O PARTO
Elton Menezes
Ela abriu os olhos, sentindo um cheiro forte e acre. Sem precisar levantar a cabeça, percebeu que partes de seu corpo estavam desnudas. Tentou descobrir onde estava, mas não conseguiu. Estava em meio ao escuro, e era difícil identificar qualquer coisa. Na verdade, percebeu que tudo ao seu redor se movia rapidamente.
Achou, de início, que estivesse dopada, mas só então se deu conta de que estava sendo carregada. Percebeu ao tentar mover as pernas e os braços, e sentir uma pressão ainda maior, apertando-lhe a carne, para evitar que ela escapasse. A força empregada para apertar sua carne era tão intensa que ela, por um momento, achou que pedaços de sua pele seriam rasgados, e ela cairia no chão, sangrando.
Tentou se mover outra vez, e as mãos a apertaram com ainda mais força. De imediato, ela tentou rugir de dor, mas seu grito saiu fino, estranho, pois sua garganta parecia obstruída. Ela tossiu bastante, antes de se controlar. Esticou os braços e tentou se segurar nas paredes, para ter maior apoio. O movimento dos que a carregavam era tão acelerado que, ao cravar a mão nas paredes, seus dedos foram arrastados, e partes de suas unhas ficaram encravadas.
Ouviu quando uma porta foi aberta, fazendo um ruído angustiante. Dentro do lugar cuja porta fora aberta, a luz era muito intensa. Aproveitou para olhar melhor as pessoas que a carregavam, mas a luz doeu em seus olhos. Quando eles se acostumaram, ela conseguiu visualizar duas pessoas encapuzadas que, pela forma física, pareciam homens.
Eles a colocaram sobre algum lugar duro, e amarraram mãos e braços de forma grosseira, a ponto de a garota esperar ouvir seus próprios ossos se partindo. Mas não aconteceu, e ela, passando os dedos sobre a superfície onde estava, percebeu ser concreto.
Sua maior preocupação não era ela própria, e sim seu ventre. A criança que carregava ali. A gravidez estava perto de completar nove meses, e ela sabia que qualquer descuido poderia ser muito perigoso.
Moveu o corpo com cuidado para não se machucar mais nem à criança. Viu uma mulher vestida de enfermeira parada diante da porta, com uma expressão esquisita. Suplicou sua ajuda com um olhar de piedade, mas a mulher se virou, ignorando. Ela continuou tentando se soltar, sem conseguir, apenas machucando mais a pele dos pulsos e dos tornozelos, então viu um dos homens se aproximar, sorrindo. Ele trazia algo em mãos.
Ele colocou a mão no seu queixo, segurando-o com força contra a superfície de concreto, então revelou um pequeno tubo, que passou pelos lábios dela, enchendo-os de um líquido gelado, transparente, pegajoso. Ela ficou enojada, e ele colocou uma borracha entre seus dentes, depois passou os dedos por seus lábios. Ela tentou abrir a boca, descobrindo que os lábios haviam sido colados um ao outro.
Começou a gemer e esticou os braços, forçando-os para junto da boca, tentando descolar os lábios. O homem, no entanto, a impediu de fazer isso e, como ela continuou tentando, ele deu um tapa em seu rosto. Caída de lado, o rosto machucado pela agressão, ela começou a chorar, e não se mexeu mais. O outro homem calçou luvas, então se aproximou, sério, e disse:
“Está na hora de arrancar essa semente ruim de você”
“Que vai fazer?” tentou falar a moça, desesperada, mas dificultada pela cola.
O homem, que parecia mais velho, apenas se virou para o outro, e este caminhou até o outro lado, segurando os braços dela. Ela tentou se soltar dele, mas a força foi muito grande, e ela desistiu. O homem jovem amarrou seus braços com correntes, depois fez o mesmo com as pernas. O mais velho apanhou um bisturi, então parou diante do corpo seminu.
Ele fez uma incisão no ventre da mulher, cortando alguns centímetros, e não estancou o sangue que começou a sair de sua derme retalhada. Ela jogou a cabeça para trás, sentindo uma dor excruciante, mas sem conseguir gritar, por culpa dos lábios colados. Tudo que conseguia fazer era gemer e chorar.
Lentamente, cortando os tecidos do abdômen dela com o bisturi, o velho expôs seu peritônio. Cortou também a parte inferior deste tecido, deparando-se com alguns dos órgãos de Vanessa, que continuava a rugir. O outro homem colocara a borracha em sua boca para que ela não destruísse os próprios dentes de tanto que os apertava. Bexiga, útero, ovários surgiram em meio à volúpia de sangue.
O velho apanhou u uma seringa e injetou um pouco de anestésico na região hipogástrica. Esperou alguns segundos para fazer efeito, então iniciou uma incisão no útero. Cortou todos os ligamentos do útero à cavidade abdominal, depois retirou o órgão e o rasgou na metade, retirando de dentro, com muito cuidado, uma criança completamente formada, ainda vermelha e chorando.
Entregou a criança ao mais novo e, de qualquer jeito, suturou os tecidos mais profundos expostos, mas não fechou a pele.
O velho caminhou até criança, que ainda chorava. A mulher, os olhos vermelhos e úmidos, voltou-se para eles, tentando ver o próprio filho, mas não conseguiu. Os dois homens encapuzados se posicionavam diante da criança, impedindo. Quando o mais velho se afastou para apanhar alguma coisa, ela vislumbrou rapidamente a criança, vermelha de sangue.
O mais velho retornou com um punhal. Parou diante do bebê e, com um só golpe, perfurou seu abdômen espesso, rasgando seu fígado, enchendo a mesa, onde fora colocado, de sangue vermelho vivo. Em seguida, proferiu algumas palavras em um dialeto estranho, e atingiu o coração da criança, girando o punhal para ter certeza de que o ato fora eficiente.
A mãe abriu ainda mais a boca, rasgando lentamente os próprios lábios, arrancando a cola que os prendia, e gritou, em um desespero incontido para que não fizessem aquilo a seu filhinho, que ela desejara e de quem cuidara por todos aqueles meses, que agora só queria pôr no colo e dar amor e carinho. Implorou para serem piedosos, mas os homens não a ouviram. Em sua explosão de violência, continuaram a golpear o que ainda sobrava do bebê e, ao final, ergueram sua cabeça despedaçada, apontando na direção da mãe.
O velho, então, disse:
“Enfim, nós conseguimos impedir que o anti-cristo nascesse”
elton.menezes@hotmail.com
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