MORTE E MÁGOA
Claudia Alanah
Era uma noite quente ,só amenizada pela brisa marinha que de quando em vez se fazia presente. Eu estava saindo do bar onde trabalho, em frente ao cais principal do porto de Salvador quando eu percebi uma movimentação estranha, apesar do horário me aproximei com certa segurança por ser amigo do vigia, cheguei ao portão de ferro que separava a rua do cais em si, tive que forçar a visão para ver o que acontecia ali, gritei pelo Nelson, o vigia, mas não houve resposta.
Haviam muitos barcos àquela hora, sem muito esforço abri o velho portão, o Nelson devia ter saído para comer e deixou a corrente sem cadeado, típico dele. Algo me atraía a adentrar cada vez mais ,varando a escuridão consegui chegar ate o cais principal. Além da brisa só se ouvia um farfalhar de tecidos. Olhei para todos os lados freneticamente. Um cheiro de lilases me invadiu as narinas. Estranho porque não era carnaval e as pessoas não podem fazer oferendas no porto.
Ri daquele absurdo. Ouvi o som de tecidos balançando novamente. Dessa vez mais forte. Não havia lua no céu, nada que pudesse me orientar.
Chamei pelo Nelson de novo. Seria ele? Improvável.
Comecei a fazer o caminho de volta quando tropecei num saco. Ou em algo que parecia ser um saco, na escuridão eu não via nem um palmo diante do nariz. Mas inesperadamente ouvi um gemido, vindo do “saco” no chão. Me abaixei para ouvir mais de perto. Era o Nelson. Aflito, tentei colocá-lo de pé, em vão.
A cada toque que eu desse nele, ele gemia de dor. Estava evidentemente muito ferido.
- Quem fez isso com você, Nelson?
- Foi ela – ele sussurrou entre um gemido e um lamento.
- Ela quem, Nelson?! – eu já estava nervoso.
- Ela... - Ele não tinha mais tempo de vida, a respiração já estava escassa, e sua roupa estava encharcada de algum liquido viscoso, sangue provavelmente.
Foi então que eu a vi. Estava sentada na proa de um dos barcos ancorados. Onde ficava a única iluminação, logo no começo do cais, por onde eu havia passado. Um frio inexplicável me corroeu... Ao longe eu podia ver seus contornos, uma mulher alta num vestido preto. Me aproximei com a promessa ao Nelson de que voltaria para pegá-lo depois.
Ela balbuciava algo, uma música, eu não ouvia nitidamente. Quanto mais perto eu chegava mais agonizante era o som, uma canção triste, um lamento. A mulher era muito bonita, ela me encarava e não parava de cantar. Ela estendeu a mão. Parei. Não consegui formular as palavras. Ela andou em minha direção e pude perceber que o vestido dela não era preto, estava manchado de sangue ressecado.
Ela me envolveu. Quis me soltar, estava aterrorizado com o que aconteceu com o Nelson, em vão.
Ela sussurrou no meu ouvido:
“Você é melhor que ele, não é ?Ele já estava velho demais e isso não foi muito justo por todo o trabalho que eu tive com ele. Mas ainda bem que você apareceu. Tão jovem, será meu.”.
Ela me abraçou, me sufocou e passou a me arrastar. Para o portão. Não sabia por que não conseguia me mexer. Tentei gritar mas nada saía. Ela me violentou durante horas, aquele corpo feminino , frio e metálico, o cheiro da morte, era a isso que ela cheirava.
Acordei no outro dia, em frente ao Mercado. A culpa do crime do Nelson recaiu sobre mim, fiquei preso por 10 anos, com redução penal por bom comportamento. Ah, o Nelson morreu por hemorragia externa devido à perda das duas pernas até abaixo do joelho. Dez anos na cadeia e eu descobri muita coisa. Ainda passo pelo porto às vezes. Ainda hoje não achei uma explicação racional para isso tudo...enfim...às vezes me pego cantarolando aquela música, o lamento daquela mulher-fantasma.
“Venha a mim o mar. A brisa, o sal. Meu bem foi embora. Meu bem não pretende voltar. Voltar para o meu acalanto. Voltar para o meu amor. Será que entre o céu e inferno vou ficar? Se ele não voltar? Será meu. Meu para sempre. Meu amor nunca morre. Então volte. Até lá serei forte.”
Claudia Alanah
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