A NOITE DE SATÃ


Eduardo Amaro


Uma noite de inverno ártico assolou uma pequena cidade inglesa, no século passado. Foi uma das menores temperaturas registradas na Europa. A paisagem petrificada pelo branco estava isolada por colinas de gelo. Noite, nove de fevereiro. O inverno estava fora de controle.

Na escuridão e no gelo... passos, galopes foram ouvidos por todos os habitantes da pacata Devon. Rugidos, grunhidos, gritos de animais sendo violentamente assassinados, no mais insano frenesi jamais presenciado. Ninguém, absolutamente ninguém teve a ousadia de averiguar oque estava acontecendo. Afinal, quem em perfeita sanidade teria a coragem de desafiar aquilo que estava provocando tamanha chacina em tão altos alaridos de raiva, ódio e selvageria?

De repente, o silêncio. O soturno silêncio, frio como a morte. Há apenas o barulho do vento gelado batendo nas árvores secas e mortas. As horas passam como séculos até o amanhecer do dia. Mesmo assim, poucos são os que ousam levantar de suas aconchegantes camas.

Ranger de portas. Algumas pessoas saem, receosas, preocupadas com o animal selvagem que atacara os rebanhos. Animal selvagem... pensavam. Pobres criaturas humanas...

Estupefatos, eles observam marcas de cascos em cima dos telhados das casas, como se marcados por ferro em brasa. Pedaços de ovelhas retalhadas espalhados pelo chão. Cabeças de seus animais de estimação, cães e gatos, totalmente devorados, com seus órgãos internos expostos. Sangue. Muito sangue derramado em um banquete sinistro.

Quem poderia, meu Deus!, ter feito aquilo? Um lobo não conseguiria alimentar-se de tantos animais, nem mesmo uma matilha! E a marca dos cascos, que possuía meio metro de diâmetro? Pensamentos como esse invadiram as mentes dos pobres habitantes de Devon.

Mas, para a surpresa de todos, o mistério logo seria revelado. A noite que estava por vir, seria fatal para a revelação do fato. Reuniram-se durante o dia, e planejaram. O animal deveria ser muito grande, e precisam de um plano para conseguir matá-lo ou capturá-lo.

A noite cai, e a angústia aumenta. Novos galopes, desta vez mais rápidos e pesados. Chegando perto, chegando perto. A fogueira que fizeram estava quase se apagando, mas mesmo assim sustenta o brilho necessário para que pudessem acertar o animal. Os galopes pareciam estar a menos de um quilômetro de distância. Mais perto, mais perto... projetou-se a sombra por trás da fogueira. O medo congelou todos os destemidos homens de Devon.

A visão provocou reações similares. Dois velhos caíram mortos, enfartados. Um garoto, que espiava pela janela embaçada de sua campana, gritou: _ Deus! O que é isso? - Ouvindo o grito assustado do garotinho, que ainda nem entrara na puberdade, os olhos vermelhos e sem pupilas da criatura fixaram-se nele, seu lábio abriu um imenso sorriso doentio, e ele começou a cavalgar na direção da indefesa criança.

- "Acertem-no! Atirem para matar! Ele vai pegar o garoto!" - gritava um dos homens da cidade.

As balas de chumbo incandescente não surtiam efeitos. As que pegavam no casco da criatura, ricocheteavam. E as que batiam no corpo, derretiam antes de atravessá-lo. Sua face demoníaca encostou na janela embaçada pelo violento frio. O pobre menino tremia em pânico ao ver tamanha maldade encarnada à sua frente, a menos de um metro de seus olhos incrédulos.

- "Pai nosso que estais no céu, tende piedade..."- murmurava Dennis, gaguejando as palavras da oração que seus pais haviam lhe ensinado. O demônio urra de raiva ao ouvir as torpes palavras proliferadas timidamente por aquela boca corada, abrindo seus braços, inclinando a cabeça para cima. Ao retomar seu olhar dominador, ele sorri. Suas garras malditas estraçalham a vidraça, indo de encontro ao pequeno pescoço de carne humana, esmagando-o, espalhando sangue inocente por todo o lugar.

- "A inocência... ela é mais saborosa quando degustada com prazer e medo"- rosna Lúcifer. Com o infeliz corpo inerte em mãos, ele gargalha insana e freneticamente. Levando a "inocência" até suas mandíbulas horrorosas, ele saboreia o ser infantil como um apetitoso tender em ceia de natal.

- " Não! Não pode ser!"- brada o pai da criança - "Maldito demônio! Seu lugar é nas profundezas do inferno! Assim está escrito nas Escrituras Sagradas". Numa atitude desesperada, o temor dá lugar a coragem, fazendo com que o ilustre pastor Paul desfira um golpe com a coronha de sua espingarda, já totalmente descarregada. Após cuspir os restos de Dennis, sentindo a pancada em suas costas, Lúcifer pronuncia um pensamento fatal, pausadamente:

- "Seu erro, humano escroto, foi sua desgraça. Seu Deus me condenou injustamente ao suplício eterno. Agora que estou livre, todos vocês vão pagar muito caro por todo esse sofrimento. Hão de queimar eternamente em meu reino, nas chamas imortais das dez bólgias infernais!"

Com um único golpe, o Senhor das Trevas atravessa o peito frágil do homem insolente, explodindo suas entranhas, arrancando seu coração ainda pulsante. Não satisfeito, ele esmurra o corpo sem vida do pastor até moer todos os seus ossos. Nesse instante, uma voz imponente rouba a cena. O demônio reconhece o tom e a gravidade daquele que lhe dirige a palavra, e, com um urro tão assustador que só poderia vir daquele que esteve confinado no lugar em que chama de lar, o Inferno, Lúcifer prepara-se para o combate iminente. Finalmente, alguém que se compara a seu poder sombrio. Um desafio à altura do Soberano dos Infernos. Sua vingança, meditada e planejada por milênios, finalmente estava prestes a ser concretizada.

- Criatura dos Infernos! Chega de chacinas! É a mim que você quer! Venha pegar-me, se for capaz!

- Gabriel... velho amigo. Vejo que não mudou nada desde nosso último encontro. Continua o mesmo arrogante de sempre.

- Lúcifer, outrora tu estavas ao meu lado a serviço de Javé, nosso Criador. Éramos parte dele. Sim... velho amigo, éramos. Tua arrogância o condenou à pena que deveria ainda estar cumprindo. Estou aqui para garantir que volte para lá.

- Porco de asas! Como pensas em derrotar-me? Teu Deus, não meu, mandou-te porque ele não tem coragem de enfrentar-me pessoalmente, com medo de ser humilhado perante seus próprios servos! Tens tu alguma chance, então?

Diante da provocação do anjo condenado, o arcanjo sente-se irado com tamanha blasfêmia captada por seus celestiais ouvidos. A fúria contida em suas entranhas, pois assim quis Javé, para torná-lo um dos anjos responsáveis pela defesa do céu, Gabriel investe seu poder contra Lúcifer. Apesar de ser uma tarefa para Miguel, o responsável pelo comando das forças celestiais, o assunto entre Lúcifer e Gabriel tornou-se pessoal.

A investida angelical é violenta, fazendo com que Lúcifer literalmente voe uma distância considerável, atravessando as paredes de várias cabanas. Caído, ele sente seu orgulho ferido novamente. De seus olhos, uma estranha chama invisível arde. Ele se levanta, lentamente, direcionando sua ira ao arcanjo.

- Hoje você morre, Gabriel!!! Por sua ignorância, cairá!

Como uma locomotiva de aço avançando à velocidade da luz, Lúcifer golpeia o enviado de Deus num contra ataque dez vezes mais potente. A fúria do golpe desferido atordoa o arcanjo, dando uma pequena vantagem ao Senhor das Trevas. Garras rasgam a face de luz, energia é dispersada. Toda a violência que a maldade em essência pode gerar é concentrada nos golpes da própria maldade encarnada na criatura das profundezas.

Corpo a corpo, golpe a golpe, dor! Urros de ódio e piedade. Opostos iguais atraídos com uma única finalidade: neutralizar seu "outro lado". Faces da mesma moeda lutam por suas próprias almas. O confronto grita mais alto que a explosão de uma estrela, e tão radiante quanto, diga-se de passagem.

A força é igual. Oposta, mas de mesma intensidade. A luta parece não ter fim. Os dois continuam em pé, e, fatalmente, os dois cairão. A menos que...

- Covarde! Você é mesmo um covarde, Gabriel! Eu sabia que não poderias me derrotar! Sou mais que você!

- Minha intenção não é derrotá-lo, criatura repugnante. Minha missão apenas consiste em mandá-lo de volta ao inferno.

Nesse instante, concentrado apenas em Gabriel, Lúcifer tem seu corpo perfurado por uma lança de luz. A dor faz o demônio gritar como um porco ao ser abatido.

- Miguel! Covardia!

- Renda-se ao poder de Deus, Aquele que cria e dá vida!

- Rá! Isso é uma piada? - pausa - Está bem... sua mísera missão terá êxito, por enquanto. Estou derramando meu sangue profano e não poderei me curar nessa dimensão podre. Rá! Enfim, terei minha vingança!

As tropas celestiais já haviam cercado Lúcifer. Centenas de anjos enviados por Deus estavam ao encalço do agora desprotegido Senhor das Trevas. Haveria um jeito de inverter a situação? Evidente! As tropas infernais são tão poderosas quanto as forças de Javé. Astuto como sempre, Lúcifer percebe a desvantagem e tenta revertê-la. Invocando as chamas imortais, em círculos de fogo concêntricos, ele abre um portal dimensional que o levará a seu reino de escuridão. Lá, com seu poder no auge, e com seu fiel exército comandado por Astaroth e Belial, a vitória certamente será sua. Mas antes...

- O que estás fazendo, ex-detentor de luz? Serás essa a sua última tentativa? Estás tão desesperado a ponto de não saber o momento de sua rendição? Pobre demônio que pensas "vou produzir fogo e os anjos ficarão com medo". Quem é o comediante aqui, demônio? - brada Gabriel, ainda atordoado pela batalha.
A fenda está aberta. Lúcifer prepara-se.

- Estou em desvantagem. E dizem por aí que eu sou o mentiroso e o covarde. Eu voltarei, sim! Mas você virá comigo, velho companheiro! Traidor!

Reunindo suas forças, tendo as trevas a seu lado, Lúcifer escurece todo o planeta, provocando um eclipse total durante alguns minutos. Estupefatos, por subestimarem o poder de um único anjo (e caído!), os exércitos de Deus distraem-se. Uma nova vantagem, e definitiva. Lúcifer agarra Gabriel com suas mandíbulas poderosas pelas asas do arcanjo e o leva para o inferno. O portal se fecha. Ele escapa.

- Gabriel! Detenham o demônio, ou Javé jamais nos perdoará!

A tentativa fracassa. Com suas mandíbulas presas às asas do arcanjo, o diabo atira-se em direção do portal, que, em questão de nanossegundos, fecha-se.

O silêncio cala a luz. Do céu, um raio cai, rachando o chão. Javé está enfurecido!

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