OS QUATRO CAVALEIROS DO ARMAGGEDON


Eduardo Amaro


"Houve relâmpagos, ruídos, trovões, um terremoto e forte chuva de pedra. Houve uma batalha: Miguel e seus anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão e seus anjos combateram, mas não conseguiram vencer. O grande Dragão, a antiga serpente, foi derrubado na terra e seus anjos foram atirados ao inferno"
E Lúcifer levou Gabriel como refém para o Inferno, onde teria a retaguarda protegida por seu poderoso exército de demônios. Em constante vigilância, Gabriel ficou aprisionado durante duzentos anos. Seu servo César Nero, o AntiCristo, estava abrindo caminho para a sua volta.
Enquanto a terra era tratada por César, persuadindo durante quarenta e dois meses a população com seus discursos clamorosos, Lúcifer castigava o arcanjo, descontando toda a sua ira contra o ser divino. Torturando-o, era como se visse em Gabriel o semblante de Deus. Mesmo assim, a satisfação não era total.
Duzentos anos na dimensão das trevas passa como minutos para os mortais. Seres superiores não sofrem tanto com o desgaste do tempo. Com o passar dos séculos, os homens foram submetendo-se aos poderes do mal, sem ter consciência desse fato, ou mesmo com consciência dele. Até que chegou o dia em que a humanidade estava pronta para receber o senhor da escuridão. Lúcifer está de volta, e dessa vez, é para valer!
Elohim, descontente com o fracasso parcial de suas tropas no último confronto com Lúcifer, castiga os homens na terra. Sem perceber que, enfraquecendo os humanos (a única vantagem numérica que possui contra os exércitos infernais) torna o demônio cada vez mais forte, pois cada alma humana atirada ao inferno é sugada por Lúcifer, fazendo com que seu poder cresça geometricamente. Alguns humanos foram mortos e outros se aliaram ao demônio.
"Então os quatro anjos foram soltos. Os cavaleiros tinham armadura de fogo, de jacinto e de enxofre. Os três poderes que saíam de suas bocas, o fogo, fumaça e enxofre, mataram uma terça parte dos homens"
Lúcifer retorna glorioso e irado, com um grande sinal de destruição. Sua cauda, como a cauda de uma serpente, arrasta uma outra terça parte dos humanos, enquanto seus exércitos continuam a espalhar o caos pelo mundo inteiro. Abbadon derrota Mizael. Belial esmaga Rafael. Gabriel queima no inferno e Miguel está cara a cara com Lúcifer.
As barreiras do céu estão cedendo. As últimas forças de defesa, comandadas por Miguel, não oferecem muita resistência, enfraquecidas pelas ordas constantes de demônios alados que, com suas garras de ferro e suas labaredas de fogo infernal, incendeiam os anjos de Deus como verdadeiros Ícaros que chegaram muito perto do sol. Um genocídio nunca visto (nem imaginado) antes.
Uma luta sangrenta (sim! anjos e demônios também sangram!). E, no centro de tudo, sentado em seu trono intocável (até certo ponto), sem interferir, está Elohim, o supremo arcanjo celeste, a soma de todos os seres celestiais, mais conhecido por Deus.
Lúcifer, por outro lado, a antítese de tudo, cavalga com imensa fúria em direção a Elohim. Partindo literalmente Miguel ao meio, sugando sua essência (fortalecendo-se mais), ele arrebenta os sete portais que o separam de seu objetivo final. É chegado o momento do domínio total ou da derrota sem glória.
- "Eis que vens raivoso ao meu encalço, filho bastardo. Não vês que meu poder pode destruí-lo sem muito esforço?"
- "Eu sempre fui melhor que os outros, mas tu nunca dastes o valor que eu merecia. Preferiu amar aqueles macacos ao invés de contemplar minha beleza, fruto de sua própria criação, de sua própria essência: de você mesmo. Hoje compreenderás teu erro, da maneira mais difícil, pois consegui me igualar a seu poder. Veja a terra... aos meus pés! Contemple seus patéticos macacos, aqueles que eu ainda não devorei a carne e condenei o espírito me adorarem! Veja meus irmãos; os que não estão ao meu lado, estão mortos ou quase! Seus exércitos caíram! Vim aqui para tomar o seu lugar e unificar os reinos, sob o meu comando!"
- "Filho... não me obrigue a..."
- "Não me chame de filho! Sou teu superior agora que estás derrotado!"
- "Não estou derrotado"
- "Rá! Proves, então!"
Pela primeira vez, desde a criação de tudo o que existe, Elohim levanta-se de seu trono. Os três espíritos unificam-se em um único ser de luz. Uma luz tão radiante quanto a explosão do cosmos que cega Lúcifer por alguns minutos. Nesse instante, um grande grito de dor é proferido. O demônio sente que sua contraparte vai atacar... e prepara-se.
O golpe é violento demais. Os cinco continentes tremem, as estrelas caem e os mares e oceanos revoltam-se, dando fim a todos os seres que respiram. As chamas nos olhos de Lúcifer tragam os infernos (todos os dez!) tornando o demônio uma perfeita simetria de Deus. O próximo golpe, desferido por Lúcifer, parte a terra ao meio, desestabilizando o equilíbrio do cosmos. As duas metades, a essência do mal e a essência do bem, confrontam-se violentamente, a fim de eliminar sua cara-metade. Milênios, na contagem humana, são marcados (se nessa circunstância o tempo produzisse algum significado). No final, as contrapartes se unem, como um yin e um yang. Um novo começo, na verdade, o mesmo começo, que há de repetir eternamente. Pois um é parte do outro, e os dois formam um. Eis a suprema essência: a dualidade que se repete a cada minuto, a vida que se esgota para gerar vida, a incompreensão da morte e a real morte em vida. Deus e o Diabo, partes simétricas de um mesmo todo que se iguala, se destrói e se reunifica. Eternamente.

amaro@uol.com.br