A PAISAGEM SIAMESA - Parte 1
Carlos Paraná
Respire.
.Traga o ar ralo e ruim para dentro de seus pulmões e use-o da melhor maneira possível; pois eles não hesitarão em deixá-lo para trás, agora que tudo falhou.Mesmo a peça mais importante do tabuleiro torna-se descartável quanto o jogo termina.Diminua o ritmo, ou mesmo ouse pensar em diminuí-lo e eles irão enjeitá-lo.Não que você precise deles por muito tempo.Você sabe, as pessoas são descartáveis hoje em dia.Apenas aguarde até você tirar o seu pedaço e saia.Tenha o desprazer da companhia deles apenas por alguns momentos desta noite fria.Acelere.Não reduza o ritmo.Alcance-os.Junte-se a patuléia.
.Apenas por esta noite.
-Quem teve a brilhante idéia de trazer a porra deste balofo? - Um deles interrogou com visível ódio e desprezo.Era Ricardo quem estava na frente, olhando para trás e esbravejando aos outros três.-Quem?Agora querem que eu espere por ele?Aquele que teve a esplêndida idéia que fique o pajeando.
.O assalto ao banco havia falhado, a despeito de todos os planejamentos e contatos internos.O rateio estava arranjado, os horários checados, o plano havia sido discutido e as possíveis falhas, eliminadas.Mas o gordo tinha que disparar a arma.O que poderiam esperar de um idiota sem experiência que só foi aceito no lance porque havia trabalhado no local?Não sabia se aquilo fora por diversão ou desatenção.Não, dois disparos não podem ter sido desatenção.Burrice era o termo exato.O importante é que ele acabou acertando o gerente e o tesoureiro, justo os dois que conheciam o segredo para desarmar o cofre.E tudo desmoronou.Nem mesmo pensaram em pegar o dinheiro do baú dos caixas ou levar algo dos funcionários.Aquilo acionou o estopim e a tensão tornou-se incontrolável.Não havia outra saída senão a fuga.Seria idiotice ficarem lá e fazerem reféns os que estavam ali dentro, pois cedo ou tarde eles seriam vencidos pelo cansaço.Ricardo apenas queria ter tempo para perguntá-lo o porquê daquela burrada final.Mas, se sairmos desta, ele ia lhe dar a oportunidade de explicar, com todos os detalhes possíveis.E nada que ele dissesse seria o bastante para que Ricardo desistisse de puxar o gatilho após Felipe lhe der suas razões inúteis.
-Esquece o Felipe, o cara é um iniciante, isso acontece.Agora o importante é zarpar, depois a gente o espreme e descobre o porque daquela zorra - Dirceu respondeu a pergunta de Ricardo agora que os dois estavam lado a lado, e percebeu que não havia destravado sua arma.Imprevistos acontecem até mesmo com os experientes.
-Aquilo que ele fez não é nervosismo de iniciante, não mesmo - Neto falou enquanto corria o máximo que podia, sempre olhando para frente e Davi vinha logo atrás dele - Quando isso acabar, ele está morto.
-Depois pensamos em quem vai matar quem - Disse Dirceu - Agora o importante é despistar os porcos.Temos é que cravar o Fagundes de balas.Ele devia esperar por nós até tudo terminar, mas fugiu com o carro ao ouvir o primeiro disparo.Deixou a gente a pé.Prefiro iniciantes a covardes.
.Eles não escutaram completamente o que Dirceu disse.Os outros três corriam muito mais rápido.Dirceu diminuiu o passo propositalmente para esperar por Felipe.
.Algo parecia ter se ausentado do céu naquela noite.Felipe não tinha certeza do que.Talvez fossem apenas seus olhos, pois não se lembrava da última vez de ter prestado atenção no céu.A ocasião não era apropriada para que pudesse contemplar o firmamento e ainda por cima dar-se o luxo de especular o que havia ou não lá.Os seis fugitivos pareciam sombras moribundas vagando em meio às ruas que começavam a dar boas vindas a noite.Percebeu que Dirceu havia parado e esperava por ele.
-Vamos, o pessoal tá ferrado com a sua lentidão.
-Não só com a lentidão, eu tenho certeza.Isso é o máximo que eu posso correr - Começava a suar.Sentia seus batimentos cardíacos ressonando e até sua garganta pulsava no ritmo do coração.Seus rins latejavam e começavam a doer.
-Isso não é o bastante.Trate de acelerar, ou vou ter que te deixar pra trás.
.Dirceu ia começar a correr novamente quando Felipe colocou a mão em seu ombro:
-Por favor, só um minuto.
-Nem meio.Mexa-se, cara.Vai ter tempo para descansar depois.
.Se os outros não mudarem de idéia, você terá um bocado de tempo, amigo.Pensou Dirceu.
.Felipe sabia que Fagundes ia lográ-los assim que algo saísse dos eixos.Tinha um certo faro para traiçoeiros e covardes como ele.E o homem exalava o cheiro peculiar daquela espécie a quilômetros.Era uma questão de tempo até os policiais encontrarem-no e arrancar dele facilmente o que quiserem.Sem esforço nem mãos sujas.Isso se a caçada humana não ocorresse primeiro e nos encontrassem.Pareceu ter ouvido uma sirene não muito longe dali, mas ignorou sua audição.A prioridade era correr.
Desceram pela rua C, como uma tropa de cavalos selvagens sem rumo.Sinceramente estavam dirigindo-se a lugar nenhum.Por mais que Ricardo tentasse demonstrar senso de liderança e autoridade, ele estava à deriva, perdido como uma criança na multidão.
.Havia um lance de escadas que findava num pequeno vilarejo.Não pensou que poderia resultar em uma rua sem saída ou algo do tipo.Desceu os degraus sem titubear com as ovelhas o seguindo sem questionar.Que horas deveriam ser?Não viu nenhum estabelecimento aberto desde que correu do banco.Correr.Desde os 19 anos, sua vida sempre significou eterna fuga.Adquiriu então o hábito de sempre olhar para trás após alguns passos.Felizmente não se tratava de uma rua sem saída.Ele parou por um instante em uma esquina tão deserta quanto todas as que havia visto naquele início de noite, e aguardou a chegada dos outros.
-Temos que achar um lugar, onde podemos dar um tempo.Não podemos ficar vagando a noite inteira.- Observou Neto.
-É verdade - concordou Davi.
-Com certeza.Que tal encontrarmos um abrigo para transgressores da lei? - Ricardo interrompeu com seu ar sarcástico.
-O nosso Ricardo sempre ironiza as idéias dos outros.Tem alguma melhor? - Perguntou Neto.
-Acho que tenho.É melhor falarmos mais baixo, pois o nosso debate está atraindo um certo público. - Apontou para cima e havia mesmo um curioso que devia ter sido atraído pelo barulho.Ao perceber que notaram sua presença, o homem fechou as janelas e apagou a luz.Certamente continuou observando pela fresta da janela de madeira.
-É melhor pararmos de discutir então - Falou Dirceu.Todos tiraram os olhos da janela do curioso e olharam para ele - Se continuar assim seria melhor a gente se separar.Pois juntos será mais fácil nos encontrarem.
-Não se tivermos onde nos esconder - Falou Davi.
-Tudo bem, acharemos um lugar para passar a noite, minhas costas estão doendo.-Respondeu Dirceu.
-Vocês estão brincando? Este negócio de nos escondermos na casa de alguém nunca funciona. Eles nos encontram - Interveio Ricardo com sua voz irritante.
-Acho que só precisamos nos afastar um pouco mais. - Respondeu Dirceu.
-Aqui está bom, não está? Vamos entrar numa destas casas mesmo. - Felipe tomou coragem e deu a sua opinião.
-Claro - falou Ricardo, ao mesmo tempo em que começava a rir - Só para você não correr mais, não é?
.Felipe abaixou a cabeça e deixou os risos dos outros inundarem a noite.
-Espera aí - Davi interrompeu as risadas - Sei de um lugar onde podemos nos esconder sem problemas.Há uns tempos atrás, trabalhei como segurança na propriedade dos Sanjo, fomos dispensados porque eles estavam indo a falência.A situação deles não deve ter melhorado, mas eles mantêm a casa como a última coisa que sobrou daquela época.Não fica muito longe daqui.Podemos dar conta fácil do casal, eles não criariam problema nenhum, tenho certeza.
-E se eles estiverem com mais alguém lá? - Questionou Neto.
-Esta possibilidade não existe, aqueles dois idiotas eram ermitões, devem ter ficado mais reclusos ainda quando a maré de azar se instalou.
-Está acertado, vamos para esta casa. - Disse a voz da razão, a voz de Ricardo - É perto daqui, não existe opção melhor para esta noite.Você tem alguma, Dirceu?
-Não.
-Então é para onde vamos. - Finalizou, sentindo uma pontada de satisfação por ter vencido seu desafeto outra vez.
.Os condenados continuaram então, a peregrinação.Felipe iria sugerir que tentassem arranjar um carro ou algo do tipo.Pensou duas vezes e dispersou a idéia antes de divulgá-la.Mais um crime chamaria atenção, e era tudo que eles não queriam.
.O vilarejo não dava numa rua sem sida e sim num terreno baldio, protegido por um muro cinza.Se pudesse haver uma coisa da qual Felipe odiava mais que correr, era pular muros.Os outros passaram por cima dele quase que instantaneamente, e ele continuou estático olhando o muro, que se estendia soberbo, de um lado a outro da rua.Ouviu Dirceu chamando-o e pediu por ajuda.Ele pulou de volta e auxiliou seu companheiro adiposo a atravessar a barreira intransponível.Dirceu sentiu dor e os ligamentos de seu pulso pareciam querer romper quando Felipe subiu em cima de suas duas mãos.Felizmente foi uma questão de segundos para que ele alcançasse o topo.
.Felipe ficou sentado sobre o muro, com receio de passar para o outro lado.Apesar de ser tão alto.Para ele qualquer altura insignificante era como um salto em queda livre do Himalaia.Mas foi auxiliado por Dirceu, desta vez sem solicitar.Foi empurrado para o outro lado, não tendo tempo de avaliar os prós e contras da façanha.
.Podiam ver uma silhueta acenando para eles no final do declive.O terreno era totalmente irregular e caminhar por ele era como descer por um despenhadeiro.Uma jornada vertiginosa até o local onde a silhueta se encontrava.Qual deles esperava por eles?A luz fosca proporcionada pelos postes da rodovia não auxiliava a visão.Dirceu começou a descer.Felipe tinha que seguir o mesmo caminho, sem hesitações.Contemplou mais uma vez o abismo, tateando no fosso dentro de si, procurando por coragem.Dois deles já pulavam o muro e a idéia de ser deixado para trás apavorou-o o bastante a ponto de fazê-lo finalmente decidir-se em descer.Deu um passo, seguido de outro e seguia com relativa segurança.Não era tão difícil assim.Não teria sido se seus pés não houvessem encontrado um obstáculo.Não era uma pedra.Pois mesmo durante os poucos segundos entre o choque e o tombo, sentiu que seus pés haviam tropeçado em algo maleável.Provavelmente um sapo.Sua mente conjeturou aquelas suposições entre o choque e o início da queda.
.Rolou como uma bola de futebol, rápido e incontrolável, até encontrar os pés de Neto.Ao olhar para cima, percebeu que ele levava as mãos ao rosto ao invés de estendê-las para ajudá-lo.Provavelmente usava-as para abafar o riso.Não tinha muita certeza disso, pois estava escuro demais para enxergar algo com nitidez.Levantou-se e bateu as mãos na camisa cinza e na calça jeans azul que havia sido rasgada em alguns pontos.Suas mãos estavam arranhadas e o sangue começou a fluir lentamente, como se receasse em encontrar a noite.A muralha encontrava-se novamente à sua frente.Neto já estava subindo e agora ele pôde perceber que Davi e Ricardo eram os que já tinham pulado.Inclusive já deveriam ter atravessado a rodovia.Dirceu fez um gesto que indicava menção em ajudar Felipe a pular o muro, mas ele ignorou a ajuda e num impulso de auto provação, conseguiu atravessar o obstáculo.Uma dezena de locais em seu corpo doíam e tudo aumentou com o esforço, mas ele havia conseguido transpor a barreira e a euforia momentânea anestesiou sua dor por alguns instantes.
. Alcançando o outro lado, percebeu que os outros desciam a depressão que havia do outro lado da rodovia.Neto atravessara a rodovia e Dirceu estava a seu lado e acabara de pular o muro.
-Você se machucou muito? - Perguntou Dirceu.
-Acho que não.
-Bom, vamos em frente, então.Eles estão bem longe.
.Atravessaram a rodovia estranhamente vazia e puderam ver os dois desbravando o novo território.Seguiram-nos.Desta vez Felipe desceu com todo o cuidado.Havia eucaliptos até que chegassem na tal casa.A terra prometida estava à cerca de trinta metros.Adentraram no reino dos eucaliptos e os três ouviram nitidamente o barulho da sirene desta vez.
.Os policiais descobriram os fugitivos com relativa facilidade.Haviam trazido cães, armas, e um incontrolável desejo de aliviar a tensão infligindo dor a quem transgredisse a lei.Seguiam pela rodovia, mas, cedo ou tarde perceberiam que eles tinham seguido o caminho adjacente.
.Ricardo seguia entre as árvores, tropeçando em espessas raízes ou em algum galho caído, mas nunca parando para avaliar as feridas, pois o desespero falava mais alto.As lembranças em voltar para a cadeia.Não, isso não iria acontecer.Mataria-se, mas não se entregaria.Alguém chamava o seu nome pedindo-o para esperar.Dane-se.Nem se seu pai estivesse ali não iria aguardar.Mas havia outras vozes.Poderia jurar ouviu-las vindo dos troncos das árvores.Elas pareciam zombar dele.Se estivesse mais claro poderia ver o sorriso de escárnio em cada uma delas.Sua mente clamou em silêncio para que eles deixassem-no em paz.Árvores estúpidas.E existem pessoas que dão a vida para que elas não sejam derrubadas.Tentou desviar os pensamentos idiotas e fingir que não ouvia som algum.Xingava as grandes torres de madeira e, como que por castigo, tropeçou numa raiz e arranhou o rosto numa infinidade de galhos que se encontravam no chão.Vociferou, desta vez alto e claro, como se a sua voz tivesse o poder de espantá-las.Uma névoa apareceu à sua frente, encobrindo a lua e o céu sem estrelas.Davi conseguira alcançá-lo e os dois observaram-na, hesitando em se aproximar.Neto os alcançou naquele momento
-Névoa, neste calor? - Questionou Neto.
-Estranho, mas temos que ir em frente. - Havia um corte no supercílio de Ricardo que sangrava e aquilo o irritava.
.Seguiram com extrema cautela pela névoa.Evitando falar uns com os outros, como se receasse acordar algo.Neto ia à frente.Mais perto do muro, mas tudo ficava mais denso e a visão dele ficava cada vez mais turva e finalmente desapareceu.O ar ali adquiriu uma coloração ocre e Neto apavorou-se repentinamente ao inalar aquele gás, apesar de não ter sentido nada.
-Isso é tóxico! - Gritou e tossiu, mais por pânico do que por qualquer reação física.
.Os outros temiam segui-lo após ouvirem aquela frase, mas ao ouvirem um disparo, ignoraram o quanto o gás poderia realmente ser nocivo e penetraram a névoa.Esquecendo que as armas que tinham em punho poderiam oferecer uma razoável resistência a quem quer que esteja atirando.
.A temperatura ali esfriava a cada metro que adentravam no território.Tentavam falar, mas não conseguiam ouvir nem mesmo suas próprias vozes ou enxergar uns aos outros.A atmosfera ali era espessa, embora respirar não fosse tão difícil.E, subitamente a audição voltou com o som de gases movimentando-se em inacreditável velocidade, fazendo-os cambalear sem direção.Não era como a música que o vento que cantava em sua ira nos tufões ou furacões.Era desconhecido e certamente mais danoso.Enfrentavam a tormenta, apavorados e curiosos com o que poderiam encontrar quando a superassem.Venceram-na enfim, e após alguns minutos tudo clareou, para que pudessem contemplar a esplêndida visão.
***
.Desta vez Felipe estava á frente de Dirceu e, como se ele mesmo não acreditasse no fato, arqueou-se e tomou fôlego para continuar a corrida.Ouviu um tiro que acertara uma das árvores, próximo de onde estava e desistiu do descanso, continuando a desbravar os eucaliptos.Neste momento, Dirceu o alcançou e o ultrapassou sem ao menos lhe lançar um olhar, entrando na neblina noturna sem vacilar.Aquilo estranhamente encorajou Felipe, mas não completamente, pois as árvores ao seu redor pareciam perder a substância, a consistência, mudando de forma e afastando-se de tudo que é tangível e real.Elas pareciam estar derretendo.Uma tela pintada com tinta barata que se recusava a secar.Aquilo pareceu tomar-lhe vários minutos de seu tempo.A sensação de solidão que sentiu naquele momento o dominou em poucos instantes, fazendo-o seguir adiante.
.O frio foi a primeira coisa que pôde sentir ao adentrar aquele território.Sua pele umedeceu-se ao entrar em contato com a cerração ocre, que o empurrava adiante, não lhe dando outra opção.Usava-o como um brinquedo e sons invadiram sua cabeça. Pareciam entrar e sair por seus ouvidos, como uma minúscula cápsula exploradora dentro de seu crânio.Não deixou de perceber a singular dissonância proporcionada pelos sons, e a névoa dissipou-se apressada, ansiosa para mostrar a Felipe onde ele havia chegado.
.Respire, pois outras espécies dependem dos gases que você despreza.O verde implora por eles para fotossíntese.E seres que a evolução esqueceu também os desejam, e os aguardam na paisagem siamesa.
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