CONTOS DAS SOMBRAS
Daniel Braga
Está frio esta noite. Sim, mais frio do que o normal. Minha barriga dói e coloco as mãos sobre minha cicatriz. Sim, é ela que dói e isto sempre acontece com modificações na temperatura. Não me arrisco a voar pois os ventos gélidos poderiam me derrubar. Tenho de ter a paciência necessária para agir no momento oportuno.
Já são três horas da manhã e ainda não ouvi nada dentro do galpão. Consegui arrumar um lugar seguro e com boa visibilidade para uma das saídas. Os outros estão em suas posições conforme combinamos. Não ouço nada além do silvo do vento.
"Vês algo Igor?"
O som da voz de Omanco surge em minha cabeça como um berro. Maldita comunicação telepática que nos assusta nos momentos mas inoportunos!
"Não, ainda não vi nada." Retruco para ele.
Não sei onde ele está ao certo, mas sei que está atrás do galpão, rondando.
Ouço o som de asas. Asas pequenas que logo se aproximam. É a mesma coruja que nos trouxe aqui. Não nosso arauto, mas apenas uma coruja. Simples representande de tão poderosa força. Ela para perto de mim e deixa eu acariciar sua cabeça. Por um momento me distraio venerando o belo animal, quando observo uma de suas patas. Ela trouxe algo sob ela. Rapidamente e cuidadosamente levanto sua pata. Um rajada de vento passa por nós. Eu protejo o frágil presente. São pequenos fios. Pelos de algum animal ou alguém.
Segurando firme, levo-os a minha face e farejo forte. Sim, o cheiro está ali. Ele agora é meu e nunca mais esquecerei dele. Olho para o lado e a coruja se prepara para voar. Sorrio e agradeço por tê-la por perto sempre que precisamos.
"Omanco, tenho o faro do que procuramos"
"Como conseguiu?" - Ele pergunta.
"A coruja nos trouxe..."
"Por que a ti e não a mim que sou o mais indicado?" - Responde ele indignado.
"Isto você deve perguntar a ela, mas fique tranquilo..."
"Tranquilo porque?"
"Porque estarei levando comigo e quando estivermos juntos lhe mostro"
"Certo e o que faremos agora?"
"Iremos entrar"
"Ficou louco?"
"Não, não fiquei... Jimmy você ouviu algo?"
"Não Chefinho, não ouvi nada ainda. Acredito que aqui seja somente a entrada e que o que procuramos esteja mais abaixo.." - Responde Jimmy
"Bom, então podemos tentar a entrada agora..."
Me preparo para descer. Concentro-me e encontro os outros, mesmo sem vê-los. Penso mais uma vez na coruja e sinto-me melhor. Com um salto, desço planando até próximo a porta principal do galpão. Logo Jimmy e Omanco estão comigo.
"Tudo calmo Igor, calmo demais até..." - Diz Omanco.
Olho para ele e nada mais preciso dizer. Está tudo estranho demais mesmo. Até ontem, conseguimos ver dezenas de lacaios putrefatos andando por estas docas e o movimento dentro do galpão era intenso. Será que poderíamos ter perdido tempo e com isto perdido nosso objetivo? As dúvidas estavam pairando sobre nós.
-Irmão... - Falo à Omanco. - Olhe a Tellurian e nos diga o que vês...
O olhar do theurge torna-se fixo por instantes. Ninguém poderia fazê-lo tão rápido e com tamanha maestria. Aos poucos ele começa a andar e olhar tudo em volta. Nós o ajudamos mantendo-nos por perto. Sua visão, faro e audição não estão conosco. Ele caminha mais alguns metros quando sua face torna-se tomada pela surpresa, quiçá pelo medo, mas não tinhamos como saber.
Jimmy deve ter percebid também pois puchou suas submetralhadoras, largando Omanco. Não me vi em situação agradável. Omanco balança a cabeça e fecha os olhos, parecendo estar voltando ao nosso encontro.
-Eles já sabem de nós! Diz o theurge.
Olho para ele e de trás da capa puxo a claive. Seu brilho prateado rasga o véu da noite sobre o brilho da lua.
-Que venham então!
-Eles já estão vindo e lhes digo, não são poucos... - Comenta o theurge.
-O que faremos? - Diz Jimmy olhando para os lados procurando algo.
-Iremos buscar uma posição melhor... vamos corram... - Digo já procurando algum lugar melhor.
Com agilidade todos saimos daquele sítio e nos localizamos dentro de um outro galpão abandonado, que ficava próximo coisa de algumas dezenas de metros.
"Ben, onde você está?" Pergunto telepaticamente para começarmos a nos preparar mas não recebo resposta.
O galpão é velho e não mais possui portas inteiras. Seu segundo andar poderá nos ser útil para sabermos quantos vêem. Subimos rápido. Todos estão nervosos. Jimmy confere seus pentes de bala enquanto Omanco começa a executar alguns de seus dons. Vou para uma janela e olho para baixo. Realmente são muitos. Conto até a segunda dezena quando resolvo parar.
-São muitos mesmo Igor... - Me diz Jimmy.
O fito com alguma surpresa imaginando se ele agora lê mentes. Mas não temos tempo para estas indagações.
-Sim, são muitos e suas balas terão importância significativa meu irmão...
-Eu sei...
-Não utilize-as em vão...
-Sim... estou pronto!
-Eu irei buscar a intimidação enquanto você os atinge como puder ok?
-Farei o melhor que puder...
-O grupo depende do seu melhor meu caro...
-Farei o melhor...
-Boa sorte... Omanco, está pronto?
-Sim Igor, podemos ir...
-Eu só gostaria de saber onde está Ben?
-Ele estará pronto conforme combinamos, vamos... - Diz Omanco em sua placidez habitual.
Nós então olhamos para a rua. Um vão de vinte metros nos separa do próximo galpão. Do lado direito o mar gelado e poluído de um porto imundo e frio. Do lado esquerdo duas ou três dúzias de malditos lacaios imundos e sedentos por sangue. Sedentos pelo nosso sangue.
Omanco olha para mim como que me oferecendo passar primeiro. Não me recuso e vou. Escondido na sombra, torno-se a própria sombra. Algo naquele maldito cargo diplomático tinha de me ser útil. Desço totalmente escondido pela escuridão e fico fitando a multidão pela entrada da rua.
Alguns possuem mais de um braço. Outros alguns olhos. Outros poucos pelos e garras. Definitivamente são escória. Meu coração bate mais forte e os deixo passar, ficando então por trás deles.
Este é o momento.
"Será agora Omanco..."
"Que Gaia esteja com você irmão..."
O nome da Mãe me enche o peito de alegria e esperança. São só lacaios malditos. Mesmo em número tão grande.
Saio das sombras executando um dos mais poderosos dons que tenho. Minha forma de guerra torna-se magnífica e aterradora. Os músculos tencionam-se ao estremo e o uivo que se ouve soa como o som da morte.
Todos se viram e muito são afetados. O pavor se instala entre eles e alguns desesperados começam a correr.
Vejo apenas um vulto cair em rodopios ágeis e logo após alguns lacaios voarem. Puxo minha claive e jogo-me em cima dos mais corajosos pois os aterrorizados nada farão contra mim. Um tiro. Dois, três, quatro sons abafados e vejo alguns cairem sem ao menos saber o que os matou.
Já derrubei cinco deles e Omanco mais cinco. Jimmy acertou mortalmente outros seis e ainda temos um grande número pela frente.
O brilho da lua nos deixa ver bem toda a selvageria quando então é obsfuscado por algo grande. Olho para cima do galpão assim que me livro de mais um e vejo um enorme vulto segurando um enorme cilo. Em meu interior peço que seja Ben.
Omanco joga mais uns dois longe enquanto vejo outros pularem sobre mim. Luto para afastá-los quando vejo, pela sombra projetada o vulto jogar o cilo. Temendo por minha vida, salto levando alguns lacaios comigo. Vejo então que o cilo cai sobre outros lacaios e que eu não era o alvo.
"A cavalaria chegou!!!" - Soa a voz de Ben em meus ouvidos. Arranco os braços de um do lacaios esperando derrotá-lo mas o infeliz possui mais dois, o que me ocupa mais tempo. Sinto seus dentes perfurarem minha pele e a dor lascina minha carne. Mais alguns tiros e vejo outros caírem. Destroço meu inimigo e paro por um instante, buscando a conexão com meu totem protetor. Faíscas começam a dançar sobre meu corpo e busco sorrir, se é que isto é possível estando em crinos.
Ben salta e cai em pé, esmagando alguns corpos que ainda teimavam em não morrer.
-Como vai Igor?
Olho para ele com meu pior olhar mas nada adianta. Seu espírito não se abala com isto. Ele acerta um dos lacaios em cheio, separando sua cabeça do tronco.
Mais dois tiros. Omanco já não sei onde está. Estou só eu e Ben e o resto dos lacaios quando uma figura prateada aparece correndo, destroçando o primeiro inimigo que lhe aparece pela frente. É Rufus.
"Vocês sempre deixando o trabalho sujo para nós, Senhores das Sombras" - Mando-lhe uma irônica mensagem telepática.
"Você tem de servir para algo afinal" - Recebo de respota, o que não me deixa muito feliz.
Aos poucos os lacaios vão sendo derrotados e os que tentam fugir, Jimmy impiedosamente dá cabo com suas armas.
O local fede e tentamos interrogar os que permanecem presos a sua infeliz vida. O pouco que sabemos nos deixa frustados. Toda a operação havia sido desmontada e eles já estariam longe. Mais nada foi conseguido naquela noite.
Lembro-me do presente da coruja.
"Omanco, onde você está?" - Pergunto telepaticamente.
"Já estou voltando..."
Enquanto isto Jimmy e Ruffus buscam algo dentre os corpos mas nada encontram. Omanco reaparece.
-Um deles pulou para a Tellurian fugindo. Atrás dele fui e pude encontrar uma caixa daquelas que o Jimmy gosta.
-Um laptop você diz?
-Sim, isto mesmo
Olho para todos. Os rostos estão contentes pelo sucesso na batalha mas deprimidos com a situação da guerra.
-Vamos para a Telluriam irmãos. Jimmy, o trabalho é seu mesmo! Eu dirijo o caminhão!
Voltamos a nossas formas humanos e reaparecemos no mundo real. Um laptop um pouco mordido encontra-se caído ao lado de uma caixa.
-Você acha que pode ter algo de útil ainda Jimmy? - Pergunta Ben.
-Sim, não são os dentes de Omanco que impediriam uma leitura dos dados.
-Vamos! Temos pouco tempo e muito a fazer - Falo a todos.
Vamos andando e ao longe vemos um enorme caminhão negro se aproximar. Sem nos abalarmos paramos e o aguardamos. Ele se aproxima e para. Entramos todos e pego a direção. Em minha cabeça um alívio vem por estarmos de novo no lugar que chamamos de lar. Sim, este é nosso lar e seu nome é Apocalipse.
danielgargula@hotmail.com
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