A SOMBRA DA LUA
Carlos Paraná
O Sol fechara os olhos firmemente, como se estivessem costurados, ignorando a existência da cidade naquele dia de agosto.Abandonou-a sem titubear, deixando-a desesperançosa, perdida num dilúvio de escuridão.Alguém poderia recorrer a tecnologia e desesperadamente acionar os interruptores, para perceber que também haviam sido traídos pela luz artificial.Os mais sensatos dirigiriam seus esforços ao mais antigo aliado e muitas vezes, inimigo do homem.O fogo.Mas, as chamas obtidas, eram frívolas, possuíam uma estranha tonalidade cinza e não eram duradouras, se esvaiam no milésimo de segundo seguinte ao seu nascimento.
.O mato oscilava no ritmo do vento, ao seu capricho, como marionetes dançando, ou executando um ritual desconhecido para os ignorantes habitantes da cidade de Alvorada.Nos sítios e fazendas existentes ali, os animais pareciam ter sido infectados por algum vírus e particularmente os ruminantes encontravam-se agitados, num frenesi incontrolável, lutando entre si e freqüentemente ferindo uns aos outros, quase sempre mortalmente.Não lutavam apenas entre suas espécies, era uma batalha cega.Os homens do campo que examinaram a terra transformada em lama pela chuva do dia anterior, sentiam-se inspecionando uma singular variedade de piche, devido a matiz dominante naquela manhã.
.Crianças que, em meio a soluços e lágrimas depois de sonhos ruins, suplicavam ajoelhadas em frente as suas camas, ou envoltas completamente por seus cobertores, para que a noite fosse embora, tiveram seus desejos negados.Trabalhadores permaneceram em suas camas até mais tarde, burlados por seus confusos relógios biológicos.
.O mendigo era o único que sabia o caminho a seguir e estava consciente de que um fenômeno como este, mesmo tendo ocorrido num lugar remoto e insignificante como Alvorada, seria descoberto e explorado com relativa rapidez, pois as larvas não demoram muito para encontrar o cadáver e se saciar, não importa o quão inacessível ele se encontre.Percebia nos rostos de quem encontrava pelas ruas, uma perfeita máscara de perplexidade, moldada nas faces outrora confiantes e em desconsolante simetria com o a tediosa e insípida realidade.Ouvia alguns deles perguntarem uns aos outros através de sussurros "É apenas um eclipse, não é? Isso é a sombra da Lua e ela tem que se mover, não tem?" Questionavam em voz baixa, como se estivessem temerosos em chamar a atenção da escuridão, e que assim ela pudessse se tornar ainda mais densa e esmagadora.Alvorada havia sido abençoada pelo eclipse umbral, mas poderia a Lua prolongar-se por tanto tempo, como se houvesse sido congelada em sua órbita, ou fascinada pela cidade? Esquecendo-se de seu percurso e quebrando as regras, criando um eclipse de duração maior que os habituais sete minutos?
.O mendigo não duvidaria se lhe contassem que alguns deles cortaram a si mesmos, apenas para verificar se o sangue ainda escorria de dentro deles.Mas, ao constatarem que a sua tonalidade do sangue também havia se aliado ao negrume, eles sucumbiriam.Mesmo após sentirem o familiar gosto de cobre característico da seiva da vida.Ninguém lhe apontou os dedos desta vez, e nem mesmo o olharam usando seu trivial arsenal de preconceito e indiferença.Ele caminhava imponente e soberbo.Não era apenas a sombra da Lua, pois ali o Sol havia se afugentado.Portanto,não existia o halo de temperaturas de milhões de graus.E os olhos daqueles que direcionavam seus olhos para o céu eram estranhamente poupados, por mais que perdessem seu tempo olhando para cima.
.A inescapável sensação de claustrofobia o acompanhou por todo o percurso, como se a cidade tivesse sido trancada numa caixa.Avistara as fábricas mortas, a grande força motriz da cidade há anos atrás, e o comércio, que naquele dia se encontrava inativo, em coma induzido.
.A depreciação continuou, caminhando com dificuldade entre os segundos, infiltrando-se nos ponteiros dos relógios, abençoando a água, a cortina negra obstruiu a passagem das estrelas, matando sua luz anciã, que normalmente tornar-se-ia muito mais nítida e visível durante um eclipse.
.A Lua não escondia o Sol atrás de sua sombra, como todos pensavam.Havia algo mais.O mendigo sentiu-se feliz e abençoado por obter o conhecimento do que ocorria ali, e lamentou a ignorância dos outros, que os impediam de apreciar a beleza incrustada em todo e qualquer desastre.E sorriu.
.Pouco antes de chegar a seu destino, avistou um homem que caminhava tresloucado ao redor de um sobrado de madeira.Aquela casa era a pousada da cidade.Movimentando a cabeça de um lado para o outro, tentando negar a verdade apenas com gestos.Pessoas gritavam lá dentro, crianças, adultos, homens e mulheres, súplicas que atravessavam as paredes e janelas trancadas, tentando alcançar um ouvinte.Era uma pena que chegaram ao mendigo, alguém com tarefas e encontros inadiáveis.Podia ouvir o homem gritar frases como "imploro por luz e chama" e "sacrificá-los para que ela retorne".A pequena caixa de fósforos que ele tinha nas mãos e o galão de gasolina que estava ao seu lado não poderiam realizar tal feito.A pobre e insignificante criatura era incapaz de se dar conta que, naquela manhã, as chamas tinham vida curta.Por um instante apenas, pensou em tentar convencê-lo a desistir, mas ele acabaria percebendo ao tentar acender o primeiro fósforo.
.Finalmente, chegou até o seu destino, os que passassem por ali, jamais desconfiariam, mas aqueles que sabem procurar nos lugares corretos sabiam que a discrição era a chave.Sentia a lama engolir seus sapatos quando a pisava e cuspi-los fora quando os tirava do chão. Era uma velha casa, certamente uma das primeiras a terem sido construídas em Alvorada.A madeira da cabana era frágil e parecia vibrar, como se pudesse controlar a si mesma, mesmo estando morta.Faltava uma placa de madeira na soleira da porta e avistá-la era conhecer a grande e infinita boca do desconhecido.A despeito da idade da casa, a porta não rangeu quando foi aberta.Questionou a função de sua visão naquele momento, pois era impossível decifrar o que se encontrava naquela sala, ela era um quadro que retratava o infinito e abrangente nada.Ali as dúvidas começaram para ele também.
.Se a platéia de sombras que ali estavam pudessem ler aqueles pensamentos, elas ririam e sanariam suas dúvidas em relação ao que habitava a sala naquele momento, mas elas se contentaram em analisá-lo em silêncio.O piso no chão emitia ruídos incomuns e sombrios durante seus passos, como se estivessem sobre água.Ao vencer a sala e seu silêncio dominante, encontrou-a no próximo cômodo da casa.
.Era o provavelmente o único local da cidade onde existia a penumbra. Ela estava deitada num colchão fino e ao seu lado havia uma jarra com água.Seu cabelo encontrava-se úmido e desajeitado, sua pele banhada de suor, enrugada, encontrando-se a ponto de se esfiapar.Nervos exaustos, contração em seus músculos.Seu corpo delgado e sutil estava completamente inchado, como se encontrasse empanturrada.Na verdade, era como ela se sentia.Havia esferas dançando dentro de seu corpo, tentando a nascer de dentro dela.Explodir através dos braços, pernas, seios, ventre, narinas.Elas debatiam-se em seu organismo, implorando para fugir.
-Você trouxe o livro? - Ela perguntou ao mendigo numa voz que sem dúvida não era feminina.
-Sim, ele está aqui - ele respondeu enquanto o retirava de sua capa imunda.
-Muito bem, você sabe o que fazer, então.
-Ele parece estar faminto hoje.
-Com certeza, eu sinto tudo, o gosto da luz, quando ela queima minha garganta e chamusca meus intestinos, incha meu corpo, me transforma.Eu posso sentir tudo, agora que ele vive através de mim.
-E isso dói?
-Apenas quando eu respiro. -Conseguira responder a esta pergunta com a sua voz original.
.O mendigo ajoelhou-se ao lado da jovem e abriu o livro numa página que havia sido lida e relida, sublinhada e estudada incontáveis vezes.Símbolos curvilíneos, letras de um alfabeto proibido e obscuro, que ele esforçara-se para aprender.Tirou de sua capa um pó e o jogou dentro da jarra, misturando-o com a água usando seu dedo indicador.As esferas aquietaram-se neste momento.Seus dedos imundos copiavam as imagens e símbolos daquela página em seu ventre.Concentrava-se ao máximo para transcrevê-los fielmente em suas pernas, axilas, pescoço.Moveu seu corpo pesado e latejante com dificuldade, para poder decorar suas costas abarrotadas de estrias e nervuras.Uma espécie de líquido luminoso corria entre suas veias.Há muito tempo havia se fundido com seu sangue.Era de uma estranha incandescência, iluminava cada milímetro de seu sistema circulatório, como se dentro dela existissem meios de liquidificar a luz.
-Ele precisa de mais, roubou pouco enquanto se contava com pequenas quantidades.Contentava-se em parasitar durante pequenos momentos no crepúsculo e ao amanhecer.Mas ele não se contenta mais com isso.
-Paciência, eu preciso terminar isto.-O mendigo respondeu nervosamente.
.Espirais, círculos e outras formas geométricas indefinidas desfilavam ao seu redor.Seu corpo finalmente estava pronto.
-Agora, por favor, prepare meu rosto. - Ela pediu.
.Era uma parte extremamente complicada.Seus olhos pequeninos e agitados eram incansáveis e acusadores.Olhá-los o deixava trêmulo e desconfortável.Seus lábios esbranquiçados e rachados foram maquiados.Terminou o rosto dela, e agora só restava a eles esperar.
.A madeira das paredes se agitava desesperadamente, como se a casa houvesse sido atingida por um vendaval.Minúsculas pedras começaram a cair do céu e abençoaram o local onde ocorria o ritual.Agora a luz se movia em cada núcleo de sua célula, debatia-se como um bebê recém nascido.O coração no peito dela pulsava fora de controle e suas batidas foram testemunhadas pela protuberância inchada, que se exibia indiferente, desconhecendo os ossos de sua caixa torácica, que deveria impedir aquele estranho movimento.
-Eles estão ansiosos. - Disse a mulher em meio a um sorriso.
-Quem?
-As sombras, você não as percebeu na sala anterior a esta?-Sua garganta inchou e quase explodiu quando ela pronunciou esta frase.Seu hálito era como uma aurora boreal.
-Sim, claro. - Ele mentiu. - Mas você deve manter a boca fechada a partir de agora, para que tudo ocorra como planejado.
.A mulher assentiu em meio a espasmos e convulsões.
.As formas desenhadas em seu corpo pareciam excitar a luz presente dentro dela.Ela iluminou todas elas, apressada e desordenada, explorando suas entranhas, sobrecarregando seus neurônios, descendo para seu útero, trompas e ovários.Criaria óvulos de luz, se ela estivesse no momento correto de seu ciclo.As sombras murmuravam em aparente fervor, como se pudessem sentir também as sensações a qual ela era submetida.A casa inteira movimentou-se com mais intensidade, os sons que vinham da outra sala aumentaram de volume até que, não se sabe se por extrema dor ou excitação, ela gritou.
.Ela sangrou luz, devolveu tudo que havia engolido de volta, expelindo-a violentamente.Seu corpo se pulverizou, como folhas secas jogadas numa fogueira.As sombras gritaram em uníssono, e queimaram, obrigadas a retornar para onde tinham vindo.Não cantaram mais uma sinfonia de alegria, antecipando o que viria.O que cantavam agora era uma indesejada canção de adeus.A casa foi destruída e agora o mendigo não precisou questionar a funcionalidade de seus olhos.Tinha os usado pela última vez.
.Sim, fora apenas à sombra da Lua, afinal.Ela se fora agora, as máscaras desprenderam-se e os hipócritas e idiotas reinaram novamente.E o único que poderia provar o contrário era um homem morto, de olhos vermelhos, que sangravam.
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