OPERAÇÃO: TEMPESTADE NO CÉREBRO


E.R.Corrêa


- Estão descendo pelo norte, senhor.
- O que?
- Estão descendo pelo norte, senhor!
- O que?
- ESTÃO DESCENDO PELO NORTE, SENHOR!
Dekker quase não conseguiu ouvir. O ruído contínuo da chuva também atrapalhava bastante. Seus olhos vermelhos rolavam de um lado para outro, num vai-e-vem frenético de movimentos, como se estivessem prestes a saltarem das órbitas. Agora não existia mais o rádio, e eles estavam isolados. Atenção redobrada.
Os alemães avançavam cada vez mais rápido. O flanco noroeste já estava praticamente tomado. Mas havia uma chance, pois a terceira tropa sul estava bastante próxima, e se eles conseguissem aguentar um pouco mais a coisa poderia melhorar. Havia, portanto, uma chance, uma única chance.
- Contate o Jerry. – disse Dekker, o capitão. Apesar de estar relativamente próximo, Thomas quase não conseguiu ouvir. As explosões e a chuva não davam trégua.
- Jerry está morto, senhor. Foi há pouco – Thomas precisou gritar com toda a força dos pulmões, que estavam irremediavelmente apertados pelo frio e pela chuva.
“Morto! Morto! Era só o que faltava!”, pensou o capitão, enquanto encurvava as costas para se proteger dos estilhaços. Ainda faltava bastante tempo para amanhecer, mas a luminosidade, apesar da chuva, era ofuscante. Em todo o horizonte enlameado havia uma áurea esvoaçante de elementos explosivos e cores indistintas, como se, de repente, todas as variações cromáticas do inferno estivessem sobre a terra. Mas fazia frio. Um frio cortante. A chuva estava gelada.
- Será impossível, capitão!
- O que?
- SERÁ IMPOSSÍVEL! Estamos praticamente cercados, e tudo indica...
Mas Thomas não conseguiu terminar: caiu instantaneamente morto com um estilhaço cravado na testa. Dekker imediatamente se jogou embaixo dele para se proteger. Haviam morteiros por todos os lados. Direita, esquerda, encima, embaixo... Um ninho de rato infectado com toda a sorte de doenças pútridas não seria pior do que aquela trincheira fria e enlameada. Na realidade, um ninho de ratos seria o paraíso...
- Senhor!
- O que?
- Estão chegando, senhor! Precisamos recuar! Senhor... são muitos, e descem, senhor, como cães malditos!...
- Não podemos recuar!
- Senhor, os desgraçados...
O sargento Phillips estava chorando como um bebê. O sangue diluído lhe escorria na testa, e sua mão esquerda latejava de frio e de dor. Havia alguma coisa metálica encravada entre os nervos, e ele, desesperado, não conseguia retirar. Seus homens estavam sufocados na lama até o pescoço em alguma trincheira próxima dali. Ele só podia rezar. Mas sabia que não era o suficiente... a pressão era demais!
O capitão Dekker não podia andar.
Apenas dava ordens vacilantes, encolhido como um rato recém nascido naquela caverna de lodo e lama. Naquela caverna de sangue.
Thomas estava ao seu lado, tal qual um boneco de cera envolto numa mortalha vermelha. George também estava ali. Melhor dizendo, a parte superior de George estava ali.
Steven. Ali estava o cirurgião Steven, sem ambas as pernas, estremecendo como um porco nos últimos instantes de vida e rezando pela morte, até que ela chegasse. E ela chegaria...
Dekker tremia. E Phillips chorava. Mas parou de chorar quando enfiou o cano na boca e puxou o gatilho.
Dekker tremeu ainda mais, em convulsões de frio e pavor.
Ele sabia que do outro lado, em trincheiras de lodo e sangue, em covas de cadáveres e suicidas, também existia o medo, o pavor, o pânico. A GUERRA!
Do outro lado estavam os chucrutz: os Shillings, os Shaimers, os Himmors, os Hausers, os...
Todos eles. E também os cadáveres deles, os medos deles, os pavores deles. E, no entanto...

Alguma coisa explodiu ao lado de Dekker num ruído ensurdecedor e num clarão ofuscante. Ele se encolheu ainda mais, quase se dobrando dentro de seu próprio ser. Ele viu homens se aproximando. Homens enormes, firmes, silhuetados contra o fundo explosivo e luminoso do campo de batalhas.
- É o capitão Dekker! – gritou um deles, como uma voz borbulhante e gelada. Dekker se rastejou para trás como se quisesse escalar a parede de lama da trincheira de costas. Tremia. Sua metralhadora não estava próxima; estava embaixo do cadáver de Thomas, inerte. Avistou-a, até que um homem se ajoelhou ao lado dele.
- Dekker, sou eu, Gray! David Gray! Vamos! – mas Gray percebeu que Dekker não podia andar.
- O que? – disse Dekker.
Agora os ruídos vinham de longe, cada vez mais dispersos pela garoa fria e persistente, e pela névoa esbranquiçada que era exalada dos cadáveres.
Gray era o comandante do quinto batalhão, e tinha acabado de chegar ao “pé-do-morro” pelo campo leste, com alguns de seus homens.
- Capitão Dekker!? – disse ele, com a voz firme, mas lenta; a chuva abafava ainda mais o som – É... os seus homens... todos eles... eles...
Dekker apenas abaixou a cabeça e chorou, como um bebê.
- Está sozinho agora. Vamos!
Os homens de Gray levantaram Dekker e o arrastaram pelo lamaçal, atrás das trincheiras. A garoa persistia firme e derradeiramente, guerreando contra a tênue e assustadora camada de neblina, que formava uma nuvem branca de miasmas putrescentes. Os olhos de Dekker brilhavam, como se estivessem observando o próprio inferno.
Centenas de corpos mutilados jaziam até onde o campo de visão podia percorrer. Alguns se contorciam nos espasmos finais da agonia, enquanto outros, semi-submersos na lama e no sangue, pareciam verdadeiros trapos de batalha.
Na realidade, eles eram trapos de batalha...
Havia luz, mas era inteiramente desprovida de brilho. Haviam momentos, mas não havia vida. A água se acumulava nas grossas sombrancelhas amarelas de Dekker. Ele fechava os olhos, mas o que conseguia ver com os olhos fechados era pior. Por isso abria-os de novo.
Centenas de corpos mutilados...

- Abaixem-se!! – disse Gray, enquanto se jogava numa poça de lama. Tirou uma granada do peito e arremessou em direção às árvores dez metros acima. Uma violenta explosão. Um braço pulsante e ensanguentado caiu próximo a Dekker.
- Não são muitos, senhor. Se houver uma retaguarda podemos deitá-los. Gray balançou afirmativamente a cabeça: - Vocês, à direita! Aqui... Tony, Bretty, fiquem com Dekker.
- Sim, senhor!
Dekker rasteijava. Era quase impossível distinguí-lo da lama. Parecia hipnotizado. As metralhadoras retiniam com toda violência à sua esquerda.
- Sr. Dekker, capitão... aqui!
Dekker se rasteijou em direção ao soldado. Mas antes que pudesse alcançá-lo o soldado caiu em cima dele, com a cabeça pendurada ao ombro por um único fio de pele.
Malditos estilhaços!
Mesmo morto, o soldado foi útil: era para Dekker Ter recebido uma enorme carga de chumbo sob as costelas, mas ali estava o soldado morto, e agora não se importava de receber essa carga por ele...
Tony estava do outro lado, sem uma das pernas, mas ainda vivo. Dekker o viu e fez sinal para Bretty.
- Ali! – gritou o capitão.
Mas Bretty estava ocupado. Os alemães haviam se incrustado numa pequena caverna rochosa como verdadeiros carrapatos, e era quase impossível vê-los. Mas era possível ver o cano das metralhadoras cuspindo fogo e vomitando ódio, em forma de projéteis venenosos. De repente, uma inesperada saraivada de balas, e os alemães carrapatos caíram mortos.
Gray e seus homens eram eficientes.
- Onde está Tony? – gritou Gray.
- Lá atrás, senhor. Está sem uma das pernas!
- Malditos! Malditos filhos da puta! Tony não!
Tony sim. Lá estava ele, deitado de costas, imóvel. Quando Gray pode alcançá-lo e levantá-lo do chão, a metralhadora veio junto; estava enroscada nos fios que entrelaçavam-se no peito do soldado, e o seu cano estava na boca do rapaz, ainda quente...

- Por aqui! Por aqui, depressa!
Os homens de Gray tinham dificuldade de arrastar o pesado corpo do capitão Dekker, que não dizia nada. Seus olhos apenas rolavam de um lado para outro, refletindo tiros e lamentos. Amaldiçoava suas pernas...
“Andarei com cadeira-de-rodas no paraíso”, pensava ele, com um sorriso patético, louco, desprovido de vida, desprovido de alegria. Havia pelo menos um consolo:
- Capitão Dekker – disse o comandante Gray, com um sorrizinho amarelo -, o terceiro batalhão chegou, vi o sinalizador. Os homens chegaram, capitão. Agora eu quero ver aqueles desgraçados correrem!
Dekker nem sequer esboçou um sorriso, mas pousou lentamente sua mão enlameada sobre os ombros do comandante Gray, num gesto de agradecimento.
Novamente os homens se puseram a arrastar o capitão pelo campo lamacento e traiçoeiro. Estavam tentando chegar onde os alemães haviam se incrustado, pois o local formava uma espécie de caverna rochosa, de modo que era um abrigo relativamente seguro, desde que quem estivesse em seu interior prestasse atenção à retaguarda. Mas ali dentro ainda havia um alemão apenas ferido; a metralhadora estava ao alcance dele.
Dekker pode ouvir a tenebrosa rajada de balas sair do interior da caverna em direção a seus amigos. Rolou rapidamente para a direita, onde encontrou abrigo atrás de uma rocha. O comandante Gray pode rolar para a esquerda, num barranco ligeiramente inclinado, onde encontrou abrigo atrás de alguns cadáveres... alemães. Mas os três soldados acompanhantes não tiveram a mesma sorte.
- Desgraçado!!!
Gray contornou a caverna pela retaguarda e correu em sua direção. O alemão ferido estava lá, de olhos esbugalhados como se tivesse a cabeça prensada em uma morsa. Gray providenciou para que a cabeça dele fosse prensada entre duas pedras...
- Capitão? Capitão Dekker? Responda!
Dekker estava bem mais abaixo, torcido entre as rochas numa posição inimaginável. Já não sentia mais dor. Seu corpo estava apenas trêmulo, inerte, formigante.
- Aqui! Aqui! – gritou ele.
Com muita dificuldade Gray conseguiu escutar. Ainda haviam alguns alemães por perto, e eles estavam irados. Gray foi rasteijando em direção ao capitão, mas uma enorme e chacoalhante explosão o fez parar, para proteger a cabeça com as mãos. Estilhaços caíram para todos os lados. E pedaços de corpos também.
- Capitão?
- Aqui! – a voz do capitão era quase um murmúrio indistinto. Seus lábios apertados tremiam descompassadamente e seus dentes batiam num ritmo frenético. As mãos sangravam sem parar. Como as pernas faziam falta...
Alguns soldados chegaram para ajudar o comandante Gray, que estava terrivelmente ferido no braço direito. Aquele que lhe dava forças para atirar.
- O capitão, ali. – indicou ele com o braço esquerdo.
Alguns homens seguiram em direção ao capitão, outros permaneceram com Gray. Os alemães não davam trégua. Parecia que brotavam da terra, como ervas daninhas.
“Onde está o maldito pelotão? Temos que sair desse inferno!”
Não havia como.
O campo estava fervilhante de alemães encapuzados, e o terreno era demasiado íngreme, de forma que somente com muita dificuldade poderia se mover por ali. Era um funil – um funil cuja extremidade desembocava no poço gelado e lamacento do inferno.
Um calafrio incomensuravelmente diabólico se apossou do corpo de Dekker quando os homens se puseram, novamente, a arrastá-lo pelo lamaçal. Ele sentia que o fim estava próximo – talvez na próxima granada, ou na próxima metralhadora, ou, ainda, no próximo grito.
- Ali... Levem-no ali. – Gray havia chegado, e estava agora ajoelhado, próximo a Dekker. Seus olhos brilhavam, como nunca haviam brilhado antes, mas pareciam inteiramente desprovidos de vida e de calor. De súbito, porém, seus olhos começaram a brilhar com mais intensidade, numa luminosidade fria. Era impossível distinguir suas lágrimas da chuva, seu suor do sangue, sua ira do medo...
Mas ainda teve forças para colocar as mãos no ombro sangrento e enlameado de Dekker e proferir suas últimas palavras, numa voz profundamente gutural e cavernosa, antes de cair e se fundir na lama:
- Acorde!!

Dekker não acordava.
- Acorde!... Vamos, acorde!
Mas Dekker não acordava. Estava, é verdade, com os olhos abertos, mas dizer que estava acordado...
- Não adianta. Ele fica assim, agora, o tempo todo. Por isso chamei o senhor. Vou destruir com tudo isso...
O Dr. Gray passou rapidamente o olhar pelo aposento de Dekker. Era um quarto relativamente grande e espaçoso, mas esse insígnias das mais diversas. Era quase um caos pandemônico, onde dir-se-ia aspirar os odores da guerra e a caligem da morte.não era seu aspecto extraordinário, e sim o que abrigava em completa desordem nas prateleiras baixas e nas mesas diversas. Haviam muitos livros, por todos os lados, e todos sobre guerras, morticídios, massacres, pilhações. Muitas revistas, com o mesmo caráter fantasmal e repulsivo, também jaziam ao redor, ora espalhadas sobre bandeiras de várias nações, ora confundidas com brasões e
- E tem mais!... – o pai de Dekker indicou um canto amorfo e escondido entre as sombras de uma enorme prateleira. Ali, o psicólogo Gray pode ler e se maravilhar com a lombada familiar de centenas de fitas de vídeo.
Passou lentamente os olhos por essas lombadas e pode constatar imediatamente que todos os filmes estavam ali, jazendo na escuridão e no mofo do esquecimento.
Apocalipse now, Cruz de ferro, Os doze condenados, Balada do soldado, Batalha de Argel, De volta para o inferno, Os filhos da guerra, Inferno no Pacífico, Papillon, Pecados de guerra, 67 dias, Platoon, Tempo de glória, Soldado de laranja, Nascido para matar, Além da linha vermelha, O resgate do soldado Ryan, todos – estavam todos ali.
Gray olhou expressivamente para o pai de Dekker, que, por sua vez, olhou tristemente para o filho, completamente imóvel e silencioso, num dos cantos escuros do gélido aposento. Parecia um boneco de cera amarela.
- Há muito tempo que ele está assim? – perguntou Gray, enquanto acendia um cigarro – Ele me parece ser novo...
O pai de Dekker balançou afirmativamente a cabeça, e, depois, concluiu:
- Ele tem 23 anos.
- E ainda lê esses livros e essas revistas?
- Não.
- Mas assiste esses filmes todos?
- Não mais... Apenas fita o vazio, o dia inteiro, em sua cadeira de rodas... e vez ou outra uma lágrima corre de seus olhos...

Esse conto foi originalmente publicado no fanzine “Juvenatrix” número 46, de Agosto de 2000.

er-correa@ig.com.br