Em seu terceiro trabalho na direção, o cineasta malaio James Wan (de “Jogos Mortais”) mostra que atingiu a maturidade cinematográfica, provando que se pode fazer um grande filme partindo de uma idéia pouco original e já explorada centena de vezes.
Caminho inverso ao percorrido por “Jogos Mortais” em 2004, quando Wan tinha em mãos um roteiro genial e cheio de reviravoltas, e com recursos limitados (pouco mais de U$ 1 milhão), chegou a uma obra que abalou o apático mercado cinematográfico de horror.


O roteiro de “
Sentença de Morte”, escrito por Ian Jeffers (um dos roteiristas responsáveis pela versão do game “
Castlevania", que será lançada nos cinemas em 2009), é uma adaptação do best seller escrito em 1975 por Brian Garfield, autor dos livros que originaram o suspense “
O Padrasto” e a série
“Desejo de Matar”. Garfield escreveu
Death Sentence como uma espécie de continuação de
Death Wish (“Desejo de Matar”), já que ficara muito decepcionado com o resultado da versão estrelada nos cinemas por Charles Bronson. Na adaptação de Ian Jeffers para
Death Sentence, a trama é transportada para a atualidade, mas ainda assim continua uma variação do tema abordado em “
Desejo de Matar”: um homem comum, uma tragédia familiar e uma violenta vingança. Enredo, aliás, repetido eternamente nos filmes de ação estrelados por Steven Seagal, Van Damme, Vin Diesel ou Mark Dacascos (só para citar alguns). Mas há uma diferença capital entre “
Sentença de Morte” e os filmes de ação comandados pelos canastrões citados anteriormente. Kevin Bacon não é Steven Seagal e nem Van Damme.


Kevin Bacon (de “
Ecos do Além”) interpreta brilhantemente o pai de família que se transforma num vingador implacável e insano, algumas vezes lembrando De Niro em “
Taxi Driver”, de Martin Scorsese. Bacon já havia comprovado seu talento em filmes como
“O Lenhador” e
“Assassinato em Primeiro Grau”. Além da interpretação poderosa de Bacon (que completou seus 50 anos a pouco tempo), soma-se ao elenco Kelly Preston (“
Um Drink no Inferno”) como sua esposa, o jovem Stuart Lafferty como seu filho e o também ótimo John Goodman (
“Vivendo no Limite”), como um traficante de armas. O elenco conta ainda com a participação do co-roteirista de “
Jogos Mortais” Leigh Whannell, como membro da gangue que assassina o filho de Nicholas.
Existe uma violência perturbadora em “
Sentença de Morte”, mesmo não sendo tão explícita. Não há como não se incomodar com cenas onde um pai testemunha o violento assassinato do filho e da esposa. Tal situação desencadeia certa cumplicidade entre o espectador e a personagem, quanto à reação do pai, em busca de justiça. E mesmo estas seqüências mais violentas são equilibradas e sóbrias, tornando-se estilizadas apenas nas cenas finais.


A ótima trilha sonora conta com duas canções da banda de psico-rock
The Black Angels: as ressonantes
“Young Man Dead” e
“The Prodigal Sun”; a bela balada
“Alright”, da banda neozelandesa
Pilot Speed e o clássico
“Hey Joe”, na voz do imortal Jimmi Hendrix.
Infelizmente “
Sentença de Morte” teve uma fraca bilheteria nos Estados Unidos, assim como “
Gritos Mortais”, filme anterior de James Wan. No Brasil ele foi lançado diretamente em DVD pela
Paris Filmes. A edição traz o filme em versão widescreen e áudio em inglês e português Dolby 5.1. Como extra: sinopse, ficha técnica, diversos trailers, um making off intitulado
“Fox Movie Channel Apresenta: Making a Scene” e uma entrevista com Bacon em
“Life After Film School”. O destaque (negativo) vai para a capa horrível. Dentre tantos pôsteres bacanas produzidos para o lançamento do filme no cinema, a distribuidora nacional resolveu escolher justamente o menos criativo. A arte da capa lembra muito mais um destes filmes vagabundos de ação que se encontram aos montes nas prateleiras das vídeo-locadoras do que a proposta real do filme.

(Pode conter SPOILER – alerta aos navegantes que parte do texto abaixo pode conter momentos importantes do filme)
Está certo que falta um pouco de originalidade em “
Sentença de Morte”. O filme faz algumas referências, propositais ou não, a outras obras, como os já citados “
Táxi Driver” e “
Desejo de Matar” ou mesmo
“O Justiceiro”. Mas a semelhança estética é maior com “
Taxi Driver”, principalmente durante as seqüências que formam o desfecho do filme. Como uma grande homenagem ao clássico de Scorcese, o personagem de Bacon raspa a cabeça, assim como fez De Niro quando interpretou o taxista enlouquecido. E ainda no duelo final, Bacon é baleado no pescoço e o vilão tem seus dedos arrancados por um tiro. Em “
Táxi Driver” acontece a mesma coisa. Uma outra semelhança é com o jogo
“Max Payne” (que ganha uma versão cinematográfica que deve ser lançada em 2008, protagonizada por Mark Wahlberg). Neste jogo, um policial de Nova York tem sua família assassinada por traficantes e parte numa caçada solitária aos assassinos (notem até a semelhança dos pôsteres).




Enfim, mesmo não sendo uma obra-prima, “
Sentença de Morte” atinge seu objetivo: incomoda pela crueza de uma realidade violenta e pela insanidade gradativa do protagonista, que reage como um animal quando acuado.

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