...NUMA REGIÃO ENTRE A LUZ E A SOMBRAE.R.Corrêa
- Afasta-se, eu ficarei com ele! - Não, eu ficarei! E se você se intrometer eu te mato, eu juro que te mato! - Pois vá, mate-me! Estará me fazendo um favor... e você sabe disso... não adianta querer se enganar! Você também vai morrer... e será pior, será doloroso! Será terrível! - Não, não será! Não será porque eu não vou morrer dessa forma. O abrigo é meu... Sim, ele é meu, e vocês não vão tirá-lo de mim!... Olhem..., o horizonte, já está vermelho, e em pouco tempo vai acontecer, e só eu – entenderam – só eu serei poupado!... - Por favor, não tranque esta porta, não é justo – nós que o descobrimos, temos de ficar com ele! - Não é justo? Agora você vem me falar de justiça?! Idiota... - Não adianta! Você e todos os seus músculos serão condenados ao mesmo fim, à morte... A maioria chorava, mas alguns riam – mas tudo caminhava, tal qual a desolação, para o terrível. E a discussão, no entanto, continuava, e iria continuar, é certeza, até que os últimos estímulos de força fossem apagados e dispersados pela brisa. Ao longe, nas nuvens avermelhadas que se esvaneciam e davam lugar a aurora, viam-se sombras tenebrosas que refletiam as ruínas. Eles, porém, indiferentes às peculiaridades, em círculo traiçoeiro à beira do abrigo, se ameaçavam mutuamente, e os pedaços de madeira pontiagudos em suas mãos estavam prontos a qualquer movimento em falso. As mais profundas notas de insanidade brotavam de suas faces como o vento desolador brota das rochas sem esperanças. O dia avançava, mas a dor, porém, em seus olhares, permaneciam reprimidas, e de cada pálpebra dorida, de cuja limpidez brotavam lágrimas, brilhava um resquício de esperança. Uma esperança emaranhada na loucura... - Não se enganem, vejam! Vejam só as pernas dele – tremem como uma vara verde... é o medo! É o medo da morte... - Cale-se, idiota! De que vale essa ironia inútil, essa besteirada toda? Enquanto isso, ele continua a barrar a porta, não vês? - Ele não terá coragem, é fraco! É estúpido, é arrogante... Mas é inteligente o suficiente para saber que se trancar a porta... - Eu vou para o céu, para o céu, para os meus filhos, vou para a minha casa... a bomba não irá explodir, é um blefe... Olhem para o céu, olhem que pássaro belo!... É azul, é azul como o meu sonho... como o meu sonho... como... - Tirem-na daqui, ela está nos distraindo. - Nem um passo! Ninguém deve se afastar. Vamos tirar este louco daqui e quando a bomba explodir seremos todos salvos... ou seremos todos lançados ao túmulo a um só tempo... Todos! Entenderam? Ou será que terei de usar isto?! - Ele tem razão, ninguém se mova! - Ninguém se mova! Ninguém se mova!... Será que você não percebe a inutilidade dessa discussão enquanto este louco fica a barrar a nossa entrada? - Quem se aproximar eu mato!... Eu não estou brincando! - Vamos lá, largue isto... Temos todos os mesmos direitos... - Direito? Você vem me falar de direito quando o mundo está à beira do fim? Este abrigo é meu! Não caberemos todos aqui dentro... E não adianta jogar palavras ao ar para me distrair – sou forte e daqui posso observar todos os seus passos, todos os seus passos, entenderam?! Serão todos lançados à fornalha atômica, enquanto eu, aqui dentro, sobreviverei... pouco tempo, mas sobreviverei. Não serei uma vítima da radiação, como vocês... se tiverem sorte... Eu sei que vou morrer... vou morrer de fome, de sede, de angústia, mas não darei o luxo deles me matarem com suas invenções banais... Eles não poderão dizer: “Temos o poder da destruição em nossas mãos... e de suas vidas também”. Não! Isso não será para mim!... - Você está louco! Deixe-nos entrar... daremos um jeito... - Cale-se! Eu... eu... É... - Eu vou embora ver os pássaros azuis... Na amplidão celeste de vermelho rubro, papéis e folhas mortas esvoaçavam pelo céu, sem empecilhos, ao impulso do vento; no entanto, a despeito de sua cor negra como um corvo, eram tomados como pássaros azuis... O dia era quente. Muito quente. Dir-se-ia o próprio inferno na Terra, e o Sol vermelho e abrasador lançava, à cabeça dos apavorados, os seus raios de infelicidade, demonstrando, em seu íntimo febril, as portas abertas para mais um dia de miséria. Assim fora em todo o mundo... quase todo. Mas as esperanças há muito deixaram de existir; não havia nem mais uma possibilidade. Tudo se fora. Eles todos sabiam disso, os sete. Alguns riam com a situação; alguns choravam; alguns, na sua mudez concentrada, procuravam extrair água das pedras, outros cantavam para a poeira que soerguia do tumulto acalentado, e a única beleza feminina, na sua doce insanidade, clamava aos céus pelo salvamento dos pássaros azuis... Não obstante, no horizonte longínquo, surgia, entre manchas e nuvens, o esvoaçar podre e solitário dos abutres... os últimos. À frente, uma imensidão laranja e fosca enchia a visão, e entre as rochas faceladas e os resquícios de vegetação morta, não soerguia uma só nota vibrante de cor. Tudo parecia, de fato, caminhar para o fim e para o esquecimento, e sumir, AD INFINITUM, na hostilidade incontida de um mundo fracassado e afogado em sua própria miséria. A paz... palavra bela que um dia fora pronunciada, mas que não fazia efeito e nada dizia a uma civilização que desde o início se autodeclarara inteligente. A condenação fora lacrada, para o sono da Terra, para sempre... sempre... sem volta... Mas para eles, naquele momento, existia ainda, em suas vidas transitórias, no íntimo reservado da consciência individual, o instinto, mesmo que fraco e apagado, de sobrevivência. - Olhem, o céu! A cada minuto ele se torna mais vermelho! É um aviso, é o prenúncio, é agora – os filhos da mãe não pouparam ninguém, malditos filhos da puta! É o fim, é o fim do Homem... É hora de me recolher!... - Não! Não ainda! Não é o fim, é o crepúsculo que se espalha... Não é o fim! Não entre! Não tranque esta porta... maldito!... Abra!... Abra!... Abra!... - Sinto senhores, eu não queria as coisas assim... - Os pássaros azuis já não cantam... já não cantam... já não cantam... - Maldito, abra esta porta, abra esta porta, por Deus abra, eu não quero morrer aqui!... O vento da morte já toca em minhas pernas, posso senti-lo... abra!... - Deixe-me entrar, ao menos eu... serei útil, tenho água em meu estômago! - Calem a boca! Nem ele, nem ninguém deste planeta pode remover esta porta de chumbo. Acabou... Deixem ele lá dentro, esta porta não pode ser mais aberta... morrerá... será pior! A agonia da solidão o matará... A morte dele será mil vezes mais dolorosa que a nossa. Morreremos com todo mundo a um só sopro... - Maldito, ele lacrou definitivamente a porta! Jamais entraremos... Droga! - E jamais ele sairá... Nem o cheiro putrescente de seu cadáver irá se dispersar com o vento... Estamos todos igualmente condenados. A única diferença é que ele morrerá depois. - Talvez seja melhor assim, é... talvez... - ... sim, é melhor assim; quando o vento nuclear soprar em nossa face, seremos instantaneamente soprados da existência, rápida e derradeiramente, sem dor... sem dor... sem... As palavras vazias, misturadas e camufladas ao ódio e ao mais profundo desespero, ecoavam pelo deserto, sumindo, como remoinhos de poeira, nas rochas isoladas. Mas todos, cada qual mergulhado em sua angústia, continuavam, instintivamente, entre murros e pontapés, a vociferar palavras de maldição àquele que se trancara... E continuariam, insanamente, até que as forças esvaíssem de seus corpos como sombras no sumir da tarde... Aquilo que fora chamado de civilização já não mais existia. Sua poeira já vagava pelo espaço, mas o sete, ali, na borda do velho abrigo trancado, imersos em sua loucura, não se davam conta. Morreriam... vítimas inocentes da própria loucura, pois era improvável que um segundo holocausto varresse a face da Terra, pois sobre ela só existia o vento, que sibilava nas rochas... Esse conto foi originalmente publicado no fanzine “Astaroth” número 23, de Novembro de 1999. er-correa@ig.com.br |