AQUELES QUE SABEM...


E.R.Corrêa


Bem, o caso é simples. Talvez até corriqueiro.
Rogério era um idiota na mais alta acepção da palavra. Não gostava dele, e ele, com certeza, não gostava de mim. Contudo, vivíamos juntos. Não sei bem porque, mas vivíamos juntos. Tínhamos nossas famílias, tínhamos nossas garotas, mas estávamos sempre lá, unidos pela falsidade e pelo interesse. E eu resolvi acabar com isso. Acho que foi uma vingança. Tinha bastante motivos para isso, podem crer. Lembrei-me daquele contozinho do Poe, "O Barril de Amontillado", e resolvi agir. Mas como é que eu ia fazer? Devia ser uma coisa espetacular, uma coisa que valesse à pena, não uma bobagem qualquer como um assassínio.
Coloquei meu cérebro para queimar e achei a solução. Ia envolver um pouquinho de dinheiro, mas... dane-se! Pra que serve o dinheiro? Pra gastar, certo? Então vamos gastar.
- Rogério, vou aos Estados Unidos. Quer ir? Faço a sua.
- Tá brincando?!
- Nunca falei mais sério em toda minha vida.
Não foi difícil convencer aquele filho da puta, é claro. Exatamente porque ele era um filho da puta. Mas quem ouvisse nosso diálogo pensaria que éramos velhos amigos. Bem, éramos velhos, mas não éramos amigos. Alimentávamos interesse um do outro, só isso. Parece incrível? Eu sei, parece incrível, parece realmente inacreditável. Mas eu juro, é isso mesmo.
Fomos então àquela velha terra do Tio Sam, aquele bastardo capitalista miserável comedor de terceiro mundo! Levamos nossas garotas, e acho que todos se divertiram. Principalmente eu, podem ter certeza.
A escuridão. O que seria ficar para sempre contemplando a escuridão? Consciente disso? É, isso mesmo, consciente.
- Arrumem as coisas, vamos ao Maine - disse eu, certa noite.
- Tá certo, vamos ao Maine. Vamos ao Maine?
- Isso. Vamos ao Maine. Fiquei sabendo que lá existem algumas coisas interessantes.
- Não é lá que mora aquele famoso...
- Sim, queridinha, é lá mesmo. Mas não tem nada a ver com isso. Bem, talvez tenha um pouquinho...
Depois de muitos comentários e cervejas a mais, fizemos as coisas e fomos ao Maine, naquela mesma noite; eu não via a hora.
Mas o Maine é grande, e agora, pra onde ir?
- Vamos à Ludlow.
- Ludlow? E onde raios fica isso?
- É uma cidadezinha bastante interessante. Costumam fazer campeonatos de cerveja. Vão gostar.
- Ôpa! Tô nessa!
É, meus amigos, foi fácil. Mais fácil do que vocês podem imaginar. Não acreditam? Pois vejam...
- Garotas, receio que teremos de deixar vocês aqui nessa noite.
- Mas...
- Calma. Calma, vamos apenas a um desses botecos típicos da região ensinar a esses caminhoneiros gorduchos como é que se bebe cerveja. Não são educados. Fiquem aqui, ou... façam o que quiserem. Só não se metam em encrencas. É que nem nos filmes: é facílimo arrumar encrenca. Principalmente se souberem que somos brasileiros...
No caminho eu apliquei uma injeção em Rogério e ele não iria acordar tão cedo. Fomos exatamente aonde vocês estão imaginando. Foi difícil chegar até lá. E também foi demorado; mas aproveitei esse tempo para bolar uma desculpa convincente. Mas não me preocupei muito com isto. Ele foi raptado por um bando de marginais, estava bêbado, provocou confusão, era brasileiro, sei lá. Ninguém daria importância. Nem mesmo a sua namorada, aquela vagabunda que o tempo todo quer dar pra mim.
Arrastei ele pelo pântano putrefato e por aquelas matas sinistras e diabólicas até chegar ao local. Lá, naturalmente, eu já tinha tudo preparado, ou vocês acham que eu sou um idiota que nem o Rogério? Não, meus amigos, não sou não! Lá estava o caixão ultra resistente que eu havia encomendado. Lá estavam todas as ferramentas e tudo mais que eu teria de utilizar. E lá estava o local, que, como um cúmplice, iria agir por si só, à sua maneira. À sua maneira. Cristo, até me arrepio!
Eta caixãozinho bom aquele que eu levei! Parecia que era de chumbo, e podem crer, deu um trabalho danado. Mas valeu à pena. Aquele bastardo merecia.
A escuridão. O que seria ficar para sempre contemplando a escuridão?
CONSCIENTE DISSO!
Pois é isso mesmo. Ao contrário dos outros ele não vai escapar. Não com aquele caixão servindo de teto. Faça o que quiser. Crie unhas de metal, peça ajuda ao diabo, grite quanto puder com sua voz de zumbi, mas esqueça, daí você não sai, bastardo! Mas, por via das dúvidas...
Resolvi arrancar os olhos dele. Já pensou num zumbi cego andando por aí? É engraçado! Mas pode ficar tranquilo, ele não vai sair de lá. Primeiro ele vai morrer, naturalmente. Vai ficar desesperado, com falta de ar, vai gritar que nem um louco, vai esbravejar, e, depois claro, ele vai ficar louco. E aí vai morrer. Pode ter certeza que ser enterrado vivo é a pior coisa que já existiu na face da Terra. E ficar enterrado vivo por toda a eternidade, seria o que então? E, mais uma vez: consciente disso!
Deus, como sou cruel!
Bom, já faz bastante tempo que isso ocorreu, e de vez em quando eu vou lá levar flores ao seu túmulo. Talvez vocês achem que estou com medo, mas não é isso. É só pra ter certeza. Só pra dar uma conferida. Mas vou parar com essas visitas. Não é bom. É estranho. É diabólico, sei lá. O caso é que lá em baixo, no "simitério" de bichos, o clima não é tão desconfortável que nem aqui em cima, no repouso eterno dos micmacs.




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