário abandonar aquela casa imediatamente, pois ali estava "impregnado o mal".
Com muito esforço, a convenci que tudo era um pesadelo, fruto da recente tragédia, e ela se sentiu mais aliviada e optou por continuar na velha casa. Porém, passou a serem normais os seus frequentes ataques de nervos, já que estes, há muito tempo, eram constantemente imolados psicologicamente. Usei, no decorrer desse tempo, técnicas demasiado simples para perder tempo em descrevê-las, por isso, e por outras razões, irei relatar fatos menos inconvenientes (?).
Sua loucura já se tornara visível e seus atos já revelavam sua doce insanidade. Não há maneira melhor de levar uma pessoa à loucura do que incutindo-lhe na alma desejos grandiosos dos quais ela venha a se decepcionar mais tarde. Mas é preciso, antes de paciência, muita técnica e sabedoria. Não é para qualquer um. Principiei desta forma meu intento.
Disse à viúva que seu falecido marido estava muito bem antes de sua loucura e que pretendia viajar pelo mundo levando a pobre moça consigo, pois ele conseguira grande soma em dinheiro. Levantei falsas afirmações a respeito de A... que, apesar de tudo, a fizeram ficar mais alegre. Houve uma vez em que a moça, suavemente conformada, disse que aguentara o peso da morte de seu marido pelo fato de saber que ele, agora, descansava no paraíso. Esta oportunidade de envenenamento de alma eu não podria perder e disse, num tom de tristeza, que o pobre A... queimava no fogo do inferno, pois nos desígnios de Deus todos os suicidas sofreriam eternamente. Coloquei ainda mais veneno na afirmação dizendo que ela tinha sido a causa da ruína do marido. Ela negava, nervosamente negava... a ponto de chorar e gritar. Eu sempre terminava o diálogo consolando-a, porém usando a irônica tese de que a ruína do marido provinha dela. A partir deste momento, ela voltou a sentir seus antigos sintomas de loucura.
Aproveitei novamente o estado psicológico da moça e disse-lhe que estava perigosamente doente, e a coloquei de cama. Inventei uma série de doenças e ela acreditou realmente possuir todas. Por fim, eu tinha criado uma hipocondríaca em estágio terminal, mas sempre reanimando-a, de forma a continuar a enlouquecê-la. Seu estado psicológico era ainda mais penoso do que o de A... antes da morte!
Resolvi, daí em diante, fazer uso de meus conhecimentos de assuntos referentes ao magnetismo, para usá-los como veículo de influências na pobre moça. E confesso que foi relativamente fácil colocá-la em total transe por influência dos meus métodos. Estes métodos, no entanto, eu aprendera com um gênio norte-americano que usou do mesmo procedimento para magnetizar um tal de Sr. Valdemar.
Só que a moça não estava com os dias contados pela determinação de sua saúde: estava com os dias contados pela determinação, unicamente, de minha vontade. E resolvi por um término no meu trabalho.
Um dia a coloquei num transe diferente, era um método que só funcionava se a vítima estivesse dormindo. E depois da influência magnética suas funções, aparentemente, não funcionavam, era um transe muito profundo. Mas na realidade estavam em perfeita ordem de funcionamento, embora com um ritmo e regularidade superficialmente lento. Porém, este transe seria rompido se a vítima acordasse repentinamente.
Numa dessas ocasiões, assim que a moça passou para o sono profundo, caprichei na influência magnetizadora e a entreguei às autoridades do vilarejo, dizendo, em tom de tristeza, que a pobre moça fora vítima da depressão e adoeceu até sobrevir a morte. Não houve nenhum tipo de comentário que pudesse me incriminar e eu procedi com extrema cautela em todos os detalhes de tal maneira que qualquer suspeita seria amplamente encoberta.
Por fim, deu-se o enterro; um enterro simples assim como a vítima permitia. Os leigos da cidadezinha, no entanto, não souberam um só momento que levaram à tumba uma mulher viva.
Quando a pobre moça acordasse, e isto, segundo meus cálculos, se daria pouco tempo após o enterro, veria tão somente escuridão eterna. Talvez seu desespero fosse amenizado pela sua própria loucura, já que sua mente, há muito, estava transtornada.
Considerei isto como o encerramento da primeira parte do meu serviço. A segunda eu acabo agora: era relatar o acontecido.
... A obra está feita!
Nota: Esse conto foi publicado originalmente no fanzine "Juvenatrix" # 26 (Agosto de 1998), editado por Renato Rosatti.
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