A PAISAGEM SIAMESA - Parte 2
Carlos Paraná
O toxicômano pensou em se levantar do sofá, mas desistiu.Contentou-se em olhar para a janela e tentar esquecer o ruído e de onde ele vinha.Não queria olhar e ter a confirmação. Mesmo estando limpo, era como ele estava esta noite, ele sabia que a visão era fiel e jamais o traiu, sempre estivera ali, aguardando por ele, exibindo-se como uma decadente dançarina para uma platéia de um homem só.
.Se ao menos a desintoxicação houvesse levado as visões embora, mas, ela só contribuiu para torná-las mais fortes e vívidas.Nos períodos de abstinência ela retratava-se até mesmo mais nítida prolongava-se por horas e horas.Então, como se sentisse isento e aliviado, voltava a sua musa, a heroína.Seus braços brancos infestados de erupções, pequenos buracos avermelhados atestavam o retorno a ela.O atestado da derme violada em favor do prazer e da iminente destruição.
.A torre era imensa e parecia perfurar a atmosfera sem concessões ou hesitações.Helicópteros e aviões a atravessavam, ignorando-a completamente, pilotos e radares não eram conscientes da sua existência.Mas não fora ali, onde ela se encontrava, que um avião comercial caíra há três anos?Havia descoberto isso pesquisando o vasto material que existia sobre o fato do acidente com o avião da empresa TLVA.Cento e trinta e seis mortes.A empresa entrou em concordata após pagar as indenizações aos familiares.
.As silhuetas sobrevoando ao redor da torre também faziam presença, prováveis guardiões daquela construção.Vinham deles os ruídos.Gritos de aviso àqueles que tentassem se aproximar.Uma tarefa um tanto inútil, pois apenas alguns escolhidos como ele, covardes e inofensivos, a conheciam.
.Prometeu a si mesmo Não se mover e foi o que fez, apenas ouviu os sons desvanecerem, murchando e esvaindo, como se necessitassem de total atenção para continuarem a ecoar.Momentos depois, ele adormeceu e ela continuou onde estava, pois nesta noite não precisaria dele, possuía outros espectadores.
.O sargento Pereira não entendeu como aqueles bastardos fugiram e por onde eles haviam escapado.A grande maioria dos eucaliptos e a residência adiante já haviam sido vasculhadas.Iria mandar uns soldados e cães varrerem o que restou das redondezas, mas era improvável que se encontrassem lá.Não sabia como explicar no seu relatório uma coisa daquelas.Os malditos deviam estar envolvidos com macumba.Filhos da puta.
-Lopes, pegue os cães, você o prado e o Luiz, dêem uma geral mais adiante - Ordenou o sargento com seu senso de liderança em frangalhos, esforçando-se para não gaguejar ao falar.Deveria ter ouvido o Lopes e ter seguido pelo acostamento e não adiante pela estrada, há vinte minutos atrás.
-Sim senhor - Lopes respondeu prontamente. - Prado, Paraná, cheguem mais e tragam as feras.
.Os dois soldados e o cabo Lopes seguiram com os pastores alemães.Era impossível distinguir quem estava mais confuso.Pode avistar alguns metros a sua frente, que os cães não seguiam.Viravam os focinhos e ganiam apavorados.Mas não havia nada ali, além da névoa.E por que as criaturas tinham tanto medo?Seria o cheiro exalado pela serração.Naquele momento, agradeceu por não ter o olfato desenvolvido como o dos cães.
-Senhor, os cães não querem seguir. - Disse Lopes em voz alta, virando-se para seu superior.
.Num impulso de raiva e impotência perante a situação, o soldado Prado chutou um dos cães.
-Estúpido. - Berrou Lopes - Faça isso de novo e... - Percebendo que ignorou a autoridade ali presente, o cabo interrompeu a frase e ficou estático, aguardando a repreensão.
-Você está autorizado a berrar com esta anta enquanto ele fizer este tipo de barbaridade, cabo Lopes.
.Num surto eufórico, e com a energia totalmente renovada, Lopes repetiu a frase, desta vez até o final:
-Seu estúpido!Faça isso novamente e vamos te segurar e deixar o cão lhe morder!
***
.Felipe e Dirceu haviam saído de uma noite sem estrelas para uma manhã fria e suja.O fedor agridoce penetrava violentamente suas narinas em contraste com o gás inodoro inalado segundos atrás.Felipe avistou Dirceu engatinhando a alguns metros adiante. Ele olhava para cima e para baixo, como um animal adestrado que recebia ordem de um domador invisível.O céu ali era composto de espessas nuvens verdes que davam a impressão de tempo nublado.
.Caminhou, sentindo a cada passo um pavor e uma sensação de dúvida inimaginável.Temeu que o chão se abrisse e o engolisse, impiedosamente, com a mesma indiferença e naturalidade que os humanos engolem uvas.Tocou Dirceu e ele despertou, como se acordasse em transe.
-Que lugar é esse? - Foi a primeira pergunta que Felipe fez, sentindo-se idiota por saber que Dirceu era tão ignorante quanto ele em relação a onde estavam.
-Vamos vol... - Disse Dirceu olhando para trás, e, ao observar o horizonte que parecia eterno, que parecia rir deles em silêncio muito diferente das árvores que o cercavam há alguns minutos atrás, ele falhou em completar a frase.
.A região onde o trio se encontrava era bem diferente da terra onde os dois estavam.Havia vegetações desprovidas de clorofila, albinas.A sensação de insignificância perante aquela terra alienígena os impediu de expressarem o que sentiam em palavras por alguns momentos.Até que Davi tomou coragem e falou:
-Que droga será isso? Olhem a cor destes vegetais.
-O que aconteceu? - Perguntou Neto, empolgado por Davi ter tomado a iniciativa de impregnar o ar com palavras - É uma espécie de armadilha, aposto, esta merda destes tiras, ficam mexendo com este negócio de realidade virtual, e nos pegaram como cobaias.Vi isso no jornal há algum tempo.
-Não me parece tão virtual assim. - Discordou Ricardo.
.Não ousaram tocar na vegetação Albina, e não encontraram nada que pudessem perceber de estranho além da ausência de cor.Ao deixarem o local, avistaram uma ponte a no máximo duzentos metros adiante.Seguiram cegamente até lá.A excentricidade inserida na decoração da ponte era demais para a imaginação limitada dos três.O chão na ponte era composto por uma espécie de piso maleável como argila, que automaticamente apagava as pegadas deixadas pelos três.Sua extensão era de pouco mais de vinte metros, onde predominavam nefastas esculturas de cabeças de artrópodes, cortes longitudinais de gafanhotos que decoravam sua parte superior.Embora a mais repulsiva das visões fosse o gigantesco lago logo abaixo da ponte.Imponente e estranho.A maior parcela de sua repulsa devia-se ao fato da cor da substância da qual o lago era formado.Era negra.Negra como a noite, singela, como num céu de Lua nova.Era como se o céu houvesse se liquidificado e se dispusesse logo abaixo de nós.Os olhos dos três captam um movimento no lago.Larvas.Brancas e repugnantes, gigantes como cobras, debatem-se como se a água negra as queimasse.Seus olhos são de um vermelho vivo, emprestando-as a impressão de eterna vigilância, mesmo em meio ao desespero, onde exibem suas cerdas encharcadas.Algumas se agarram em pedras para evitarem ser levadas pelo fluxo do lago.Outras se encontravam sobre jangadas de ovos.Supervisionando seus irmãos ainda por nascer.
-Vamos passar logo por aqui, não quero olhara para este merda.-Nervosismo e medo podiam ser sentidos claramente na voz de Ricardo.
-Quanto mais longe disso, melhor. - Concordou Davi.
-Esperem, algo está se movendo na água. - Interveio Neto.
-Como você pode chamar esta droga de água. - Davi interrogou.
-Desculpe, foi força do hábito.Mas, olhem, algo está fazendo jorrar as águas do lago.
-Pare de olhar e vamos embora.
-Espere um pouco, Davi.
.Os outros seguiram e Neto não parou de prestar atenção na substância que compunha o lago, subindo e descendo.Movimentando-se de maneira estranhamente bela.
.E estranhamente mortal.
.Se pudessem pergunta-lo após o ocorrido.Se fora uma ilusão de ótica aquela mesma porção de líquido que jorrava a uma distância considerável ter se aproximado num piscar de olhos.E então pairado no ar por um instante, ter se solidificado e adquirido a forma de pequenos escorpiões.Que saltaram em direção a seu peito antes que ele pudesse perceber e tentar evitar o encontro.Evitar o ferimento.As picadas em seu coração, incessantes e cruéis.Seu coração perfurado em uma infinidade de locais e o sangue que abandonava a grande bomba e caindo no chão da ponte a cada contração de átrios e ventrículos.
.Não nos importaríamos em perguntar, se ele ao menos pudesse responder.Se não tivesse sido traído pelos seus olhos e pela curiosidade.
.Os outros dois deixaram a ponte e o companheiro para trás em disparada e não puderam ver o momento em que o enxame de escorpiões voltou a sua forma original e caiu sobre o corpo de Neto.Criando um bizarro contraste entre as cores negra e vermelha.
.Felipe continha-se com muito esforço ao ver Dirceu chorar, não que sua empatia fosse das mais nobres a ponto de leva-lo as lágrimas também.Ele queria rir.Tentar achar algo de cômico em como o assalto falhara e como tudo pôde resultar naquilo, e como o outrora prestativo e aparentemente equilibrado Dirceu sucumbira com uma pequena dose de realidade.Mas a realidade não era aquilo onde todos eles estavam antes de pisar e tocar na sombra do desconhecido?Isto aqui era irrealidade.Deixou este paradoxo de lado e tornou a observar seu companheiro.Ele estava sentado de pernas cruzadas, e as mãos em seu rosto o cobriam por completo.Suas mãos abandonavam a sua face apenas para limpar as lágrimas, dando lugar a outras.Tentou tocar seu ombro, mas foi repelido violentamente, como se seu toque fosse tóxico.
-Não me toque! Nunca mais iremos voltar.
-Choros e soluços não nos farão voltar.
-Siga em frente você.Eu não vou.
-Sim, você irá comigo. - Agiu com incomum decisão, muito mais por medo em seguir sozinho do que pelo prazer da companhia de Dirceu.Felipe levantou-o do chão e arrastou-o, obrigando a andar após alguns metros, puxando-o pelo braço.Na realidade ele estava certo.Por que seguir em frente?Certamente não havia nada a se ver ali.Mas um morro esperava por eles adiante, revelando centenas de conchas espirais, que eram certamente algo a se ver.
.As conchas possuíam cerca de dez metros de altura, e talvez pela sua altivez, Dirceu acovardou-se a tentou voltar.Felipe o segurou com força e por mais que o outro tentasse correr, não conseguira sair do lugar, sendo obrigado a partilhar a visão.
.Para Felipe, elas eram de uma solenidade tão intrigante que ele imediatamente lembrou-se das fotos da paisagem da Capadócia, cidade remota de origem vulcânica, da qual seu avô mostrava-lhe fotos quando ele era um garoto.Todas elas estavam dispersas de maneira organizada.Havia uma concha maior do que as outras a nordeste de onde se encontravam.Desceram o morro e se aproximaram de uma delas, percebendo que elas possuíam uma pequena abertura de pouco mais de meio metro.Felipe preparava-se para entrar e foi puxado por seu companheiro.
-O que você via fazer?
-Entrar, por que não.
-N..não! - Exclamou Dirceu, em desespero.
-Sim, eu vou.
-Por quê?
-Acho que ouvi algo. -Respondeu Felipe.Aquilo fora um blefe dos mais baratos, pois não ouvira nada.
-Seu maldito mentiroso! Você não pode me deixar sozinho aqui. Não acreditou nele, achou que aquilo fora um blefe dos mais baratos, pois não ouvira nada.
-Então entre comigo.Tenha a bondade.
.Sarcasticamente, Felipe cedeu seu lugar na entrada para que Dirceu entrasse primeiro.Mas, ele não se moveu.Então, ele entrou.
.Após alguns momentos, Dirceu o seguiu. O interior das conchas era escuro e a temperatura era quente.O som que Felipe dizia ouvir realmente existia ali dentro.Soava como algo gemendo, de repente, gritos, como o seu autor se fizesse um esforço tremendo para libertar algo, ou se libertar.Subitamente vem o silêncio, dando início a intervalos de poucos segundos entre gritos e calmaria.Ás vezes, durante os períodos de silêncio, alguém o quebra e choros podem ser percebidos.Ficaram parados por alguns minutos, apenas analisando os ruídos, como atentos a execução de uma bela sinfonia.Continuariam ali, se Felipe não houvesse tomado coragem e começado a caminhar no escuro.Era uma escada, aparentemente, e durante a descida ouvem o som de algo pastoso sendo manipulado, algo que ofusca a sinfonia.Dirceu agarrou a camisa de Felipe e permitiu que fosse guiado.Não muitos lances de escadas depois, a espiral findou-se, mas havia mais degraus em curva numa direção que os presenteou com a penumbra.Agora estavam irremediavelmente perto para discernir os choros, assexuados como os de bebês e a voz que gritava era feminina.A iluminação vinha de uma porta a alguns passos, que não levaram muito tempo para alcançar.
.Aquela que esperava por eles na sala, soltou um suspiro de tédio ao vê-los.Ela era gigantesca, de proporções inumanas uma mulher de pernas longas e finas.Havia alguém a seu lado, minúsculo, segurando as mãos da gigante com grande dificuldade.A criatura anã de costas inchada abre seus braços como se abraçasse a escuridão e trouxesse de volta a luz.Ironicamente é exatamente isso que ocorre.Tudo se torna claro, exceto por uma camada acinzentada e turva permanece que um pouco abaixo dos joelhos dos dois.Mas, isso não os impediu de observarem a deusa gigantesca.
.Ela está deitada, de costas para os dois, em uma mesa de pedra e seu ventre balofo pulsa loucamente, suas pernas se abrem e agora ela os mostra o motivo dos gritos.Ela estava no final de sua gestação, e preparava-se para expelir o que continha dentro de si.Aposição que ela se encontrava, impedia de perceberem o que ela trazia para aquele estranho mundo.
-Vocês a querem? - O homem indaga.
.A mulher ri.
-N..Não, nós... -Tenta dizer Felipe.
-Estamos apenas olhando, não é?Eu sei que vocês querem tocar além de olhar, mas ela está ocupada agora.
-Estamos percebendo.-Responde Dirceu.
-Sim, vocês perceberam.E mesmo assim nos interrompem. - O homem falava sem dirigir-lhes o olhar. - Suponho que vocês queiram saber mais.
.A mulher murmurou algo que ninguém na sala pôde compreender.
-Fomos como vocês, uma vez.Disfuncionais.Sem propósito.Vagávamos sem rumo ou direção.Agora encontramos uma função. Fazemos o que eles não podem.
-Quem seriam eles? - Indagou Felipe.
-Os estéreis.Logo vocês vão conhecê-los.Quando eles aparecem, é impossível não notar sua presença.Tanto do seu lado quanto deste.Nós procriamos para eles.Quando tivermos reproduzido o bastante para que eles sejam auto suficientes, eles nos substituem.Eles nos mandam para a torre.
.Aquela conversa estava tomando um rumo realmente estranho, sem nenhum nexo.Por conta deste fato, Felipe sentiu uma estranha inquietação, que foi percebida pela criatura:
-Posso sentir a curiosidade roçando dentro de vocês implorando para sair.Arranhando as paredes.
.A criatura dirige-lhes o olhar e gesticula novamente os braços, fazendo desaparecer a camada acinzentada que existia no chão.
.Os filhotes estão lá, amontoados, e entre aquelas medonhas aberrações, dois podem ser mais bem observados.Um tem os olhos fechados seus braços estendidos, como se tentasse, em vão, alcançar o colo da mãe.Seus braços são humanos, assim como seu abdome, mas seus membros inferiores não o são.São patas aracnídeas, três pares delas, que se movimentam em polvorosa.O outro tem todo o seu corpo, com exceção da cabeça, como um artrópode, experimenta movimentar seus membros invertebrados, esforçando-os para tentar se levantar, mas ele não dispõe de forças para tal feito.Deles vinham os choros assexuados.Agora também observaram que a imensa mãe tinha patas como as dos filhotes, intercaladas por membros humanos.
-Estes são os herdeiros, existem muitos outros como estes aqui.Vasculhem por aí se isso não matou a sua curiosidade, ms tomem cuidado, pois alguns deles saem para brincar. - Ao dizer isso, o minúsculo guardião da luz, o híbrido entre aracnídeo e humano abriu os braços, inundando novamente a sala com a escuridão.
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