LUA, PERVERSA, LUA: A CASA DOS RAVIERI
Eduardo Amaro
É noite. Uma noite calma para os dias atuais. Uma noite deliciosamente calma para mim. Silenciosa, meus instintos parecem mais aguçados quando a quietude dos escombros se faz presente. Os gemidos dos feridos distantes tornam-se cada vez mais próximos. Minha fome aumenta a cada passo. O perfume do sangue, sem o ar contaminado pela pólvora, muito mais doce. Olho para o céu, não vejo minha amada. As malditas nuvens acinzentadas estão fechando minha visão.
Sinto estar muito próximo. Sorrateiramente, caminho em direção à minha presa: um soldado de porte médio, magro, cabelos claros e pele muito branca. Um alemão! Que delícia! Adoro carne branca.
Não confio nos germânicos, pois são aliados dos austríacos. "Deutschland über Alles", grande piada! Diplomacia nunca foi o meu forte. O coitado (e suculento) soldado nem percebe quem o atinge. Sou muito rápido, minha aparência "nada sociável", minha fome... violenta! Com um único golpe arranco sua cabeça. Meu ataque foi pela retaguarda, como sempre. O sangue jorra, caindo sobre os meus pêlos. Aproveito o momento de glória, olho para o céu negro, minha amada sorri. Eu dedico a ela minha presa, saboreando-a como poucos pratos que as melhores cozinhas podem fazer.
Com a fome satisfeita, procuro um lugar de repouso perto do casarão de minha família. Moramos juntos, uma grande família, toda a minha estirpe (a última, talvez) sob o manto protetor de uma grande casa que, há séculos, vem acolhendo a família Ravieri. O horrendo sol vermelho-amarelado aponta no horizonte parcialmente iluminado.
Tempos difíceis. Mesmo a vitória de dois anos atrás não acalmou a nossa "Itália irredenta". Nossos líderes políticos estão nos levando ao caos. Não os maldigo pois a comida não falta com a guerra. Tenho muitos soldados para me alimentar. Eis a Torre de Babel: por um lado, turcos prisioneiros da recente batalha. Por outro, alemães invadindo nossa terra para forçar-nos aliança. Pelas costas, imigração ilegal de romenos. Meus pensamentos fazem a loucura momentânea e diária passar. Com a mente presa a outras distrações, caio no sono.
_ Lorenzo... acorde. Lorenzo, acorde! Já é quase manhã!
_ O... o... que?
_ Você dormiu novamente fora de casa. Quantas vezes preciso dizer que é perigoso? Se nosso pai descobre, come seu coração!
_ Não se preocupe, Léo. Já estou me recuperando. Traga algumas roupas para mim, per favore
_ Nem precisava pedir. Volto num instante.
_ Certamente.
Tenho sorte em ter alguém como Leonardo sempre ao meu lado. Ele é o único da família que aceita meus deslizes. Não sei o que faria sem meu irmão. Vejo-o entrar em casa e sinto o quanto lhe serei eternamente grato.
Atento para os desprazeres que poderiam ocorrer se Marcelo, seu pai, soubesse das aventuras de Lorenzo, Leonardo adentra a mansão cautelosamente.
_ Ei, bambino! Vá chamar seu irmão. Temos visitas inesperadas.
Que tremendo susto! A voz grave do pai agride seus ouvidos, esfriando seu coração. Ele pensa em subir rapidamente. O velho, sentado na sala de visitas esperando os convidados, não o veria saindo com as roupas.
_ Papa, que surpresa. Pensei que o senhor ainda estivesse descansando.
_ Estava, bambino. Os criados me acordaram para receber nossos parentes residentes na Romênia que acabam de chegar. As coisas por aquele lado estão muito ruins.
_ Eu sei, querido pai. Quando fui a Paris, ano passado, li a respeito as notícias do "Le Monde". Lorenzo novamente teve insônia e resolveu sair um pouco. Eu mesmo o aconselhei, dizendo-lhe que o ar puro das flores e a beleza do amanhecer poderiam animá-lo.
_ Fez bem, meu rapaz. Agora vá chamá-lo, como ordenei.
_ Certamente, papa. Antes, porém, vou buscar meu chapéu que deixei no quarto.
_ Espero vocês na sala de estar.
_ Com sua licença, volto num instante.
"Que sorte!", pensa Leonardo. "Conservador como meu pai é, a desculpa do chapéu foi perfeita. Ele aprecia muito a tradição de receber visitas vestido apropriadamente", complementa. Acelerando seus batimentos cardíacos, ele sobe aos pulos a imponente escada de mármore que dá acesso a seu quarto.
Alguns minutos depois, os irmãos Ravieri adentram a mansão.
Sentados no sofá de visitas, ouvindo uma tradicional ópera no gramofone, estão os misteriosos parentes romenos dos napolitanos. Os dois jovens se apresentam. O Sr. Marcelo, orgulhoso, aumenta a voz para falar dos seus planos e de tudo o que aconteceu desde que seu irmão Cláudio resolveu mudar-se para a Romênia. Lorenzo e Leonardo continuam em pé, observando minuciosamente aquelas pessoas.
_ Então esses são os primos e tios que meu pai sempre comenta, sussurra Lorenzo.
_ O que disse, Giallo?, interroga em mesmo tom seu irmão, chamando-o pelo apelido.
_ Nada não, Léo. Estava apenas pensando, só isso.
Eu não havia reparado em minha prima quando pequeno. Bela! Belíssima! Que criatura radiante! Seus olhos parecem duas safiras!, pensa. Como é mesmo o seu nome? Margarete? Janete? Que gafe! Eu não me lembro!
_ Annete!, exclama Lorenzo, empolgado pela lembrança.
_ Não me interrompa, bambino! Estou falando! Que má educação, nem parece um Ravieri!.
_ Desculpe-me, papa
Enquanto Lorenzo observa sua prima, perdendo-se a pensamentos mais íntimos, seu pai continua a contar, freneticamente, as peripécias da família que ajudou "a construir aquele cantinho da mãe Itália. As outras famílias temem ao ouvir o nosso sobrenome" e blá blá blá blá blá.
"Será que meu pai não se cansa de repetir a mesma coisa para todos?", reflete. "Qual a utilidade do gramofone se ele próprio já é um? Tenho que entrar na conversa e descobrir mais sobre essa jovem tão bela. Nem sei quanto meus tios decidiram ficar".
_ Desculpe-me por essa nova interrupção, papa. Tenho um motivo especial. Não seria mais conveniente o senhor ficar aqui com o tio Cláudio e sua esposa enquanto eu e Leonardo mostramos nossa propriedade aos primos?
_ Si, bambino. Finalmente está agindo como lhe ensinei. Sua gentileza é característica marcante de nossa família. Faça como deseja.
Lorenzo quase salta de alegria. Annete fita-o ao perceber sua euforia interior, abrindo um leve sorriso.
_ Vamos?, adianta-se Lorenzo, oferecendo seu braço à dama como todo cavalheiro deve fazer.
Eles partem para o jardim, os irmãos e seus primos estrangeiros: um casal de gêmeos seguidos da bela e encantadora donzela. Annete também se sente estranhamente admirada por seu primo. Sua admiração rompe a barreira do primeiro contato.
_ Você sempre viveu aqui?, interroga a jovem.
_ Como disse?, espanta-se Lorenzo.
_ Eu perguntei se você nunca saiu da Itália, agrava.
_ Ah... uma vez eu fui visitar Paris.
_ E...?
_ Eu não quero falar sobre essa viagem, tudo bem?
_ Será que poderíamos ter um pouco mais de privacidade?, pergunta Annete, com certo ar de sedução.
_ Léo, você e os primos poderiam nos deixar a sós por alguns instantes?
Leonardo olha fixamente seu irmão. Sabendo quanto galanteador ele é, arranja de imediato uma desculpa para ajudá-lo.
_ Fábio e Fabrizio, per favore, acompanhem-me. Vou mostrar-lhes nossos bonsais, que ficam mais adiante.
Após alcançarem uma distância segura, Lorenzo retoma o diálogo:
_ Onde paramos?
_ Você não queria falar sobre sua viagem a França. Por quê?
_ Não foi tão boa quanto eu esperava. Paris é bonita, mas eu prefiro Roma.
_ Não foi muito convincente, mas vou aceitar. Diga-me, Lorenzo, por que seu irmão o chamou de Giallo?
O coração de Lorenzo dispara ao ouvir tais palavras. Como ela poderia ter ouvido a conversa na sala de visitas se estavam suficientemente distantes e conversaram aos sussurros?
_ É... digo, pensei que você soubesse, disfarça
_ Se eu soubesse não haveria motivo para perguntar, não? satiriza Annete
_ Evidente. Desculpe-me o deslize. É por causa da cor do meu cabelo. Desde pequeno chamavam-me assim. Foi a mama quem colocou esse apelido em mim.
_ Você sentiu muito a morte dela, pondera a jovem
Annete jogou sal na ferida. Lorenzo pensou que sua prima estivesse interessada em seus fogosos olhos azuis ou em seu imponente estilo, sabe-se mais o que... e isso. Ela estava apenas sendo amistosa, mostrando seu lado amigável. A sensualidade que exalava era puramente natural. Não havia malícia em suas palavras. Como se recordações em forma de facas afiadíssimas saíssem de seu coração visando rasgar seu cérebro, Lorenzo (o pequeno Giallo) recorda-se dolorosamente de sua querida mãe. Ela morreu na noite que mudou sua vida.
_ Desculpe-me. Eu não sabia disso, acalenta Annete.
_ Não sabia o quê? Eu não disse nada!
_ Quero dizer, eu não queria que se magoasse com minhas perguntas nada delicadas. Mil perdões.
_ Tudo bem, prima. Você não tem culpa. São apenas feridas abertas que custam a cicatrizar. Vamos entrar agora?
Sem esperar resposta, o jovem Lorenzo vira-se em direção à porta principal, deixando a moça de lado.
A tarde cai. Da janela de seu quarto, ele contempla o pôr do sol. Pensa naquela mulher, sua prima, tão doce e bela, tão sedutoramente bela.
As luzes artificiais ofuscam minha visão. Eu prefiro a penumbra. Os cadáveres estão sendo recolhidos e amontoados aleatoriamente uns sobre os outros numa cova profunda cavada no período diurno. Quase sinto pena por aquelas infelizes almas.
Ouço um choro de criança cortar a noite. Uma família reunida em torno de uma torpe fogueira. Ao lado, sua morada em pedaços retrata a verdadeira face da guerra. O pai, ainda moço, dedilha uma tradicional canção popular: "Partonno'e bastimente, pe'terre assaje luntane..."
Distraídos pela canção, eles não conseguem perceber quando me aproximo para atacar. Como patéticos ratos amedrontados, eles fogem do predador. Consigo machucar a mulher, contudo ela escapa com a criança. O homem, por outro lado, não teve a mesma sorte. Arranco seu braço com minhas presas. Adoro sua maneira apavorada de gritar! O medo é a pimenta da carne. Ainda vivo, sinto seus batimentos cardíacos regredirem gradativamente.
O som de balas interrompe o meu jantar. Vejo soldados vindo em minha direção. Cuspo pedaços de ossos com o susto. Devo enfrentá-los? São muitos... com armas, canhões, morteiros, alguns a cavalo. Minha única opção parece ser óbvia: fugir. No entanto, uma bala perdida atinge minha perna esquerda. Outros tiros passam zunindo, queimando meus tímpanos. Mesmo com toda agilidade, não é fácil me esquivar. Sou obrigado a pôr um fim nessa loucura. Procuro a proteção de minha amada com um uivo que faz os soldados inimigos congelarem. Um uivo tão longo, agudo e apaixonado, que chega a ser melodia. Os soldados petrificados nem imaginam o que lhes aguarda.
A sede por sangue reside como adrenalina em minha mente. Um, dois, três, dez... de presa a predador. Predador... essa é a minha essência. Sinto-me livre. Os soldados correm pedindo clemência a um deus que nada pode fazer. Vou matando, pelo simples prazer de matar.
Continuo minha caçada em outra parte da cidade. O ferimento está quase cicatrizando. Eis a vantagem de ser um homem-lobo: se as balas não afetarem algum órgão vital, o ferimento cicatriza em questão de minutos.
Meus olhos e ouvidos procuram alguém se mexendo ou algum barulho. Gritos! Vou seguindo o som, encontro uma trilha de corpos no local. Corpos? Vou passando por cima dos mortos, sentindo seu aroma putrefato, cheiro familiar. Nenhuma marca de arranhões, nenhuma dilaceração... sem resquícios de ataque. O ser que causou aquela deliciosa chacina é muito mais rápido e higiênico do que eu. Nenhuma gota de sangue foi derramada. Onde está o prazer? Sem o sangue quente a jorrar para fora dos corpos desmembrados, sem pedaços atirados a esmo, sem pânico desenfreado?
No percurso de volta para casa, as imagens atormentam meus pensamentos. Vou caminhando entre as árvores do jardim, quando vejo os criados correndo desesperados pela porta principal. Outros atravessam as janelas, espalhando cacos de vidro por todos os lados. A histeria coletiva me excita. Existiriam outros lobos em minha própria família? Seria possível que a criatura que me transformou tenha transmutado meu irmão também?
Lorenzo adentra a mansão Ravieri. Seus olhos vermelhos de pupilas amarelas contemplam a agonia presente. Os mesmos olhos negam seu último pensamento: na sala de estar, o primeiro aposento da casa, estão todos os membros de sua família. Todos mortos. Os corpos sem vida estão congelados, a pele esbranquiçada e o mais instigante: colocados ali, um ao lado do outro, para que ele pudesse ter certeza de que as mortes foram propositais.
Pela primeira vez após aquela viagem, Lorenzo sente o vazio da morte: sua mão aperta o coração do rapaz-lobo e, por derradeiro instante, uma solitária lágrima cai. Um misto de dor e ira faz sua garganta interpretar mais uma melodia de amor profano.
_ Belíssima canção, uma voz ecoa pelo recinto
O cheiro de enxofre inunda o ambiente. Ele ouve e vê o ser responsável por sua agonia, materializando-se à sua frente.
"Annete, minha prima. Por quê?"
_ Lorenzo... ou diria, meu pequeno Giallo. Você, responsável por tantas matanças ainda me pergunta o motivo?
"Você pode ouvir meu pensamento..."
_ Telepatia. Nós, as supremas criaturas das trevas, somos agraciadas com essa e outras virtudes que nos tornam praticamente imortais. Sinto muito pela sua família, devo confessar, porém, que amei matá-los!
"Bastarda! Vai morrer por isso! Vou rasgá-la toda e comer seu coração!"
_ Ouse, cachorrinho, e terá o mesmo fim que seu pai e irmão.
Sem dar atenção à advertência de Annete, possuído por uma dor intensa, o lobo ataca a jovem mas não consegue feri-la. Quando o contra-ataque acontece, ele é arrebatado por um violento golpe com a potência de uma marretada. Sem forças, vai ao solo. Implora pela redenção de sua amada, imponente a descansar, iluminando a noite inebriante.
A sádica vampira, ansiosa por sugar a essência vital de uma criatura tão singular, fixa suas presas afiadas no lobisomem abatido até transformá-lo em homem de novo.
Uma gargalhada macabra faz-se presente, ecoando pela sala espaçosa. Depois, o silêncio. Solitária, densa, vazia, bela, indiferente: rainha soberana e deusa tirana da escuridão sem fim. No abismo verde dos olhos de Annete, a perversa lua sorri.
Lua, perversa Lua: um ilustre desconhecido
As paredes mostram, aflitas, a insana noite que agora terminou. Os gritos ainda cavalgam enlouquecidos pela espaçosa sala principal da imponente mansão italiana.
Um corpo caído, antes aparentemente inerte, começa a se mover. Cambaleante, procura equilíbrio no ar. O jovem, nu e semiconsciente, pensa estar num terrível pesadelo.
_ "Permita-me ajudá-lo, garoto"
_ "Eu... eu..."
O estranho, calmo e muito bem trajado, com cabelos negros, lisos e longos, rosto forte, triangular, fechado, estende sua mão ao jovem napolitano, levantando-o com cuidado, ciente de sua semiconsciência.
_ "Oh! Meu Deus!...", pensa Lorenzo, ao visualizar a sala, recordando-se da noite anterior.
_ "Deus não tem nada a ver com isso, pequeno. Não diretamente. Permita-me a apresentação: sou D. William. Você deve ser Lorenzo Ravieri, não?"
_ "Quem é você? Como sabe quem eu sou? O que faz aqui? Responda-me!"
_ "Calma, Lorenzo, calma. Já lhe disse meu nome. Não se recorda da minha pessoa?"
Nosso não menos afortunado amigo fixa seus olhos azuis no rosto do estrangeiro, analisando minuciosamente sua fisionomia. Perfume francês, adocicado, cabelos longos muito bem escovados e soltos, negros, sobrancelhas finas, olhos castanhos...
_ "Você! É você mesmo! O gerente do hotel em que fiquei hospedado em Paris!"
_ "Sim, rapaz. Agora entende como eu sabia seu nome e como encontrá-lo"
_ "Qual o motivo de estar aqui?"
_ "Essa é uma longa história. Devo começar confessando que fui eu quem o transformou em Paris"
O rosto de Lorenzo petrifica-se com a revelação.
_ "Você é o responsável por todo o meu sofrimento! Bastardo! Você me amaldiçoou. Por quê? O que eu fiz contra você?"
_ "Maldição? Não seja tolo, jovem. O que lhe dei foi uma bênção!"
_ "Ah... tá. Uma benção?!? Eu matei minha mãe quando ela atirou em mim, comi o coração da coitada. Chacinei várias famílias sem piedade e agora meus entes queridos, todos eles, estão mortos. Grande benção, D. William"
_ "Você matou sua mãe pois sua existência estava sendo ameaçada. Agiu por instinto, pois é assim que age o animal que vive dentro de você. Esse é o preço pela dádiva. Lilith, nossa genitora, precisa de energia para viver. Ela nos agraciou com alguns poderes sobrenaturais que somente as crias da escuridão detêm: podemos ler pensamentos, enxergar além da visão, correr mais rápido que um jaguar e ser tão ágil quanto; temos a ferocidade do lobo e a inteligência muito superior a do homem. Cada lobo tem seu "dom especial", uma espécie de poder extra que Majestade Lilith nos concede. Permita-me demonstrar"
O barulho de ossos se partindo começa a ecoar nos ouvidos de Lorenzo. Os olhos de D. William sangram; sua pele facial se contorce como por vontade própria, esticando frontalmente junto aos ossos. Os dentes saltam, formando uma imensa mandíbula lupina. De forma brusca, suas costas racham, colocando o homem em posição jurássica. Pêlos crescem em instantes, os dedos alongam-se; em suas extremidades, unhas tornam-se garras. Alguns eternos minutos se passam.
_ "Nunca presenciei tamanho horror em minha vida! Não tinha consciência de que era assim tão..."
_ "Estranho, garoto? Bizarro, talvez?"
_ "Você pode comunicar-se telepaticamente como Annete fez! Explique-me como!"
_ "Todos nós podemos, lobos com lobos, pois somos a mesma essência. Mas minha demonstração ainda não terminou"
O ritual de transmutação inversa tem início. D. William novamente assume aspecto humano.
_ "Esse é o meu dom, jovem Lorenzo. Posso controlar minha transformação. Não dependo da presença de Majestade Lilith para evocar os poderes. Sou o primeiro da estirpe... nascido da própria deusa. O precursor de nossa raça de homens-lobos"
_ "Eu não consigo controlar minha transformação, D. William"
_ "Pois não é o seu dom. Cada lobo é agraciado com um único poder extra. Você ainda não percebeu qual é a graça que você recebeu?"
_ "Eu possuo um coração bom. É isso?"
_ "Coração bom?"
D. William não consegue conter o riso, provocando a sensação de mediocridade em Lorenzo.
_ "Meu rapaz, quão ingênuo é! Você sobreviveu ao "beijo" da vampira! Suportou que ela sugasse sua essência lobo!"
_ "É verdade... eu poderia ter sido morto"
_ "Poderia, não. Deveria! Por isso eu estou aqui. Você é o escolhido. Foi agraciado com o poder da imortalidade"
_ "Taí. Não entendi nada"
_ "Vou lhe contar a nossa história. Quando Deus, o Supremo, criou o Universo, vários outros seres que habitavam o Paraíso não aprovaram seus métodos. Um deles, chamado Lúcifer, desejava a independência deste planeta, a Terra, chamado por ele de Lua Maior. Ele foi condenado pelo Supremo e banido desse plano. Lilith, sua rainha, não aceitou tal punição e, ao contrário de Lúcifer, lutou para ficar com o comando da Terra. Reuniu todas as imperfeições do Homem, os chamados "pecados", elaborando um meio de receber tais emanações de energia negativa para si. Majestade Lilith gerou a mim. Minha missão: povoar a terra de homens-lobos. Lúcifer, ao tomar conhecimento dos planos de sua ex-amada, retornou ao planeta, reivindicando o trono. Sabemos que a capacidade humana de pecar é infinitamente superior a de amar. Lilith, em poucos milênios, reuniu poder tamanho que o Supremo não pôde, de imediato, revidar. Sua última tentativa fracassou, quando a maldade do próprio homem crucificou o Ser de Luz enviado pelo Paraíso. Lembra-se?"
_ "Ele morreu por nós..."
_ "Pelos homens, Lorenzo. Tal maldade humana foi o que Lúcifer necessitava. Aos moldes de Lilith, ele criou uma raça de criaturas essencialmente malignas que se alimentam do sangue humano"
_ "O sangue derramado..."
_ "Vejo que aproveitou sua catequização, Lorenzo"
_ "Assim como nós, os vampiros podem ser mortos, D. William?"
_ "Uma coisa de cada vez, meu rapaz. Continuando... lobisomens e vampiros são inimigos mortais, ambos lutamos por nossa sobrevivência assim como contra os homens, que são nosso alimento e fonte do nosso poder que provêm de nossos genitores. Entendeu?"
_ "Nós matamos para enviar os pecados aos "deuses" que nos devolvem em forma de graças macabras?"
_ "Basicamente, sim. De uma forma geral, todos somos imortais se pudermos manter esse canal. Com exceção dos homens que, por serem portadores naturais dos pecados, têm de passar por uma purificação antes de alcançarem a imortalidade. De imediato, devemos nos preocupar com nossos parentes vampiros. Devemos exterminá-los. No entanto, eles possuem muito mais recursos sobrenaturais do que nós. Por esse motivo, você foi o escolhido. Você, Lorenzo Ravieri, não pode ser morto!"
_ "Explique-me melhor, D. William. O que devo fazer?"
_ "O ponto fraco dos vampiros é o canal"
_ "Como assim?", indaga Lorenzo
_ "Nós, com exceção deste que lhe fala, transmutamo-nos diretamente quando Lilith faz-se presente na energia da Lua Cheia. Os vampiros precisam de um intercessor, alguém que lhes dê o poder necessário sem transformação. Esse alguém não é Lúcifer. É aquele que, como eu, é o primogênito"
_ "Agora eu entendi. Sua missão foi gerar nossa raça. Minha missão é perpetuá-la, exterminando os vampiros. Mato o chefe e os outros, tornar-se-ão vulneráveis!"
_ "Perfeitamente!"
_ "Onde encontrarei esse sujeito? Como farei para matá-lo?"
_ "Eu sei como chegar até ele, amigo; ajudarei em sua nobre missão, morrendo se preciso for. Para matar um vampiro, deve-se usar uma espada de ouro encantado pela magia negra de Lilith. Como esta que está em sua parede, ao lado da lareira..."
_ "A espada do meu avô..."
_ "Um grande lobo; pena você não tê-lo conhecido"
_ "Mas para onde vamos, D. William?"
_ "Rá, rá. Romênia, garoto. Romênia..."
"Desgraça pouca é bobagem...", pensa Lorenzo.
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