IN PACE REQUIESCAT!


E.R.Corrêa


Não havíamos vencido ainda nem os primeiros vinte degraus quando Enrico bateu em minhas costas.
- Sim? – perguntei, virando-me para ele.
- Escutei alguma coisa. – ele respondeu – acho melhor...
- Não vamos voltar, se é o que você quer saber! Está com medo, patife?!
Ele abaixou a cabeça e limitou-se a fazer silêncio. Às vezes considero Enrico o maior filho da puta do mundo, mas às vezes fico com pena dele. Às vezes ele parece ser sincero. Percebi que seus olhos brilhavam mais do que o normal, e seu corpo terrivelmente volumoso e pálido vacilava, como a chama de uma vela, em cada passo que dava pelos escorregadios e negros degraus de pedra.
Cícero vinha mais atrás, completamente calado. Não parecia estar com medo, mas sua fisionomia não deixava dúvidas quanto ao fato de estar preocupado e desconfortável com a situação. Quem não estava? Mas que droga! Que espertalhões eram eles? Tudo porque haviam algumas sombras esquisitas nas paredes e um cheiro estranho?
Passei a mão pela parede e percebi como ali estava realmente úmido. Fazia um silêncio mortal r angustiante; algumas gotas pingavam do teto, às vezes caindo sobre a chama do archote que trazia à mão e provocando pequenos chiados característicos, criando uma breve luminescência esverdeada. As sombras dançavam como se fossem negros seres rastejantes, trêmulos, e ansiosas pôr abocanhar alguma vítima. De preferência alguma vítima gorda...
Quanto mais nos aprofundávamos, mais a escuridão ia nos envolvendo, de forma que o ar opressivo e carregado contribuía para enfraquecer os archotes, cujo fogo não encontrava oxigênio suficiente para sua necessária alimentação. Àquela altura, ou melhor, àquela profundidade, já nem uma luz artificial podia nos alcançar. Vencemos todos os degraus, por fim, e nos encontramos numa espécie de “ante-sala” da adega, cuja entrada, abobadada e ensopada de bolor, parecia uma enorme boca negra, escancarada, sem dentes, e terrivelmente gelada, pronta para nos devorar. Entramos, vacilando aos primeiros passos. Enrico fraquejava visivelmente, sob suas pernas gordas.

- Acho... acho melhor voltarmos – disse ele – não creio que guardariam vinhos numa... numa catacumba.
Sem dúvida Enrico era, além de um dos maiores filhos da puta, um dos maiores covardes ladrões do planeta, e um dos mais inocentes. De fato, estávamos numa catacumba; mas numa das catacumbas mais valiosas da Itália. Soubera, anteriormente, que os ricos Montresor’s vinham guardando toda espécie de vinhos raros, durante o avançar de muitas gerações, naquele depositário de ossos. Se fosse realmente verdade, só Deus sabe que espécie de tesouro poderíamos encontrar ali, em meio àquelas tétricas caricaturas de morte.
A mansão, por ocasião dos festejos carnavalescos napolitanos, se encontrava vazia, e talvez não pudéssemos achar outra oportunidade de penetrar em suas catacumbas. A esperança era encontrarmos vinhos raros... e caros. Determinados vinhos italianos e franceses, das safras dos setecentos ou oitocentos, poderiam, na mão de colecionadores austríacos ou escoceses, enriquecer fabulosamente todo um exército. Quem sabe um Xeres envelhecido no solo em carvalho maltês. Ou o Château Margaux. Talvez um Château d’Yquem, o vinho doce mais famoso do planeta. Ou, quem sabe... um Amontilado!

Ah! O Amontillado! O quão valioso era essa preciosidade na mão de cavalheiros certos?! O ouro mais puro reluzia fosco perto do brilho avermelhado de uma daquelas garrafas. Não sei... os boatos correm, e os mais espertos correm atrás destes boatos. Nunca se sabe. Por exemplo, soube de um marinheiro espanhol que tivera entre as mãos uma garrafa azulada e bojuda, de gargalo curto, encontrada num velho baú submerso numa ilha de coral próxima ao Cabo Verde, e, não se dando conta de que se tratava de uma valiosíssima peça inglesa dos piratas de William, o Coxo, acabou entregando-a a um colecionador a preço de banana. A garrafa, naturalmente, já não tinha identificação, mas diz-se que seu valor não podia ser calculado. Quem sabe não tivéssemos sorte parecida! Só que, ao contrário do marinheiro espanhol, embora eu não seja um expert no que se refere à qualidade e ao sabor, sou um exímio vendedor de vinhos e raridades em geral (nem sempre conseguidas de maneira honesta), de modo que sei avaliar suficientemente bem qualquer relíquia antes de entregá-la a um colecionador. Esses babacas gordos e milionários que passam o dia fumando cachimbo e polindo suas belas garrafinhas. Conheço tantos, e conheço tanto a psicologia deles. É simples, primeiro você... espere, espere, não vou expor aqui a minha arte. Se tivesse tempo, quem sabe?
Após descer uma pequena inclinação do solo úmido e escorregadio, encontramo-nos frente a uma assustadora passagem abobadada, ao pé da qual jaziam pilhas e pilhas de ossos bolorentos e esverdeados. Paramos, e durante alguns minutos não foi possível fazer outra coisa senão contemplar aquelas caveiras imóveis e eternamente sonhadoras, cujos dentes se desfaziam em tentativas vãs de lançar um sorriso – um sorriso simultaneamente trágico e cômico. Seguimos, e mais à frente avistamos as primeiras pilhas de garrafas, envolta das quais também haviam barris e tonéis, alguns já inteiramente carcomidos pelo tempo e pela umidade. Cícero tomou a dianteira e levantou uma garrafa, aos brados:
- Bebamos, à saúde dos mortos, e à riqueza dos vivos!
Partiu-lhe o gargalo descuidadamente e demorou-se eternamente no primeiro trago. Seus olhos brilhavam, e pela luminosidade insuficiente de nossos archotes era possível perceber sua fisionomia terrivelmente decrépita torcida pelas reumas da loucura. Continuou ele, babando um líquido rosado:
- Seremos ricos às custas dos mortos, que aqui jazem, indefesos, sem poderem desfrutar daquilo que os cercam... Pobres diabos!
Hughhhh! Soluçou ele, e percebemos o quão poderosos eram aqueles néctars dos séculos passados. Poderosos até demais. Quem sabe se os mortos... esses pobres diabos indefesos...
Tomei-lhe a dianteira e continuei caminhando pelos estreitos e angulosos corredores. Enrico vinha logo atrás, tropeçando na ponta de seu capote e encostando a vacilante chama do archote na parede gelada e corroída de lodo. O salitre era destilado como se fosse água numa mina, e seu cheiro característico, misturado a todo aquele amálgama de coisas velhas e esquecidas, nos oprimia até o fundo d’alma. O chão era insuficiente para acomodar todo aquele emaranhado de loucura: ossos, garrafas, cacos, trapos, madeiras, cortiças, cantoneiras de ferro, restos de barris e tonéis apodrecidos, tudo era uma só massa amolecida e vetusta, vergada pelo peso dos séculos. Sem dúvidas haviam riquezas ali, mas era tudo tão negro e silencioso, tão sufocante e depressivo, que era impossível não seguir em frente sem deixar o corpo estremecer à vertigem de pensamentos desagradáveis. Pelo enfraquecimento repentino da luz às minhas costas pude perceber que Enrico havia parado.
- Ali, vejo alguma coisa – indicou ele, com seu indicador gordo. Na mesma mão que segurava o archote havia uma garrafinha. – Existe alguma saída, ou buraco naquele canto. Veja.
Olhei para onde ele havia indicado e percebi que, de fato, escondido por uma volumosa pilha de ossos, existia um nicho, que certamente dava entrada à um outro compartimento. Provavelmente um compartimento menor.

- Vamos retirar essa pilha e ver o que há lá dentro – disse eu, decidido.
- E Cícero, vamos deixá-lo lá atrás? Ele está ficando bêbado!
- Aquele idiota! O que ele está pen...
- Cícero! Cícero! – gritou Enrico, de repente, e quase tive um ataque cardíaco, pois ele pareceu querer usar uma de minhas orelhas para servir de auto falante.
- Está querendo me matar, seu idiota?! Deixe ele que se embriague, vamos seguir.

Comecei a afastar aqueles ossos com chutes leves e ritmados, e Enrico pôs-se a me imitar. O ruído era característico mas não estalava; os ossos estavam demasiadamente ensopados de bolor e umidade, de forma que formavam uma massa relativamente grudenta de putrescência inimaginável. Ao cabo de poucos minutos de trabalho conseguimos desmoronar ossos o suficiente para que se passasse um corpo pela extremidade do ossário. Do outro lado provavelmente também haviam ossos, de maneira que teríamos de pôr, literalmente, a mão na massa. Incitei Enrico a seguir em frente. Ele recuou, como eu imaginei que o faria. Na esperança de vislumbrar o que havia no interior do nicho, limitei-me a enfiar a mão com o archote, mas nada pude observar senão pseudo sombras fantasmagóricas numa alegoria inquietante. Dali, sem dúvida, formava-se uma outra ramificação de corredores, talvez corredores ainda mais longos e espaçosos, mas também podia ser um compartimento único, singularmente profundo, onde a luz, de onde estávamos, não podia alcançar. Talvez ali houvesse os vinhos raros que procurávamos, ou talvez ali...
No instante em que me decidi a entrar, percebi uma luz fraca e vacilante vindo em nossa direção, à esquerda. Era Cícero. Ele estava cantarolando, com seu modo irritante, e quando se aproximou vi que seus olhos brilhantes já não destilavam as lágrimas da embriagues.

- Sem dúvida estamos prestes a encontrar um tesouro – disse ele, sorrindo – Mas um tesouro limitado e de difícil transporte, como eu imagino que também os cavalheiros já perceberam, de modo que teremos que levar pouca coisa ou...
- De fato eu havia pensado nisso – interrompi, mentindo – mas tinha elaborado um plano que, para ser bem sincero, não sei se pode ser aplicado em nossa situação.
- E o que você sugere? – perguntou Enrico.
Foi Cícero quem respondeu: - Que levemos pouca coisa, mas somente as mais valiosas, naturalmente.
Que diabo! O que aqueles imbecis consideravam como mais valioso?
- E contentarmos com ninharias? É isso? – inquiriu Enrico.
- Eu não disse isso...
- É claro que disse! Uma garrafa não faz fortuna. Eu sempre considerei esta idéia de roubar vinhos um absurdo, vocês que me arrastaram.
- Se quiser dar o fora ainda há tempo!
- Não. Não. Vim até aqui e agora não vou voltar. Essa droga de lugar vai ter de valer a pena, senão...
- Senão?
- Bem – continuou Enrico, esmagando um crânio esverdeado com a bota – levaremos tudo que pudermos ou não levaremos nada. Não temos garantias se conseguiremos vender essas porcarias de modo a nos beneficiarmos mutuamente. Sendo assim, acho que teremos que optar pela quantidade. É a única forma de obtermos lucro.
Nesse ponto interrompi: - E o que você acha que vão imaginar aí fora quando três espertalhões duvidosos aparecerem com litros e litros de vinhos raros e de difícil acesso? Poderemos dizer, tranquilamente: “choveu vinho em nossos quintais?”
- Mas o trato era...
- Não importa o trato – agora era Cícero – teremos de reavaliar a situação, ou então teremos de nos submeter à incrível singularidade do fato de que, enquanto chovia vinhos caros em nossos quintais, a adega centenária dos velhos Montresor’s se evaporava.
- Não acho que darão falta. Olha isso aqui! Está abandonado, cara. Só Deus sabe a última vez que entrou um ser humano aqui, e é provável que só o diabo saiba quando um ser humano voltará a pisar aqui depois de nós...

- Por que não pensamos nisso antes então?
- Talvez porque estivéssemos obcecados pela idéia – respondi à Cícero – Mas a verdade é que não podemos bobiar. Esses velhos são espertos, mais espertos do que vocês imaginam. Quem sabe se nesse momento não há uma dúzia de carrascos lá fora, só esperando a gente sair?
- Isso é tolice. – era Enrico – continuo achando que devemos levar o máximo possível, e dividirmos o lucro lá fora. Temos de unir forças e aproveitar agora, pois dificilmente surgirá outra oportunidade como esta. – Enrico agitava convulsivamente as mãos, enquanto as levava à testa para enxugar as gotículas de suor – Ou então – continuou ele – devemos agir, daqui em diante, cada um por si.
“Daqui em diante cada um por si”. Parece aquelas velhas histórias, onde se chega ao clímax e depois os criminosos acabam... Bem, é claro que esta idéia estava fora de cogitação, pois as suspeitas seriam inúmeras, uma vez que somente eu tinha certo tato com relação à venda de antiguidades. Enrico e Cícero poderiam, quando muito, botar tudo a perder. Mas por que que eu não havia pensado nisso antes? Eu não sou amador! Não sou um merdinha metido à ladrão, destes que abundam por aí. Sou um velho viciado no negócio de se dar bem, e não costumo cometer vulgaridades. Mas desta vez algo... Mas tudo bem, eu sabia como remediar. É , isso mesmo! Onde se chega ao clímax...
A situação poderia se tornar perigosa, mesmo para mim, de modo que sugeri, da maneira mais calma e dissimulada que um ser humano pode conseguir ao lado de dois criminosos não muito práticos em sua área:
- Senhores, não há motivos para alarme. Não exploramos praticamente nada ainda. Pode haver outros tipos de coisas valiosas aqui, como moedas de ouro, ou outras coisas mais fáceis de se manusear e de passar para frente sem levantar suspeitas. Sugiro que investiguemos.

- Talvez. Esses velhos milionários costumavam guardar tesouros em suas adegas.
- Não tenho tanta certeza.
Oh, inocência!
- Eu também não – acrescentei – Mas, de qualquer forma, temos de investigar, viemos aqui para isso.
Coloquei-me novamente a chutar aqueles ossos que bloqueavam a entrada daquele nicho misterioso. Enrico e Cícero também se puseram a chutar e a afastar os ossos da entrada, e num tempo relativamente curto entremeado de silêncio meditativo tiramos quase todo o entulho. Aquela extensão mais profunda da velha cripta, no entanto, não nos ofereceu nada a não ser garrafas e mais garrafas de vinho. Também ali havia algum rum, pelo que pude perceber mais tarde. Contudo, havia mais riqueza ali do que em qualquer outra parte em que havíamos explorado anteriormente. O nicho, como eu havia suspeitado, era extremamente profundo e irregular; talvez houvesse mesmo outras saídas e ramificações, porém, a uma breve pesquisa se chegaria à conclusão que os limites destinados à adega acabavam ali. E não era para menos: dezenas de barris dividiam espaço com centenas de garrafas, que formavam cachos macabros e sorridentes sobre os tonéis. Deus, será que aqueles crânios não estavam sorrindo de nós? Garrafas, garrafas, garrafas. Crânios, crânios, crânios...
- Isto significa, senhores – comentou Enrico, desdenhoso – que teremos de lançar mãos à obra e carregarmos tudo quanto possível para fora daqui, ou então teremos fracassado. Ou vocês acham que vale à pena vender uma garrafinha cada um? Que belos bandidos vocês são!
Confesso que o sangue me subiu pela cabeça naquele momento; tanto pelo fato de não ter previsto até que ponto chegaria aquela situação, como pelo modo arrogante e estúpido com que Enrico tratava o assunto. Mas, no fundo, ele tinha um pouco de razão. Para obtermos lucro o suficiente, teríamos, de fato, de abocanhar uma quantidade generosa, ou, caso contrário, o risco e o trabalho não justificariam uma escassa divisão entre três. Por outro lado, um derrame excessivo de artigos semelhantes no mercado não só levantaria suspeitas das mais incontestáveis como facilitaria uma investigação em nossos crimes anteriores, o que certamente seria muito desagradável. “Ei, cara, sei que está vendendo isto também, e com ele é muito mais barato”. A raridade já não se tornaria rara. Resultado: estaríamos fritos!... Em frigideira de ferro sem óleo! Mas abandonar tudo à própria sorte seria uma lástima, e uma desonra.
Enrico tratava de encher os volumosos bolsos de seu capote negro com algumas garrafas escolhidas a esmo – provavelmente as mais atraentes -, enquanto Cícero, a um canto mais afastado, tomava generosos goles de “Cheval Blanc”. Uma raridade. Seu vulto magro e desproporcionado formava uma sombra bizarra na parede, como se fosse um enorme morcego esvoaçando numa noite de outono sob a copa pelada e desprovida de vida de uma floresta submersa pelos raios lunares da meia-noite. Dirigiu-se a mim com seus olhos grandes e brilhantes e não pude deixar de sentir um calafrio:
- Estive pensando – disse ele, com um sarcasmo que era quase uma agressão física – e me lembrei da velha equação que costumavam usar em casos como esse. Você lembra? Ela é mais ou menos assim: X + X ... – X é igual a ...
Afastei para trás. Enrico levantou-se precipitadamente e sacou de seu punhal de prata.

- Calhordas! Malditos! – bufou ele, avançando cambaleante em direção à nós. A cena foi tumultuada, quase como num sonho desconexo, onde as sombras, as imagens, as pessoas, as atitudes, parecem irreais, ilusórias, mas o meu cálculo, longe de parecer sonolento, foi rápido, de modo que, num piscar de olhos, o coloquei em prática. Trazia à mão a garrafa de algum vinho, cujo nome já nem me lembro, quando Enrico passou por mim em direção à Cícero. O que o fez confiar tanto assim em mim? Queria me pegar por último? O caso é que foi impossível distinguir o vinho do sangue quando lhe apliquei a violenta garrafada no crânio, que vomitou cérebro para todos os lados. Ele foi em direção à parede, cambaleando, com as mãos na cabeça, e caiu, lambendo salitre e pedaços de seu próprio cérebro. Foi uma cena grotesca, e no mesmo momento me causou uma espécie de tremor; algo entre o remorso e a excitação, entre o prazer e a loucura. Enrico. O que foi que eu fiz? Como fiz? Por que fiz? E por que aquilo me dava prazer? Ah! Como aquilo me deu prazer! É a verdade. Não foi Cervantes quem disse, pelo seu “Dom Quixote”, que “fazer bem aos vilões é deitar água ao mar”? Pois bem, deitei-lhe vinho ao crânio. Acho que foi um bom trabalho. Aquela cripta, com seu acervo de cr6anios sorridentes, inspirava esse bom trabalho.
Foi uma pena desperdiçar aquela garrafa, mas haviam outras.
Cícero não fora atingido e jazia absorto, com os olhos esbugalhados, a um canto gelado da espaçosa cave. Encarávamos um ao outro com crescente desconfiança, até que ele falou:
- X2 somente. Agora ficou mais fácil. Entre dois não haverá problemas.
Eu ainda tremia ligeiramente, não de medo, mas de triunfo: - Por que não tentou pegá-lo de surpresa, seu imbecil? Queria dar a ele a chance de nos matar?
Ele sorriu: - Não. Não queria dar a chance a ele de saber do meu velho plano...
- E até onde vai este seu velho plano? – perguntei.
Ele se levantou lentamente, apoiando-se na parede musgosa e enegrecida. Enfiei discretamente a mão direita sobre meu casaco e apertei com firmeza o cabo de minha faca espanhola. Por ser mais alto e ágil do que eu, era natural que eu tomasse as devidas precauções com relação à Cícero. Mas o fato dele já estar relativamente alterado pela bebida me tranquilizou; qualquer tentativa de sua parte seria vã.
- Já disseram – comentou ele – que uma vingança permanece irreparada quando o injuriado não se faz ouvir pela sua vítima.
- Do que você está falando?
Ele não respondeu, e lembrei-me daquele peixe maldoso e carrancudo que tem a língua em forma de verme apetitoso...
Percebi que seus olhos continuavam brilhando de forma estranha e ameaçadora, e não demorei de chegar à conclusão que sairia vivo apenas um homem dali. E esse homem... Bem, é claro que esse homem era eu!
- Perfeito! Perfeito! – disse-lhe, sorrindo – Você fez a coisa certa, diabos!

- Não. Você fez a coisa certa.
Ah, é claro. Foi eu.
- Mas você deu a dica. Você me mostrou o caminho. Eu não teria malícia para pensar nisso...
- Você não...
- Mas vamos. Vamos aos vinhos...
- Os vinhos, é claro. Vamos a eles – respondeu ele, e o eco ressoou pelo ambiente.
Coloquei um olho gigante em minha nuca e tentei debalde arrastar o pesado cadáver de Enrico para fora da entrada do nicho, que se tornava gradualmente insuportável com o cheiro azedo que era exalado pela cabeça amassada e aberta do falecido. Enrico, como a maioria dos gordos, tinha um cabelo ralo e escasso, de forma que era perfeitamente possível vislumbrar a enorme rachadura que se estendia grosseiramente acima de sua orelha esquerda. Pelotas fedorentas de sangue e cérebro se acumulavam sobre a órbita aberta e indagadora do lado em que havia um coração que já não pulsava. Deus, como ele era pesado! Ele comia que nem um porco e provavelmente em suas entranhas havia uma massa tão detestável e indigna de macarronada que nem sequer usando o máximo de imaginação poderá ser calculado o horror em que aquilo se transformaria nas próximas horas e nos próximos dias.
Continuei sozinho minhas tentativas até que Cícero, vacilante, resolveu me ajudar. Empurramos o corpo. Ao tirar o archote de uma rachadura, cuja luz vacilante e incerta parecia querer pular sobre nós, percebi que exatamente aos pés do cadáver se levantava uma parede de aspecto singular. Sem dúvida era relativamente nova; com a luz fortemente incidindo sobre ela, era fácil perceber que seu aspecto raquítico se devia ao fato de, provavelmente, ter sido levantada às pressas, ainda que o musgo escorresse abundante sobre as pedras obviamente diferentes que a formava. Conclui, ao passar um pedaço de madeira pelas ranhuras, que o cimento ou a argamassa utilizados para levantá-la tinham sido preparados de maneira precária, sem a utilização de nenhum tipo de reforço estrutural, como ferro ou pedregulhos.
- O que você acha? – perguntei à Cícero.
Ele parecia fascinado com aquela descoberta: - Acho que devemos derrubá-la. Deve haver algo aí atrás. Algo valioso, ou quem quer que o tenha feito não se daria ao trabalho de construí-la de maneira suficientemente sensível a ponto de ser facilmente levada ao chão, a qualquer momento.
- Sem dúvida ele tentou camuflá-la com essa pilha de ossos – disse eu, indicando os ossos que jaziam desmoronados sobre o corpo de Enrico.
- Seja quem for, fracassou. Vamos derrubá-la.
A fragilidade da estrutura, no entanto, era mais aparente do que real. Com chutes e pontapés tudo que conseguimos foi produzir um ruído oco. Decidimos, então, que a única maneira de derrubá-la seria aplicando golpes violentos com algo volumoso e pesado, tal como um barril de madeira resistente. Com um pequeno barrilzinho de 15 litros conseguimos fazer apenas o vinho espumoso escorrer pela parede como uma cascata avermelhada. Mas sem dúvida abalamos com a estrutura, pois formou-se imediatamente uma intrincada teia de rachaduras. Um odor extremamente agradável encheu, de súbito, nossas narinas.
Fizemos uma segunda tentativa e a parede começou a desmoronar. Uma vez enfraquecida a sua estrutura central, pudemos terminar o serviço com chutes fortes e, ainda, uma terceira e última investida com um barril. Contudo, ao contrário do que imaginamos (bem, para dizer a verdade, nunca alimentei esperanças; eu via aquilo como forma de estudar uma possibilidade...) não havia tesouros ali.
Era apenas uma grande concavidade escavada na rocha, de maneira a formar um outro nicho dentro do nicho de onde nos encontrávamos. As paredes eram escuras e terrivelmente úmidas, de onde escorria livremente o salitre. Ao fundo havia uma grossa argola de ferro e uma corrente, a qual segurava, pendurado em farrapos, as partes superiores de um esqueleto humano! O crânio, assustadoramente branco, jazia ao chão sob um chapéu cônico guarnecido de guizos... Não pude deixar de estremecer ante a visão daquilo que, sem dúvida, havia sido uma morte cruel e terrível; exatamente o tipo de morte que se praticava na Idade Média pelos monges – aqueles seres sinistros encapuçados de negro, e que eram mais satânicos do que qualquer outra coisa...
O fato mais singular, no entanto, era a estranha disposição no formato e na cor daqueles trapos embolorados que jaziam emaranhados nos ossos e na corrente. Algo familiar neles me inspiravam a idéia de que o infeliz, talvez por capricho de seu algoz, tivesse trajado como um bobo da corte ou um truão medieval, ou coisa do gênero, na hora em que a morte, trajada de negro, contudo, o encontrou. Cícero, terrivelmente nervoso e trêmulo ante àquela visão inesperada, levava constantemente aos lábios uma garrafa de vinho, e seu estado, embora inspirasse cuidados, tornava-se gradativamente precário. Era a hora certa.
Não havíamos encontrado tesouro nenhum, e isso era o que mais o afetava. Aproveitando a ocasião menti, dizendo:
- Acho que encontramos ouro. Traga o archote, olhe. Existem anéis de ouro nos dedos da caveira.

Aproximando-se lentamente e com cuidado ele se abaixou.
- Não vejo nada – disse.
- Sob os trapos... levante-os.
Hesitando, ele voltou-se para mim, com seus olhos negros e lacrimejantes. Estávamos num canto do nicho onde as sombras pareciam vivas, ao pé do esqueleto do truão. Àquele ângulo, a luz projetava-se de forma singular; de repente, o amontoado de ossos parecia dotado com a face de um demônio, uma figura grotesca, assustadora. Talvez um lençol amassado à meia luz numa cama desprovida de colchão possa exemplificar aquilo que em palavras torna-se demasiado insosso na minha incompetência. E o pior de tudo: às vezes aquele demônio sorria, quando confrontado pela luz num ângulo oposto. Era um fenômeno de movimento de sombras. Assustava, sim, mas somente pelo fato de estarmos num local desconhecido e semi submerso pela escuridão, cujo ar fazia vacilar tanto a chama de nossos archotes quanto nossa própria coragem.
O sorriso daquele demônio... Haviam chifres, e o contorno geral daquilo que poderia ser classificado como boca era formado – pasmem! – por uma colher de pedreiro. O que ela fazia ali, eu não podia suspeitar, mas a estranha impressão causada pela vista daquele instrumento que em circunstâncias normais não despertaria qualquer espécie de sentimento deixou, no fundo escuro e desconhecido de meu âmago, uma inquietante, embora não inteiramente ignorada, sensação de anormalidade.
Digo não inteiramente ignorada pelo fato de que algo realmente familiar jazia oculto no meu subconsciente – aquilo que alguns místicos chamaria de aviso, ou sinal... ou advertência. Advertência? Eu podia sentir isso, pulsando, pulsando, pulsando, ao encarar aquela colher de pedreiro jazendo entre a pilha incoerente de ossos. Embora Cícero também tivesse sido afetado pelo “demônio”, pude constatar que não havia se dado conta daquilo que formava o “sorriso do demônio”. Ah! “O sorriso do demônio”! Será que era realmente um demônio? Tenho certeza que sim...
- Não vejo nada.
- Não vê? Aqui. Aqui está o anel, seu imbecil! É de ouro...
Ele voltou a me encarar, mas não a tempo de impedir o certeiro golpe na parte posterior do crânio. Ele tombou, inerte, ao lado do esqueleto. Eu não o havia matado. Não queria matá-lo daquele jeito. O demônio... Confesso que algumas idéias divertidamente sinistras se apossaram de meu cérebro naquele momento simultaneamente excitante e assustador. Havia, talvez, um fantasma, ali, naquele recinto escuro e sufocante; um fantasma rolando para dentro de minha alma como chumbo derretido.

Senti um calafrio.
Afastei, em seguida, os ossos do esqueleto com os pés e coloquei Cícero encostado à parede, junto a um pequeno barril. Passei as pesadas correntes envolta de sua cintura e sobre as coxas e as fixei firmemente na argola que brotava da parede. Improvisei convincentemente uma amarração, pois que o velho cadeado, utilizado para prender o truão, estava totalmente carcomido pela ferrugem, e, consequentemente, seu dispositivo de trava não servia para nada. De uma coisa eu tinha certeza, porém: mesmo não estando verdadeiramente amarrado, dali ele não escaparia jamais, uma vez imaginando que estivesse irremediavelmente preso. Encaixei o cadeado imprestável nas correntes que o prendiam e mesmo que se debatesse ele não se daria conta de que tudo que precisava fazer era tirá-lo com jeito...
- Bebamos, à saúde dos mortos... e à riqueza dos vivos!
Em todo caso, resolvi lhe prestar alguns últimos favores. Para completar a tarefa, recoloquei, sob o volumoso e conveniente corpo de Enrico, a pilha de ossos na entrada do nicho e ajeitei, cuidadosamente, mais alguns pesados barris à sua frente.
Tomei outro belo trago à sua memória e segui em direção à saída, com o capote tilintando de vinhos e licores raros, só os mais raros... O suficiente para fazer a minha fortuna.

Ah! Ah! Ah! A minha fortuna!
A verdade é que me encontro às portas da morte. Fui traído pela aurora pouco tempo depois e acusam-me de duplo assassínio e tentativa de furto.
Serei enforcado amanhã.
Mas não me importo. Não me importo com nada disso agora. Eles não viram o demônio...
Só lamento mesmo o fato de não ter tido tempo de explicar à Cícero que, quanto menos X na equação, mais fácil ela se torna.

Esse conto foi originalmente publicado no fanzine “Juvenatrix” número 50, de Abril de 2001.

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