PODEROSA GUGGENHEIM LEHMAN, A
Carlos Alberto Marcante dos Santos
Sentado numa sarjeta qualquer daquela cidadezinha, um garoto estava a refletir: não sei o que pensava. Ele, pele parda de rosto tomado por terríveis espinhas, magérrimo, coçava os olhos lânguidos; eles estavam lacrimejantes. Trajara um short azul claro, todo sujo e remendado; descalço e sem camisa: também era suja sua pele, já gasta pelo sol.
Do outro lado, da esquina movimentada, situava-se um restaurante de bom nível sócio econômico. Uma bela fachada com um outdoor escrito uma frase com gostinho de fome e quero mais. Várias pessoas almoçavam à vontade, seus cigarros ou charutos – rico sempre fuma charuto, senão é meio rico - dito o charuto, eram fumantes de estilo e pompa de gente finérrima, com roupas caríssimas e rostos dos mais bem tratados: certamente por mãos estrangeiras. Todos felizes, exceto uma senhora que olhara fixamente para o pobre menino da esquina, dizia para si própria: quem é aquele infeliz? Um marginal. Hã, um delinqüente nestas bandas da cidade é o cúmulo.
Passados alguns minutos, o que era pensamento se tornara numa realidade triste. A senhora que não fora com a faceta do garoto, se chamava dona Leonilda Guggenheim lehman. Senhora de descendência alemã-judia; filha de pais ricos e donos de incomensuráveis alqueires de terras, onde se plantava soja. Ela, cabelos louros, pele branca de uma lisura a causar inveja para qualquer grande rainha dos imperados ingleses; sobrancelhas grossas e olhos de pulsar firmes; estatura média com leve saliência no abdômen; finíssima senhora do senhor Claudislavus Straus, o ultimo herdeiro da grande família alemã e possuidora de muitas glorias. Um vestido vermelho a cobria dos pés à cabeça, e seu salto aumentava sua estatura em alguns preciosos centímetros.
O tempo trouxe uma carga de energia negativa. Milicianos prontos para matar a qualquer custo estavam senão ao pleno dispor da senhora Guggenheim Lehman. Um deles disse: qual é, madame? Ela toda enraivecida aos gritos balburdescos, falou se tratar de um infeliz ladrãozinho do subúrbio que fitava os cidadãos nobres do bairro central: sim, claro que tenho certeza, ou você ousaria duvidar da senhora do senhor Straus e sem mensurar o nome da minha rica família?
Sem mais dizeres, a milícia armada fora ao encontro de um menino triste e sem saber patavinas da decorrente. Uma grande armada de fanfarrões formou-se na fronte central do rico restaurante; curiosos natos, que assistiram um pobre garoto ser alvejado por tiros de metralhadoras do serviço público nacional. Rasgado de chumbo – que queimava como o inferno – ele teve consciência para ouvir o cabo da milícia indagar a seguinte frase: por que você está aqui seu garoto das ruas? O garoto pobre do submundo da cidadela, com um vão olhar, apenas inferiu: tenho fome, senhor... Está muito frio aqui.
Logo espirou para seu fim... A morte.
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