NOITE MALDITA


Dimitri Kozma

Um carro cinza escuro corta a madrugada. Apenas uma lanterna funcionando, não é um carro muito novo, dentro dele, três amigos perambulam pela cidade quase abandonada, é uma Quarta-feira e não existe muito movimento nas ruas.

O motorista, um jovem de vinte anos, cabelos raspados, boné virado para trás, enrola um punhado de maconha num papel de ceda enquanto dirige, o amigo que está do lado, um rapaz mais magro, olhos grandes e pele alva, diz em tom reprovador:

- Mauro, vai derrubar tudo, deixa eu fazer!

- Fica frio! Edu! Eu tenho anos de prática!

O outro rapaz, que se encontra no banco de trás, aparentando ser menor de idade, rosto com algumas espinhas proeminentes e boné de um time de futebol americano enfia a cara entre os dois bancos da frente e grita:

- É isso aí, o Mauro é o máximo, esse cara sabe como preparar um bagulho!

Mauro reprova, enquanto se entretém em enrolar o baseado:

- Você está me saindo muito engraçadinho pro meu gosto, Júlio, quer voltar a pé prá casa? Quer?

- Calma, Maurão! Eu tava só brincando, calma aí! – Encosta-se novamente no banco.

- Então não enche o saco... Eu não te falei que era embaçado trazer seu irmão com a gente. Edu?

Edu, enquanto revira o porta-luvas em busca de um isqueiro, diz:

- Esse moleque tem muito que aprender, Mauro, e eu acho que é a função de um irmão mais velho, né?

Lambendo a borda do cigarro, Mauro concorda:

- Isso é verdade, bom, vamos ver como seu irmãozinho se comporta...

Pega o isqueiro da mão de Edu e acende o cigarro, não pára o carro por um instante, nesse momento atravessa uma avenida enorme, nem percebe que acabara de passar num sinal vermelho. Dá um trago e passa para Edu a seu lado, enquanto diz: “Esse é do bom... Não falei que conseguiria um bom?”

Edu pega o cigarro e dá dois tragos profundos, segura um pouco o ar dentro de seus pulmões e solta, dando mais uma baforada leve, diz:

- Pode crer! Esse daqui é campeão! Com quem conseguiu?

- Com aquela mina do colégio, tá ligado? A mina comprou cem gramas e tá vendendo na boa...

- Quem? A Gabi?

Enquanto conversa com Mauro, Edu passa o cigarro para seu irmão, ele pega, mas queima a ponta do dedo, tenta disfarçar e ninguém percebe. Mauro diz:

- É, a Gabi! Aquela mina é muito gostosa, não é? Tava tentando dar uns catos nela, mas a vaca não quis, por isso é que eu não vou mais comprar com ela não... Temos que arrumar um outro fornecedor.

O jovem Júlio dá uma forte inspirada naquele tubinho de papel, começa a tossir copiosamente até ficar vermelho, Mauro diz:

- Tá vendo, novato é foda! Olha aí seu irmão, Edu! Engasgou!

Edu vira-se e diz para Júlio:

- Dá essa porra aqui. Você não vai fumar mais hoje, ouviu?

Enquanto se recupera da tosse, o garoto implora:

- Porra, Edu! Deixa de frescura, me devolve esse bagulho! Senão eu conto tudo pro pai... – abre um sorriso maroto: “O que você acha?”

Antes mesmo de colocar o cigarro na boca, Edu o devolve para o garoto:

- Acho que você é um grandessíssimo filho de uma puta! Toma essa merda! Fuma! Explode! Não tô nem aí!

Mauro ironicamente fala:

- Hum! Quer dizer que o grande Edu tem medo do Papi?

- Larga mão, Mauro, você sabe que é foda! Ainda mais depois que a nossa mãe morreu... o velho se preocupa prá cacete comigo e com meu irmão. E ele não é nenhum santo, você sabe o que ele faria se soubesse o que estamos fazendo...

Enquanto passa por uma pequena ruazinha num bairro nobre da cidade. Mauro pergunta:

- Não sei não... O quê?

- Ora! Ele seria capaz de matar, o cara é violento prá caramba! Eu não queria nem imaginar o que aconteceria se...

Um arrepio percurre a espinha de Edu, o irmão Júlio, depois de mais uma inalação, passa o cigarro para Mauro e diz: - É sério, Mauro, o véio é o demônio!

Edu continua:

- Mas a uma hora dessas, deve estar cheio de mulheres lá em casa, o cusão contrata putas prá fazerem compania prá ele, acredita? Outro dia eu cheguei em casa e lá estava ele com duas vagabundas, aquelas bem nojentas. Porra! E depois vem com moralismo prá cima da gente...

Mauro entende:

- É isso que eu acho embaçado, mano! Eu pelo menos não tenho esse problema, morar sozinho foi a melhor coisa que eu fiz na vida, bem, na verdade foi a segunda melhor coisa, a primeira foi quando eu dei um pé na bunda da Elaine, lembra, Edu?

- Pode crer! Aquela mina tava caidaça por você, né? E você nem aí prá ela, e olha que era muito gostosa!

- Puta mina escrota, cara! – Completa Mauro.

Edu olha pela janela por alguns momentos, percebe um taxi estacionado um pouco ao fundo, do outro lado, vê um cachorro comendo restos de lixo espalhados pela calçada. Então conta:

- Meu! Lembra daquelas duas que a gente catou na festa da Solange? Lembra? Puta merda, outro dia ela me ligou, veio com um papo que estava com saudades, coisa e tal, mas eu falei que não dava mais, que estava num outro esquema, a mina me deu o número do Bip, tá aqui, ó! Eu lembro que você tinha achado ela bonitinha...

Mauro passa o cigarro para Edu enquanto fala meio displicentemente:

- Qual, aquela loirinha?

Edu segura o cigarro e dá um trago, prende por alguns segundos, soltando em seguida, dizendo:

- Não, a morena, de cabelos cacheados, lembra? Eu tinha catado ela e você ficou com a amiga, então, se tiver a fim, eu tô com o número do Bip, liga se quiser...

Lembrando-se Mauro comemora:

- Puta! Lembrei! Porra, aquela mina é muito gostosa, aquela bunda! Só de imaginar eu já fico de pau duro! Tem as manhas de me deixar o número do Bip? Tem?

- Claro, amigos são prá essas coisas, e além do mais, te devo uma, lembra da Mariana? Bom, eu não vou querer ligar prá ela mesmo, vou colocar o número no seu porta-luvas, beleza?

Mauro sorri radiante:

- Beleza! Vou passar uma mensagem amanhã mesmo!

O pequeno Júlio assiste a conversa meio deslocado, não conhece nenhuma das pessoas de que eles falavam, mas estava maravilhado com o cigarro de maconha que estava fumando, a roda de fumo se segue, até que finalmente o cigarro acaba, Mauro diz:

- Porra, esse não deu nem pro cheiro, vou querer mais...

- Bola outro aí, Maurão! – Edu fala, enquanto estrala os dedos.

- Mas eu não tô a fim de maconha não, Edu... Eu tava a fim de uma coisinha mais forte, tá a fim? A gente pode ir comprar...

Edu fala sem pestanejar:

- Claro!

Júlio escuta aquilo e enfia a cabeça entre os dois bancos da frente novamente:

- Meu! É foda! Vocês querem ir prá uma bocada? Eu tô fora!

Mauro vira-se, sem parar de dirigir, com um dedo em riste grita ferozmente para Júlio:

- Olha aqui, seu moleque! De quem é esse carro? Meu! Quem quis vir por livre e espontânea vontade? Você! Quem tá em minoria por aqui? Você! Então não enche mais o saco, tá?

O garoto se encolhe no banco novamente e diz com uma cara emburrada:

- Tá certo, tá certo! Não falo mais nada!

Fica um clima meio pesado, e para quebrar o gelo, Edu liga o rádio, tenta sintonizar uma estação que preste, mas só encontra pastores pregando o caminho de Deus. O barulho começa a irritar Mauro:

- Desliga essa merda! Tá me doendo o ouvido!

Edu vira-se para ele:

- Calma, cara! Você tá estressado? Porra! Vamos curtir a noite numa boa, beleza?

Mauro esfrega os olhos e concorda com Edu:

- Desculpa, cara, é que eu tô meio na fissura, tô com vontade de cheirar!

Edu diz:

- Beleza! Eu também tô! Vamos procurar uma bocada e a gente já resolve isso!

Júlio nada diz, apenas assiste aquilo com um olhar absorto.

O carro continua varando a noite sem destino, agora passam por debaixo de um enorme viaduto, Mauro repara numa família inteira vivendo ali em caixotes de papelão, uma fogueira os aquece do frio. O silêncio imperava, dá uma olhada no relógio: Três horas da madrugada. Finalmente fala:

- Olha só esses miseráveis, mortos de fome! – Muda de assunto: “Você conhece algum lugar prá gente comprar, Edu?”

Tenta se recordar, coloca um dedo na têmpora e dá uma batidinha, tentando ver se aquilo ajuda a refrescar a memória, finalmente diz, meio relutante:

- Acho que tem uma bocada num bairro na zona norte, se eu não me engano... Um amigo meu me falou que já comprou lá, mas eu não sei aonde fica, se eu...

Mauro sem pestanejar é veemente:

- Então é prá lá que nós vamos, não importa aonde fica, a gente acha!

A velocidade constante é de aproximadamente cento e vinte quilômetros por hora, o carro vara a rodovia expressa como um foguete, sem ao menos se importar com os radares detectores de velocidade que estão espalhados por ali. Finalmente chegam a um bairro pouco conhecido na zona norte, as luzes são fracas, algumas queimadas ou depredadas, não existe uma viva alma nas ruas estreitas, são quase vielas, o chão é de terra pisada, repleto de poças mal cheirosas. Mauro foi forçado a diminuir a velocidade com medo de que arrebentasse o eixo do carro devido as ondulações das ruazinhas.

Edu olha para os lados tentando encontrar alguma coisa e seu irmão Júlio tira um cochilo, deitado confortavelmente no banco de trás.

Mauro diz:

- E aí Edu, onde fica? Você não tem idéia?

Júlio acorda mas permanece com os olhos meio cerrados, fazendo força para despertar do torpor, enquanto Edu fala:

- Eu te falei, Mauro, eu não sei aonde fica, tô procurando...

- Vai ser foda a gente encontrar alguma coisa por aqui...

- O problema é o seguinte – Explica Edu – Esse bairro ainda tá muito bom prá ter uma bocada, acho que se a gente quiser achar alguma coisa, temos que ir prá uma favela ou alguma coisa parecida...

Júlio faz um esforço sobre-humano para dizer:

- Pessoal, tô com medo... Vamos embora daqui...

Os dois ignoram o que Júlio disse e continuam a conversa:

- E você acha que tem alguma favela por aqui, Edu?

- Não sei, nunca vi esse bairro na minha vida, não tenho a menor idéia de onde estamos, espero que você tenha, Mauro.

Tentando esconder uma visível preocupação, Mauro confessa:

- Prá te falar a verdade, eu tô meio perdido já faz um tempinho... Mas não tem erro não! Depois que a gente encontrar a boca e comprar pó vai ficar tudo mais fácil.

Olhando para o lado, Edu apenas vocifera:

- Espero...

É impossível precisar quanto tempo passou, mas foram substanciais minutos, Júlio diz:

- Mauro, parece que a gente tá sempre voltando pro mesmo lugar...

Tentando acalmá-lo, Mauro tranquiliza-o:

- É que as ruas por aqui são muito parecidas, além do mais, tem tanta entrada que parece um labirinto... Mas já já eu me acho, fica frio.

Edu liga o rádio, imediatamente Mauro desliga, dizendo:

- Ficou louco, Edu? Quer chamar atenção? Quer?

Edu espanta-se:

- Puta paranóia, Mauro!

Justifica-se:

- Paranóia nada, cara! É embaçado, a gente tá perdido aqui e ainda mais você quer atrair ladrão? Vamos ficar na boa, beleza?

Edu concorda:

- Tem razão, tem razão...

Júlio olhando pelo vidro fala:

- Olha ali, pessoal! Um cara, vamos perguntar prá ele...

Edu olha também e vê um rapaz negro, cabelos raspados, arrastava uma perna, aparentemente bem vestido e diz:

- Acho que é uma boa, ele deve saber de alguma coisa, o que acha Mauro?

Diz em um tom visivelmente alterado:

- Ficaram loucos? Não pensam? O cara é preto! Preto, estão vendo? Perguntar alguma coisa prá ele é assinar o atestado de óbito!

Júlio diz:

- Também não é assim, né, Mauro... Olha lá, o cara tá bem vestido...

Mauro, esfregando os olhos, ralha:

- Você é um moleque irresponsável, Júlio!

Passam o carro ao lado do pedestre, eles o fitam, ele também os olha, num misto de curiosidade e medo, Mauro não resiste e faz um comentário em voz baixa, mas o vidro estava aberto e o homem pode ouvir claramente: “Preto nojento!”

Uma ladeira se aproxima, o carro sobre rapidamente enquanto o pedestre cocho avança lentamente, finalmente lá encima, Mauro avista outro homem com uma moto, estacionado encima da calçada:

- Olha lá, pessoal, um motoqueiro, agora sim, prá esse podemos perguntar...

Edu, ainda tenta dizer:

- Mas Mauro, você...

Antes que Edu termine a frase, Mauro já vai parando o carro ao lado do homem, um loiro com pele manchada de vitiligo, lábios vermelhos e um brinco na orelha esquerda. Após uma breve olhada, Mauro diz:

- Oi, por favor, a gente queria saber uma coisa... Não sei se você conhece...

O homem fica ali, imóvel, quase que temeroso, com os olhos arregalados, diz:

- O quê?

Meio sem jeito, Mauro toma coragem e finalmente pergunta:

- A gente queria... A gente queria cheirar... sabe onde fica uma bocada por aqui? Você sabe?

Ele assusta-se:

- Não... Não sei...

Encerrando o assunto, Mauro agradece e sai cantando pneu. Edu ainda diz:

- Porra Mauro! Pensei que ia perguntar como fazia prá sair daqui?

- Fica frio que não tem erro, não, Edu!

O carro dobra a esquina e nesse momento ouve-se um estampido seco que ecoa por todo quarteirão. Os três pulam de susto, o coração dispara e Edu receoso pergunta:

- O q-que foi isso?

- Não sei, parecia um tiro... – Responde Mauro.

Júlio grita:

- Cara! Vamos embora daqui!

- Não! Vou dar a volta no quarteirão, vamos ver o que foi isso... – Mauro é decidido e entra na rua seguinte.

- Tá louco, cara! Isso foi um tiro! É coisa séria! Vamos embora rápido! – Edu apavorado tenta convencer Mauro, mas ele é irredutível:

- Eu só quero ver o que foi, não tem mal nenhum nisso, tem? Desencana que eu só vou dar uma volta no quarteirão depois a gente vai embora, beleza?

Os dois irmãos nada respondem, apenas olham-se.

O carro dá a volta e eles podem ver um movimento meio estranho na rua, chegam novamente à ladeira que haviam subido, uma aglomeração se forma onde anteriormente estava o motoqueiro com quem Mauro conversou, chegando finalmente ao auge da ladeira, eles vêem um corpo estendido do chão, uma poça de sangue escorria, Mauro diz:

- Parece que mataram uma pessoa...

O carro se aproxima mais um pouco e Edu constata assombrado:

- É o motoqueiro! Mataram o motoqueiro!

Júlio choraminga:

- Meu Deus!

Um frio na espinha congela a alma dos três, o carro não pode mais voltar, terão que passar no meio da aglomeração. Haviam vários moradores ali na rua, muitos deles de pijamas e chinelos, todos se surpreenderam com aquele barulho e saíram para averiguar, foi quando viram o cadáver recém baleado ali jogado ao meio-fio.

Mauro tenta manter a calma e diz aos dois, calmamente e olhando para frente:

- Seguinte... Não podemos voltar, senão eles vão desconfiar, vamos ter que passar lá pelo meio... vocês dois, mantenham a calma, certo? Tentem agir naturalmente...

Os dois concordam apenas com um murmúrio.

O carro passa lentamente, os três olham para frente, congelados de pavor, não podem ver ao certo quantas pessoas estavam ali, mas eram mais de vinte, Mauro diminui mais a velocidade porque a rua está apinhada de gente, antes mesmo que o carro consiga passar pela multidão, um velho careca com um cachecol enrolado no pescoço observa os três, vira-se para os outros e grita:

- Hei! O que esses garotos estão fazendo aqui de carro numa hora dessas?

O suor começa a escorrer pelo rosto de Mauro, sempre quando ficava nervoso começava a suar como um condenado. Outro morador faz sinal para o carro parar, Edu diz, com os olhos arregalados e branco de pavor, sem mexer muito os lábios:

- Meu Deus! Querem que a gente pare, e agora? Já pensou se descobrem que a gente estava usando drogas, já pensou o que o meu pai ia fazer? É melhor... É melhor a gente fugir...

Com o suor jorrando de seus poros, Mauro, enquanto aperta o volante firmemente com as duas mãos, tenta ser otimista:

- Fugir não! Vamos... Vamos parar! Afinal não fizemos nada, não é? E vocês dois mantenham a calma, não devemos nada... Não temos nada a ver com a morte desse cara...

- Eu falei prá gente ir embora, não falei, Mauro? – Diz Júlio, apavorado diante da situação.

Mauro finaliza a conversa:

- Cala a boca! Vai dar tudo certo.

O carro estaciona do lado oposto ao do cadáver estirado no chão, imediatamente um dos moradores, um homem de meia idade com óculos espessos e barba por fazer, abre furiosamente a porta do lado de Mauro, que estava destrancada e já vai inquirindo:

- O que vocês fazem aqui uma horas dessas?

Júlio começa a tremer como vara verde, não consegue se conter diante de uma pressão tão intensa, mas esconde o rosto atrás do banco da frente, tentando disfarçar a nevrose. Edu não consegue esboçar nenhuma reação, apenas olha para frente, com o pescoço duro de tensão, as mãos apoiadas nas coxas, apertando firmemente.

Mauro, ainda apertando o volante, olha o rosto furioso do homem e vê que não tem outra opção a não ser sair do carro, meio nervosamente ele se levanta, lentamente, a transpiração não cessa, a camisa está encharcada, passa a mão na testa tentando limpar o líquido que vertia de seus poros e responde relutante:

- A gente... A gente se perdeu... V-viemos visitar um amigo e nos perdemos...

Outro velho morador que ouvia tudo um pouco afastado se aproxima:

- Visitar amigo, heim? Não tá meio estranha essa história não?

Mauro responde enquanto esfrega as costas da mão na testa:

- É sério! Amigo de infância... Ele se mudou faz... um tempo...

- E qual é o nome dele? – Pergunta o velho, cada vez mais ressabiado.

- O nome dele? O nome dele é... é... M-Mauro... – Mente descaradamente, não imaginava outra solução, não podia falar a verdade, não poderia dizer que estavam perambulando por ali em busca de drogas. Seria quase que confessar um crime. Mas é relutante e deixa transparecer no seu semblante que estava mentindo, Mauro nunca foi um bom mentiroso, desde os tempos de criança sempre foi pego quando não dizia a verdade.

O velho barrigudo, trajando um pijama amarelo ovo com manchas de gordura, chinelos rasgados, cabelos despenteados alvoroçados ao vento e exalando um forte cheio de pomada, olha lentamente Mauro de cima a baixo e pergunta:

- Mas onde ele mora? Qual rua?

Mauro se apavora:

- Rua? Não sei... – Abaixa os olhos por alguns segundos e então enfia a cabeça para dentro do carro e pergunta: “Edu, qual é a rua que nosso amigo Mauro mora? Você lembra?”. Olha-o por alguns segundos enquanto lança um olhar cúmplice para o amigo.

- Eu... perdi o endereço... – Responde Edu, apavorado segurando as lágrimas. Júlio apenas olha, a respiração não passa livremente por sua traquéia, que está fechada de nervoso.

Com um olhar de dúvida, o velho ainda pensa por alguns segundos e diz:

- Muito estranho isso, né? Os dois, saiam do carro também... Rápido! – Aumenta a entonação a medida que fala.

Prontamente atendido, os dois irmãos sentem um frio no estômago. Quando Júlio sai, constata-se se suas calças estão todas urinadas, um forte cheiro invade o olfato de todos. Suas pernas tremem involuntariamente. Coloca as mãos na frente, tentando disfarçar, mas com este ato apenas consegue chamar mais atenção.

O velho diz:

- Sabe... acabaram de matar o filho de nosso amigo Teotônio, Ele estava arrumando a moto para trabalhar amanhã e mataram ele... Covardemente... Mataram a troco de nada, nem roubado foi... Apenas por diversão... Mataram por diversão...

Os garotos apenas escutavam calados, olhando para o infinito, não conseguindo focar a atenção em nada, o velho continuava:

- É curioso isso, né? Matar por diversão... Tem gente que se diverte com cada coisa... Será que... – Olha cada um dos garotos nos olhos e diz: “Será que... Vocês não estão escondendo alguma coisa?”

Mauro toma a palavra e diz afobado:

- Eu juro, senhor, não estamos escondendo nada, estamos perdidos, só isso...

- Vamos ver isso... Hei, Carlos, dá uma revistada no carro desses moleques.

Eles estão virados em direção ao corpo, e não podem ver o carro sendo revistado atrás deles, Edu pensa desesperado: “Vão encontrar a maconha, estamos fudidos.” O velho continua olhando atentamente para o rosto dos três e continua a falar em um tom quase que de monólogo:

- Sabe... A gente mora num bairro meio afastado da cidade, nenhum prefeito se preocupa com a gente... temos uma certa dificuldade em conseguir policiais prá patrulharem nossas ruas... e a violência tá cada vez maior. Sabe o que fazemos?

Os garotos apenas olham, apavorados. Júlio não consegue mais se conter e começa a choramingar, seu nariz começa e escorrer e ele suga de volta o catarro que teima em sair. Edu e Mauro olham-se discretamente tentando estabelecer uma comunicação. - Nós mesmos fazemos as leis por aqui. – Conclui o velho.

Essas palavras perfuram como facas as almas dos garotos. Os olhos vermelhos e assustados se arregalam e quase saltam de suas órbitas, uma gastura invade o estômago de Mauro, Edu sente uma corrente gelada percorrer sua espinha e as lágrimas escorrem livremente pelo rosto de Júlio.

Antes que alguém mais pudesse dizer alguma coisa, uma voz grave vem de dentro do carro:

- Olha só o que achei aqui...

Os garotos viram o olhar para trás e lá estava ele, segurando uma arma na mão, era ele: o negro cocho que haviam cruzado momentos antes de falarem com o motoqueiro.

- Olha só pessoal, estavam carregando essa arma, ainda está quente, é a arma do crime!

Ouve-se um uníssono alarido que vai se intensificando, Mauro não se contém e grita histérico:

- Mentira! Foi ele, foi ele que matou o motoqueiro! Foi ele!

Tenta avançar descontroladamente em direção ao homem, mas imediatamente dois fortes homens o seguram pelos braços, ele se debate, tentando se soltar, mas percebe que é em vão, jamais conseguiria, o cocho continua:

- Também achei isso! – Mostra um reluzente pacote de cocaína, todos se espantam.

Edu apenas fica ali, parado, sem nenhuma reação, Júlio se desmancha em lágrimas e agora não tenta mais esconder seu desespero latente. Mauro, ainda preso pelos braços, grita ferozmente:

- Por favor, nós não sabemos de quem é isso, não sabemos de quem é! Nós queríamos comprar pó, mas não achamos, por favor, isso é um engano! Ele tá querendo nos incriminar!

Ao mesmo tempo Júlio também grita, enquanto chora:

- Por favor, a gente não fez nada!

O velho de pijamas diz:

- E porque Carlos iria querer incriminar vocês, o que ele ganharia com isso? Ora! Já não dá mais prá mentir, falem a verdade, vai ser melhor prá vocês.

Tentando de todas as formas convencê-los de que aquilo tudo não passava de uma armação, Mauro ainda consegue dizer:

- Mas essa é a verdade...

Antes que ele possa continuar, um homem barbado, calçando botas pesadas de couro, desfere um forte chute em seu estômago, que o faz despencar no chão. Permanece ali, deitado, se contorcendo de dor. Edu abaixa-se para tentar acudi-lo, grita:

- Mauro! Mauro! Você tá...

Não conclui a frase quando é surpreendido por uma paulada na nuca, cai de cara no chão de terra, seu rosto fica em carne viva, ainda tenta se levantar, mas outra paulada o leva ao chão novamente.

Júlio grita até sua voz se esvair completamente, ajoelha-se perante o irmão desacordado e o abraça, as lágrimas parecem não ter fim, não diz nada, apenas grita, exaurindo-se em prantos.

Um chute nas costas o joga para alguns metros na frente, levanta-se e tenta correr, gritando desesperado, chamando a polícia, mas um dos moradores o segura pela camisa, ele não tem escolha e resolve se defender, mas agora já é tarde, cinco pessoas se aglomeram em torno dele e o jogam junto a Mauro e Edu, Mauro ainda se contorce de dor no estômago, mas tenta se levantar, em vão, desequilibra-se e cai encima de Edu, que permanece desacordado. Mais uma vez tenta se levantar, mas uma paulada no rosto frustra seus planos, o sangue escorre do nariz, misturando-se com o suor, que não cessa mais. Ainda grita:

- Não! Não fizemos nada! Não! Por favor!

Mas seus gritos são abafados pela multidão aos berros pedindo o linchamento dos rapazes. Júlio já não tem forças para reagir, seu corpo é surrado sem piedade. Uma velha, que assistia a tudo pela janela com um prazer indescritível, berra:

- Mata! Mata! Assassinos!

No momento seguinte, toda a multidão está pisoteando os três jovens, que estão sofrendo de fortes convulsões e dores terríveis, sem nenhuma chance de reação. Num ritual sádico e sem precedentes, aqueles garotos sofrem como cães. Mauro ainda se mantém acordado, preferindo que estivesse como seus amigos, que já não tinham consciência, ele sofre a tudo aquilo sentindo cada centímetro de dor em seu corpo, que a esta altura já era uma massa de sangue, seu rosto estava desfigurado e as forças para gritar já não existiam.

Uma visão hedionda, indescritível, a torrente humana extravasando seus sentimentos mais doentios naqueles jovens, alguns segundos depois, resolvem capotar o carro, cinco pessoas são suficientes. Enquanto isso, os jovens começam a levar pedradas que abrem feridas terríveis, uma delas atinge a cabeça de Edu, que se esmigalha, os pedaços de cérebro se esparramam pelo chão e seu corpo ainda se contorce. A esta altura, Mauro já não tem mais consciência, está desacordado, um dos moradores puxa seu maxilar com um pedaço de madeira, desprendendo-o da cabeça. Finalmente, após longos minutos de tortura escabrosa, o velho de pijamas ergue os braços e grita:

- Parem! Parem! agora é a vez do pai, o Teotônio!

Surge um opulento velho de barba vasta, corpo descomunal sem camisa, com uma larga bermuda rasgada e carregando um facão na mão, a atenção de todos vai para ele, o olham com dó, afinal acabara de perder o filho querido, um garoto exemplar.

Teotônio olha fixo para os garotos, seus olhos estão vidrados, não pisca, não esboça a menor reação, seu rosto é austero, tem uma aparência truculenta, doentia. O silêncio impera naquele lugar, nenhum dos presentes diz mais nenhuma palavra, não é necessário, o único barulho que se pode ouvir é o dos espasmos involuntários dos jovens estirados no chão. Dirige-se lentamente em direção aos garotos, todos já sabiam o que Teotônio iria fazer, aquilo iria compensar a perda do filho. Observa-os por mais alguns segundos e, um a um, vai desmembrando seus corpos. Com estocadas secas e precisas de um açougueiro, os pedaços são uniformes, aqueles nacos de carne esparramados pela rua causam um deleite coletivo. O sangue jorra como uma fonte e se mistura com a terra pisada.

Ao fundo Carlos, o negro cocho, apenas observa tudo, feliz, tira um pacotinho do bolso, coloca um pouco na palma da mão e discretamente aspira aquele pó branco.