O QUE ESTÃO FAZENDO?

(A PERGUNTA QUE JAMAIS PODERÁ SER FORMULADA)


E.R.Corrêa


Havia sempre uma diferenciação no modo como eles tratavam as novas sementes. Era quase como um ritual, gostava de pensar o cientista chefe, o biólogo responsável. Bem, ritual não era uma palavra apropriada, uma vez que eles estavam manipulando elementos orgânicos extremamente complexos – elementos que significavam nada menos que a manipulação da vida. Eram as sementes.
Pode parecer simples, agora.
O caso é que a tecnologia havia avançado nos últimos cinco anos como não pudera fazer no século precedente inteiro. Parece incrível, mas é simples. É como se eles tivessem descoberto a caixa das mágicas – a caixa que estivera guardada ansiosamente embaixo de seus próprios narizes. Eles haviam descoberto como criar a vida!
E não se intimidavam diante do que tinham pela frente, a despeito de se verem perdidos num labirinto de possibilidades.
Quantas combinações poderiam haver? Quantos tipos de vida? Seria possível inverter todo o processo de metabolismo e criar vidas dependentes de elementos que, para si próprios, eram fatais?
Talvez.
Ousadia era a palavra chave. Mas tais experimentos, naturalmente, não poderiam ser feitos em condições normais de temperatura e pressão. Deveria haver um jeito de ir um pouquinho mais longe e transportá-los, quem sabe, para um planeta distante, onde as condições fossem extremamente diversas, e onde fossem oferecidas possibilidades que, fora a excitação em si, ainda pudessem trazer resultados concretos e inesperados. E, com tais objetivos, eles prosseguiram.

As experiências se tornavam cada vez mais complexas.
Mas a verdade é que não sabiam onde iriam chegar. Não sabiam o que o futuro lhes revelaria. Talvez não fosse prudente levar as coisas além do limite da segurança e da compreensão. Talvez fosse melhor compartilhar o conhecimento.
E, de fato, na esperança de seguir além, eles compartilharam o conhecimento, até que aconteceu o inesperado, e houve a ruptura da luz. Houve a invasão. Houve a morte pelo paradoxo.
O paradoxo.

Mas a biologia molecular (e suas milagrosas sementes de vida) não era o único ramo da ciência que despertava a atenção dos estudiosos. A verdade é que a física, em paralelo, estava ofuscando tudo o mais que não fosse a si própria.
Eles descobriram como criar a vida? Nós, físicos, descobrimos como abrir portais para outros Universos! O que acham?
Nós poderíamos, entretanto, classificar tal singularidade como uma competição. A ciência não costuma perder tempo com vulgaridades como competição, mas somente uma parcela significativamente pequena das pessoas podia perceber tal fato.
Não existiam coisas do tipo “Biologia versus Física”. Mais ridículo do que isso era só a idéia da imprensa com relação aos próprios descobrimentos, que, a partir do momento em que foram revelados, se transformaram em banalidades tais que os próprios cientistas se arrependeram de tê-lo feito naquele momento.
Contudo, muitos poucos sabiam das verdadeiras correlações entre as experiências já em andamento, e já havia transposição tanto de idéias como de resultados.
Poderíamos até imaginar um diálogo do tipo:
- Nós, biólogos, estamos interessados em receber colaborações.
- Temos muito a oferecer, mas ainda não temos certeza quanto ao fato de haver – ou não – algum tipo de rejeição por parte das sementes; afinal, elas serão transportadas para um outro Universo.
- O que vocês imaginam que pode acontecer?
- Ainda não podemos fazer idéia? Mas, e se for algo semelhante ao encontro da matéria com a anti-matéria?
- Sei, o resultado pode ser catastrófico em nível inter-universal. Pode haver o fim!
- Pode haver o fim.

Planeta Terra, 2143 d.c.

Às voltas com a agitação do dia que antecedia a maior experiência da humanidade, embora a humanidade não soubesse de nada, os poucos cientistas que tinham acesso às informações e aos resultados pareciam calmos, quase frios; mas, um olho brilhando de modo anormal aqui, um punho sendo cerrado nervosamente ali, além de outras coletâneas de pequenos indícios, deixavam claro que havia apreensão.
Por quê?
Porque estes cientistas haviam descoberto como viajar no tempo! No dia seguinte haveria a experiência derradeira; aquela que fora cuidadosamente estudada e preparada nos últimos 54 anos, 6 meses e 18 dias.
Por que tanto tempo?
Porque eles haviam descoberto como viajar no tempo, mas, por incrível que possa parecer, somente para o passado. Por isso, todos os computadores disponíveis foram postos a queimar energia para calcular um jeito de fazer a tal viagem sem deixar qualquer possibilidade de haver aquilo que veio a ser popularmente conhecido como “paradoxo”.
Simplesmente não podia haver enganos, ou toda a história da humanidade poderia ser alterada.
Ora, por mais que eles adiassem a viagem, o paradoxo de qualquer forma já existia, só pelo fato deles terem descoberto como fazer a viagem no tempo!
Mas o simples fato de nada ter sido alterado até agora significava que o computador, nos últimos 54 anos, havia feito um trabalho digno de nota.
Mas...
Os cálculos estavam terminados e o computador estava pronto.
Haveria, finalmente, a viagem. Três cientistas foram colocados para voltar num determinado período do passado de tal forma que nada do que pudessem fazer ou alterar viesse influir de forma significativa no futuro.
E foram lançados.
Porém, o computador não pudera prever uma aparentemente impossível possibilidade. Assim, no exato momento em que foram transpostos no tempo, os cientistas morreram.
Os cientistas e todo o resto da humanidade.

Aquilo que algumas pessoas consideravam uma disputa entre a física e a biologia já havia sido superado, mas restava selar definitivamente os laços que, de uma vez por todas, iriam os unir, de modo que não sobrasse résteas para especulações. Haveria, então, a união de experiências.
Depois de muitos estudos, os cientistas – todos eles – chegaram à conclusão de que nada poderia acontecer de errado transportando sementes orgânicas pré-desenvolvidas a um novo planeta, num outro universo.
E assim, os físicos abriram um portal, para que as sementes dos biólogos pudesse, germinar nesse novo universo. Nada podia dar errado. A analogia matéria/anti-matéria, segundo eles, era ridícula.
Eles estavam enganados.

No mesmo momento em que lançaram a semente para o outro universo, houve o clarão. A invasão. O Paradoxo.
Tudo foi muito rápido, mas não instantâneo.
Antes que a luz envolvesse e esmagasse tudo, os físicos e os biólogos puderam ver uma nave atravessando o portal. E foi tudo.
Não puderam ver os três cientistas que estavam lá dentro. Os viajantes do tempo. O fruto da germinação de suas sementes.
Talvez, se tivesse havido algum tempo, físicos e biólogos teriam dito, aos forasteiros:
- Fizemos vocês.
(A resposta que paira, ainda perdida, no tempo e no espaço).

Esse conto foi originalmente publicado no fanzine “Juvenatrix” número 54, de Setembro de 2001.

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