DE VOLTA ÀS ORIGENS
E.R.Corrêa
ATENÇÃO, SENHORAS E SENHORES: LOGO À FRENTE JÁ PODE SER OBSERVADO O PLANETA TERRA, O ANTIGO LAR DE NOSSOS ANTEPASSADOS. EM 20 MINUTOS ESTAREMOS ATERRISSANDO, PORTANTO QUEIRAM TOMAR OS SEUS RESPECTIVOS LUGARES. MUITO OBRIGADO.
- Puxa, papai, nem acredito que estarei pessoalmente no planeta Terra! Já estou farto de ouvir falar nele apenas na escola. Estou com doze anos, já estava mais do que na hora de virmos a esta excursão, não acha?
- Sim, filho. Mas não reclame tanto, só conheci a Terra com dezesseis anos e nunca me lamentei por isso.
- Mas naquela época as excursões não eram livres como hoje em dia. Eram só para os ricos, não eram?
- Sim. Os protestos eram imensos, todos queriam ter o direito de conhecer o planeta que dera origem a nossa civilização. É por isso que o governo resolveu liberar as excursões. Felizmente... pois estou numa condição financeira extremamente ruim, e não sei se poderia trazê-lo se tivesse que pagar, mas... vamos filho, vamos nos sentar. Em poucos minutos você pisará na Terra pela primeira vez; é um momento muito especial na vida de cada ser humano. É um momento histórico, cuja marca você carregará para o resto de seus dias.
- Estou muito ansioso, papai... Espero que esta viagem seja muito aproveitável. Só lamento pela mamãe não estar aqui!
- De fato, filho, é um momento agradável. Não obstante tenhamos que considerar tudo isto como obra nefasta do próprio homem... Pois se a humanidade tivesse vivido em harmonia naquela época, hoje não precisaríamos estar aqui, no espaço, vivendo longe do verdadeiro lar, naquele planeta imenso, do qual não ocupamos nem um terço de sua extensão.
- Quando foi mesmo que os homens começaram as primeiras imigrações, papai?
- Se não me falhe a memória, as primeiras pesquisas em busca de um planeta capaz de sustentar a vida como a conhecemos, aconteceu por volta de 2360 a 2400.
- Nossa, faz tanto tempo assim?
- E a partir de 2500, após a descoberta do planeta Zargoon, começamos as primeiras imigrações, que duraram até 2580, deixando para trás uma Terra vazia e sem esperanças, vindo-se a tornar um mundo completamente hostil pouco tempo depois.
- É engraçado papai, eu tenho muita curiosidade em conhecer a Terra, mas não a vejo com intimidade... Todos nós, nestes últimos mil anos, nascemos e vivemos em Zargoon! Como podemos sentir simpatia por um planeta tão distante?
- Quando você crescer, meu filho, verá as coisas com outra percepção. Eu também tinha sentimentos estranhos com relação à Terra. Mas à medida em que compreendemos a história e passemos a analisá-la de uma maneira mais profunda, vemos que as coisas não são tão simples quanto parecem. Imagine, meu filho, a longa distância entre o surgimento do homem naquele planeta e a nossa atual situação no universo! É uma coisa grandiosa que vai além de nossa compreensão.
- É complicado...
- Sim, é muito complicado... e muito trágico também, pois veja hoje, um planetinha vermelho, que outrora diziam ser azul e cujo satélite, conhecido como Lua, não existe mais, devido a antigas experiências nucleares, abrigava milhares de homens, em tempos de harmonia e em tempos de guerra. Com que vergonha não olhamos ao passado?
- Mas papai, não existe possibilidade da humanidade migrar novamente para a Terra?
- Nem se cogita, meu filho. Os níveis de radiação que ainda existem, e que irão durar por milhares de anos ainda, responde a sua pergunta. Você não iria querer viver o resto da vida com a roupa especial contra radiação e alta temperatura que os monitores nos darão quando aterrissarmos, não é? Ah! Ah! Ah!...
- Na verdade, acho que se a Terra voltasse a ser o que era, ainda assim queria continuar vivendo em Zargoon. Acho que na Terra me sentiria um alienígena!
- Ah! Ah! Ah! É verdade, meu filho. Já tive esta impressão...
ATENÇÃO SENHORAS E SENHORES: POUSO TRANQUILO... QUEIRAM SE DIRIGIR AO SETOR 03 PARA A OBTENÇÃO DOS TRAJES ESPECIAIS. QUANDO ESTIVEREM PRONTOS, QUEIRAM SE DIRIGIR PARA O SETOR 04, PARA A DIVISÃO DOS GRUPOS. SERÃO FORMADOS 3 GRUPOS DE 30 PESSOAS, COM 5 MONITORES EM CADA GRUPO. RESPEITEM AS ORDENS E BOM PASSEIO.
- Veja, meu filho, como o homem se apega as suas coisas, principalmente a sua terra natal: um lugar como este, desprezível, cuja visão é desoladora e triste, formada apenas por desertos, rochas e restos imensos de concreto, e ainda assim desperta o interesse e a emoção!
- Nossa, papai, é realmente incrível! Como a humanidade pode viver tanto tempo num lugar como este? Este céu avermelhado é aterrorizante!
- Isto não foi sempre assim; esta terra já foi bela um dia, embora para nós isto pareça impossível... improvável até. Mas não; houveram paraísos aqui.
- Não fossem os livros, os documentos e as provas em geral, eu não acreditaria!
- Posso te confessar uma coisa, filho? Nem eu!
- E com relação a nossa estirpe, papai? Você me disse uma vez o nome do... do... como é mesmo que eles chamavam as divisões de terras?
- Países.
- Isto! País... Qual é mesmo o nome de nosso país de origem?
- As coisas mudaram tanto nesses tempos que eu quase não lembro... mas é alguma coisa como "Bansil", "Bravil", ah..., lembrei-me, era "Brasil".
- Que nome idiota! E o idioma daquela época era igual ao de hoje?
- Ou o de hoje é igual ao daquela época? Praticamente sim, com pouca variação.
- Mas papai, nós poderíamos ter um conhecimento mais completo daquela época: por que o governo esconde a maioria das informações?
- É simples, filho. Para não acontecer hoje o que aconteceu naquele tempo!
- O desequilíbrio total?
- Exato! E tem mais, o governo só deixa o homem vir à Terra, porque, como pode ver, nada resta a aprender aqui.
- Nada mesmo!
- A algumas gerações atrás, quando as pessoas visitavam a Terra, elas choravam, pois o elo de ligação estava muito próximo, compreende? Mas nós não sentimos outro sentimento a não ser profunda melancolia. Não acha?
- Sim, papai. Isto serve de aviso a nossa geração.
- Poderia até servir, filho, mas as coisas não estão boas em Zargoon e temo o pior. Estamos praticamente à beira de uma crise. 50% de nosso planeta não serve para nada e os limites do restante aproveitável estão comprometidos. Tenho medo, filho. Tenho muito medo!
- Medo do que papai? Da guerra?
- Da transformação. A Terra, no mais profundo sentido, não foi destruída, como pode ver, ela foi transformada.
- Não entendo! A Terra foi destruída, pelo menos a possibilidade da vida em sua superfície.
- Isto mesmo! Ela foi destruída ou transformada, o que num sentido mais amplo, pode significar a mesma coisa.
- O senhor tem razão. Na escola, os professores nos dizem que a humanidade, apesar de tudo, foi longe... tropeçando muito, mas foi.
- Existiram sábios, assim como existem agora, mas existiram destruidores da cultura também. Portanto... E saber que milhões e milhões de pessoas foram sepultadas neste lugar e cuja poeira vaga hoje no hiperespaço... Muitos sábios foram desintegrados e entregues à própria teoria.
- Como assim?
- A transformação, a qual estamos sujeitos. A muitíssimo tempo atrás, existiu e viveu na Terra, um gênio chamado Antoine Laurent Lavoisier, cujo nome hoje guardamos com afinco, e que escreveu a seguinte frase: "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". Compreende?
- E o que isto vem a provar, papai?
- É uma lei eterna, válida para todos os tempos e em todos os lugares. Ela foi um exemplo na Terra, que se transformou. Medite, meu filho. É uma frase muito profunda.
- "Na Terra nada se perde, nada se cria, tudo se transforma".
- E no Universo não é diferente...
er-correa@ig.com.br
COMENTÁRIOS
"O conto, em si, é muito interessante. Há, obviamente, o reflexo nele das atuais preocupações com o meio-ambiente e sua degradação, pela ação e negligência dos seres humanos.
Observado por esse prisma, é uma ficção-científica de primeira qualidade, pois cumpre uma das funções do gênero: observar uma situação do presente e projetá-la, por meio da Literatura, para que se possa conjecturar seu desenvolvimento e estado no futuro. A estrutura também é bem curiosa: toda a história foi construída na forma de diálogos. Acredito que o autor recorreu aos personagens "pai" e "filho" como uma forma de símbolo (e metáfora) para a velhas gerações ensinando as novas, ou o passado (nosso presente) mostrando suas amargas lições para o futuro, para que este não repita os erros anteriores...
Muito bom!
Rita Maria Felix da Silva
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