PLANETA DOS MORTOS - PARTE 2


Carlos Orsi Martinho


There was no hand to hold me back. That night I found the ancient track - H.P. Lovecraft, "The Ancient Track"

Ele saltou para dentro da nave no mesmo instante em que atirei. O disparo não o acertou em cheio - não, ao menos, de forma a vaporizá-lo. Em vez disso, partiu-o ao meio, pouco acima da linha da cintura. Cabeça, braços e tórax caíram nave adentro. As pernas e parte do abdômen, os intestinos expostos agitando-se como tentáculos - uma cena que de tão grotesca eu, sob outras circunstâncias, consideraria cômica - se voltaram para mim e correram, em óbvia disposição de luta, na minha direção.
Mais um tiro. Mais vapor.
Cláudia não havia se levantado. Corri para ver como ela estava.
E então mordi o lábio, mordi forte, para não gritar. Ainda assim, não consegui reprimir todas as lágrimas. Duas ou três escaparam. Sei disso porque o sal fez arder as feridas abertas em meu rosto.
O seio esquerdo simplesmente não estava mais lá.
No lugar da pele delicada, da carne tenra que eu tinha visto há menos de uma hora, uma fenda oval, muito vermelha. Parecia profunda - provável que o músculo peitoral não estivesse mais lá, também. Se não fosse pelo sangue, tanto sangue, acho que eu poderia ter visto uma ou duas costelas. Talvez o próprio coração, batendo.
Essa era apenas a maior, a mais evidente das feridas no corpo da doutora. A despeito disso, ela estava consciente - uma ferocidade incomum brilhava em seus olhos.
- Destrua - ela disse, agarrando meu braço esquerdo com força. - Incinere!
- Eu vou atrás dele - respondi. - Não se preocupe. Ele vai pagar.
- Não! - o sussurro soou para mim como quase um grito - Digo... Sim. Ele. É. Sim. Ele também. Mas... incinere... a mim. Destrua... me. Entende? Dados... computador... História. Pittsburgh. Terra. Novecentos... sessenta e oito. Deixei... gravação. Situação... quase... Fogo. Fogo destrói. Use... destrua... me. Não quero... não... voltar...
Depois disso, senti a pressão em meu braço arrefecer. Cláudia relaxou o corpo todo de uma vez, e eu a baixei na rampa o melhor que pude. Inconsciente? Não.
Morta.
Eu deveria ter vaporizado o corpo ali, de pronto e sem a menor hesitação. A asa do pássaro, o braço de Tavares - o próprio Tavares, por falar nisso - eram pistas mais do que suficientes para que até um recruta xucro como eu entendesse o que estava acontecendo com toda a carne morta, naquela região.
Em vez disso, fiz uma rápida prece, baixei as pálpebras do cadáver e entrei na nave, tremendo de raiva e pronto para encarar a outra metade do piloto morto-vivo.

* * *

Imaginei que iria encontrá-lo logo à porta - afinal, com que velocidade um torso humano, propelido por um único braço, deve ser capaz de se mover? Supus que muito pouca.
Enganei-me.
O que restava de Tavares debruçava-se sobre o painel de controle da nave. Ele havia se erguido até aquela posição usando, imagino, o único braço e o queixo; a massa do que lhe restava de corpo era relativamente pequena, o que deve ter facilitado a operação.
Sangue negro e pedaços de pulmão pingavam no piso.
Aproximei-me.
Ele olhou para mim. Sorriu.
A boca estava cheia de pedaços de plástico, fios e metal triturado, além de fragmentos dos dentes que Tavares certamente havia quebrado em seu esforço de sabotagem. A testa da criatura era uma polpa achatada, de onde um pedaço de osso se projetava direto em frente, como uma aba de boné. O nariz também tinha se esmigalhado.
Mas, em meio àquilo tudo, os olhos ainda brilhavam.
E ele sorria e mastigava. Mastigava e sorria.
Vaporizei-o.
Assim que a névoa baixou, corri em direção ao painel. A história era clara: Tavares havia usado a própria caixa craniana como marreta para quebrar o máximo possível de instrumentos, e a mandíbula para completar o serviço.
Fiquei parado ali por alguns segundos, sentindo a galáxia girar ao meu redor.
O VEM era uma nave de transporte de tropas. Cada uma de suas partes tinha sido projetada e construída para suportar diversos tipos de agressão, incluindo pousos forçados e um ou dois impactos diretos de mísseis.
Como...?
Sendo o piloto, Tavares sabia exatamente aonde e o quê acertar. Certo.
E, estando morto, ele não sentia dor: talvez fosse isso. Muito provavelmente, sua cabeça tinha se partido bem antes do painel, e ele apenas continuara a bater.
E a velocidade e a força dessas criaturas eram inacreditáveis.
Tentei ignorar o seio mascado e macerado, caído no chão.
Conferi o estado do equipamento: nada de comunicação. Nada de controle de vôo. Naquelas condições, o VEM não passava de uma caverna de metal.
Os circuitos de comunicação do meu TFI também estavam sem condições de funcionamento. Aliás, as propriedades do TFI vinham mudando gradativamente: ele ainda era bom para absorver impactos, mas não conseguia mais se regenerar. Nem usando de toda a minha força de vontade eu era capaz de fazê-lo fluir por meu corpo, ou mudar de cor.
Claro, pensei. A tecnologia do TFI, assim como a casca grossa, é baseada em fluxo de bíons. E tudo que depende de fluxo de bíons fica maluco neste lugar. Incluindo a vida humana.
Principalmente a vida humana.
Voltei, cambaleando, para a área de passageiros. A primeira coisa que notei foi que o kit de sobrevivência tinha sido arrancado da parede; o conteúdo estava espalhado pelo chão. Isso me fez pensar em Cláudia. Quase sorri.
Fui olhar mais de perto: o comunicador do kit tinha sido destruído. Esmagado, provavelmente com um murro.
Tavares, Tavares...
Meus pensamentos logo se voltaram, mais uma vez, para Cláudia. Lembrei-me, então, do que ela havia dito, antes de morrer, sobre "Pittsburgh", "gravação" e "história". Corri até a sacola onde ela guardava os instrumentos. Revirei tudo: caixas, painéis, telas, processadores. Será que, nos primeiros minutos de minha luta com Tavares, ela havia achado uma explicação?
Quando finalmente me deparei com o registro, vi que ela não havia encontrado exatamente uma explicação, mas uma espécie de precedente histórico. A coisa toda era pouco mais que uma nota de rodapé na história da engenharia bioenergética, tendo ocorrido depois da morte de Reich e séculos antes das descobertas da neoquântica. Era quase um milagre que os programadores do analisador comparativo da doutora tivessem jogado esse pedaço de informação na memória.
Resumindo, era o seguinte: em 1968, nos arredores da cidade norte-americana de Pittsburgh, os mortos de um determinado cemitério tinham voltado à vida. De acordo com análises dos cientistas da época, a causa da súbita ressurreição tinha sido uma "radiação misteriosa", inadvertidamente transmitida à Terra pela antena de uma sonda em órbita de Vênus. A tal radiação estaria "reativado o cérebro" dos cadáveres ainda frescos.
Um cientista italiano, Fulci, e um colega americano, Carpenter, sugeriram que essa radiação poderia ser composta por um novo tipo de partícula, que chamaram, por razões óbvias, de "nécron". Mas ninguém os levou muito a sério.
Com a sonda destruída e os mortos reanimados cremados, o problema desapareceu e o caso, por bizarro e inacreditável, acabou caindo no esquecimento.
Virou nota de rodapé.
E agora, séculos depois, sendo o bíon um fato científico comprovado e presença humana estabelecida em Vênus, o que pensar do nécron?
Eu era um amador, não um cientista. Com todo meu treinamento militar, nunca me senti tão desamparado: eu era como um rifle carregado, sem ninguém para me dizer em que direção atirar, ou para onde ir.
Mas era impossível evitar fazer conjecturas. Se o nécron existe, e é uma "polaridade oposta" do bíon, isso poderia explicar o ataque da ave contra mim: eu estava sobrecarregado de bioenergia "positiva", e se o pássaro estava saturado de nécrons, ele simplesmente teria sido atraído para mim - estando eu visível ou não - assim como os pólos opostos de um ímã, ou cargas elétricas opostas.
Talvez por isso os mortos atacassem os vivos.
Mas, qualquer que fosse a resposta, concluí, ela só poderia estar no reator - ou no que havia restado dele. A terra arrasada era, afinal, o centro geométrico da área cinzenta. E o maldito lugar era um reator de bíons. Se alguma coisa estava poluindo a bioenergia, era de se esperar que a fonte, fosse qual fosse, estivesse lá. E eu podia não ser a pessoa mais indicada para tentar identificá-la, mas não havia mais ninguém por perto.
Pensando nisso, decidi me pôr a caminho.

* * *

Peguei o máximo de víveres e equipamento que pude. Talvez desse para construir um comunicador rudimentar, canibalizando peças dos instrumentos da doutora; pensando nisso, desmontei cada um deles - incluindo o analisador - e separei tudo o que achei que poderia ser útil.
Assim que cheguei à rampa, vi a arma de lança térmica que Cláudia tinha usado caída lá.
Mas, da doutora, nem sinal.
Olhei ao redor: dez casas. Numa delas - e eu poderia facilmente saber qual, bastaria consultar de novo a caixa preta - o tenente Mendes e o sargento Gurgel tinham sido retalhados por monstros.
Dez casas. Quinze funcionários, mais suas famílias. Quantas pessoas ao todo, então? Sessenta? Setenta?
Quantas ali na vila? Quantas espalhadas pela floresta? Quantas na área do reator?
Era bem provável que numa das casas, ou em várias delas, houvesse veículos, víveres ou meios de comunicação. O procedimento-padrão exigiria que eu as revistasse.
Mas Mendes e Gurgel tinham estado em procedimento-padrão. Ambos tinham sido guerreiros melhores, e mais experientes, do que eu.
Olhei para a lança térmica, pousada em minha mão esquerda. Como todo soldado, eu tinha sido treinado e programado - neurologicamente - para ser ambidestro. Não que atear fogo à vila fosse exigir muito em termos de perícia. Era só escolher o primeiro alvo e puxar gatilho.
Imaginei se, assustadas pelo fogo, as criaturas não sairiam todas correndo ao mesmo tempo, em minha direção. Por algum motivo, o perigo não me preocupava, desde que eu pudesse, ao menos, enfrentá-lo em campo aberto.
Claustrofobia?
Dando de ombros, iniciei a purificação.
Quando o incêndio já ia alto, alguns mortos-vivos - quinze - realmente se precipitaram, verdadeiras tochas humanas, rumo à praça central. Talvez quisessem chegar à fonte e mergulhar na água, quem sabe?
Um deles não tinha cabeça, e ainda assim corria no rumo certo; outro estava com os ossos do torso totalmente expostos, e pude ver as labaredas que consumiam seus órgãos internos. Os restantes pareciam perfeitamente normais; podiam até ser pessoas comuns fugindo de um incêndio, não fosse por um único detalhe: o silêncio. Ninguém gritava. Mesmo com fogo nos cabelos, nas roupas, na pele, ninguém gritava. Ou chorava.
Nada.
O único som era uma espécie de arfar intermitente, produzido pela mistura de chamas ao vento com a rápida sucessão de passos da corrida. Das corridas.
Cuidei para que nenhum deles realmente chegasse à fonte. E foi só quando o vapor vermelho já encobria o sol, que ainda levaria cinqüenta dias para se pôr, que finalmente deixei a vila.

* * *
Eles me pegaram no meio do caminho.
A trilha, ao que tudo indicava, tinha sido usada tanto por pedestres (a caminhada até o reator não duraria mais que quinze, vinte minutos) quanto por VEMs individuais, de flutuação baixa e próprios para terreno irregular.
No meio do caminho havia um pequeno posto automatizado de serviço, que provavelmente também fazia a vigilância dos arredores, avisando quando algum animal maior ou mais perigoso cruzava a pista. O lugar era pouco mais que um banheiro, um radar de segurança, um robô funileiro e uma máquina de vender doces.
O que me chamou a atenção foi o radar: com ele, e mais as peças que eu havia trazido da nave, talvez fosse possível enviar alguma informação de volta à Base Tétis. Era inevitável que, mais cedo ou mais tarde, o comando enviasse uma equipe de resgate atrás de nós, mas seria melhor se eles soubessem o que iriam enfrentar.
Trabalhei ali por pouco mais de uma hora. Acho que parte de mim sabia que o lugar era uma armadilha, mas o que me restava?
Ainda faltava um bocado de trabalho para eu conseguir converter o radar em um farol para transmitir o pulso de emergência máxima (hologramas? Nem pensar). Eu tinha saído do prédio do posto - pouco mais que um chalé de madeira, ligado por fios a uma torre muito alta e com uma garagem ao fundo - para pegar mais algumas ferramentas com o robô, quando vi a movimentação na floresta.
As árvores ao redor eram todas cinzentas, com folhas brancas ou marrons. De perto, o lenho das árvores confirmava a impressão que eu tinha tido da vista aérea - uma consistência esponjosa, de poros enormes, e a aparência geral de tecido retalhado. Apenas a madeira do chalé mantinha um certo aspecto saudável, o que paradoxalmente talvez se devesse ao fato de ser madeira morta, tratada com produtos químicos.
Um cadáver mais vivo que os vivos. Onde eu já tinha visto isso antes?
O movimento na selva começou ao longe - algo percebido, a princípio, mais pela caixa preta que por mim mesmo. Como se a mata não passasse de uma camada de musgo sobre um lago, e um grande peixe decidisse se mover por baixo.
Em poucos instantes, porém, a enorme onda chegou até o posto: em toda a volta as árvores se inclinaram, para a frente e para trás, subiram e desceram, erguidas pelo pulsar da camada espessa de húmus, dilataram-se, incharam, explodiram - e, sem produzir som algum, a mata cuspiu suas legiões de mortos sobre mim.

* * *

Não apenas homens e mulheres. Não apenas Gurgel e Mendes, o sargento sem pescoço, a cabeça pendurada no arco da coluna cervical como uma rosa desabrochada no cabo muito fino, o tenente sem um quarto da cabeça, uma massa cinzenta e fumegante no lugar da mandíbula esquerda; não apenas os outros moradores da vila, os que haviam corrido silenciosamente em direção à mata em vez de procurarem a fonte, onde eu os esperava, cada um marcado pelo fogo e pela morte à sua maneira. Não só Cláudia, nua da cintura para cima, o umbigo que uma hora atrás eu teria dado um braço para beijar assim exposto, o coração parado, flácido, por baixo das costelas amareladas, um sorriso lindo, ainda não de todo podre, na face.
Mas também, e principalmente, as baratas. Milhares delas. E os cupins? Milhões. Formigas, sim. Grilos. Moscas, mosquitos. Borboletas. Larvas. Centopéias, vermes, minhocas, gafanhotos, besouros, abelhas, vespas e libélulas incontáveis, e dezenas de animais um pouco maiores, toupeiras, ratos, cobras, salamandras e lagartos. E fragmentos: mão, dedos, vísceras a rastejar, olhos arrastando feixes de nervo, parecendo espermatozóides gigantes.
E as feras? As feras esperavam ao longe. Talvez tivessem medo de mim: afinal, eu era do Esquadrão de Caça.
A última coisa que vejo é uma névoa carmesim, úmida, delicada, a descer dos céus.

* * *

Consciente a oitenta ponto nove-sete-sete segundos, finalmente percebo que estou morto.
Não são amarras em meus pulsos e tornozelos: trata-se apenas do abraço carinhoso da árvore sobre a qual eu - meu corpo - caí.
A madeira me sente relaxar, e deixa ir.
Uma névoa carmesim paira sobre minha cabeça e ao meu redor.
A parte de mim que ainda mantém algum tipo relacionamento racional com o Universo - parte que se esvai, e que não há de deixar saudades - se sente meio idiota por não ter pensado nisso: se dedos, olhos e tripas podem voltar à "vida", por que não células soltas, neurônios explodidos, genes solitários, gotículas de sangue?
Eis a névoa.
Feita dos fragmentos de tantas consciências, de tantas vidas encerradas, ela lamenta, assim como eu, que tenhamos demorado a nos entender. Lamenta o comportamento destrutivo de seus emissários anteriores. Lamenta, acima de tudo, a destruição do VEM, já que a nave nos poderia ter levado a outros lugares. Mas naquela época - há poucas horas - ela era selvagem e faminta e sem sentido, regida apenas pelo imperativo da polaridade reversa.
Que se manifestava como ódio puro e fome pura, sem inteligência ou direção. Até que minhas ações, e as de Mendes e Gurgel, lhe permitiram atingir massa crítica.
Consciência.
Ela agradece, aliás.
Não há de quê, respondo.
Parte da nova consciência da névoa reproduz o conteúdo das mentes dos cientistas que trabalhavam no reator. Esse fragmento fala da descoberta de uma fonte natural de bíons degenerados - nécrons, corrijo-o - e da tentativa de alterar o estado de energia deles para convertê-los em bíons normais, e vice-versa.
Subestimamos o potencial energético da reação, explica.
A névoa aponta para o chalé onde eu tinha estado trabalhando num farol de código. E sugere que eu complete o trabalho - só que usando um código diferente. Emergência máxima é um pouco de exagero, não?
Sou obrigado a concordar. Que outros venham, é importante que venham, mas que cheguem sem medo.
Gurgel, Mendes e Cláudia estão junto a mim. Abelhas se abrigam em meus ouvidos, e sinto besouros passeando em meu estômago. Ratos e lagartos lambem minhas mãos e, enquanto ando, mordem os dedos de meus pés. Lacraias e aranhas desabrocham no coração de Cláudia.
Não há mais sargento, doutor, tenente, ou recruta. Não há mais homem ou animal.
Na morte, somos todos iguais.

FIM




O autor Carlos Orsi Martinho é um dos mais talentosos escritores brasileiros de horror. Nascido em Jundiaí (SP) em 1971, seu primeiro trabalho publicado profissionalmente foi o conto "Aprendizado" na revista "Isaac Asimov Magazine" # 24, da "Editora Record" em 1992. Em 1996, ele lançou um livro de contos de horror intitulado "Medo, Mistério e Morte", através da "Editora Didática Paulista" pela "Coleção Novos Caminhos". E em 2001 foi o vencedor do Concurso literário de horror "Turno da Noite", promovido em Portugal, com o conto "Eu Amo Minha Mulher". Tem dezenas de contos escritos em fanzines como "Megalon", "Somnium", "Scarium" e "Juvenatrix".