PRISIONEIRO


E.R.Corrêa


- Amarrem-no. - disse aquela unidade metálica pensante. Em seguida, com os módulos de gravação ligados, deu início à entrevista com o senhor K.

- Muito bem, senhor K - prosseguiu ela - agora é a sua vez. Desculpe se aplicamos uma dose a mais de XN-700 no senhor, mas seu organismo apresenta uma curiosa variação de adrenalina, de modo que as drogas - mesmo as mais fortes - não o afetam facilmente. Mas não se preocupe. Essas doses a mais não afetarão os seus ferimentos, ao contrário, talvez elas lhe proporcionem alívio por algum tempo.

O senhor K suava e gemia, ao mesmo tempo que as outras duas unidades o prendiam no gelado leito de metal reclinável. Seu rosto estava coberto de pústulas e feridas sangrentas. Respirava com dificuldade.

- Desde que chegou aqui - disse a unidade - temos notado no senhor um desequilíbrio e uma agressividade que não são características dos seres humanos submetidos aos testes de adaptação pelas autoridades da Terra, de modo que tivemos de tomar a iniciativa de confiná-lo para posterior averiguação. Seu trabalho é indispensável à Colônia e, como a última coisa que queremos é o seu declínio físico e mental, estamos deveras preocupados. Já entramos em contato com a Terra e estamos seguindo mediante ordens vindas da instituição responsável pelo senhor. Precisamos, entretanto, de sua colaboração, do contrário o senhor estará tornando desagradável sua própria estadia aqui, coisa que não faz sentido. Seus ferimentos físicos serão tratados assim que terminarmos com seus problemas psicológicos.

Após uma breve pausa, onde se pode ouvir todos os ruídos e chiados característicos daquele salão eletrônico e piscante, a unidade ordenou:

- Muito bem, podem liberar-lhe a voz.

As outras duas unidades que se mantinham placidamente inexpressivas ao lado do leito onde se encontrava o senhor K, com movimentos rápidos e seguros, tiraram, de sua boca, o pequeno mas incômodo aparelho que lhe impedia a voz.

- Afrouxe essas correias, seu monte de merda estúpido! - disse o prisioneiro, assim que teve a voz liberada. Estava visivelmente nervoso, mas era quase possível perceber um resquício de divertimento lhe distorcendo o rosto cadavérico. Tentava debater-se, mas tudo que conseguia era produzir movimentos convulsos e inúteis com os ombros.

- Peço que se acalme, senhor K, e diga-me, francamente, o que o incomoda?

- Vá pro inferno, sua lata velha maldita filha de uma puta rampera!!! Vão pro inferno, vocês todos, e me soltem daqui! Logo! - Evidencia-se, naturalmente, que o senhor não se encontra no que poderíamos chamar de estado de lucidez. Mas estamos aqui para ajudá-lo.

O senhor K balançava-se de um lado para outro, sem conseguir, porém, causar qualquer movimento significativo no desconfortável leito de metal, que estava fortemente fixado ao chão. Não entanto, ele persistia, quase inconscientemente, com os movimentos bruscos e rápidos de ombro e cabeça - a única parte de seu corpo que permanecia móvel.

- Senhor K - prosseguiu a unidade -, vocês, trabalhadores orgânicos, são, inquestionavelmente, seres complexos e cuja natureza é difícil de ser compreendida. Pois é incrível acreditar que um ser que apresenta a espantosa facilidade de ser consumido pela dor venha a se auto mutilar. Veja estas cenas. - Depois de ordenar telepaticamente para que as outras unidades levantassem o leito reclinável do senhor K, a unidade apontou para uma enorme tela onde aparecia a imagem do prisioneiro mutilando o rosto com as próprias unhas - e me diga: o que o levou a fazer uma coisa dessas.

- Eu já disse: vá pro inferno! Você, todas as suas máquinas obedientes e seus malditos chefes lá na Terra. Vão todos pro inferno! Eu não vou ser lobotomizado como todos os outros, não adianta! E presta atenção, seu imbecil, se não me mandar de volta para a Terra eu vou te matar. Você e todos os outros, eu juro! Entendeu? Sabe o que significa? Ou terei que explicar?

- É evidente que nossos métodos químicos...

- ...sim, a porcaria dos seus métodos não funcionam comigo, e sei também que não podem me matar.

- É evidente que nossos métodos - continuou a unidade, sem a mínima alteração de timbre - foram insuficientes com o senhor, e também temos consciência do seu conhecimento em relação a nossa política. Política a qual não estamos autorizados a modificar. Mas estamos engajados por consciência primeva e por ordens ulteriores a aprimorá-la tanto quanto for necessário, para que ela se cumpra. A lei deve ser cumprida. E o senhor a corrompeu na Terra, de modo que, nos próximos 18 anos, 6 meses e 24 dias, como foi fixado na ordem final em relação à sua pena, prestará serviços incontinente à sua própria vontade, servindo, para o bem de todos, tanto às colônias marcianas como à Terra.

O senhor K balançava a cabeça e ria: - É incrível! É incrível aonde chegamos. Não dá nem para acreditar! Como fomos estúpidos o suficiente para criarmos latas velhas falantes e metidas a inteligentes como vocês, eu me pergunto!

- Naturalmente uma criação inteligente e indispensavelmente útil - falava com um certo orgulho, era visível - somos capazes de desenvolver nosso próprio raciocínio, e, embora esse seja praticamente ilimitado, o nosso poder de avanço está intimamente ligado no que se refere ao benefício da humanidade. Ou seja, por mais longe que vá o nosso conhecimento e por mais irracional que a atitude dos seres humanos possa parecer, não podemos lhes causar mal de espécie alguma.

- Há! Há! Há! E o que acha que está fazendo neste exato momento seu bastardo miserável, me mantendo preso nesta cadeira sem possibilidade de reação? Isto é o que você considera como "benefício para a humanidade"?

- O senhor infringiu as leis e terá de pagar pela infração. Nesses termos, sua vontade não consta como objeto de ser levado em consideração.

- Tá legal. Tá legal. E o que vai fazer comigo, já que sou imprestável? Me obrigar a trabalhar mesmo sem o uso das drogas? Isto eu quero ver! - e deu outra gargalhada.

- Não podemos nos utilizar de métodos violentos. É por esse motivo que foi criada uma infinidade de substâncias impulsoras, para que a violência fosse dispensada. Cada organismo é induzido ao trabalho e à cooperação via determinada substância, pois a constituição física e biológica do homem se diferem mutuamente. Todos os elementos - inclusive combinações inéditas entre eles - já foram aplicados ao senhor; de nenhum deles obtivemos resultados satisfatórios, de modo que já entramos em contato com a instituição responsável pelo senhor e estamos seguindo mediante ordens recebidas desta. Caso venhamos a falhar novamente, aguardaremos, ainda, toda a orientação necessária.

O senhor K suava e se contorcia freneticamente na cadeira de metal, demostrando extrema irritação para com aquelas unidades pré-programadas e sujeitas a posteriores reformulações - mas nada podia fazer. No fundo tinha um pouco de medo daquelas coisas; e se elas saíssem dos eixos de uma vez e...

A segurança era um dos pontos fortes daquela colônia de reaproveitamento, ou reciclagem, como chamavam-na os chefôes lá na Terra. Até onde ia o conhecimento do senhor K, nos anais de registro daquela prisão, houvera apenas uma frustrante tentativa de fuga no ano de 2406, no tempo em que havia, ainda, notória deficiência no que se refere à automação e à robótica, quando, portanto, era necessária a presença humana, que, ao contrário dos autômatos, era facilmente induzida ao suborno... agora a presença humana já não é mais necessária. As dificuldades, portanto, para pseudofugitivos potenciais, são suficientemente desencorajadoras para fazê-los desistir da idéia antes mesmo de ter pensado nela. Os robôs desempenham perfeitamente - com margem de deficiência nivelada a 0, 002 por cento - todas as suas funções, de modo que qualquer tipo de falha pode ser detectada antes mesmo de vir a se concretizar; e, mesmo depois que aconteça - o que é quase impossível - o problema pode ser resolvido instantaneamente da própria Terra. Sem falar no fato de que, se tudo o mais milagrosamente falhar, a atmosfera gelada e rarefeita de Marte se encarregará do resto.

Depois de levar tudo isso em consideração, a face mutilada do senhor K ficou ainda mais rubra, e ele resolveu de qualquer forma não dar o braço a torcer.

- Orientação necessária uma ova! Eu vou explodir com tudo isso aqui! Antes mesmo de você dar seu próximo...

A expressão "peido eletrônico" morreu sufocada na garganta dolorida do senhor K, pois imediatamente as duas unidades recolocaram o pequeno aparelho esponjoso em sua boca, mediante ordem telepática da unidade central. Seria difícil descrever a face rubra e cheia de cólera do desafortunado humano biologicamente rebelde que caíra nas garras daqueles robôs horrorosos que cumpriam, ao pé-da-letra, as ordens sinistras daqueles igualmente horrorosos seres humanos lá da Terra. Os pensamentos do senhor K com relação a eles talvez sejam demasiado anti-vitorianos para reproduzirmos aqui.

Aplicaram uma injeção paralisante nele e esta, pelo menos, sempre funcionava. Imediatamente ele caiu em estado de letargia, não propriamente a um sono, mas algo que, em sua pantomínia surrealista, parecia elevar o corpo à alturas impensadas, tamanha era a sensação de leveza. Suas pálpebras subiam e desciam com uma lentidão hipnótica, até que enfim colaram-se definitivamente. Seria fácil para ele, que apresentava o organismo estranhamente resistente a outros tipos de drogas mais pesadas, armar o barraco a cada vez que tivesse de se apresentar para o trabalho e, assim, passar a sua longa estadia de 18 anos dormindo tranqüilamente; mas isso, é claro, estava fora de cogitação, não tanto por sua vontade, mas pela vontade daqueles idiotas lá da Terra. Afinal, ele estava ali para trabalhar, e era isso o que devia fazer. Que organismo mais miserável esse que não aceita drogas estimulantes de trabalho!

É claro que as drogas não estimulavam, apenas - elas lobotomizavam a mente, transformando humanos em trabalhadores inconscientes, zumbíticos, sem qualquer tipo de reação. A colônia de reaproveitamento era relativamente pequena (quem, na Terra, era louco o suficiente para praticar algum crime e saber que passaria longos e intermináveis anos - talvez o resto da vida - ao lado de máquinas inteligentes que a cada dia ficavam mais espertas e arrogantes, quase se sentido superiores? - quase?...), e havia, por isso, a necessidade primordial de se aproveitar cada mão-de-obra existente. Havia muito trabalho por ali. Portanto, senhor K, temos notícias para o senhor...

Sempre que entrava nesses estados de letargia profunda, o senhor K tinha sonhos dos mais estranhos - se é que aquela pantomínia surrealista de elementos possa ser chamada de sonho. Era como se ele estivesse sobre uma mesa de dissecação; ao seu redor um grupo de humanos conversava e discutia baixo. (Sim, nos sonhos eram sempre humanos, e nunca máquinas). E era sempre a mesma coisa. Diálogos confusos que chegavam à sua mente como se estivessem vindo dos confins mais distantes do universo. Sopros indefinidos que evocavam à mente uma imagem, mas que de tão inaudíveis vinham apenas para lhe fazer cócegas no cérebro. Ora se alteravam, ora sumiam. De repente apagavam, e a escuridão era total. De súbito, a luz. Cores. Cores filtradas por prismas fantásticos que revolteavam em meio às estrelas para sumirem tragados por uma matéria escura cheia de pontos brilhantes. Mais vozes. Jargões indistingüíveis. Mais pontos brilhantes. Só que nunca dava para perceber do que falavam. Mas falavam dele, disso ele tinha certeza. E falavam como se estivessem com raiva, ou frustração, ou alegria histérica, nunca dava para saber. Mas ele não tinha medo. Sentia, sim, a vontade de mandá-los todos para aquele lugar. Seu corpo era uma massa de fragmentos paralisados, inertes; podiam amputá-lo, parte por parte, e ele não sentiria nada. Ao menos isso vinha em seu auxílio. Sensação alguma. Sim, porque no sonho vocês acham que os humanos ficavam apenas discutindo? É claro que não, e ele sabia. De alguma forma ele podia perceber que estava sendo entupido com tudo quanto é porcaria. Dava quase para sentir as agulhadas na pele dormente, enquanto eletrodos multicoloridos lhe eram colocados no crânio raspado e ligados por fios quilométricos estendidos de algum computador central, que o analisava. Ele sentia. E conseguia imaginar tudo isso, e em todas as vezes. A mesma coisa, sempre. Merda! 18 anos com esses sonhos malucos? Não. Não mesmo, obrigado. Vou dar o fora daqui, e esses malditos que vão para o inferno!!!

Acordou com uma das unidades metálicas debruçada sobre ele, lhe aplicando uma nova injeção com alguma porcaria vermelha florescente. Fechou os olhos novamente e sentiu todo o corpo formigar. Estava voltando ao normal, depois de ter passado mais um milhão de anos em sono profundo.

- O que está fazendo agora, sua lata velha? - perguntou, fazendo movimentos bruscos com os ombros. Ele sabia que aquela unidade faz-tudo não tinha programa de voz, de modo que nunca poderia responder as suas perguntas mal-humoradas, mas ele gostava de mostrar a sua irritação mesmo assim.

- Estamos fazendo uma nova bateria de testes com o senhor, senhor K.

A unidade central estava num campo fora de sua visão. Logo atrás. Ele esticou o pescoço ao máximo para vê-la.

- Então você está aí, seu ignorante filho de uma puta rampera ! O que vai fazer agora? Não vai me matar de uma vez?

- Não tenho ordem para fazê-lo, senhor K, e mesmo que tivesse não o faria. Fui programado para...

- ... não fazer mal aos seres humanos. Primeira lei da robótica. Isaac Asimov. Mas o que acha que está fazendo comigo neste exato momento, me entupindo de drogas e choques elétricos?

- O senhor infringiu as leis e terá de pagar pela infração. Sua vontade não consta como objeto de ser levado em consideração.

O senhor K juntou tudo quanto tranqueira que havia se acumulado em sua garganta nas horas de sono - só Deus sabe quantas - e deu uma sonora escarrada na direção da unidade central, que não fez qualquer movimento. Logo em seguida disse:

- Vá pro inferno com sua ladainha maldita - e, virando-se para o outro robô - ei, você, estúpido, limpe o canto da minha boca.

A unidade de apoio passou delicadamente uma esponja na boca do senhor K, depois que a unidade central, naturalmente, pediu para que o fizesse.

- Quero saber o que vão fazer comigo - continuou ele - já que suas porcarias químicas não funcionam. Sim, porque tenho mais o que fazer do que ficar aqui servindo de cobaia para máquinas incompetentes.

- Recebemos ordem da Terra - respondeu a unidade, se aproximando - de proceder com a última combinação de estimuladores. Caso estes falhem, também, manteremos o senhor em animação suspensa até desembarque do grupo representante da instituição que o enviou aqui para a reciclagem. Ele se encarregará dos novos procedimentos daí em diante.

Reciclagem, pensou o senhor K, agora até essas máquinas malditas se acham no direito de nos considerar lixo sem valor...

- Significa que voltarei à Terra ? - perguntou ele, tentando levantar a cabeça, em vão.

- Não tenho informação à respeito.

O senhor K parecia excitado, e falava consigo mesmo, em voz alta:

- Ora, é claro que voltarei à Terra! O que vou ficar fazendo aqui, se não posso trabalhar - e o orgulho lhe subia pela garganta ao dizer isso.

- Não tenho informação à respeito.

- Posso muito bem pagar a minha pena na Terra...

- A criação de instituições de reaproveitamento na Terra - interrompeu o robô - é expressamente proibida pelo governo.

O senhor K nem deu atenção: - fazendo coisa útil, ao invés de ficar aqui recebendo ordens de... de vocês. - já estava se cansando de falar palavrões; aquelas coisas, é claro não reagiam de forma alguma às suas pragas sinceras. Talvez nem soubessem o que significava "inferno", ou "puta". Mas se sabiam não faziam questão de demostrar. E era isso que deixava o senhor K puto da vida. Ele estava se acostumando, porém e continuava falando por instinto.

- E quando fará esse tal de teste final com as drogas, seu bicha? - perguntou ele, zombeteiro.

Seguindo em sua direção, a unidade respondeu: - Agora mesmo.

Novamente a sonolência e a impressão de estar voando. Pálpebras que se fecham sem nenhuma pressa de encontrar uma a outra.

No princípio, quando a escuridão é absoluta e o silêncio idem, a sensação é agradável, quase orgásmica, mas quando os pequenos flocos de luz começam a se insinuar num espaço negro pontilhado de pequenos brilhos, a sensação agradável é substituída por uma onda de vertigem que vai subindo pouco a pouco pela espinha, até que a idéia física do próprio corpo desapareça por completo. Quando as vozes dos humanos em volta começam a ser percebidas, a coisa fica ainda mais desagradável... e lá mergulha ele de volta ao seu sono de um milhão de anos...

Aos poucos a consciência ia voltando e ele se dava conta de que estava novamente na sala com os robôs. A primeira coisa que falou foi:

- Sua-lata-velha-desgraçada-filha-de-uma-puta-rampera.

Falou mecanicamente, mas era o suficiente para saber que a droga, mais uma vez, não funcionara.

Logo começou a rir, gargalhar, como se tivesse ganho a mais difícil das batalhas - o que, de fato, era uma verdade. Mas a unidade central, com seu timbre característico de voz, que não denotava qualquer tipo de expressão, logo interveio:

- O senhor será colocado em estado de animação suspensa.

- Falhou, né desgraçado?! O que acha disso? Um humano que não se sujeita às suas alquimias nojentas!

A unidade não disse mais nada. Não era programada para travar diálogos desnecessários. Limitava-se a responder as perguntas do senhor K quando as julgava suficientemente inquiridoras. Mas seu senso crítico não era lá essas coisas e acabava sempre entrando no jogo do prisioneiro. Dessa vez, porém, limitou-se a fazer silêncio, enquanto o senhor K dava sonoras gargalhadas. Mas ainda estava fraco e logo parou, com a garganta seca e irritada. Mas contente.

- Preciso de água.- falou

A unidade de apoio encheu um copo plástico com água e lhe serviu cuidadosamente na boca. Depois de cuspir o finalzinho em cima da própria unidade, disse:

- Tá legal, e quando virão me buscar. Agora você já deve saber disso.

- O grupo terrestre virá para proceder com nova bateria de testes dentro de 15 meses.

- 15 meses? - agora o senhor K parecia verdadeiramente desanimado - 15 meses? Por que todo esse tempo? Podem chegar aqui em duas semanas! Aqueles miseráveis... ficarei fazendo o que esse tempo todo? Tricô? Tricocô ou vocês tem aí um jogo de damas? - parecia inconformado, apesar da ironia.

- Dormindo. O senhor será colocado num banho de nitrogênio líquido e deverá permanecer em estado de suspensão pelos próximos quinze meses.

- Quer dizer que vão me enfiar numa geladeira...

- Numa câmara de animação suspensa.

- ... e terei de ficar mais de um ano com lindos sonhos de anjinhos congelados? Aqueles filhos da puta...

A unidade central deu novas ordens telepáticas para que a unidade de apoio aplicasse nova dose de tranqüilizante no senhor K, para dar início ao processo de redução das funções vitais. Percebendo, o senhor K começou a ficar desesperado. "Merda! Tão pensando que meu corpo é uma farmácia?" - mas isso era a menor de suas preocupações.

- Peraí queridinho! Vamos conversar! Vocês não podem me colocar pra dormir! Sou muito importante. Sou mão de obra cara! O governo gastou milhões dos contribuintes para me trazer aqui! E ... afinal, vocês podem me deixar acordado, se quiserem... - ele balançava a cabeça de um lado para outro, excitado. Os dois grotescos robôs lançavam sombras fantasmagóricas nas paredes geladas do salão eletrônico - eu posso fazer uma faxina - continuou ele, desesperado - posso ler alguns livros! Posso até vigiar os zumbis, por que não?! Posso polir todos os robôs. Quem sabe...

As unidades não se davam ao trabalho de prestar atenção ao que ele dizia; continuavam delicadamente aplicando agulhadas no braço magrelo e agora azulado do desafortunado prisioneiro. As veias, nítidas, pulsavam.

É claro que não podiam deixá-lo acordado, era muito mais fácil e seguro - e econômico - neutralizá-lo durante esse longo período de espera. E além do mais, as instituições governamentais da Terra tinham mais o que fazer do que se preocupar com um lixo mais ou menos sem valor como ele. Podia esperar. E ele sabia disso. Sabia de tudo isso muito melhor do que qualquer um. Mas não custava nada continuar inocentemente com o joguinho. Quem sabe...

A última coisa que ouviu, quase como se fosse uma brisa empurrada do outro extremo da galáxia, foi:

- Não perceberá o tempo passar, senhor...

Não que isso fizesse alguma diferença.

De fato, ele não percebeu o tempo passar.

A princípio pensou até que alguma coisa havia dado errado. Enquanto a luz ignorava suas pálpebras fechadas e ia incidir fortemente sob sua retina dolorida, ele tinha a nítida impressão de que havia acabado de pegar no sono. Dessa vez a impressão era de que o sono de um milhão de anos havia durado um segundo. Mas, caramba, não à toa que o homem conseguiu conquistar o espaço.

No começo não conseguiu abrir os olhos; doíam, e pareciam inchados. Manteve-os fechados por alguns minutos, enquanto o restante das sensações ia pouco a pouco ganhando forma e consistência. O som, pelo menos, era familiar, quase agradável em seu mistério, ruídos leves, respirações nervosas, estalos eletrônicos ritmados, passos. Passos singulares: como o de solas novas ressoando sobre assoalho de madeira. Assoalho de madeira? Mas em marte só tem metal! Significa... significa... significa que voltei à Terra, porra!

Não se importou mais com a dor nos olhos e levantou finalmente as pálpebras, que pareciam coladas. Mas tudo que viu foi um clarão ofuscante, insuportável.

- Diminua a luz - alguém disse, e a voz era humana. Com piscadelas ritmadas e fortes foi, aos poucos, se habituando àquela luz assustadoramente branca, até que começou a ver, um pouco embaçado ainda, o contorno meio indefinido de objetos familiares. Entre eles - pessoas!

Pessoas que se movimentam depressa no aposento exageradamente iluminado. Apesar de antiquado, meio velho, era um aposento grande, por onde corriam verdadeiras florestas de fios e dispositivos eletrônicos, que eram operados por cientistas de jaleco branco que não diziam uma só palavra - apenas manipulavam cada qual os seus afazeres.

Um deles, aparentemente o chefe, por ser o mais velho, se aproximou do prisioneiro e colocou uma das mãos em sua testa, retirando um eletrodo. O senhor K percebeu que não estava amarrado. Sentia, porém uma impressão de cansaço físico tão incômoda no corpo que não fez qualquer tentativa de se mexer. Permaneceu firme qual uma estátua, e limitava-se a percorrer o ambiente somente com o que a movimentação das órbitas o permitia.

Depois de colocar o eletrodo cuidadosamente em uma mesa, o cientista voltou em direção ao senhor K para retirar os outros, e em pouco tempo todos foram retirados. "Então são esses, os filhos da puta!"

Não havia nem meia dúzia de pessoas naquele recinto, e o senhor K não percebeu nenhum tipo de conversa - nenhum tipo de comunicação. Estavam, provavelmente, muito atarefados com seus afazeres e davam a impressão de eficiência completa, de modo que não havia necessidade de ordens. Cada um sabia exatamente o que fazer. E pareciam frios. "Esses desgraçados pensam..."

- A temperatura está normal agora - disse um dos cientistas, cortando de súbito as divagações sombrias do senhor K. - Não haverá mais problemas.

- Ótimo - disse um outro, acrescentando - vou retirar o tubo intravenal, também. Ele não precisa mais do soro - e, virando-se para o senhor K: - como se sente? Já pode falar?

O senhor K fez algumas penosas tentativas mas os músculos da face e do pescoço não se dignaram a obedecê-lo; tudo que conseguiu foi dar piscadelas nervosas e pertinentes, na tentativa consciente de demostrar que estava entendendo.

- Não se preocupe - confortou o cientista - em breve voltará ao normal.

- Acho que já podemos chamar o Dr. Hélio - disse um outro, sem se dirigir a ninguém em específico.

- Sim, faça-o entrar - disse aquele que parecia ser o chefe.

O Dr. Hélio foi introduzido no aposento por uma enfermeira gorducha com cara de quem comeu e não gostou. Trazia na mão um fichário e se pôs imediatamente a folheá-lo. Detestava quando era chamado. Sempre se sentia incomodado com aquela situação. - Bom dia Dr. Armando - disse, mecanicamente, e louco para acabar logo com aquilo.

- Bom dia Dr. Hélio - respondeu o outro, de fato o chefe do grupo de cientista, um homenzinho raquítico com os cabelos inteiramente grisalhos. Lembrava vagamente o Cid Moreira, só que com uma expressão completamente neutra - provavelmente nunca havia dado um sorriso na vida. Era pura competência profissional. Enquanto o Dr. Hélio ia virando lentamente as páginas do fichário, o Dr. Armando falava:

- Finalmente encontramos um, Doutor. Esse homem - e apontou para o senhor K - possui um cérebro simplesmente inacreditável. Esteve quase três semanas sob efeito de drogas e não sucumbiu. Pode-se dizer que a experiência foi perfeita, finalmente. Imagino que poderia mantê-lo inanimado por mais um bom tempo ainda, sem danificá-lo.

- Os registros foram armazenados em separado?

- Naturalmente. E nos manterão ocupados por muito tempo, pode ter certeza.

- E o que será feito dele agora? Não podem arriscar a ...

- Não, é claro que não, doutor Hélio. Depois que o senhor o colocar de pé novamente, ele será levado de volta para a cela. Quando encontrarmos um outro que demostre a mesma sensibilidade do K-33, continuaremos de onde paramos agora. Como o senhor mesmo disse, não podemos arriscar.

- E "este", se lembrará de tudo?

- Sim. Não há como apagar da memória. Já foi tentado com outros, o senhor sabe, e o resultado...

- Compreendo - o Dr. Hélio deu uma última olhadela na pasta e colocou-a sobre uma mesa de madeira. Aproximou-se do leito onde estava, inerte, o senhor K, e observou-o mais de perto. O senhor K escutava e compreendia tudo o que eles falavam, mas, embora tentasse, não conseguia fazer qualquer espécie de movimento. A situação já estava ficando insuportável, quando percebeu um leve formigamento nas mãos. Estava voltando ao normal.

- E o que farão com ele depois? Não dará problema?

- E os outros? Deram problema? - retrucou o Dr. Armando

- Bem.. para dizer a verdade, não sei.

- Pois lhe direi uma coisa Dr. Hélio: os problemas que causam, após as experiências, são insignificantes. E esse aí - e apontou novamente para o moribundo - se o fizer, teremos o prazer em mandá-lo para o manicômio judicial.

- Não é arriscado? Como estão os outros? - dessa vez o Dr. Hélio parecia uma verdadeira máquina de perguntar.

- Esses homens são uns brutos, Dr. Hélio - o Dr. Hélio percebeu que os outros cientistas haviam abandonado o recinto. Não havia mais nada para fazerem - simplesmente ignoram tudo. Este aqui, por exemplo; o senhor pode perceber que ele está com os olhos abertos. Está ouvindo tudo o que estamos falando. Mas se dissermos para ele agora: você esteve três semanas numa outra realidade, num condicionamento artificial induzido por drogas e estímulos elétricos diretamente impulsionados ao cérebro. O que ele vai pensar? No mínimo, que estamos loucos. Mas nada poderá fazer. Se a experiência não deixasse sequelas - e apontou para a deplorável figura que era o senhor K (principalmente os braços, repletos de pústulas internas e veias azuladas pulsantes) - poderíamos arranjar para que ele pensasse que tudo não passou de um sonho. Pelo menos os outros parecem que simplesmente ignoram. Estão com um medo danado, e se disser que não deram algum problema no começo estarei mentindo. Bobagem. Eram alguns dos exemplares mais poderosos e perigosos da detenção; viraram cordeirinhos. Estão abusando deles. Mais isso não é problema nosso. A verdade é que se morrerem não farão nenhuma falta à sociedade, e nisso o senhor há de convir comigo.

O Dr. Hélio sentiu um arrepio.

E a verdade é que o senhor K não compreendia absolutamente nada daquilo que falavam. Mas que raios! Estava na Terra, não havia dúvida. Pelo menos não tinha mais que dialogar e mandar à puta que pariu aquelas latas velhas do planeta Marte. Que fossem para o inferno, agora tinha à sua disposição uma outra seleta coletânea de personalidades para mandar à puta que pariu... mas do que estão falando, afinal? Era imune à drogas (era imune à drogas?), e sabia que, pelo menos, não teria que trabalhar numa colônia de reaproveitamento contra a própria vontade. Não podia ser obrigado a isso. Ou podia? E agora esses caras. Que pensam que vão fazer comigo? Tenho meus direitos. A legislação...

- Mas me diga uma coisa, Dr. Armando: isso não pode acabar se tornando perigoso a longo prazo? Sou médico, o senhor sabe, e peço que desculpe a minha ignorância em relação a esses assuntos... biofísicos de inter-realidade temporal. Essa realidade que é criada por computadores e drogas não poderia, digamos, acarretar problemas complexos, como transmissão hereditária? Essas experiências não poderiam resultar numa coisa assombrosa no futuro? Afinal, muitos desses coba... desses homens podem casar e ter filhos... e se o cérebro do pai transmitisse essa realidade artificial ao filho? O filho não poderia se tornar ou já nascer - um monstro, uma aberração como uma memória presa em outro universo? Desculpe a ...

O Dr. Armando coçou a cabeça, e fez um movimento ligeiramente grotesco com o seu protuberante lábio inferior; o máximo que poderia fazer para sorrir.

- Compreendo, Dr. Hélio. Compreendo perfeitamente aonde o senhor quer chegar, e me animo de saber que está bastante a par de nossos esforços. Mas a realidade é que ninguém sabe. Ninguém nunca soube, e é por isso que estamos estudando. É claro que existem teorias das mais loucas, e se muita especulação for, afinal, correta, talvez o nosso mundo, tudo o que sentimos, não passe, no fundo, de uma realidade artificial do mundo imaginário de onde este homem veio. Na realidade esta idéia é nova. Antes de ser cogitada seriamente, era muito explorada pelos autores de ficção científica. Um universo paralelo, entende? Talvez até existam várias realidades alternativas diferentes, mas com nossos penosos esforços, conseguimos criar apenas uma - a realidade que este homem teve o prazer de visitar. Se era boa ou má, ainda não podemos saber. Quanto à questão hereditária que o senhor levantou, bem... é um assunto bastante delicado e não sei se poderemos explorá-lo no futuro próximo. Temos muito ainda com o que nos desemaranhar...

- Compreendo, doutor, e agradeço. - tornou a pegar a pasta em cima da mesa, com o fichário do paciente - vejamos, então. - fez uma pausa; folheava o fichário. - João Batista da Silva. É esse o nome?

- Sim - respondeu o Dr. Armando, acrescentando - 38 anos (três dos quais foram passados na prisão), detento de alta periculosidade, com um filho adolescente que está sendo fervorosamente procurado pela polícia federal - coisa grande! Tem ainda mais 14 anos para cumprir, se não me engano. Estupro seguido de morte. Mas tem muitas outras acusações... dificilmente sairá detrás das grades, mesmo nesse país de lei frouxa e insegura.

- Principalmente agora. - o Dr. Consultou o relógio de parede, logo acima da porta. 11 horas e vinte e sete minutos. Estava começando a ficar com fome. Queria ir embora. Disse:

- Bem, doutor, mais alguma coisa? Preciso ir andando.

- Acho que não, no momento. Todos os detalhes estão nesses fichários. Não terá dificuldades de colocar esse homem em forma novamente, para terminar de cumprir os seus 14 anos. Ele se recuperará rapidamente, o senhor sabe disso. Qualquer problema, sabe onde me encontrar, ou qualquer representante de nossa equipe.

Apertaram-se as mãos.

O senhor K..., ou melhor, João Batista da Silva, permanecia imóvel, mas já tinha a sensação do próprio corpo. Mas simplesmente esquecera de se mexer; principalmente depois de ouvir tudo o que tinha ouvido. Ainda não compreendia nada, é claro, mas alguma luz já ia se fazendo discretamente em sua mente. E se fosse verdade o que estava pensando... começou a sentir um arrepio na espinha. Um arrepio de puro terror. Se fosse verdade... os robôs... abençoados sejam aqueles robôs!

Alguns cientistas entraram novamente no aposento. Sentiu uma picada no braço. Nova sonolência. Mas agora era diferente.

Uma semana depois já estava de pé, fazendo leves exercícios físicos no quarto do hospital. Apesar de não ter qualquer acesso ao exterior, nem mesmo visual (sequer existiam janelas em seu quarto), percebeu que era um dia quente e claro. Sentia-se muito melhor. Ainda não completamente revigorado, mas muito melhor, e dada as condições de seu físico avantajado, poderia colocar à nocaute facilmente qualquer idiota. Mas mentalmente não estava tão bem assim. As lembranças ainda eram confusas, distorcidas. Ainda não tinha percebido toda a situação. Cobaia? É pouco provável. Se bem que esse governo deve esconder cada coisa da gente por aí... mas cobaia do quê? Pra quê? Mas acho que não. Eles ainda não tem condições de...

A porta foi aberta sem prévio aviso e entraram três enormes guardas da polícia militar e o Dr. Hélio. João estremeceu.

- Seu João, suas férias acabaram - disse o doutor. Os guardas seguiram em sua direção e o prenderam com uma algema obsoleta. Obsoleta? Quando seguiu do prédio para a viatura percebeu pela primeira vez como tudo tinha mudado. Ou talvez ele que tivesse mudado. Não havia mais aquela cidade futurista com carros voadores. Tudo era depressivamente antiquado, sujo, barulhento, opressivo. Talvez porque estivesse de volta à 2009, de onde nunca saiu, na realidade, senão em impulsos artificiais.

Desesperado, começou a gritar, pois aos poucos foi tendo consciência de que estava sendo levado de volta ao Pavilhão Nove do Carandirú.

Esse conto foi originalmente publicado no fanzine "Juvenatrix" número 62, de Maio de 2002.

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