PRINCESA NUNCA MAIS por Simone Freire
Nota Legal: Os personagens e universo aqui representados são propriedade de Joss Whedon, 20th Century Fox, Mutant Enemy, Sandollar, e Kuzui Productions. Esse conto não visa infringir nenhum dos direitos autorais (copyrights).
Nota da Autora: Parece que eu estou ficando mais eclética. Essa é minha segunda estória em português que não é sobre Angel & Buffy. Como a anterior é dedicada a Cordy & Doyle.
Distribuição:The Claddagh Fanfiction Archive (meu site) e Angel-Brasil e Legado da Escrita
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Do alto, ele observava todo o sofrimento pelo qual ela vinha passando recentemente. Ele era capaz de traduzir em palavras as várias nuances de seu belo rosto, cada ruga, cada linha, ele conhecia de cor o rosto de sua princesa. Sua princesa. Doyle sabia que ninguém nunca havia chamado Cordelia assim, e que ninguém jamais chamaria. Angel a chamava de Cordy, Delia. Wes as vezes a chamava de amada, mas princesa nunca. Talvez algum jovem que tivesse a pretensão de conquistar o coração dela viesse a tentar usar esse apelido, mas ele sabia que ela nunca mais se sentiria a princesa de alguém. Dentro do seu coração, Cordelia Chase sabia que sempre seria a princesa imaculada de um irlandês louco que morreu para salvar seus amigos. Que morreu para que ela pudesse continuar viva.
Shed a tear cause I am missing you
(Derramo um a lágrima porque estou com saudades de você)
But I am still alright to smile
(Mas ainda me sinto bem para sorrir)
Girl I think about you everyday now
(Garota, agora eu penso em você todos os dias)
Do alto, Doyle viu que Cordelia enxugava as lágrimas com as pontas dos dedos, tentando não borrar a maquiagem, mas seu esforço foi inútil. O rímel agora se espalhava por seus olhos como duas lagoas negras. Do alto, ele podia tudo. Vê-la, ouvi-la, senti-la. Só não podia estar com ela, abraçá-la, beijá-la e chamá-la de princesa. Do alto, ele não podia dizer que ainda a amava e que tudo ficaria bem. Por isso, agora ele não estava mais no alto, e sim em um canto escuro do quarto dela, observando enquanto Cordelia limpava o rosto e se maquiava novamente.
Doyle sabia que ela tinha um encontro. Em pleno dia dos namorados Cordelia Chase tinha um encontro e não um namorado fixo. Doyle suspirou, não sabia se de alívio ou de pena. Depois de várias visitas noturnas ao apartamento dela, ele finalmente havia deixado que o fantasma Dennis se aproximasse e juntos os dois viviam se perguntando porque ela vivia sozinha. Dennis achava que ela tinha um amor impossível e Doyle não se atrevia a acreditar que poderia ser ele o amor de Cordelia. Os dois acabaram se transformando em bons amigos e por isso Doyle estava hoje sozinho com Cordy. Sabendo da devoção do irlandês pela jovem, Dennis havia desaparecido por uma noite, deixando Doyle ficar a sós com sua princesa.
There was a time when I wasn't sure
(Houve uma época em que eu não tinha certeza)
But you set my mind at ease
(Mas você acalmou minha cabeça)
There is no doubt you're in my heart now
(Não existe dúvidas de que você está no meu coração agora)
Vendo que ela continuava imóvel em frente ao espelho, Doyle começou a caminhar em sua direção, mas parou ao sentir alguém tocando seu cotovelo.
* Ah, não! Eles me descobriram! *
Doyle sempre descia escondido dos Poderes Que Valem e nunca ficava mais que uma hora. Mesmo morto, ele continuava ligado aos poderes, ainda era um mensageiro. Doyle se virou e viu uma criança em vestes brancas e com o rosto e corpo pintados de azul e dourado. Era Cyan, um dos oráculos que substituíram os dois que foram assassinados no ano anterior. Cyan era uma menina doce e amável e Doyle relaxou um pouco.
"Então é para esse quarto que foges, mensageiro?"
Nada no tom de voz do oráculo denotava raiva e Doyle sorriu.
"Então você já sabia das minhas escapulidas e nunca me denunciou?"
Cyan sorriu tristemente. "Para que? Já sofres tanto." E olhando para Cordélia. "Vocês já sofrem tanto."
Quando Cyan olhou novamente para ele, Doyle sentiu-se invadido por um jato de luz azul que emanava da testa do oráculo enquanto ela falava.
"Não há amor sem sofrimento, mas sem esperança o amor morre e só restaria um mundo pálido e espinhoso, povoados por almas acorrentadas a tristeza e dor. Sem esperança não sobrevive-se. Aproveite sua chance, mensageiro, pois ela é única."
Doyle não sabia se Cyan estava dizendo que Cordelia era única ou se a oportunidade era única. Toda aquela luz azul estava deixando-o tonto e enjoado como se ele tivesse bebido um engradado do pior malte irlandês. De repente a luz sumiu e ele ouviu a voz de Cordelia.
"Doyle. É mesmo você ou eu estou sonhando de novo?"
* De novo! Ela disse de novo. *
Said woman, take it slow and it'll work itself out fine,
(Eu disse mulher, tenha calma e tudo vai se resolver)
all we need is just a little patience
(Tudo que precisamos é de um pouco de paciência)
Said sugar, make it slow and we'll come together fine
(Eu disse meu bem, vamos devagar e tudo vai dar certo)
All we need is just a little patience
(Tudo que precisamos é de um pouco de paciência)
Lentamente, Doyle estendeu o braço e tocou o rosto de Cordelia. Ambos fecharam os olhos pois para eles aquilo era a definição de paraíso. Sem conseguir se controlar, Cordelia sentiu as lágrimas descerem quentes por seu rosto. Doyle estava ali, com ela Doyle estava de volta, tocando-a novamente e dessa vez ela sabia que poderia abrir os olhos sem medo. Ele não iria desaparecer.
"Você cortou o cabelo..." foi tudo que ele conseguiu dizer.
Ela deu uma risada nervosa.
"E você nem demorou para perceber. Você sempre foi mesmo especial."
Foi. O silêncio que se seguiu foi o mais incômodo da vida de Doyle. Ela havia usado o tempo passado do verbo. Passado. Era a única coisa que eles tinham. Doyle se deixou mergulhar na doçura dos olhos de sua princesa mais uma vez antes de puxá-la suavemente para o seu peito. Era maravilhoso ter o calor de Cordelia junto a seu corpo, sentir o coração dela batendo descompassado. Doyle deixou escapar um suspiro.
"É, vai ver eu fui mesmo especial."
Só então Cordelia percebeu seu erro. Foi... passado! Era isso mesmo que Doyle era? Ela sacudiu a cabeça negativamente com violência.
"Não! Não, Doyle! Você não foi especial. Você é especial." Ela se afastou um pouco e olhou diretamente nos tristes olhos verdes dele. "Você é único."
I sit here on the stairs
(eu sentei aqui na escada)
Cause I'd rather be alone
(porque eu preferi estar sozinho)
If I can't have you right now
(se eu não posso ter você agora)
I'll wait dear
(eu vou esperar querida)
Aquela simples frase bastava para Doyle. Ele agora poderia ser o mensageiro dos poderes para todo o sempre, pois a lembrança de Cordelia em seus braços falando palavras doces de amor para ele era o suficiente para manter a chama viva. Seu rosto abriu-se em um sorriso sincero.
"Cordy, você não precisa..."
Mas ela tocou levemente os lábios dele, pedindo silêncio.
"Preciso. Eu preciso te dizer tudo. Eu mudei, Doyle, cresci muito e tudo que eu sou hoje, eu devo a você. Foi o seu sacrifício que me fez começar a ver a vida de uma maneira diferente. Foi o Dom que você me deu que me transformou em uma pessoa adulta, consciente, preocupada com os outros. Você não entende? Tudo me leva de volta a você."
Ela falava com tanta emoção que Doyle ficou atordoado. Ele entrelaçou as mãos por trás da cabeça dela e beijou sua testa com devoção.
"Mas, no início, você não queria as visões."
"Não, não queria mesmo." Cordelia deixou Doyle abraçá-la novamente. "Naquele momento eu estava sofrendo muito e não precisava de mais uma coisa na minha vida que me fizesse lembrar você. Durante o dia havia o Angel. Durante a noite era esse apartamento, o apartamento que você encontrou para mim. Você acha que eu ainda precisava das visões? Durante todos esses meses não houve uma manhã sequer que eu acordasse sem te dar bom dia. E em nenhuma noite eu adormeci sem desejar poder te dar um beijo de boa noite."
Emocionado, o irlandês fez um esforço enorme para não chorar, mas Cordelia não havia terminado ainda.
"Desde que você morreu Doyle, eu tentei encontrar alguém para preencher o vazio que você deixou em mim. Alguém que me desse algo que nós dois nunca tivemos. Mas nenhum dos homens que eu conheci me pareceu bom o suficiente. Eles não eram você."
Sometimes I get so tense
(as vezes eu fico tão tenso)
But I can't speed up the time
(mas não posso apressar o tempo)
But you know love, there is one more thing to consider
(mas você sabe, amor, existe mais uma coisa pra pensar)
E, naquele momento, o meio demônio irlandês, mensageiro dos poderes supremos chorou feito criança abraçado a mulher que ele amava. Ao ouvi-lo soluçar, Cordelia se aconchegou mais no abraço dele e completou.
"Eu nunca iria amá-los do jeito que eu amo você, Doyle."
"Cordelia, isso não é justo, nem comigo nem com você. Eu não posso voltar e você ainda não pode partir. Sabe o que nos espera? Noites intermináveis de desespero e solidão. Anos vazios e sem sentido."
"Não... noites de sonhos e paixão. Anos repletos de promessas e esperança." Assustada ela sacudiu Doyle com força. "Não desista de mim agora, Doyle!."
"Nunca..." ele sussurrou.
Só que Cordelia já estava novamente empenhada em um de seus famosos monólogos e não ouviu essa pequena promessa. No fundo ela sabia que nunca mais teria a chance de dizer tudo que queria a ele, e de ter a certeza de que ele estava ouvindo.
"quando eu morava em Sunnydale, eu era a rainha da escola. Eu conseguia ser mais durona do que o diretor Snyder. Cordelia Chase era poderosa, rica e linda, Doyle. Mas nunca foi amada. Eu fui aceita pelos amigos de Buffy e o Xander brincou comigo por um tempo, mas nunca me amaram. Meu pai me tratava como uma pequena princesa, uma bonequinha de porcelana, mas era apenas por obrigação e não por amor." Lutando contra as lágrimas novamente ela completou. "Eu nunca havia sido amada até conhecer você, Doyle. E se eu tiver que esperar mais oitenta anos para ser amada por você novamente, então eu vou fazer com que esses anos sejam cheios de esperança e sonhos, porque eu preciso me apoiar em alguma coisa."
Said woman, take it slow
(eu disse mulher, vá com calma)
And things will be just fine
( tudo vai dar certo)
If you and I just use a little patience
(se você e eu tivermos um pouco de paciência)
Totalmente sem palavras e tomado pela emoção, Doyle beijou Cordelia com uma paixão que ela nunca havia experimentado antes. E ela se abandonou aos carinhos dele como se essa fosse a última noite de sua vida. Quando fechou os olhos e se entregou a Doyle, Cordelia pensou que poderia não ser a última, mas sabia que durante muitos anos seria a única na qual ela havia se sentido realmente amada.
Said suggar take the time
Cause the lights are shinning so bright
You and I got what it takes to make it
Antes de adormecer, Doyle sussurrou no ouvido dela.
"Eu vou te amar até o fim dos meus dias, princesa. E quando a sua missão aqui acabar, eu vou estar te esperando do outro lado. Eu te amo Cordelia."
E os dois adormeceram.
We won't fake it
(Não vamos fingir)
I'll never break it
(Eu nunca vou estragar isso)
Guess I can take it
(Acho que consigo)
Cordelia acordou no dia seguinte com alguém batendo desesperadamente em sua porta, enquanto telefone tocava sem parar. Tudo estava confuso na cabeça dela e ela gritou:
"Já vou! Se derrubar a porta... Ah!"
Quando ela estendeu a mão para atender o telefone, a secretária eletrônica já estava pegando o recado.
"Cordelia é o Jansen. De novo. O que deu em você? Fiquei esperando ontem a noite inteira no restaurante. E esse já é o quinto recado que deixo. Não vou ligar de novo."
"Que beleza." pensou Cordelia ao caminhando pela sala. "Dormi e perdi o encontro." Ao abrir a porta deu de cara com Angel.
"Cordelia são três horas da tarde e..."
O vampiro ficou em silêncio.
"E o que? Não posso perder a hora? O que você está pensando? Que sou sua funcionária? Nada disso... Aliás eu não te perdoei ainda pela baboseira da história com a Darla e..."
Cordelia," Angel interrompeu. "Aonde você conseguiu esse casaco?"
Ele estava apontando para ela e pela primeira vez Cordy percebeu que estava vestindo um casaco marrom de couro, muito gasto e grande demais para ela. Um casaco macio e com o cheiro de...
"Doyle." Ela murmurou, e logo foi invadida pelo fluxo de lembranças da noite anterior. Tudo girava e se Angel não estivesse ali, ela com certeza teria caído no chão.
Mas Angel a amparou e levou-a até o sofá. Cordelia ergueu seus grandes e suplicantes olhos castanhos para Angel.
"Doyle." Ela choramingou, "Ele esteve aqui e... disse que me amava."
O olhar de pena que Angel lhe lançou foi o suficiente para arrasar com Cordelia e logo ela se viu gritando com ele.
"Não preciso da sua pena, Angel! Apoio, amizade e confiança sim. Pena não!"
Ela se levantou e voltou para o quarto com Angel em seus calcanhares. Os dois pararam espantados na porta do quarto. A cama de Cordy estava coberta de pétalas de rosas brancas e no espelho da penteadeira havia sido rabiscada em batom a seguinte frase: "Sempre vou te amar, princesa."
Little patience
(um pouco de paciência)
Uh.... some more patience
(mais um pouco de paciência)
Antes que Angel conseguisse se recuperar da surpresa, ele ouviu uma voz conhecida sussurrar em seu ouvido.
"Ei chapa, acredite na garota. Eu estive mesmo com ela."
Angel olhou em volta, procurando o dono da voz, mas não encontrou nada a não ser uma Cordelia derrotada e chorosa jogada no meio da cama beijando as pétalas brancas. Ele decidiu acreditar na voz de seu amigo morto, e assim o vampiro se ajoelhou ao lado da vidente e a abraçou. Os dois ficariam assim até que as lágrimas dela secassem.
I've been walking the streets at night
(tenho andando pelas ruas a noite)
Just trying to get it right
(apenas tentando entender)
It's hard to see with so many around
(é dificil enxergar com tanta coisa ao redor)
You know I don't like being stuck in the crowd
(você sabe que eu não gosto de ficar no meio da multidão)
Parado em seu canto predileto Doyle observava comovido a cena. Ele esperava que Cordelia se lembrasse de tudo e que soubesse esperar. E ele contava que Angel fosse ajudá-la. Cyan segurou a mão do irlandês com carinho.
"Temos que ir agora, mensageiro."
Ainda olhando as duas pessoas que ele mais amava no mundo, Doyle perguntou.
"Eu não vou poder mais voltar aqui não é?"
"Vai sim. No momento certo, na hora exata."
E quando a luz azulada os envolveu, Doyle sabia que não veria sua princesa por muito tempo.
And the streets don't change but babe the name
(e as ruas não mudam, mas os nomes)
I ain't got time for the game
(eu não tenho tempo para brincadeiras)
Cause I need you
(porque eu preciso de você)
I need you
(eu preciso de você)
This time....
(dessa vez...)
FIM
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