PLANETA DOS MORTOS - PARTE 1


Carlos Orsi Martinho


There was no hand to hold me back. That night I found the ancient track - H.P. Lovecraft, "The Ancient Track"

A caixa preta na base de meu crânio informa que recuperei a consciência há exatos setenta e três ponto quatro-dois-um segundos. Ela diz isso e, em seguida, tenta me entupir com um oceano de dados a respeito de meu estado físico geral, que simplesmente ignoro. Sem tempo. Sei que estou preso, sei onde dói. Por enquanto, essa é toda a informação de que preciso.
Passei os últimos setenta e seis ponto zero-cinco-dois segundos testando, da maneira mais sutil possível, as amarras em meus pulsos e tornozelos. Tudo o que consegui foi fazer com que os laços se apertassem ainda mais - agora, mal sou capaz de sentir meus pés. O que quer que tenham usado para me prender é forte e viscoso, e quente. Parece pulsar num ritmo preguiçoso, lento.
Aos oitenta ponto nove-meia-oito segundos de consciência recobrada, desisto de esperar que a caixa preta me dê algum tipo de análise inteligível do que está acontecendo ao redor e resolvo parar de fingir. Abro os olhos.
E, por mais que tente, por mais que queira, sei que não conseguirei voltar a fechá-los.

* * *


Eu estava no outro continente de Vênus, Afrodite, quando o acidente aconteceu. Tinha acabado de concluir meu ciclo de Treinamento e Condicionamento (ou T&C, como chamam) básico - as cirurgias tinham todas terminado; a casca grossa, ou blindagem epidérmica, estava um pouco inchada, mas já dava sinais de melhora. Os plugues neurais de conexão bíon-balística, no antebraço direito, ainda doíam, principalmente na hora de ligar a arma, mas isso não era surpresa: de acordo com os veteranos, a dor nunca some, de fato. Você apenas se habitua a ela.
O médico da Base Tétis tinha recomendado que eu dormisse no acumulador de orgônio por mais quatro dias, pelo menos, para terminar a impregnação dos implantes organometálicos com bioforça. Mas essas coisas não passavam de detalhes e burocracia. Para todos os efeitos, eu já era um soldado pleno, comissionado para o Segundo Batalhão de Batedores de Floresta, Esquadrão de Caça.
Quando a Tétis perdeu contato com o Reator de Orgônio número três, no continente selvagem de Ishtar, alguém no comando achou que a inspeção de rotina, no meio do mato, seria um bom batismo para o novo recruta de selva, recém saído do T&C. Afinal, a região do Reator Três é selvagem, sim, mas infinitamente menos que, digamos, o arquipélago de Têmis, onde fica a Colônia Penal de Amtor ("fuja e vire refeição", é o que dizem aos presos).
Assim, além do tenente Mendes, do sargento Gurgel, do piloto Tavares e da doutora Cláudia - por alguma razão, ela insistia em ser tratada pelo primeiro nome - lá fui eu. Todos esperávamos uma missão rápida e simples, reparos no equipamento de comunicação, talvez, ou a equipe de manutenção o reator, todas as quinze almas, embriagada por vazamento de bioforça.
Nenhum de nós estava preparado para o que iríamos encontrar.
Antes da decolagem do nosso VEM - um acrônimo engraçado para "Veículo Eletromagnético"; sempre achei que alguém tinha de sar um jeito de mudar a sigla para VAI, ou abandoná-la de vez, já que Vênus nem tem um campo magnético digno do nome e o aparelho funciona, na verdade, por repulsão gravitacional - nós, os três militares, passamos por um "briefing" a respeito do reator. Vimos plantas dos três andares, mais dois subsolos, e fomos informados da função exata do aparelho. Uma coisa que me disseram no T&C foi que o Controle Civil sempre trata os militares como uns débeis mentais, pressupondo que não sabemos, e nem queremos saber, de nada além de charutos, veículos, armas e garotas. Uma coisa que aprendi sozinho, no T&C, é que o Controle Civil raramente está errado, nesse aspecto.
Assim, além do "briefing" tático propriamente dito, ouvimos também uma palestra sobre a terraformação de Vênus, levada a cabo por reatores de orgônio que bombeavam - e ainda bombeiam - bíons na atmosfera do planeta; sobre como os bíons são as menores unidades existentes, os quanta, do orgônio, ou bioforça: a energia que torna a vida possível, assim como o fóton é a unidade mínima do eletromagnetismo, força que permite o deslocamento dos VEMs.
Deram-nos até um resumo histórico a respeito do descrédito com que a Teoria do Campo Orgônico tinha sido recebida no século XX. E da reabilitação, no início do século XXII, como parte da neoquântica. Mas isso era conversa antiga.
Falaram-nos, ainda, sobre como os bíons existem na fronteira entre orgânico e inorgânico, animado e inanimado; sobre como sua presença é essencial para o grande salto quântico entre o que é meramente orgânico, como as moléculas de álcool, gordura e uréia, e o realmente vivo. Por um instante, achei que iam falar sobre o suposto poder antientrópico do orgônio e sua aplicação nos modelos teóricos de viagens no tempo (sim, eu leio as revistas científicas), mas a palestra terminou antes de chegarem nesse ponto.
A palestrante tinha sido a própria doutora Cláudia. Uma mulher muito bonita - o que para mim, principalmente, com o corpo saturado de bíons, era bem difícil deixar de notar. Imaginei como seria na floresta, quando estaríamos todos usando nossos TFIs, os trajes de fluxo isolante: quando ponho o meu e ele termina de se ajustar, consigo contar as dobras nas juntas dos dedos e, se parar diante de um espelho, posso ver cada um dos cabelos do peito.
- Bem, senhores - disse ela, encerrando a preleção - é possível que um vazamento do reator tenha sobrecarregado a equipe de manutenção. A exposição moderada ao feixe de bíons faz bem à saúde; uma exposição excessiva, no entanto, leva a estados de euforia... e irresponsabilidade. Se isso aconteceu, nossos quinze colegas podem ter decidido largar tudo e fazer um alegre piquenique na floresta. E como não sabemos exatamente o que há na floresta... - a doutora deixou a frase morrer solta, no ar. Encolheu os ombros.
Decidi que, se ela tivesse todas as curvas que eu imaginava, o melhor a fazer seria me concentrar em seus olhos. Eram bonitos, mas comuns - castanhos, levemente puxados, de cílios compridos. Se der tempo, pensei, vou até o estande de tiro para descarregar um pouco de orgônio num exercício com o rifle bíon-balístico.
Nada feito, no entanto. Enquanto eu lutava para manter minha energia sob controle, a doutora Cláudia havia e se retirado, após nos brindar com um sorriso e uma leve mesura, sendo substituída, no pódio, pelo capitão Gomes. Ele disse:
- O VEM parte dentro de vinte e cinco minutos, homens. Dispensados.

* * *


Não há muito o que dizer sobre a viagem entre Afrodite e Ishtar. A paisagem é exatamente a mesma que a gente vê nos simuladores - florestas, pântanos, florestas. Sobrevoamos também um trecho do Mar de Níobe e contornamos a Cordilheira de Maxwell, sempre uma vista imponente.
Os demais membros da equipe ficaram calados quase o tempo todo. A única pessoa a quem eu poderia dirigir a palavra livremente, sem cometer uma quebra tácita de hierarquia ou protocolo, era Tavares, o piloto. Mas ele estava bem ocupado com o manche e os instrumentos.
De vez em quando, o tenente e o sargento comentavam algo entre si. Ambos eram veteranos do Esquadrão de Caça e, como dava para ver no relevo dos TFIs que usavam, tinham mais do que a cota regulamentar de cicatrizes para prová-lo. Os Esquadrões haviam sido criados para limpar o planeta das formas de vida mais aberrantes - e perigosas - surgidas a partir da interação entre os bíons de terraformação e o meio ambiente venusiano original. Era um trabalho duro. Um trabalho sujo. Trabalho de profissionais. Cláudia também já estava no TFI, e pude ver que não havia me enganado quanto às curvas. Ou aos volumes. Ou ao resto.
Mentalmente, dediquei-me a torturar e matar, das maneiras mais exóticas, o médico que tinha recomendado minha permanência nos acumuladores de orgônio. Na presença da mulher, a bioenergia em excesso me subia e descia pela espinha como se fosse pura eletricidade.
Posso jurar que tentei não ficar olhando, mas creio que meu próprio TFI me traiu porque, de repente, a doutora desapareceu! Em dois segundos, entendi o que havia acontecido: ela ativara a camuflagem da roupa, e as cores e contornos de seu corpo tinham se confundido com o interior cinzento da aeronave.
Gurgel explodiu em gargalhadas.
- Ei, rapaz! - ele disse, olhando para mim - Você não está muito acostumado com esses trajes de combate, não é?
- Acho que o médico da base socou mais bíons na cabeça dele do que os engenheiros enfiaram neste planeta inteiro - disse o tenente Mendes. - Estou certo?
- Sim, senhor - respondi, tentando não soar muito embaraçado. - Recebi meus implantes há menos de duas semanas.
- Este é seu batismo de fogo, então? - ele perguntou, e eu sabia que era só para me fazer relaxar. Era claro que o tenente sabia tudo sobre mim: minha ficha deveria constar do resumo da missão. - A primeira caçada? - Exatamente, senhor.
- Nessas horas, uma carga extra não faz mal a ninguém, eu garanto - disse o sargento Gurgel, sorrindo. - Adrenalina é uma coisa boa, moleque. Manter um bom pico de onda é fundamental. Mas não se esqueça da caixa preta.
Bastou ouvir as duas palavras - "caixa preta" - para, numa espécie de reflexo, eu acessar o aparelho. Instantaneamente, fui inundado por dados, primeiro sobre mim mesmo: pressão arterial, tônus muscular, taxa hormonal, superávit bioenergético; depois, táticos: latitude, longitude, velocidade, altitude, intensidade do campo magnético; por fim, sensoriais: luz um pouco além do espectro normal, som um pouco mais claro, um pouco mais intenso; odores mais nítidos.
E me lembrei de outra coisa a respeito caixa. Alguns de meus instrutores haviam dito que ela poderia ser usada para filtrar certas disfunções da onda bioenergética; coisas como medo, ódio, pânico, histeria. Sobre como soldados veteranos eram capazes de, graças a ela, manter a mente num estado de quase-meditação, e em plena carnificina - mas sem perder um décimo de milésimo de eficiência, muito pelo contrário.
Eu não era um mestre das artes marciais - embora tivesse esperanças de chegar lá - mas tentei algo parecido. Usei minha força de vontade para direcionar meu fluxo de bíons através da caixa e pedi a ela que redesenhasse a freqüência da onda. Demorou um pouco, mas finalmente senti meu TFI se acomodando, assumindo uma forma mais discreta.
- Obrigada - disse a doutora Cláudia, tornando-se plenamente visível mais uma vez. Era impressão minha ou ela estava com um sorriso maroto? - E, também, obrigada.
O duplo agradecimento me deixou meio perplexo, mas não tive tempo de ponderar a respeito:
- Uau! Que droga, cara! - O grito vinha da dianteira do veículo. Era Tavares.
E em seguida:
- Veja só isso, gente! Que porcaria aconteceu lá embaixo?
De acordo com minha caixa preta, estávamos a três quilômetros do reator que íamos inspecionar. Eu já estava me virando para olhar pela vigia à minha direita quando todo o interior do VEM ficou escuro, e uma reprodução holográfica da paisagem sob nós surgiu no piso da aeronave.
Era a floresta ishtariana, em toda a sua exuberância. Mas não a floresta que esperávamos: não havia nada de verde, vermelho, roxo, amarelo ou azul por lá. A cor predominante era o cinza - o mesmo cinza dos velhos filmes preto-e-branco. A impressão subjetiva era a de estar diante da imagem perfeita da ausência de vida, de cor.
E o que não era cinza, era marrom. Não o marrom saudável da madeira, mas o marrom doentio, purulento, de lodo infecto e água contaminada.
Estávamos sobrevoando a área em alta velocidade, e portanto a definição do holograma não era a ideal. Mesmo assim, também pude perceber algo de errado nas formas, e não só nas cores: folhas, flores e troncos que pareciam mais carne retalhada, em vias de decomposição, do que matéria vegetal.
- Piloto! - disse o tenente Mendes. - Você consegue projetar uma imagem do reator para onde estamos indo? Consegue captar alguma coisa?
- Holo à la carte saindo, chefia - ele respondeu, a frieza da voz negando a jovialidade das palavras.
O reator ficava dentro de um prédio de três andares e dois subsolos; e, para além do perímetro de segurança - a quinze metros das próprias paredes do edifício - a construção estava toda cercada pela floresta. A única exceção seria trilha que levava dali à pequena colônia onde viviam as famílias dos quinze funcionários. Foi o que tínhamos visto no nosso "briefing".
Mas a imagem que Tavares projetou no piso da nave era a de um buraco escuro no chão, cercado por uma mancha negra de terra arrasada.

* * *


A doutora Cláudia retirou alguns instrumentos da mochila pousada a seu lado no banco do VEM, apertou botões, contemplou leituras. Deu de ombros.
- Não dá pra dizer nada - informou. - Temos de descer.
O tenente se dirigiu à dianteira da nave, onde conversou um pouco com Tavares, aos sussurros. Ao voltar, anunciou que iríamos pousar no vilarejo dos funcionários, um quilômetro e meio ao norte, e não na terra arrasada. Ninguém mencionou o fato de que a vila também estaria dentro da mancha de mata cinzenta. De acordo com os hologramas projetados dentro do VEM, a descoloração estava centrada no terreno do reator e se expandia, como uma mancha, por um raio médio de três quilômetros, em todas as direções.
Descemos, sem qualquer problema, na praça central, ao lado da fonte e da inevitável estátua de Wilhelm Reich.
Por ordem do tenente Mendes, Gurgel e eu descemos da nave armados - com os rifles bíon-balísticos já conectados à interface neural do antebraço - e camuflados. Parados, em posição de alerta, seríamos perfeitamente invisíveis. Gurgel cobria a área à direita e atrás; eu, à esquerda e à frente.
Já o tenente, a cientista e o piloto desceram com os TFIs em estado de refração normal, neutro, e com as cabeças descobertas. Cláudia trazia a mochila pendurada por uma alça ao ombro direito; o tenente Mendes mantinha seu rifle aderido ao peito e Tavares, a pistola no coldre.
O vilarejo era composto pela praça e mais uns dez sobrados, arrumados ao redor da área pública. Desses, pelo menos seis ofereciam algum tipo de comércio ou serviço: corte de cabelo, locação de holos e biblioteca, assistência técnica para aparelhos domésticos, essas coisas. Era provável que os serviços de saúde, comunicação e segurança estivessem - ou tivessem estado - concentrados no próprio edifício do reator, assim como a administração geral.
Logo que o som de nossos passos morreu e a poeira levantada pela aterrissagem do VEM assentou, o silêncio tornou-se esmagador. O único som na atmosfera era o da água jorrando da fonte - e, bem, havia algo de errado nisso: o murmúrio que ouvíamos não era, de maneira alguma, o tilintar suave, cheio de vivacidade, próprio da água cristalina; embora o que víssemos fosse água límpida e brilhante, a música que fazia não era música nenhuma, em absoluto, e sim um som grosseiro, irritante, desagradável. Desarticulado.
Morto.
- Não entendo - disse a doutora Cláudia, checando seus instrumentos. - Essas leituras... Não fazem sentido. Mesmo. É como se...
- Como se, o quê? - perguntou o tenente, enquanto Tavares dava a volta na praça.
- Pelo que os mostradores dizem - ela explicou - a leitura de orgônio, em toda a área ao redor, é negativa. Senti meu estômago encolher. Pelo que eu sabia, o que os instrumentos diziam à doutora era impossível - uma verdadeira impossibilidade física, como uma temperatura negativa em graus Kelvin. Mesmo rochas, ou múmias de milhares de anos, sempre têm um nível residual de orgônio. Sondas espaciais já mostraram que há bíons, até, no vácuo interestelar.
- E o que isso quer dizer? - perguntou o tenente.
- Nada - ela respondeu. - Isso não quer dizer nada. Não tem significado algum. A menos... menos que... Não posso dizer, realmente, que não tenha visto o pássaro se aproximar. Mas eu estava invisível - não apenas dentro do espectro comum, mas no infravermelho e, ainda, em boa parte do ultravioleta. O TFI também escondia meu cheiro e as batidas de meu coração. Não havia motivos para imaginar que a ave estivesse se movendo deliberadamente em minha direção. Que estivesse se preparando, mergulhando para atacar.
E, de repente, já era tarde demais.
Garras e bico cortaram através do TFI e da blindagem epidérmica como se as duas camadas de proteção não fossem nada melhores que manteiga e margarina. Senti as esporas rasgando os músculos de meu abdômen, e a faca do bico iniciar seu mergulho rumo à jugular. Caí de costas; gritei.
A primeira pessoa a reagir foi o piloto, Tavares; meu campo de invisibilidade tinha entrado em colapso, e ele conseguia ver o suficiente para mirar com segurança.
Ao menos, gosto de imaginar que tenha sido assim.
O primeiro tiro arrancou uma asa da ave, e o animal simplesmente não se abalou; o segundo fez explodir a cabeça da criatura, que relaxou o ataque com as esporas por um instante - o suficiente para que eu conseguisse arrancá-la de mim.
Mas, caído no chão, o corpo sem cabeça logo voltou a esporear e retrair as garras. Notando que não havia mais carne a dilacerar, a criatura pôs-se em pé, e teria alçado vôo - não fosse pela ausência de uma das asas.
Nesse instante, reduzi a carcaça a um breve jorro de sangue, com uma rajada curta do bíon-balístico.
O TFI sobre meu tórax estava todo retalhado, e o sangue escorria em profusão, pingando sobre o pavimento que - posso jurar - sorvia tudo avidamente.

* * *


Eu estava dentro do VEM, com a doutora Cláudia ao meu lado. Éramos apenas os dois ali. O tenente e o sargento tinham partido em patrulha, procurando pistas ou pessoas nas casas, e Tavares havia ficado de guarda na praça.
A idéia de ficar na nave, sendo paparicado, não me agradava muito. Mesmo levando em consideração o fato de que ser deixado a sós com a doutora não configurasse exatamente uma forma de tortura - embora fosse um bocado embaraçoso -, eu estava lá, num vilarejo perdido no meio da selva ishtariana, para cumprir meu dever de soldado, não para flertar.
Só que ordens são ordens, certo?
O tenente queria saber exatamente como a criatura havia rasgado o TFI e a minha casca grossa de soldado. Essas eram, de fato, duas boas perguntas - perguntas a que a doutora estava tentando responder com bastante trabalho duro.
Usando os comandos de seu próprio TFI, ela havia feito o tecido refluir até expor o seio esquerdo - branco e rosado, nem muito grande, nem muito pequeno, um pouco enrijecido pela temperatura baixa mantida dentro do VEM - e, erguendo-o, puxara um cabo de seu monitor cardíaco, implantado logo ali, abaixo das costelas. Esse cabo ela havia conectado ao plugue da minha caixa preta, que fica atrás da orelha direita.
- Meu implante não é tão sofisticado quanto essas caixas pretas que vocês militares usam, mas pelo menos assim vou saber exatamente quais as leituras que seu equipamento está fazendo - ela explicou.
Assenti com a cabeça. Eu estava reclinado num banco, cercado pelos instrumentos que a doutora Cláudia havia tirado de sua mochila. Todos ocupadíssimos com suas leituras, luzes e blips. Reconheci um ou dois deles, incluindo o analisador comparativo, que contrasta os dados colhidos em campo com toda a literatura científica disponível. Terabytes, terabytes e ainda mais terabytes, na palma da mão. O sonho de consumo de todo amador curioso, como eu.
Alguns dos aparelhos também monitoravam a asa do pássaro que me havia atacado. Tínhamos recolhido o pedaço amputado do chão lá fora, antes de voltarmos à nave. Pousada sobre um dos bancos do VEM, a coisa tremulava - era como se ainda estivesse viva, e quisesse alçar vôo sozinha.
- Você embarcou com uma bela sobrecarga orgônica, não foi? - perguntou a doutora.
- Eu tinha recebido a casca grossa... isso é gíria nossa para a pele especial, blindada... poucos dias antes. O médico me botou numa rotina diária de visitas ao acumulador. Como resultado...
- Bem, dê-se por feliz - ela sorriu. Mesmo profissional e comedido, era um sorriso lindo. - Sua taxa está caindo tanto que, se não fosse a sobrecarga...
- Caindo? Como assim? Meu orgônio está escoando? Para onde? Sei que perdi um pouco de sangue lá fora, mas...
- Seus bíons não estão indo embora - disse ela. - Também não estão sendo assimilados por parasitas, nem se desintegrando em fótons e grávitons. Até onde posso dizer, eles estão mudando de polaridade.
Acho que fiquei quieto quase um minuto depois disso. Por fim, disse:
- Não sabia que bíons tinham polaridade.
- Até agora, ninguém sabia. Pra falar a verdade, ninguém sabe. É só uma teoria que inventei para... tentar explicar... Bom, lembra-se do que eu falei lá fora? Sobre taxas de orgônio negativas?
- Mas isso é impossível, certo?
- Não se houver um bíon negativo na natureza. Porque, se meus instrumentos não estão todos defeituosos ao mesmo tempo, e todos com o mesmo tipo de defeito, é exatamente nisso que estamos imersos... nós, esta vila, provavelmente todo o trecho de selva cinzenta ao nosso redor: num ambiente saturado de antiorgônio, antivida, se você preferir. Seja lá o que isso for.
Difícil saber exatamente o que eu iria responder àquela altura. Meu interesse pessoal em bioenergética era grande, mas meus estudos, embora intensos, tinham sido poucos e esparsos.
No instante seguinte, porém, todas as luzes se apagaram. E, a partir daquele momento, eu não teria mais tempo para pensar em muita coisa além de sobreviver.

* * *


Era a mesma escuridão que tínhamos experimentado durante nosso vôo até ali, quando o piso do VEM se convertera numa tela holográfica. Agora, no entanto, não se tratava apenas do piso: todo o espaço ao nosso redor se encheu de imagens.
E sons: tiros. Gritos. A luz da projeção era fraca, difusa. Antes mesmo que meus olhos se acostumassem direito à penumbra, vi um jorro de sangue voando em minha direção, como um lençol vermelho, molhado, jogado sobre meu rosto. Não houve impacto: ele passou através de mim como se eu fosse um fantasma e foi explodir, numa névoa rosada, sobre uma superfície qualquer, invisível, às minhas costas. Claro. Não era sangue se verdade. Só fótons produzidos pela morte de alguém.
- Caiam fora! - o grito ressoou dentro da nave. - Chamem Tavares e, se ainda não for tarde demais, caiam fora daqui!
Reconheci a voz num instante: era o sargento Gurgel. Numa breve explosão de luz, pude ver que estava com o dedo no gatilho do rifle bíon-balístico, e que os cabos que ligavam arma aos plugues do antebraço estavam intumescidos - sinal claro de que muitos tiros já haviam sido disparados.
O sargento estava transmitindo um audiovisual tático diretamente para o holo-receptor do VEM. Esse recurso normalmente é usado para que os comandantes possam acompanhar as manobras de seus subordinados.
Mas tudo o que o holograma ao redor nos mostrava era uma escuridão densa, claustrofóbica e tingida de sangue, como se estivéssemos dentro de um porão escuro, apertado, e aonde toda a luz viesse filtrada por um vitral vermelho. Quando Gurgel ativava o rifle, a explosão branca produzida pela arma iluminava o ambiente um pouco melhor. Mas o que conseguíamos ver nesses breves intervalos era ainda mais confuso que a escuridão vermelha.
Torsos. Tiro! Cabeças. Tiro! Membros. Não pessoas, mas partes - movendo-se (ou seria a luz?). Bocas sangrentas. Olhos sangrentos. Tiro! Unhas. Órbitas vazias.
Tiro!
Coágulos. Vísceras, coleando como serpentes.
Tiro!
Escuridão.
- Se vocês estão me ouvindo, saiam daí agora! Voltem para Tétis e avisem... Avisem que... Tenente? Tenente, é o senho...
Estática. Nada.
A luz normal voltou.

* * *


Desci correndo a rampa do VEM. Minha primeira preocupação era encontrar Tavares e, com a ajuda dele, tentar resgatar o sargento. Com a ajuda da caixa preta, eu havia conseguido extrair dos computadores da nave a direção e a distância da fonte da transmissão holográfica.
O piloto estava caído no chão, as costas para cima, provavelmente inconsciente. A pistola estava a alguns passos de distância. Um animal estranho, mais ou menos do tamanho de um gato adulto, mas com a aparência aproximada de um apatossauro em miniatura, sentava-se sobre ele.
Num movimento ritmado, o sáurio de tempos em tempos enfiava a cabeça nas costas de meu amigo e, a cada operação, arrancava-lhe um naco de carne, limpando-lhe sistematicamente as costelas.
Eu estava com o rifle pronto, e armado, e não hesitei. O bíon-balístico é um verdadeiro prolongamento do corpo do usuário: o fluxo constante de orgônio entre arma e corpo faz com que a interação seja realmente orgânica: fazer mira é como apontar o dedo. Atirar é piscar.
O bíon-balístico também já foi chamado de laser de matéria: ele dispara um feixe coerente de partículas microscópicas, cada uma delas rija e afiada como um espinho de diamante. As velocidades são inacreditáveis; as energias envolvidas, idem. O atrito das partículas com o ar produz um facho súbito de luz, no instante do disparo.
Atingido, o sauriozinho virou uma névoa úmida, carmesim. O que os veteranos dos Esquadrões chamam de "vapor".
Os ossos nas costas de Tavares brilhavam, brancos, sob o sol. A criatura tinha aberto um fosso raso, vermelho, na camada de músculo um pouco abaixo dos ombros, e as vértebras apareciam ali.
Mesmo com a audição aguçada pela caixa preta, não consegui ouvir o coração do piloto bater.
Não obstante, ele vivia: seus dedos traçavam desenhos frenéticos, espasmódicos, na poeira do chão; e havia um leve gorgolejar no fundo de sua garganta, como uma tosse sutil. Era preciso tirá-lo dali, claro. Mas como mover um homem com um ferimento daqueles? Havia macas de flutuação dentro da nave. Pensando nisso, me voltei na direção da rampa de desembarque.
Tavares me acertou.
Por sorte ele não usou os dentes, ou as mãos nuas que, pelo que sei agora, teriam atravessado o TFI e a casca grossa com a mesma facilidade das garras e do bico do pássaro: em vez disso, golpeou minha nuca com uma pedra. O impacto me fez perder o passo, mas não os sentidos. Virei-me para enfrentar o piloto face-a-face, e num instante ele já estava sobre mim.
Ele havia mudado de mais maneiras do que eu seria capaz de descrever. A pele assumira uma tonalidade acinzentada, e tinha perdido toda a elasticidade: meus dedos deixavam marcas nítidas em seus pulsos e pescoço; meus golpes produziam grandes hematomas flácidos e esfoladuras.
Os dentes eram muito amarelos, e os lábios e as gengivas - que durante a luta muitas vezes chegaram perigosamente perto de minha garganta - , estavam com aquele vermelho arroxeado, quase negro, de carne ruim. As unhas tinham a mesa cor dos dentes.
Em sua primeira investida, o piloto me atingiu em cheio com um soco no rim, ao mesmo tempo em que seus dentes cortaram um dos cabos que ligavam o rifle ao meu braço. Mais que da dor, lembro-me de ter sentido o cheiro forte da mistura de sangue e fluido organometálico, que vazava em profusão.
No instante seguinte ele pressionava os polegares sobre minhas pálpebras, tentando corta-las com as unhas e, enquanto caíamos, cravava os incisivos no flanco de meu abdômen, à altura do fígado.
Naquele segundo eu tive certeza de que ele queria escavar minha carne, rasgar o músculo e devorar o órgão. Todos os órgãos. O TFI não era proteção. A casca grossa não era proteção.
O impacto de encontro ao solo o obrigou a diminuir a intensidade do ataque, e aproveitei para reagir. Usando o rifle como borduna, golpeei-o, com força, n
a têmpora. Senti o osso do crânio ceder, e ele rolou de cima de mim. Levantamos frente a frente.
Meus olhos doíam por causa da pressão que tinham sofrido e do sangue que escorria por ali, mas a visão clareou rápido. Apontei o rifle e atirei.
Errei feio.
A arma ainda não tinha compensado a perda do primeiro cabo. Eu ia precisar de mais tempo.
Tempo!
Tavares, ou a coisa que tinha sido Tavares, já estava atacando de novo. Mais uma vez usando o rifle como um bastão, colhi-o, com toda força, a meio caminho. Ele caiu e se levantou como se fosse um ginasta experiente e o chão, uma cama elástica.
Ainda assim, consegui manter um perímetro. No que dependesse de mim, não haveria mais luta fechada, com mordidas, cabeçadas, arranhões. Mantendo a distância, trocamos socos - da minha parte, pauladas de rifle - e chutes.
Tenho absoluta certeza de que, enquanto durou o combate, eu lhe quebrei pelo menos uma costela, a mandíbula, e causei algum dano sério ao esterno. Um de meus chutes lhe causou uma ruptura grave do peritônio.
Ele não deu mostras de sentir nada.
De repente, tive um formigamento no braço: sinal de que a conexão do bíon-balístico estava plenamente restabelecida. Não sei dizer o que aconteceu a seguir - talvez a certeza de ter a vitória à mão tenha me distraído por um mero momento - mas, no instante em que ergui a arma para atirar, Tavares já estava dentro de minha guarda, lançando a mão, os dedos rijos em forma de garra, na direção de meu pescoço. Dentro de menos de um segundo ele iria cravar as unhas em minha garganta, provavelmente iria arrancar a traquéia, e não tinha nada que eu pudesse fazer para detê-lo.
Então um estalo, como o de um chicote, e o antebraço do piloto caiu no chão, fumegante, cortado um pouco abaixo do cotovelo.
Olhei de esguelha para a rampa do VEM, e Cláudia estava lá, com uma pistola de lança térmica na mão. Não sei onde ela achou a arma - talvez no kit de sobrevivência, dentro da nave.
Tavares também a vira; em dois saltos, o maldito estava sobre ela!
Girei o corpo, pronto para atirar, mas antes que pudesse puxar o gatilho alguma coisa me cobriu o rosto, bloqueando a visão, tapando a boca e o nariz.
Senti unhas cravando-se em minha testa e nas maçãs do rosto, e durante cinco ou seis segundos lutei tanto contra a coisa em si como contra a consciência de o quê, exatamente, aquilo era.
Finalmente, consegui arrancar a mão de Tavares de meu rosto e lançar o antebraço amputado ao chão. O membro caiu, firme e equilibrado, sobre os cinco dedos, como uma aranha cairia sobre as oito patas. Não precisei ser um gênio para saber que a coisa pretendia saltar sobre mim novamente.
Um disparo do rifle reduziu a aberração a menos que fumaça.
Ouvi Cláudia gritar.
A doutora estava caída na rampa, com Tavares agachado sobre ela. A cabeça do monstro tocava-lhe o tronco.
Ele saltou para dentro da nave no mesmo instante em que atirei. O disparo não o acertou em cheio - não, ao menos, de forma a vaporizá-lo. Em vez disso, partiu-o ao meio, pouco acima da linha da cintura. Cabeça, braços e tórax caíram nave adentro. As pernas e parte do abdômen, os intestinos expostos agitando-se como tentáculos - uma cena que de tão grotesca eu, sob outras circunstâncias, consideraria cômica - se voltaram para mim e correram, em óbvia disposição de luta, na minha direção.
Mais um tiro. Mais vapor.
Cláudia não havia se levantado. Corri para ver como ela estava.
E então mordi o lábio, mordi forte, para não gritar. Ainda assim, não consegui reprimir todas as lágrimas. Duas ou três escaparam. Sei disso porque o sal fez arder as feridas abertas em meu rosto.
O seio esquerdo simplesmente não estava mais lá.
No lugar da pele delicada, da carne tenra que eu tinha visto há menos de uma hora, uma fenda oval, muito vermelha. Parecia profunda - provável que o músculo peitoral não estivesse mais lá, também. Se não fosse pelo sangue, tanto sangue, acho que eu poderia ter visto uma ou duas costelas. Talvez o próprio coração, batendo.
Essa era apenas a maior, a mais evidente das feridas no corpo da doutora. A despeito disso, ela estava consciente - uma ferocidade incomum brilhava em seus olhos.
- Destrua - ela disse, agarrando meu braço esquerdo com força. - Incinere!
- Eu vou atrás dele - respondi. - Não se preocupe. Ele vai pagar.
- Não! - o sussurro soou para mim como quase um grito - Digo... Sim. Ele. É. Sim. Ele também. Mas... incinere... a mim. Destrua... me. Entende? Dados... computador... História. Pittsburgh. Terra. Novecentos... sessenta e oito. Deixei... gravação. Situação... quase... Fogo. Fogo destrói. Use... destrua... me. Não quero... não... voltar...
Depois disso, senti a pressão em meu braço arrefecer. Cláudia relaxou o corpo todo de uma vez, e eu a baixei na rampa o melhor que pude. Inconsciente? Não.
Morta.
Eu deveria ter vaporizado o corpo ali, de pronto e sem a menor hesitação. A asa do pássaro, o braço de Tavares - o próprio Tavares, por falar nisso - eram pistas mais do que suficientes para que até um recruta xucro como eu entendesse o que estava acontecendo com toda a carne morta, naquela região.
Em vez disso, fiz uma rápida prece, baixei as pálpebras do cadáver e entrei na nave, tremendo de raiva e pronto para encarar a outra metade do piloto morto-vivo.

FIM DA PARTE 1


O autor Carlos Orsi Martinho é um dos mais talentosos escritores brasileiros de horror. Nascido em Jundiaí (SP) em 1971, seu primeiro trabalho publicado profissionalmente foi o conto "Aprendizado" na revista "Isaac Asimov Magazine" # 24, da "Editora Record" em 1992. Em 1996, ele lançou um livro de contos de horror intitulado "Medo, Mistério e Morte", através da "Editora Didática Paulista" pela "Coleção Novos Caminhos". E em 2001 foi o vencedor do Concurso literário de horror "Turno da Noite", promovido em Portugal, com o conto "Eu Amo Minha Mulher". Tem dezenas de contos escritos em fanzines como "Megalon", "Somnium", "Scarium" e "Juvenatrix".