A TRAGÉDIA


Eduardo Amaro


A chuva cai lentamente. A tempestade já passou. No vazio da noite, caminho a 100 Km por hora. Meus pensamentos, não ouso defini-los. Como uma vida de felicidade e amor pode se transformar num inferno na Terra? Como o amor verdadeiro pode esconder o fruto de outro amor? Por medo ou por pura infidelidade? Um filho que não pertence ao meu sangue... mesmo assim, amei-o como se fosse meu. E agora, não sei o que fazer. E não entendo. Ele tem os meus olhos, o meu tipo. Quem explica a vida, afinal?

Acelero a velocidade do meu Santana, a chuva começa a se intensificar. Ao som de "Metal Icarus", tento esquecer os problemas. Gostaria mesmo que fosse possível ser como Ícaro, talvez eu pudesse alcançar o sol se fosse mais esperto que ele. Quem sabe se suas asas fossem feitas de um metal que resistisse a grandes temperaturas... Começo a entender o motivo de todo o tormento. Vem, de relance, como do nada, uma pergunta: Qual o próximo passo?

Minha mente torce e retorce, contorce e estica, procurando uma saída viável. Minha cabeça dói como nunca doeu antes. Supera até a dor do traumatismo craniano que sofri quando era garoto. Ela sangra, um sangue invisível, porém quente como ácido que corrói meu cérebro, sem piedade. O amor, ah! o amor... quem explica? Amor é a outra face do tormento. "Eu te amo. Quero passar o resto dos meus dias com você". "Você é tudo para mim. Sim!". Pregaram uma grande peça em nós, seres humanos. Somos palhaços marionetes controlados por uma força que não conhecemos: amor.

Ao longe, perto de um cruzamento onde imponentes árvores mesclam-se ao asfalto negro e liso, vejo uma mulher vestida com lingerie branca e semi transparente. O que, diabos, estaria fazendo uma mulher vestida dessa maneira, num cruzamento deserto no meio de uma chuva torrencial?

Curioso, como sempre fui, diminuo a velocidade do carro e paro no acostamento. Abro a porta e... a chuva forte torna-se apenas uma chuva de verão? Deve ser o nervosismo... não estou muito bem das faculdades mentais. Minha vida, na última semana, foi o caos. A mulher acena para mim e adentra a mata escura. Eu fico em dúvida, mas a curiosidade e o desejo de descobrir o segredo que aquela pessoa escondia foi, novamente, mais forte. Corri ao seu encalço.

Por mais que eu tentasse alcançá-la, ela sempre seguia à minha frente. O chão estava liso, por causa da chuva. Escorreguei...

Anjos me cercaram. Tinha eu, por causa do tombo, batido a cabeça e morrido? Imagens celestiais aladas ao meu redor, uma mão se estendeu para mim. Segurei-a com força. Ora... seu rosto não me era estranho. Uma sensação de deja-vu percorreu meu corpo. Os demais seres angelicais desapareceram. O anjo, por mais incrível que pareça, apresentava traços femininos e não masculinos, como costumamos concebê-los. Ele (ou ela?) sorriu para mim, um sorriso tão radiante que seria impossível descrevê-lo em palavras; levantou-me e partiu através da noite.

Eu estava no chão ao acordar alguns minutos depois, todo molhado e ainda um pouco tonto. Foi uma visão! Não existia nenhum anjo, apenas devaneios de minha mente atormentada pelos desenlaces do passado recente. Inacreditavelmente, a mulher misteriosa continuava, ao longe, fitando-me. Ao me recompor, retomei a perseguição, agora mais devagar e cuidadosamente.

A cada passo, a curiosidade e o mistério cresciam. A mulher, que deveria estar correndo, tentando sua fuga, já que eu, quase andando, estava praticamente desistindo da perseguição, parecia andar na mesma velocidade. A medida que eu apertava o passo, ela se deslocava mais rápido. A medida que eu diminuía, ela tomava a mesma providência. Em outras palavras, a distância entre eu e minha "desconhecida amiga", não aumentava tão menos diminuía.

Ao que tudo indica, aquela mulher misteriosa tinha um segredo muito grande que, certamente, iria revelar-me. Ela não tinha medo da minha pessoa, seu intuito era apenas fazer-me seguí-la sem, no entanto, alcançá-la. Até quando?

Minha empreitada por aquela mata, atrás de uma mulher que eu não tinha idéia de como era, parecia ter chegado ao fim. De repente, ouço um barulho entre a relva. Pássaros da noite levantaram vôo de forma estupefata. Distraí-me. Quando retomei meu campo de visão anterior, a mulher havia desaparecido. O que havia ali? Um abismo! Novamente, os pássaros pregam-me um susto.

Meio fraco, vindo do conjunto de árvores fechadas de onde as aves, inquietas, voaram, ouço um choro. Não um choro de tristeza, e sim de dor e medo. Corro para o local.

Um carro! Um Gol GLS de cor azul metálica, parcialmente destruído. O capô do veículo deve ter colidido com uma das gigantescas árvores, o que ocasionou sua destruição e conseqüente capotamento do carro. Mas e o som? De onde procedia?

Quando levanto meus olhos... o anjo! O mesmo anjo de semblante feminino e sorriso celestial que havia aparecido quando desmaiei. Ele sobrevoava o carro, leve, como se apenas a imagem dele estivesse flutuando, macia e tranqüilamente. Sua luz iluminou minha percepção. Seria outra brincadeira que minha mente estava me passando?

Reparo no motorista do carro: uma mulher de cabelos longos e lisos. Nenhuma chance de estar viva. Sua cabeça de cabelos claros mesclava-se com o sangue que escorria do painel e do volante. Ela, certamente, morreu no impacto do acidente. O carro não tinha air-bag. Quem era aquela pessoa? Talvez a placa do carro pudesse me dar algumas informações.

Antes de colocar meu pensamento em prática, vejo um garoto, que aparentava uns cinco anos de idade, caído entre as árvores. Ele gemia atordoado... estava vivo! Olhei para o anjo, ele não estava mais lá. Apenas um contratempo de alguns segundos. Fui verificar o estado daquele menino. Quando debrucei-me para socorrê-lo, Deus!, por que meu erro teve um preço tão caro? A criança, quase sem voz, voltou-me seus olhos mais azuis que o céu límpido e claro, suplicando-me:

- "Me ajuda... me ajuda, papa!"

- "Meu filho! É você! Como pode? Eu estava indo ver você, meu anjo!"

- "Me ajuda... papa. Mama estava com saudades do senhor. Eu tava chorando, queria ver o senhor. Ela ia me levar. Cadê a mama?"

- "Anjinho, não chora não. Papa vai levar você ao doutor. Vai ficar tudo bem..."

Foi quando o anjo reapareceu, iluminou a mim e ao meu filho, sorriu e, como antes, desapareceu através da noite escura, deixando em seu rastro uma mensagem: "Cuide bem do nosso garoto, meu amor".

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