QUARTO 35
Carlos Paraná
No final do dia que recebeu alta do hospital, Elias não foi para casa.Instalou-se num quarto de hotel no centro da cidade.Não estava muito contente por estar livre.A cama do hotel era pior que a do hospital.Eis que o homem no chão começa a murmurar algo enquanto dança.
“Não foi isso o que fiz?”, responde Elias, um pouco indignado.
“Ineficiente, incompleto, equivocado”, o homem dizia, aumentando a voz a cada palavra, mesmo assim ela não era maior que um sussurro.
“Mas, bem que poderia ser ele”, diz Elias, apontando para o homem estendido no chão, ”Olhe para as marcas”.
“Marcas, marcas. Fáceis de encontrar. Elas estão em todo lugar”, o homem abriu os braços, como se tentasse abraçar tudo ao redor com seus membros limitados, “Procuramos por algo específico. Inconfundível será, quando o encontrarmos. Lembre-se disso”.
Elias assentiu, sentindo-se mal como um aluno que é repreendido pelo mestre.O mestre em questão tinha cerca de dez centímetros de altura e caminhava sobre o cadáver de um homem qualquer.Durante os intervalos em que ditava suas máximas a Elias, ele dançava sobre o peito do morto, de braços estendidos, como se acompanhado de uma parceira invisível que corrigia seus movimentos durante a dança.
“Seu equívoco será relevado. Ou melhor, perdoado. Sabíamos da sua inexperiência. Mas, afinal, o que é experiência senão um aterro de erros onde às vezes desenterramos um ou dois acertos? Em frente, sigamos em frente”.
Quando terminou de falar, cinco criaturas semelhantes a ele apareceram de dentro do corpo morto.Dois homens e três mulheres.Todos dançavam sobre o infeliz, cantando num volume tão baixo, que era impossível discernir o que diziam.Elias agachou, na tentativa de compreendê-los.
“Ele está sozinho. Enquanto você tem a nós. Todos nós”, parecia ser o que cantavam os pequenos torturadores.
CARLOSPARANA@aol.com
|