PROCESSO


Carlos Paraná


Cura
Foi no início da tarde que ele foi encontrado, encostado no tronco de uma árvore completamente sem folhas, a poucos metros da calçada.
Na verdade, existiam algumas, amareladas e sem vida pousadas sobre o gramado, e até mesmo o homem possuía algumas em seu rosto, penetrando seus lábios.
Ele não parecia dar nenhuma importância ao fato, ou aparentar incômodo.Estava aparentemente adaptado aquela condição. Uma brisa tímida soprava e fazia a camiseta branca que ele vestia agitar-se preguiçosamente.
Haviam rasgos no tecido aqui e ali e respingos de um líquido florescente tanto em seu corpo quanto no tecido. .Ele certamente havia sido curado. .O moribundo encontrava-se descalço e, mesmo quando as formigas picavam-no, desbravando o gramado e usando seus pés descalços como vias de acesso para alcançar outros locais, ele não esboçava reação.
Parecia estar morto, mas este não era o caso, pois seus sinais vitais respondiam.Glória havia tomado sua pulsação e preparava-se para encostar seu ouvido contra o peito do homem.Mas, ao olhar aquela camiseta suja, hesitou e usou a palma da mão para sentir seu coração.Os batimentos estavam um tanto lentos, mas isso era perfeitamente comum para alguém daquela idade.Gloria encontrava-se ali há apenas três minutos e já começava a sentir-se confusa e plenamente arrependida por ter parado para ajudar aquele homem.
Deveria ter seguido em frente, continuar correndo e não parar para olhar.
Começara a correr há algumas semanas e sempre fizera este percurso, pelas estradas curvilíneas da região leste.Aquela rodovia era conhecida por todos como “a centoupéia cinza”.Era a primeira vez que havia visto alguém por ali, pois a centoupéia ficava completamente vazia durante a entressafra.
Embora sua condição aparentasse completa inconsciência, seus olhos estavam fechados e apertados, como se fosse necessário um esforço titânico para mantê-los daquela maneira. Havia escoriações em seu antebraço e existia uma grande quantidade de gotículas de sangue coagulado decorando seu abdome, o que se tornara perceptível através dos rasgos em sua camisa.Inicialmente gloria tentou reanima-lo com calma e polidez, mas o desespero e a impaciência, que eram suas marcas registradas, não demoraram muito para desabrochar e faze-la mudar de atitude.
Começou a agita-lo para frente e para trás, como uma boneca de pano, sem se dar conta de que, a maneira firme com que agarrava seus braços, os puxões movidos pela ansiedade, não faziam outra coisa a não ser intensificar a dor que ele deveria estar sentindo. -Vamos, senhor, acorde! .Repetiu esta frase uma dúzia de vezes e elas obtiveram o mesmo efeito dos puxões.
Nenhum efeito.
Subitamente, Gloria levantou-se e desistiu da tarefa por alguns instantes.Sentiu que tinha feito o possível para tentar ajudar aquele homem, decidira deixá-lo ali entregue a sorte.
Durante o terceiro passo dado por ela em direção a estrada, ela ouviu o velho pronunciar monossílabas.
-Ga...na. -Como? – Agachou-se para tentar ouvi-lo melhor.
-Gad...Gna...Daf – ele apresentou esta resposta acompanhada de uma tentativa de sorriso.
Muito esclarecedor, pensou Glória.
Mas aquela resposta a animou-a a ponto de tentar reanima-lo mais uma vez ou ao menos tentar extrair dele algo mais do que simples sílabas desconexas; inúteis fragmentos de palavras.Então ela aproximou-se.
Foi quando ele abriu os olhos e fixou-os nela, olhos cansados, desesperados e de maneira nenhuma, normais.Suas pupilas eram, diferentes e davam-no um ar de nocividade, outrora inexistente.A tentativa de sorriso havia se alterado para uma gargalhada, que ia tornado-se mais densa e mais alta a cada segundo. .Daquele momento em diante, ele teve absoluta convicção de que não poderia ajudá-lo e pôs-se de pé novamente.Começou a olhar em todas as direções procurando por alguém.Olhou adiante das árvores, para o portão escancarado de onde ele deveria ter saído, mas ela sabia que não teria coragem de ir até lá.
Procuraria por alguém que tivesse condições de entender a linguagem de sílabas vagas, expressões débeis e principalmente, a mensagem que aqueles olhos estavam tentando lhe transmitir.Começou o caminho de volta para a cidade correndo, no início, mas, após alguns metros, ela diminuiu o ritmo e começou a caminhar.
As pupilas frágeis e anormais do homem curado acompanharam sua trajetória enquanto lhes foi permitido. A doença.
Não encontro maneiras de ser exato.Três semanas? Três meses?Três anos? Nem mesmo sei porque exatamente este número vem a minha mente sempre que tento organizar as memórias.A noção do tempo tornou-se vaga e incerta desde que cheguei aqui.A maiorias das memórias desbotam-se e falham ao tentar fixar-se em minha mente, desde a mais trivial e simples, como um escovar de dentes, até o fato mais complexo e elaborado.São como um jogo de xadrez.Meus neurônios em xeque-mate.
Por mais que eu tente evocar alguns eventos, eles não vêm a mim.Tudo que possuo são um vago reconhecimento e uma dúvida avassaladora do que realmente aconteceu.Mas, minha memória, estranhamente evoca alguns fatos, numa seletividade da qual os métodos desconheço.Como a célebre frase de Vicente.
Ontem, ou seja, lá, ele confessou-me que estamos num lugar que “despreza o tempo”.Quase ri ao ouvir aquilo pela primeira vez, mas sinto-me fadado a concordar com ele.Apesar de seu aspecto não ser de uma pessoa muito confiável.
A exaustão e a loucura estão visíveis em seu rosto branco, em cada poro em sua pele, marcada em cada célula, castigas pela permanência neste buraco.Cada vez que ele pronuncia uma frase, nunca é possível compreende-la completamente, pois é como se ela vomitasse as palavras, posso vê-las jorrando de sua boca, sem ordem, sem controle.Sua retórica é sempre acompanhada de um frenético esfregar de mãos em seu rosto, parece sentir que a loucura fosse palpável e se dispusesse em grossas crostas, que maquiavam sua face e, que ao tentar arrancá-las, novas germinavam instantaneamente no seu rosto pálido, de barba sempre por fazer.
.Há outro idiota dividindo o quarto comigo.Considero-o nada mais que uma planta onde a cama é seu vaso onde ele cresce e deteriora; às vezes o cheiro de urina é tão forte que eu gostaria de esmurrá-lo.Os dois atuam num comensalismo bizarro, onde ela lhe proporciona abrigo e razoável conforto e, em troca, absorve seus fluídos.Tudo o que ele faz é, defecar, urinar e gemer num tom de voz tão baixo, que sinto a impressão de assistir uma criança sendo torturada por um adulto covarde e cruel, e a criança não ousa dizer nenhuma palavra, pois conhece as conseqüências e as teme.
Deixo-o lamuriando para as paredes brancas e esforço-me para colocar a máquina em funcionamento e aproveitar o Sol antes do almoço. .Ao tentar levantar-me da cama para sair do quarto, não sinto mais o contato de minhas mãos com o colchão, a mesma coisa acontece quando coloco meus pés no chão, o frio da cerâmica não os atinge.A relação entre minhas mãos e a fechadura da porta é indiferentemente desprovida do tato.
Sinto-me como se meus neurônios sensoriais entrassem em hibernação, desprezando a minha constante necessidade por eles. .Tenho um súbito surto de pavor, onde me encosto à porta e reflito a respeito de minha nova condição.Após meros segundos, tomo coragem e saio para ver o Sol, talvez o calor ative meus nervos e neurônios sensoriais novamente.Ao sair para o pátio, o Sol está lá, mas a despeito de sua imponência, não consigo sentir a intensidade de sua temperatura. O grande astro rei tornou-se um placebo para mim, e pego-me zombando do cataléptico mestre do sistema solar. .Vou ridicularizá-lo mais tarde, pois o sino acabou de soar, indicando a hora do almoço.
O refeitório é um salão de piso marrom limpo, de paredes amarelas de aspecto convidativo.Os bancos de madeira estão lotados hoje.Mas há também muitos em fila que esperam sua vez, segurando suas bandejas de aço inoxidável, prontas para ser preenchidas por senhoras de sorrisos cansados, vestidas em seus uniformes verdes.
Ao chegar a minha vez, fixo o olhar para minha bandeja tentando em vão captar o reflexo de algo, o que é muito melhor do que a fotografia que está diante de mim.
-Você vai gostar do prato de hoje – ela me diz.
Continuo determinado em não olhar para ela.
-Com certeza – respondi de cabeça abaixada enquanto ela completava minha bandeja com arroz.
Quando ela termina, dirijo-me a outra senhora.Felizmente esta parece ter entendido meu desejo de não conversar hoje.Ela não me diz nenhuma palavra e trabalha automaticamente, como um ser humano programável para uma única função. .Ao pegar os talheres, caminho sem a mínima pressa para algum canto do refeitório, encontrando sem dificuldade um lugar entre os falhos e esquecidos.Sento-me e inicio a degustação, apenas para perceber que mais um dos meus sentidos abandonara-me. Não consigo sentir o gosto da refeição, meu paladar, se fora de maneira inexplicável.Mantive os alimentos na boca por mais tempo, tentado dar uma segunda chance a minha língua.Ela certamente não fora aproveitada.Mas, a despeito deste evento, tinha fome e comi com uma avidez um tanto excêntrica.
Continuaria concentrando-me em minha refeição se um dos internos não se levantasse em seu banco e começasse um inflamado discurso.
-Deixem-no acordar! – é a primeira frase que ele diz - Seu grito silencia subitamente o ruído dos talheres de aço contra as bandejas.
-Há alguém acordado aqui? Ajudem-no! Há alguém acordado aqui?Respondam-me!
-Suas expressões eram exageradas ao extremo, como as de um ator que tenta convencer uma platéia inerte e indiferente.
Pensei que seus olhos direcionavam-se a mim durante um momento, mas eles buscavam algo que ficava além daquele salão.
Passavam a impressão que uma parte dele queria sair de lá e ir atrás do que seus olhos estavam procurando.
-Despertem-no, seus sonófilos malditos! – Esta foi a deixa do ator, pois, após esta frase, mãos fortes, exatamente quatro delas, agarram-no e arrastando-o dali, como se carregassem um manequim prestes a ser jogado no lixo.Acordar? Sobre o que ele estava falando exatamente?A partir do momento em que ele é levado para fora, o mundo dos sons invade o refeitório novamente.
Como se alguém houvesse pausado a fita e voltado a reproduzi-la após a performance terminar. .Com o espetáculo terminado, fui até a sala de jogos, um complexo centro de distração para a mente senil.Havia mesas de bilhar, cadeiras e mesas onde se podia jogar truco, damas, xadrez ou qualquer outro jogo.Não permaneci naquele local durante muito tempo, mas fiquei o suficiente para achar que havia visto demais.Os que estavam na mesa de bilhar discutiam calorosamente, e pude perceber um tom infantil em suas vozes.Não eram gastas e cansadas, como é característico daquela idade.Eram estranhamente joviais, eles erravam a pronúncia de várias palavras, o que é apenas feito por crianças.
Corriam uns atrás dos outros, com os tacos em punho, acertando-se mutuamente e rindo. .O último lugar em que poderia ir antes de voltar para o quarto era a sala de T.V.Mas aquela droga sempre exibia o mesmo filme.Essa era mais uma coisa de que me lembrava, de que o filme sempre se repetia.Todos que estavam lá dentro olhavam atentamente para a tela da televisão fixada em um suporte no final da sala.Para atrasar ao máximo minha volta, me sentei para assistir o filme também.Emocionante como um jogo de gamão.Todos assistiam calados e atentos.Pareciam ter decorrido apenas dez minutos desde que me sentei,mas muito mais tempo havia passado.
Ao me levantar, um homem baixo e magro comentava com o outro a seu lado:
- O que eles devem mostrar amanhã?
-Não sei,mas, se for tão bom como o de hoje estarei aqui.
-Verdade, a cena das máscaras foi emocionante.Eles têm sempre extremo bom gosto com os filmes.E o melhor é que nunca os repetem. .Como? Não repetiam filmes?E quanto a cena das máscaras? Nunca havia presenciado tal cena.Malditos malucos. .Quando passei por eles, me olharam como se contemplassem um ator que tivessem visto na tela, mas apenas olhavam e não diziam nada a mim.O que estes idiotas estavam querendo?Tentei esquecer deles e obtive sucesso durante o caminho de volta, pois, ao chegar ao quarto não me lembrava mais de nada.Já deitado em minha cama, fechei os olhos e deixei os minutos, segundos, memórias, visões e meu companheiro de quarto, fora de minha mente enquanto pude.Havia apenas escuridão e pequenos flashes, passeando como nebulosas em meus olhos fechados.
A calmaria não foi mantida o tempo que gostaria que fosse.Sons a interromperam e, quando abri meus olhos novamente a tarde havia se retirado, deixado o palco e dado lugar a noite.Os sons que ouvia soavam como espectros exaustos congregando, clamando com suas últimas forças, fazendo orações a um deus oco e frágil.
Tornavam-se cada vez mais altas; vozes penetrando em vozes e reproduzindo-se, saturando a atmosfera, pareciam se multiplicar e jamais se findavam, iam e vinham num ecobatímetro de proporções incomuns.A inquietação era impossível de ser acalmada.Não resisti o desejo de segui-las e encarar os autores daqueles sons.Segui em direção a porta e pude perceber que o inútil continuava deitado, mas não gemia ou convulsionava.
Estava inerte, como o Sol, há (momentos?) atrás. .Abrindo a porta, o corredor estava aparentemente inabitado, mas os sons permaneciam, eram mais altos, não tinha certeza da direção certa a seguir, pois eles preenchiam todos os espaços e embaralhavam os outros sentidos que ainda funcionavam.
Subitamente, uma porta no fim do corredor, do lado esquerdo se abriu e iluminou o corredor vagamente.
O suficiente para me fazer perceber que eu não era o único que estava ali no momento.
Eles estavam lá também, como ratos escondidos que debandam de seu esconderijo quando são importunados por intrusos ou pela luz.Vários outros pacientes andavam a esmo, murmurando frases que não podia entender.
Esbarravam em mim, ignorando minha presença e vi que a marca da loucura havia sido feita em cada um dos seus olhos.Pupilas transversais de cor negra flutuavam num fundo azul turquesa, como bacilos dançando em uma substância agradável, ou nadando em um oceano de prazeres.Eu olhava-os nos olhos, com medo e curiosidade.No início achei que não perceberam minha presença, mas eles sabiam que eu estava lá.Esbarrando em mim me empurraram até o fundo do corredor, até a sala onde a luz estava acesa.
Quando estava me aproximando da sala, a realidade e a ilusão se confundem, pois não consigo visualizar claramente o que há lá dentro, as imagens tornam-se borradas com uma transmissão clandestina, e o que vejo é uma mão sacudindo meu corpo, tentando me acordar.
- Levante, marionete – A frase incomum adquiriu um grau muito mais elevado de estranheza quando percebi quem a pronunciara.Era o inútil e inerte companheiro de quarto, antes incapacitado e com suas funções atuando o mínimo possível.Agora seu toque era forte e seu olhar ansioso, puxava-me para que eu me levantasse e o seguisse, numa manhã de Sol forte e imponente.
Estava no corredor onde me encontrava segundos atrás.Agora as paredes brancas que antes não podia ver, estavam sujas de lodo e manchadas de marrom.Um quadro branco pintado por crianças.As lâmpadas quebradas e seus soquetes estavam cheios de teias de aranha, haviam sido inutilizados há muito tempo.As portas, quebradas, a madeira estava completamente lascada e descascada em toda a sua extensão, as fechaduras encontravam-se enferrujadas e quebradas, vítimas de arrombamento ou esquecimento.Os pisos não existiam na maioria do corredor, substituídos por terra batida, dando um aspecto medonho ao chão.
Olhar a terra crua e um pouco de cimento aqui e ali me causava um arrepio na espinha,como se houvessem arrancado parte de minha pele, deixando-a trêmula e dolorosa.E todos os moribundos da ilusão noturna esperavam por mim.
Estavam em duas fileiras, cada uma encostada em uma parede e cada fila era liderada por dois velhos, de aparência abatida, um deles era Vicente, sua fala não era desordenada, pois agora eu pude entendê-lo quando ele gritou:
-Eles não podem respirar este ar! – e ele continuou em meio a tossidas e pigarros –Quem o acordou? Este ar é nocivo para todos eles, você deve voltar a dormir. Deve voltar.Nós não podemos viver fora de você.Não podemos.O processo está acabando e não há muitos sentidos sobrando, seu tato e seu paladar já haviam morrido; em breve tudo estará acabado e ele vai encontrar outro hospedeiro.Quem o acordou?Foi aquele idiota que dormia com você, não foi?Ele não percebe que terá um fim exatamente como o nosso se você acordar?Por que ele fez isso?Ele irá pode encontrar outro hospedeiro,mas primeiro vai castigar você por ter acordado.Volte e durma enquanto é possível reparar o dano.
Não segui o conselho de Vicente e me dirigi àquela mesma porta. Nada iria me impedir de ver o que estava lá desta vez.Ao caminhar pude verificar os outros que estavam atrás da fila.Tinham máscaras de gás em seus rostos, máscaras brancas, amareladas e manchadas de uma gosma nojenta, na altura dos pulmões havia tubos incrustados na carne em seus peitos, inalavam e dividiam o ar com os outros, os dois que lideravam a fila eram os únicos que podiam respirar o ar, serviam como filtradores para todos eles, as feridas na pele de cada um, no local onde se localizavam os tubos, eram bem maiores que a espessura necessária para encaixá-los.Pareciam ferimentos de bala.A respiração coletiva das formigas humanas.
Desta vez nada me interromperia de entrar na sala.Escutei alguns protestos débeis por parte dos dois filtradores, mas os ignorei completamente.
Aquilo sentado na cadeira era o que eles temiam?Seu olhar penetrante, investigativo, perspicaz e maldoso?Quando Vicente disse em punição para a planta, não havia compreendido, mas estava tudo claro agora.
Os idiotas estavam no chão.Um deles estava convulsionando e desbotando-se, enquanto sua carne era devastada por algo que não podia ser visto.O outro estava sentado em frente ao que era castigado, assistindo, tremendo e soluçando.Algo invisível.Fúria e vingança não possuem forma, eu presumo.O que o consumia estava faminto, ele desaparecia numa decomposição extremamente acelerada.Esforcei-me para tirar os olhos dele e não consegui, eles estavam fixos, assistindo a punição atentamente. Até que percebi que se tratavam da mesma pessoa. Aquele que assistia e o que sofria eram um só.Alguém havia duplicado a planta humana, tornando-a espectador e vítima ao mesmo tempo.
Meu ouvido captou o som de algo batendo com violência na parede sala, como uma bola de pingue-pongue enlouquecida.A mesma força estranha que me impedia de observar outros locais na sala.Forçou meu pescoço para avistar quem estava sendo tratado como um fantoche.Era o homem que havia feito o escândalo no refeitório, seu corpo já estava morto há algum tempo, ele era a penas uma massa branca atirada de um lado para outro para divertir aquele que estava sentado na cadeira.Ricocheteava tresloucado, ossos provavelmente estraçalhados; hematomas decoravam seu corpo nu.Um simples joguete, que parecia ainda ter alguma graça para quem o manuseava.
Não queria mais ver nada daquilo; punições que não tinham motivo, súplicas por parte de corjas de grotescos seres humanos.Então eu me movi em direção a porta, mas os músculos e ossos não responderam aos comandos cerebrais.Permaneci onde estava, e não pude fazer outra coisa a não ser contemplar forçadamente o causador de tudo aquilo.Ele me presenteou com câimbra, vindo sem piedade e contraindo todos os músculos, eu queria desfalecer, cair no chão e começar a chorar, mas não possuía controle sobre meu corpo.Não queria o que ele me permitia sentir.Minha pele começou a arranhar-se por algo que não podia ver (o mesmo agente que atuava na planta?) e fluídos que eu jamais imaginara que existir em meu corpo; líquidos de cores e espessura variadas fugiam de dentro dele, abraçando a atmosfera.E ele sorria para mim. .A dor se intensificava em diferentes matizes para Pablo.No azul claro das paredes da sala, no branco de sua pele, no marrom putrefato da carne de sue companheiro se deteriorando, na cor e na forma do torturador.Nas substâncias amarela e verde que expeliam de seu corpo.Como que para responder a dúvida momentânea se ele possuía sangue, ele veio como se houvesse sido chamado.Mas era uma modesta quantidade, que Pablo talvez não tenha visto, pois sua visão tornara-se turva, ao mesmo tempo em que seus outros sentidos que ele havia perdido voltaram, como numa inundação.Não eram tão bem-vindos como certamente seriam se ele não houvesse transgredido as normas do processo.
Sua punição foi acordar, no seu caso, a letargia e a perda de memória eram apenas um incômodo momentâneo, que garantiria a manutenção de todos eles, até ele encontrar outro hospedeiro, alguém que viesse explorar aquele local, procurando abrigo ou por curiosidade.O torturador riu quando o velho saiu da sala e alcançou a saída da instituição.Sabia que a sua condição não daria meios de ir muito longe. Num flashback desordenado, várias imagens da vida de Pablo retornaram a ele.O momento em que chupava o dedo, ainda um feto, dentro do ventre sua mãe, quando saiu dela, a primeira vez que sentiu dor, um súbito enfarto decorrido há anos atrás, seu contato inicial com as lágrimas, o momento em que abandonou sua família e tornou-se um andarilho e o último local onde buscou abrigo. Uma instituição abandonada.A sobrecarrega de lembranças em sua mente causou-lhe um choque mental, caminhou até o gramado, fora dos portões, o suficiente para encostar-se a uma árvore.E, da mesma maneira que elas vieram, elas partiram, deixando-o de novo com o vazio e a inconsciência. .O persistente efeito colateral.
Ao retornar ao local, eles quase não permitiram-na adentrar a instituição, mas ela correu antes que pudessem impedi-la.O infeliz havia sido carregado para uma ambulância e o sorriso continuava lá, moldado em seu rosto como numa incurável paralisia facial.O local do ocorrido era um tanto inacessível para a proliferação de curiosos, mas eles acabariam chegando, mais cedo ou mais tarde.Por enquanto era ela a única intrusa ali.
O caminho que levava a porta principal era uma calçada de concreto reta, intercalada por filetes de grama que cresciam fora de ordem, contribuindo desnecessariamente para o aspecto de decadência e abandono.
- O que será que ele veio procurar aqui? – Perguntou o policial novato -O local parece desativado.
- Ë verdade, o asilo está, desativado há quatro meses, desde que o filho do diretor e dono do local desapareceu, ele abandonou isso aqui e saiu à procura do garoto.
- Aquele camarada parece precisar internar-se num lugar destes, a julgar pela cara dele.Como ele quebrou o cadeado?
- Estranho, não é?Estes caras quando estão desesperados e querem entram em algum lugar, fazem qualquer coisa.Ainda com o frio que estava fazendo nas últimas semanas.
O policial novato intrigara-se com o fato daquele homem ter conseguido quebrar o cadeado.Aquilo era impossível.Ele não confiou em seus olhos e começou a examiná-lo com as mãos.
-Dê uma olhada nisso, tenente.O cadeado não está quebrado, está aberto e intacto. -Deixa isso aí, garoto, estas coisas são para a o pessoal da perícia, pare de fuçar.
Glória seguia adentrando o local, encorajada pela presença de outras pessoas ao seu redor.Não considerava os homens mais corajosos que as mulheres, mas sentia-se segura.Tudo ali se encontrava desordenado e sujo, e escutou ruídos estranhos.Seria o vento?Vinha daquela sala azul.Ao abrir a porta, um odor a fez esquecer os sons completamente.Havia algo morto e decomposto ali.Quando se virou para fazer o caminho de volta, acalmou-se quando viu os policiais se aproximando, a alguns metros de distância.
-Há algo morto aqui! – Ela gritou, apesar da aparente calma.
-Acalme-se, moça.Pedimos para você aguardar do lado de fora, mas você adentrou em disparada, como um coelho.Por favor, não toque em nada. .Ela não tocou, apenas olhou para a direita e atrás de uma mesa achou mais um corpo.Nu e disfuncional.Jogado num canto como uma boneca de trapos.Havia outra coisa atrás de uma cadeira, um pouco adiante da mesa, no começo ela hesitou, pois era este o barulho que estava ouvindo do lado de fora, aquilo era tarefa para os policiais.Mas, ela sorriu quando percebeu quem fazia aqueles sons. .O bebê sorriu para ela em troca, com seus lindos olhos castanhos.Sentiu-se confortável quando ela pegou-o no colo e encostou sua pequena cabeça em seu peito. Ela o levaria para a cidade e ali, possibilidades se abririam.Uma cidade repleta de hospedeiros servis e indefesos.
O bebê agarrou suas pequenas mãos no agasalho de Glória e deixou-a guiá-lo, passando indiferente pelos policiais, para fora dos portões, em direção a centoupéia cinza.

Agosto 2002.