A DANÇA DAS PAIXÕES


por Ramiro Brizola


Joss Whedon possui os direitos sobre Buffy the Vampire Slayer e todos os personagens citados aqui.

Músicas: Going to Hell - Brian Jonestown Massacre.
E trechos de: The Background - Third Eye Blind.
As duas músicas podem ser baixadas no site: http://still-remains.com/lw/
Esta história se passa entre os episódios Forever e Intervention, da 5ª temporada

Londres, 1880
O jovem William chega tarde em casa. Envergonhado, ele vai até seu quarto em passos sutis, sem querer acordar sua mãe. William não bebeu muito, mesmo assim se arrepende. Ir ao baile, escondido, isso não é coisa que se faça...
Em seu quarto, William resolve fazer uma das coisas que mais gosta: Escrever. Sejam poemas, que são motivo de piada no bairro quando apresentados em público, ou simples anotações, como as de um diário, descrevendo situações e extravasando sentimentos. Essas anotações ele não mostra para ninguém.

- Eu lembro quando a vi pela primeira vez... Era uma manhã ensolarada de Domingo. Eu não pude esquecer...

Dias atrás ele conheceu uma garota e se apaixonou. Ele soube que ela estaria no baile, ele foi lá só por causa dela. William não costuma sair de casa à noite, nem beber. Ninguém o entende, ele é motivo de gozação... Não há porque sair. Mas ele viu algo mais naquela garota e não pôde resistir. Ela é tão bela.

- Eu tentei, pois sabia que ela estava acima de mim, mas simplesmente não pude.

Então ele foi ao baile, e ficou sentado, a uma distância segura, vendo-a dançar e se divertir... Como ele gostaria de se aproximar. Mas ele não conseguia tirar algo da cabeça: "Ela está acima de mim. Ela está acima de mim."

- E nesta noite, eu a vi tão perto, senti seu cheiro e quase toquei nela...

Depois de algum tempo e alguns goles, William tomou coragem e foi se aproximando dela, lentamente. A música havia parado e ela estava lá, sozinha, linda, esperando que algum cavalheiro se oferecesse para ser seu par na próxima dança. Na cabeça de William, não era só a música que havia parado, mas o tempo também.

- Eu tive medo, não sabia como tocar em uma flor tão delicada.

Ele já estava chegando perto, mas parecia longe, parecia que ele caminhava na direção dela há horas e nunca chegava. Havia sempre mais um passo... E então ele chegou.

- Quem sou eu para ousar toca-la? Foi o que eu pensei.

Ela estava virada para outro lado, então, com dificuldade, ele chamou o nome dela, para chamar a atenção da donzela, para que ela soubesse que seu cavalheiro havia chegado... - Ce-Cecille...
Cecille se virou para ver quem a chamou. William estendeu a mão para ela, chamando-a para dançar.
- Sim? Em que posso ajudar...
- William.
- William. Pois não?
- Eu... Estava pensando... Será que...
Ele continua com a mão estendida.
- Sim?
- Eu escrevi um poema.
- Como?
- Esqueça.
- Você é um rapaz estranho.
- Sim, não, eu queria saber... Você dançaria...
Antes que William pudesse completar a pergunta, um outro homem simplesmente passou na frente dele, ignorando-o completamente.

- Então um qualquer veio e a levou para longe de mim...

O homem passou rápido, tomando Cecille em seus braços, levando-a para longe, dançando com ela...
- ...Comigo...
William termina a pergunta.

- E eu a tive tão perto... Tão perto.

William bate com força e raiva na mesa onde está escrevendo, derrubando vários objetos. Por sorte o barulho da queda dos objetos abafou o palavrão que veio junto com o soco violento, que entortou um pé da velha escrivaninha.

- Eu só queria uma dança... Uma dança.

William ouve um barulho e se prepara para esconder os papéis onde está escrevendo, mas então ele nota que foi apenas o vento.
Ao mesmo tempo em que reza para não ter acordado sua mãe, ele se surpreende com sua própria atitude... William nunca foi desse tipo, ele nem sabia que tinha tanta fúria dentro de si.

- O que aquele homem tinha que eu não tenho? Coragem. Mas eu não, eu não sou um homem ousado. Então, talvez apenas escrevendo eu possa mostrar minha visão... Deve haver alguma maneira para eu me sobressair.

China, 1900

Depois de ouvir e não entender as últimas palavras da Caçadora, Spike a mata, com excitação e prazer indescritíveis.
Algumas horas depois, na casa onde ele e Drusilla mataram o dono depois de obriga-lo a convida-los para entrar, Spike acha um momento de paz na meio da rebelião Boxer. Já que Drusilla saiu para matar, ele aproveita para, escondido, fazer algo que ele não faz há muito tempo, mas que ele sente que precisa fazer hoje, agora, enquanto as lembranças e sentimentos ainda estão bem vivos em sua mente.

- Quando a tive nas minhas mãos, indefesa, eu nunca havia tido tanta certeza do que devia fazer... Estava tudo tão claro, eu senti que até a Caçadora queria. O sangue da Caçadora... Não há como descrever, ou talvez eu não consiga apenas. Mas ali, na hora, na luta, ali eu sabia fazer tudo. Como ninguém. E ela também. Foi uma luta poética, não o que eu tentava fazer quando vivo, mas uma poesia vibrante. Tudo rimava perfeitamente. E ambos sabíamos o final.

Spike houve algo, então pára tudo e esconde o papel onde está escrevendo.
- Dru?
Spike se aproxima da porta para ver se há alguém por perto. Nada. Quando está voltando para a mesa, Spike tropeça em algo, uma música começa a tocar baixinho. É uma caixinha de música, Spike pega e, ao ver os bonequinhos ali dentro dançando, ele brevemente se lembra de Cecille e da dança que não dançou com ela, mas também lembra da luta com a Caçadora. Spike volta para a mesa e continua escrevendo.

A luta foi uma poesia dançante... Um soco pra cá, dois chutes pra lá, você cai, e se levanta... Como a dança da vida. E a dança da morte. Tudo ali, e eu venci. Na dança da morte ninguém poderia me vencer. Diferente da maldita dança não dançada da vida, onde tudo é incerto e o medo pode te derrubar facilmente.


Drusilla chega, com sangue em seus lábios, carregando o corpo de uma mulher. Ela atira o corpo no chão.
- Para você, meu querido.
Spike se aproxima dela, depois de esconder as folhas.
- Então porque você bebeu?
- Eu tive sede. A mulherzinha correu, correu, pulou, pulou...
- Como um coelho?
- Uma coruja.
- Claro...
- Ela é bem saborosa...
- Como uma coruja?
- Um coelho.
- Óbvio... Depois eu a provo, agora venha aqui...
Os dois vampiros apaixonados dançam, devagar, romanticamente até, enquanto se beijam e Spike prova o sangue da mulher morta, diretamente dos lábios de sua amada.
Pouco depois, Drusilla se vai novamente, arranjar algo para ela mesma comer, desta vez. Spike volta a escrever.

Mas acredito que seja assim, devemos dançar as danças que podemos... E esquecer aquelas que você sabe que nasceu para perder.

Sunnydale, 2001

Spike está em sua cripta, vendo algumas fotos de Buffy. Quantas vezes ele já não pensou em queimar todas e deixar para trás essa paixão impossível. Mas ele não pode, não desta vez. Spike sente algo estranho quando vê uma foto virada, caída no chão. Spike pega a foto de Buffy e a larga no sofá. Ele então pega a caneta que roubou de uma menina que foi morta por outros vampiros na noite passada. Pegar a caneta foi a coisa mais cruel que ele fez nos últimos tempos, desde que bebeu o sangue de uma jovem, quando Drusilla esteve em Sunnydale. Ele se sente mal por aquilo, embora não admita.
Spike se prepara para escrever algo na parte de trás da foto, enquanto houve música no rádio que comprou com o dinheiro que ganhou de Buffy para ajuda-la, pouco tempo atrás. Ele se sente mal por isso também.

I've been out on my own
(Eu venho saindo sozinho)
I've been getting what's mine
(Eu venho pegando o que é meu)
I watch you grab what you can like crazy
(Eu vejo você agarrar o que pode feito louca)
Because your all out of time
(Porque você é totalmente dessincronizada)
Girl your living a dream
(Garota, você vive em um sonho)
But You know it too well
(Mas você sabe bem disso)
Cause there's no one who
(Porque não há ninguém que viva assim)
And you're living in Hell
(E você vive no Inferno)
Well they said you been good
(Eles dizem que você têm sido boa)
And they said you been bad
(E dizem que você têm sido má)
I like to laugh
(Eu gosto de rir)
You make me cry when you're sad
(Você me faz chorar quando está triste)
I live in a dream
(Eu vivo em um sonho)
But you're living in hell
(Mas você vive no Inferno)
And there's nothing to do
(E não tem nada a ver)
Cause I know it too well
(Porque eu sei muito bem disso)
I've been out on my own
(Eu venho saindo sozinho)
I've been doing real fine
(Tenho me saído muito bem)
I want you get what you can now baby
(Eu quero que você agarre o que pode agora, amor)
Seems you're all out of time
(Parece que você é totalmente dessincronizada)
Girl your living a dream
(Garota, você vive em um sonho)
And its gotten you down
(E isso está te derrubando)
And there's no one to help
(E não há ninguém para ajudar)
Cause there's no one around
(Porque não há ninguém por perto)

Spike então começa a escrever.

Uma chande de me aproximar... É tudo o que eu peço e você não deixa. Eu sofro a cada minuto, cada segundo, toda vez que eu penso em você e me dou conta que sempre estarei distante, sempre estarei abaixo. Ser um monstro custa caro quando se é um monstro apaixonado. Certamente seria demais pedir que você pelo menos uma única vez olhasse para mim sem preconceito, me olhasse apenas como um apaixonado. Eu sei que é pedir demais, mas é tudo que eu posso pedir... Só não quero ficar tão abaixo. Eu sei que minhas ações no passado falam por si próprias, mas saiba que eu já fui um homem bom, e o que eu sinto por você é tudo o que aquele homem tolo que fui tinha de bom. E as coisas que fiz depois, guardo só para mim.

Spike guarda a foto onde está escrevendo em um baú, pois não há mais espaço para escrever nela. É a foto favorita. Ele deixa em cima de todas. O rádio continua tocando...

Everything is quiet, Since you're not around
(Tudo está silencioso, já que você não está por perto)
And I live in the numbness now
In the background
(E eu vivo no nada agora, estou para trás)
Nesse momento, Buffy invade a cripta, obrigando Spike a se desviar do sol que vem da porta aberta. Spike tenta esconder, sem sucesso, todas as fotos que estavam jogadas no sofá. Ele se levanta, enquanto ela vê as fotos.
- Buffy, eu...
- Não quero saber.
- O que você quer?

Then you come swimming into view
(Então você aparece)
And I'm hanging on your words like I always used to do
(E estou perdido nas suas palavras, como sempre estive)

Buffy mostra algumas notas de dólares...
- Um pagamento atrasado.
- Você não precisa... Eu não quero seu dinheiro.
- Você pediu na época, eu pago o que devo.
- Eu mudei de idéia, eu não faço essas coisas por dinheiro..
. - Ah, esqueci, é por amor...
- Olha, é só...

I would never lie to you, no
I would never lie to you, no
(Eu nunca mentiria para você, não)

- Esqueça. Se você não quer o dinheiro por ter me passado informações sobre aquele demônio, então eu estou te pagando pra parar com essa história de que está apaixonado. - Não é sobre dinheiro, é real e...
Buffy pega mais dinheiro e mostra para Spike.
- E que tal isso? Acho que é o bastante para você esquecer essa bobagem e ficar longe de mim...
- Eu não quero.
- Droga, Spike, é pedir demais que você queira me matar?
- Eu nunca...
- Eu vou embora.
Buffy sai da cripta levando o dinheiro e batendo a porta com força. Spike se segurou para não perguntar "como vai a sua mãe?"... E ele se arrepende por quase ter perguntado isso, por ter pensado nisso.

I only know this cause I am, way back down
In the background
(Eu só sei disso porque estou bem para trás)

Spike pega mais uma foto do baú e começa a escrever na parte de trás dela.

Ou talvez nada disso seja real, talvez eu seja apenas um monstro, talvez eu não te ame... Talvez este sentimento doloroso seja só a pura maldade do meu coração, talvez eu tenha perdido tudo que já tive de bom. Talvez eu nunca tenha tido algo de bom dentro de mim. Ou talvez, apenas talvez, eu continue sendo o humano tolo que sempre fui. Que todos são. E talvez, apenas talvez, eu continue querendo dançar o que não pode ser dançado, o que eu não posso dançar, o que eu não sei dançar... A dança das paixões.

Londres, 1922

É noite, Spike bate na porta de uma casa. Uma velha senhora abre a porta e toma o maior susto de sua vida.
- Oh, meu Deus do céu! William the Bloody...
- Você lembra de mim? Por essa eu não esperava. Ah, e meu nome é Spike. Nunca gostei desse nome, William, e muito menos desse "sobrenome"... Embora fosse justo.
- Você continua igualzinho... Como isso é possível?
- Na verdade, não é. Isso é impossível. Mas eu nunca fui céptico, além disso, não sou de me entregar fácil...
- Estou vendo que não.
- Quer dançar comigo, Cecille?
Já dentro da casa, os dois dançam lentamente, sem música, mas com ritmo mesmo assim. Se uma dança é para ser dançada, ela será, não importa quanto demore para o dia certo chegar... Ela será dançada.

FIM

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