A QUESTÃO por Ramiro Brizola
Joss Whedon e David Greenwalt tem todos os direitos sobre Angel
PRÓLOGO
- Amor, prazer, família... Essas são coisas fundamentais para a vida, qualquer um diria. Mas e se você não tiver tudo isso? E se você não puder ter tudo isso? A vida pode ser apenas um coração batendo, ou o ar que você respira? E se você não tiver nem isso... O que é que você têm? Apenas um espaço entre o nascimento e a morte. Mas, e se você já passou por isso... Então, o que resta? O que você é? Qual pode ser o seu objetivo? Talvez seja tentar se recuperar de algo que fez em seu período de vida... E se você não fez nada durante aquele período? Só resta tentar se recuperar de algo que fez depois. E se depois, você foi um assassino violento que matou impiedosamente por um século e meio? É possível se recuperar disso? Salvar vidas realmente pode apagar todas as vidas que você interrompeu?
Talvez esse não seja a questão. Mas então... Qual é a questão?
Angel está sentado em sua cadeira, em seu escritório, sozinho. Pensando.
FIM DO PRÓLOGO
Angel lembra de um tempo em que estava mais perdido do que nunca. Ele quer saber o que houve, o que o impediu de terminar com a própria existência, como fez com tantas outras. Ele quer saber como chegou aonde está hoje. Ele lembra do breve tempo que passou em Boston, vagando pelas ruas, cheio de dúvidas sobre si mesmo... E dor. Angel lembra de uma das tantas noites em que tentava se conter para não beber o sangue de pessoas. Na maioria das noites ele vencia a sede de sangue, mas em algumas... Não.
Boston, 1932
- Ei, venha aqui, senhora... - Angel tenta chamar a atenção de uma jovem, na rua. A moça começa a correr, mas Angel vai atrás dela, a segura contra a parede e a morde. É uma sensação maravilhosa, o sangue é tão doce, a sede é tão grande. A jovem grita, até que um homem a ouve, e vai até ela. Angel solta a moça, sem saber se ela ainda estava viva ou não, e começa correr, ele se esconde em um beco e chora. - Sou um monstro, sou um monstro...
No presente...
Angel nunca falou para ninguém sobre esses tempos. Mas certamente existem motivos para Angel ser tão fechado, reservado. Então Cordelia chega no escritório e vê Angel, sério, concentrado em algo.
- Ih, quem morreu? Além de você, é claro...
- Ah, Cordelia... Não vi você chegar.
- Claro que não. No que você estava pensando? E não adianta dizer que estava preocupado com o tempo, porque você estava muito compenetrado.
- Eu...
- Não era na Buffy, né?
- Hã... Era.
- Angel, você têm que parar com isso... Pense em algo positivo.
- Como o que, Cordelia?
- Como... Hã... Já sei! No lindo cheque que recebemos daquele senhor que estava sendo perseguido por aqueles demônios anões...
- Eles preferem ser chamados de demônios pequenos.
- Que seja. Olha, Angel, você pode se abrir comigo, eu sou sua amiga. Você não precisa ficar se penitenciando secretamente para sempre.
Nesse momento, a cabeça de Angel volta as lembranças...
Boston, 1932
Angel ainda está se lamentando por ter atacado a moça. Então ouve uma voz...
- Um vampiro se culpando por seguir sua natureza... Isso sim, é triste.
O sujeito se aproxima de Angel.
- Quem é você?
- Sou Christof...
- Você é um vampiro?
- Eu sou... Mas e você? O que você é? Um covarde.
- Você não entende.
- Você têm uma alma, não é?
- Como você sabe?
- Eu sinto o fedor de longe. Mas mesmo com uma alma, você é um vampiro. Não é uma vergonha sentir sede... Você não pode fingir que é inferior aos humanos.
- Eu sou uma aberração...
Christof dá um tapa em Angel.
- Tolo. Poderia desfrutar de uma eternidade para ver tudo, para fazer o que quiser.
- Uma eternidade sem nada... Vazia. Apenas matando... Não sou um assassino.
- Ah, não? Então o que você fazia com aquela jovem momentos atrás?
- Eu... Eu não queria.
- Mas fez. É sua natureza... Nossa natureza.
- Não, eu não sou como você...
- Você sabe que é. Você não pode evitar.
- As coisas que eu já fiz... Não era eu. Eu não tinha uma alma... Agora é diferente.
- Há 5 minutos você estava bebendo o sangue de uma pessoa, e estava gostando. Agora me diga, como você é diferente?
- Eu me arrependo, me amaldiçôo cada vez que não resisto.
- Porque você não põe fim a sua vida, então?
- Porque eu mereço sofrer.
- Ou você não têm coragem para se suicidar? Têm medo?
- A única coisa que eu tenho medo, é do monstro que fui... Se fosse tão simples, eu já teria colocado um fim em minha existência.
- Você me enoja.
- Porque você está falando comigo?
Christof começa a se afastar de Angel, e se vai.
No presente...
- Angel? Tá me ouvindo?
- Hã, estou sim, Cordelia...
- Então, o que eu estava dizendo?
- Algo... Sobre roupas?
- Não acredito que você não estava me ouvindo... Apesar disso ser típico de você.
- Eu sinto muito, Cordelia... Fale de novo, prestarei atenção desta vez.
- Não. Já notei que você não quer ninguém por perto...
Cordelia vai saindo do escritório, enquanto Wesley chega.
- Olá, Cordelia...
- Não chega muito perto do Angel hoje, ele tá todo pensativo e misterioso... Quer dizer, mais do que o normal.
- Cordelia, me desculpe! A partir de agora ouvirei tudo o que você disser, até se for algo sobre moda... - Angel grita.
- Bela tentativa...
Cordelia sai do escritório. Wesley vai até Angel.
- Será que ela esqueceu que trabalha aqui?
- Deixa ela.
- O que aconteceu, Angel?
- Eu não ouvi alguma coisa que ela disse.
- Não, o que aconteceu com você... Você está bem? Porque não parece.
- Eu... Estou bem.
- Lembranças?
- Como?
- Você está lembrando de coisas ruins, não é?
- É.
- Que falar a respeito?
- Acho que não... Agora não.
- Quando, então?
- Não sei.
- Tudo bem... Eu aceito isso.
- Obrigado, Wesley.
- De nada.
Wesley vai saindo do escritório.
- Ei, aonde você está indo?
Wesley se vira para Angel.
- Não sei, Angel... Mas eu voltarei quando quiser conversar. Quando precisar de um amigo.
Wesley sai.
- Eu preciso. - Angel fala sozinho.
Cordelia está saindo do banco, onde foi retirar alguns cheques do escritório. Um homem se aproxima dela e fala...
- Precisa de alguma coisa?
- Não, eu pedi algo? - Cordelia repara naquele homem baixo e careca.
- Eu só queria ajudar...
- Ah, sinto muito, eu fui grosseira...
- Tudo bem, meu nome é Howard. Você não quer que eu te acompanhe até sua casa?
- Que história é essa?
- É que não gosto de ver uma linda moça andando por aí, sozinha...
- Sei, e você desse tamanho quer me proteger?
- Eu sou forte.
Howard segura com força o braço de Cordelia, no meio da rua.
- Me solte ou eu vou começar a gritar.
Ele a solta, e ela vai indo embora.
- Desculpe, moça, é que existem tantos tarados e malucos em LA...
Los Angeles, 1948
Angel caminha pelas ruas no meio da noite. Cansado de comer ratos, ele têm que arranjar uma maneira de conseguir dinheiro, para poder comprar sangue em algum açougue. Um homem passa na rua, Angel tenta aborda-lo, mas está fraco, o homem consegue fugir. Angel nota um carro passando, então se atira na frente dele e é atropelado. Quando o motorista sai do carro e se aproxima, Angel o agarra e o assusta com sua face demoníaca.
- Dinheiro...
- Eu... Eu não tenho comigo!
- Quer que eu leve seu carro?
- Não, quanto dinheiro você quer?
O homem tira a carteira do bolso, Angel a pega. Ele tira apenas uma parte do dinheiro e devolve a carteira.
- Suma daqui.
- O que você é? O Diabo?
- Você quer que eu seja?
O homem entra na carro e se vai. Angel corre para achar algum açougue ainda aberto. Mendigos passam por ele e se assustam, Angel têm sede, mas está decidido a não atacar mais pessoas. Ele chega no açougue, mas já está fechado. Angel se ajoelha no chão, desesperado, tira um rato já morto do bolso de seu casaco e se alimenta, quase chorando.
No presente...
Howard, o homem que atacou Cordelia, está chegando em seu apartamento, falando sozinho.
- A moça foi rude comigo... Eu quis ajudar, mas ela só vê meu exterior, como eu sou feio. É sempre assim. Ela se assustou quando eu a segurei... Como se eu fosse uma ameaça. Pena, acho que só tenho uma escolha...
Howard abre a porta e entra em seu apartamento. Ele chega no quarto, onde há uma grande caixa de madeira. Ele pega um chave de dentro do armário, abre a caixa e uma criatura horrível está dentro, toda amarrada.
- ... Mata-la, com algo realmente feio e ameaçador.
Em um bar de LA, Wesley toma alguns drinques e conversa com desconhecidos...
- Só porque ele é um vampiro, acha que não precisa de ninguém... - Fala Wesley, semi-embriagado, para o homem que está do seu lado, no balcão do bar.
- Eu sei como é, cara... Às vezes eu chamo o meu chefe de vampiro também... Ele quer que os empregados dêem seu sangue pela empresa, mas não dá nada em troca.
- Se ele baixasse a guarda por um segundo, veria que têm amigos que se importam...
- Tudo vai dar certo, cara.
- Eu não sei... Acho que Angel é meu melhor amigo, mas nós nunca conversamos. Eu não tenho amigos de verdade... Acho que devo voltar para a Inglaterra.
- Você não acha que está na hora de se abrir com ele?
- Como assim?
- Ora, conte pra ele que você é gay.
O homem coloca a mão no ombro de Wesley, que se assusta.
- Ah... Quem precisa de amigos? Estou feliz sozinho. Acabo de me lembrar que tenho um compromisso. Adeus. - Wesley sai correndo e então olha pra trás. - Estou seguro, acho que não fui seguido.
Quando se vira para sair do bar, um outro homem, alto e gordo está na sua frente.
- Está fugindo de quem, querido? - O homem sorri para Wesley.
- Que lugar é esse, afinal? É um bar gay, por acaso?
O homem sai da frente de Wesley, que então lê uma placa com o nome do estabelecimento.
- "Pink Heaven"? (nota do "tradutor": Paraíso Cor de Rosa)
Londres, 1998
Wesley está em um bar, um homem está o segurando e obrigando-o a dançar com ele.
- Eu não sabia que era um bar gay... - Wesley lamenta.
No presente...
No escritório, Angel ainda relembra alguns acontecimentos... Coisas que podem ter definido o que ele se tornou.
Dublin, 1951
O jovem Liam está saindo de um bar, depois de uma de suas noitadas. Ele está razoávelmente embriagado. O sol já está quase nascendo. Então 3 homens passam correndo por ele... Liam nota que há algo de errado com o rosto deles, mas acha que o álcool está atrapalhando sua visão.
- Qual é a pressa, cavalheiros?
Liam ouve um grito de mulher, vindo de onde os 3 homens vieram. A luz do sol que já nasceu, o incomoda. Mas ele vai até a mulher e a encontra chorando ajoelhada, segurando a cabeça de um homem que está no chão.
- Posso lhe ajudar, madame?
Liam se agacha na frente da mulher, então nota que o homem está morto, e sangrando no pescoço.
- Eles mataram meu marido!
- Quem matou?
- Os filhos de satã!
- Perdão?
- Vampiros!
- Me permita estranhar, senhora, mas vampiros são lendas para amedrontar crianças...
- Você não viu o rosto deles, eram deformados!
- Acredito que a senhora esteja mais embriagada do que eu mesmo...
- Cale-se, porco! Chame ajuda!
- Não sou vampiro, porque me agrides assim? - Liam sorri.
- Vá!
- Mas não estou longe de ser vampiro, pois saio à noite e adoro beber...
Quando Liam se levanta, vê dois buracos no pescoço do homem. Liam nota que têm sangue em suas mãos, mas não se importa. Quando está correndo para chamar ajuda, Liam passa por uma casa que está abandonada há tempos, mas ele ouve um barulho vindo de lá. Quando espia para ver o que há lá dentro, vê os 3 homens que passaram por ele. Eles estão lambendo os dedos, que estão com sangue. Um deles olha para Liam, que vê o rosto deformado a mulher havia comentado. Liam estranhamente não sente medo, e encara o monstro. Então um outro homem passa pela rua, e Liam pede ajuda.
- Uma senhora precisa de ajuda!
Quando olha para dentro da casa novamente, Liam não vê mais ninguém lá. Então ele leva ajuda até a mulher que teve seu marido assassinado.
Angel nunca mais viu uma criatura daquelas, até encontrar uma linda mulher em um beco de Dublin, em uma noite de 1753.
No presente...
Cordelia almoça em uma lanchonete. Howard está a observando escondido, de fora. Então Wesley aparece por trás dele e o empurra no chão.
- Aquela moça é minha amiga. Quem é você?
- Me deixe em paz, eu juro que desapareço...
- Covarde, suma daqui. Se eu encontra-lo mais uma vez...
- Não vai!
Howard sai correndo. Wesley sorri. Quando já está indo embora, Wesley olha para Cordelia e percebe que ela está triste. Então ele vai até ela e senta na mesa.
- Wesley? O que está fazendo aqui?
- Eu estava passando, te vi aí e resolvi parar pra conversar.
- Está tão na cara assim?
- O que?
- Que eu estou carente...
- Sim.
- Ah, não! Sério?
- Não.
- Não minta pra mim...
- Cordelia, me diga uma coisa...
- O que?
- Essa não é uma lanchonete gay, é?
- Não, mas aquele cara ali atrás é.
Wesley olha para trás, vê o homem, e então pensa...
- Será um espião do bar? Talvez eles estejam me seguindo... Deus, ele olhou pra mim... Calma, calma, é só eu agir naturalmente...
Wesley olha para o outro lado rapidamente.
- O que foi, Wesley?
- Ai, meu pescoço... Dei um mal jeito...
- Tá tudo bem?
- Sim, sim... Ai... Como você sabe que ele é gay?
- Ora, o que é aquele lenço no pescoço? Ele é um aviador do começo do século, ou o que? Olha como ele toma aquele café, segurando o copo com o dedinho levantado...
- Você nota tão bem as pessoas... Eu queria ter um dom assim... Mas não tenho nada de especial.
- Você têm.
- O que?
- Hã...
- Sim?
- Já sei! Você têm vontade de ajudar...
- Como eu fiz com Faith?
- Você tentou... Nem sempre você consegue, mas está melhorando. Você me viu, notou que eu precisava de alguém, e veio até aqui. E me ajudou.
- É, sou muito bom em ajudar as pessoas...
- Não força.
- Tudo bem...
Wesley fica sem graça.
No escritório, Angel caminha de um lado para o outro. Ele sente a falta de Wesley e Cordelia, e lembra de Doyle e qual era seu objetivo ao abrir o escritório. Não apenas ser um herói, mas se aproximar das pessoas, como ele não está fazendo com Cordelia e Wesley. Mas Angel acha que deve passar o dia de hoje sozinho, para depois tentar se abrir. Angel pensa de onde tirou sua vocação para herói...
Los Angeles, 1950
Angel conseguiu dinheiro para se hospedar em hotel barato por uma noite. Quando está no corredor, indo para seu quarto, nota que a porta de um dos quartos está entreaberta, então ele olha e vê que a camareira está sendo mordida no pescoço por um homem. Angel entra no quarto e empurra o homem no chão.
- Saia daqui... - Angel fala para a mulher e então olha para o pescoço dela, cheio de sangue fresco. - Vá embora!
- Vá em frente, nós dois sabemos o que você quer, podemos dividi-la!
Angel olha para o homem no chão e nota que é Christof. Então olha para a mulher com seu rosto vampirizado.
- Saia! - Angel rosna.
A camareira sai correndo e gritando. Angel se vira para Christof, o agarra e se atira pela janela com ele. Quando caem no chão, Angel bate várias vezes em Christof, que está caído.
- Isso, desconte sua raiva! Bata mais forte!
Angel se dá conta que perdeu o controle, então levanta Christof pela gola da camisa e o joga no chão.
- Você não vale a pena.
- Você luta contra vampiros e defende as pessoas... Por que?
- Eu não posso ficar do lado de animais como você.
- Mas você é como eu!
- Não, eu tenho uma alma.
- E daí? Seu coração não bate, você precisa de sangue para sua sobrevivência, têm força sobre-humana... Você é um vampiro.
- Mas eu tenho sentimentos, eu me arrependo das coisas que fiz... E você? Você não sente nada, não é nada.
- Você não é uma pessoa, nunca será. Siga sua natureza.
- Me diga quem é você, não foi coincidência ter me encontrado em Boston e agora, 20 anos depois, em LA, você estava hospedado no mesmo hotel que eu.
- Eu era seu fã, Angelus...
- Do que está falando? Como conhece esse nome?
- Foi você... Que me tornou o que eu sou hoje.
No presente...
Já é quase noite, mas Cordelia e Wesley continuam na lanchonete, conversando.
- Não, você não pode voltar pra Inglaterra!
- Por que não, Cordelia? Sabemos que eu não faria falta aqui...
- Como não? Você ajuda com os demônios, é prestativo, inteligente...
- Vocês arranjariam alguém melhor.
- Não é qualquer um que conhece tão bem os demônios.
- Não é qualquer um que conhece melhor os demônios do que as pessoas...
- Não, esse é o Giles.
- Olha, Cordelia...
- Não. Essa história toda de demônios não é o que importa. Angel precisa de você, e...
- Angel não precisa de mim.
- Precisa, sim. Ele pode não saber disso ainda, mas ele precisa de você, e eu preciso de você.
- Por que?
- Porque nós somos amigos. Se não fosse você, eu estaria sozinha aqui, agora. Não se acha amigos por aí como se acha... Vampiros em Sunnydale...
- Boa analogia. Mas é por isso mesmo que eu não fui embora ainda... Vocês são meus únicos amigos.
- Eu que ando pensando no que fazer com minha vida... Eu gosto de trabalhar no escritório com você e Angel, mas eu quero algo mais.
- Marido? Filhos?
- Não, vira essa boca pra lá! Ah, que coisa mais britânica...
- Nunca diriam isso para mim se eu estivesse na Inglaterra... Acho que vou me mudar.
- Wesley, o que foi isso?
- Isso o que?
Wesley olha para os lados, achando que Cordelia viu algo suspeito.
- Isso que você falou agora... Foi uma piada?
- Hã... Não.
- Foi, sim.
- Tudo bem, foi sim... Achou engraçada?
- Não. Mas eu não esperava.
- Pronto. Nunca mais contarei uma piada.
- Hahahaha .. Isso foi uma piada, né?
- Não.
- Pena, porque foi engraçado.
- Droga. Então, o que você quis dizer com "algo mais"?
- Ah, sei lá. Esse negócio de atriz não vai funcionar... Às vezes sinto que LA não é o lugar certo pra mim.
- Também está pensando em se mudar?
- Se eu tivesse um lugar pra ir, talvez...
- E quanto à Sunnydale?
- Isso é uma piada, né?
- Nã... Quer dizer, é.
- Não teve graça.
- Droga. Mas você não pode ir para lugar nenhum.
- Por que não?
- Se você não trabalhasse no escritório, eu teria que preparar o café que tomo quando chego. E sim, isso foi uma piada.
- Foi boa.
- Obrigado. Cordelia, acho que nós subestimamos tudo o que Angel já passou... Vamos dar mais um tempo pra ele.
- É, acho que nos preocupamos demais com nossos problemas, e não tivemos muita paciência com Angel.
- As dificuldades de relacionamento dele nos lembraram como estamos solitários...
- Mas acho que se nos ajudarmos, podemos todos superar isso.
- Vamos deixar Angel sozinho por hoje, só pra ele notar que precisa de nós.
- Certo. Já está escurecendo, vou pra casa.
- Vou te acompanhar.
Quando saem, Wesley e Cordelia não notam que o demônio que Howard deixava preso em sua casa está escondido atrás de alguns arbustos, observando-os.
Glasgow, 1800
Angelus e Darla assombram um bairro na Escócia em uma de suas viagens pelo Reino Unido. Todas as noites, pessoas estão morrendo. Desta vez, eles atacam 4 descuidados amigos que passeiam em uma rua escura. Darla aparece na frente deles, para chamar atenção.
- Olá... Estou perdida... Os gentis cavalheiros poderiam me ajudar?
- Acredito que sim, em troca nós só pedimos um pouco do seu amor... - Um dos homens fala.
- C-como assim?
- Eu lhe mostro.
O homem ri com seus amigos. Então quando ele se aproxima de Darla e tenta tocar nos seios dela, Angelus aparece atrás dos 4 homens, e quebra o pescoço de um deles.
- Vocês realmente não sabem como tratar uma bela dama, poderiam ao menos ter oferecido um pouco de comida... Mas tudo bem, eu mesmo faço isso. - Angelus fala e atira um dos homens para Darla. - Bom apetite.
Angelus pega um deles e morde, enquanto o outro foge.
- Angelus, ele está fugindo. - Darla fala sorrindo, com a boca cheia de sangue.
- Ótimo, um pouco de emoção. Guarde este aqui para mim, odeio deixar a comida esfriando, mas prefiro caçar a refeição. - Angelus atira no chão homem que estava mordendo.
Angelus corre atrás do fugitivo. Ele não vê o homem, que está escondido atrás de uma árvore, bem perto dele. Angelus passa correndo pela árvore sem ver o jovem, que decide correr para o outro lado, mas Angelus aparece na frente dele e o segura.
- Por que foges de mim? Só porque matei teus amigos, achas que sou mau? Ou não gostas de minha aparência? Isso é injusto.
- Imploro-lhe que não me mate!
- Tens certeza?
- Sim!
- Não costumo ceder, mas... Feito.
- Eu lhe agradeço...
- Qual o seu nome?
- Christof, senhor...
- Christof, lhe apresento a eternidade.
Angelus morde Christof.
- Socorro!
- Silêncio. Agora é sua vez...
Angelus mostra seu punho, e faz um corte em si mesmo com uma pequena faca.
- Não...
- Não quer viver?
- Quero.
- Se beberes meu sangue, viverás para sempre.
- Eu...
-Beba!
Angelus coloca a boca de Christof em seu punho, e ele bebe o sangue.
No presente...
Angel continua pensando na história de Christof, enquanto olha pela janela.
Los Angeles, 1950
- Não!
- Sim, Angelus, você sabe que foi você.
- Eu sinto muito...
- Não sinta. Quem é o monstro agora?
- Pare...
- Depois daquela noite, comecei a seguir Angelus por toda a Europa, sem você saber, vi você matar centenas... Até a maldição dos ciganos filhos da mãe, que destruiram a criatura mais desumana que já caminhou na Terra. Escondido, segui você quando veio para a América.
- Por que?
- Porque você é meu ídolo.
- Não, eu não. Ele...
Angel se senta no chão, com as mãos na cabeça, desesperado.
- São dois lados da mesma moeda. Ainda acha que não pode morrer, pois deve sofrer o que merece?
- Como assim?
- Ora, isso não é apenas sobre as pessoas que você matou, imagina quantos eu matei imitando você? Eu sempre quis ser tão bom quanto você na arte de matar... Eu tentei, mas é impossível.
- Por que está tão interessado na minha morte?
Angel balança a cabeça negativamente sem parar.
- Porque não aguento ver você, o maior desgraçado que já assombrou o mundo, se lamentando das coisas brilhantes que fez. Não aguento vê-lo rastejando.
- Não!
- Como?
Angel se levanta.
- Acho que você quer que eu morra para superar Angelus. Você só pode ser o maior assassino se eu estiver morto. Por isso quer que eu me mate, e porque não têm coragem de tentar fazer isso. Angelus não tinha medo de nada, você não quer ser como ele?
- Não me provoque.
- Ou o que? Você não me assusta, e eu ainda não esqueci como se mata. Vá embora!
- Esta não será a última vez que nos encontraremos...
Quando Christof se vai, Angel se ajoelha e olha para o céu pedindo a absolvição.
No presente...
Wesley e Cordelia chegam na porta do apartamento dela, e param.
- Acho que era isso...
- Sim, presumo que sim, Cordelia.
- Bom, tchau, então.
- Até amanhã.
Cordelia se aproxima de Wesley e dá um beijo no rosto dele, mas não sai de perto.
- Wesley...
- Acho que não devemos...
Eles já estão quase se beijando...
- Não mesmo...
A porta é derrubada e o demônio de Howard se atira na direção dos dois, que se desviam e vão para dentro do apartamento. Cordelia tropeça e Wesley vai ajuda-la a se levantar, o demônio pula em direção à eles.
Manhattan, 1996
Angel caminha pela rua em uma fria noite de New York. Ele carrega uma sacola, com algumas roupas dentro. Alguém se aproxima por trás, mas Angel percebe.
- Mais um passo e seja lá quem você for, não me responsabilizarei pelos meus atos...
Angel se vira, e é Christof.
- Eu disse que nos encontraríamos de novo, Angelus.
- Na verdade, você me encontrou de novo.
- Eu soube que você vai viajar...
- Acertou.
- Vai para LA, não é?
- É a cidade dos anjos...
- Sim, é. E você será um anjo do mal ou do bem?
- Um anjo procurando um caminho para seguir.
- Você fala como se tivesse escolha...
- Vai começar essa história mais uma vez? Porque 3 vezes no mesmo século é difícil de suportar essa chatice.
- Não, desta vez eu quero ajudar.
- Agradeço a preocupação, mas não preciso...
- Eu sei o que você vai ver em LA.
- Para o seu bem, não me siga desta vez.
- Essa nova Caçadora... O que você pretende? Quer que ela te mate? Ah, não, já sei. Você quer ajuda-la, não é? O lendário assassino, Angelus, quer ajudar uma Caçadora... Tenho certeza que ela irá confiar e amar você... Patético.
- Posso ir agora?
- Eu não vou impedi-lo...
- Ótimo.
Quando Angel se vira para o outro lado, Christof tira um estaca do bolso e corre até ele. Angel se vira novamente e coloca a mão esquerda na frente da estaca. A estaca fura a mão dele, mas com a mão direita ele arranca a estaca, e enfia no coração de Christof.
- Você nunca será um herói, Angel...
Christof vira pó.
No presente...
Angel chega destruindo a janela do apartamento de Cordelia, ao se atirar de fora para dentro do lugar. Ele cai no chão e rola até ficar na frente do demônio, que está indo na direção de Wesley e Cordelia. Angel agarra o demônio e o joga pela janela quebrada. Angel olha para baixo, e vê o demônio morto, então ele ajuda Cordelia a se levantar.
1 minuto depois...
- Eu vim me desculpar por não ter conversado com vocês hoje manhã.
Wesley olha o para demônio aos pedaços lá embaixo.
- Está desculpado.
Cordelia olha para a janela destruída.
- Não acredito que você destruiu minha janela...
- Da próxima vez eu entro pela porta enquanto o demônio come vocês...
- Não, era um demônio Horyk... Ele nos esfolaria vivos, mas não comeria. - Wesley fala.
- Alguma idéia do que esse demônio fazia aqui?
Depois que Angel pergunta, ele ouve um barulho no corredor, olha e vê um homem careca correndo. Angel vai atrás dele e o pega. É Howard.
No escritório...
Wesley e Cordelia estão sem jeito depois do quase beijo da noite anterior. Angel está embaixo, em seu apartamento. Cordelia então derruba alguns papéis no chão, Wesley vai ajuda-la, mas quando se abaixa, ela está se levantando, então eles se batem de cabeça.
- Ai!
- Me desculpe, Cordelia. Olha, sobre ontem à noite, antes do demônio aparecer...
- Não temos nada para falar sobre isso, nada aconteceu.
- Mas quase aconteceu.
- Se algo quase aconteceu, eu não lembro, agora quando batemos as cabeças eu me esqueci...
- Eu só quero dizer que, se tivesse acontecido aquilo que quase aconteceu e você não se lembra, teria sido...
- Um erro.
- Exatamente. Nós estávamos confusos, e estamos solitários, e uma coisa leva a outra...
- Eu sei, está tudo bem.
- Aquilo não seria a resposta.
- O assunto está encerrado, por mim.
- Ótimo.
Eles sorriem.
- E sobre aquele Howard, hein? Ele tinha um demônio como bichinho de estimação?
- Acho que era o contrário...
- E onde se acha demônios para vender?
- Eu sei onde, posso te levar em um lugar... Uma feira de filhotes do Inferno.
- Hahahaha... Isso foi uma piada, não foi?
- Não.
- Bom, eu não quero ir nesse lugar.
- Que bom.
- E o que você quis dizer com aquele "acho que era o contrário..."?
- Bem, pelo que você me contou do seu rápido encontro com Howard no banco, e pelo que eu notei dele, quando o vi te espionando, ele têm graves problemas para se aceitar como é, digo a aparência dele...
- Baixinho, gordo e feio?
- Sim. Ele provavelmente usa o demônio para se vingar de qualquer um que não o tratou bem, na opinião dele...
- Ouvi falar que ele já havia matado 7 pessoas...
- É, ele deixou o demônio o dominar... Quem estava preso na verdade era ele mesmo, enquanto o demônio estava livre para fazer a única coisa que sabia, matar. Foi para matar que ele o comprou. Os Horyk são obedientes, por isso matavam quem Howard pedia.
- Que loucura. Mas Howard foi preso sob qual acusação?
- Ele admitiu ter mandado matar aquelas pessoas, e sabia exatamente como as mortes tinham acontecido... Os policiais não acreditaram na história do demônio, e estão procurando uma pessoa que supostamente matava as pessoas, sob as ordens de Howard.
- Vão procurar pra sempre... Pior pra nós, que tivemos que esconder pedaço por pedaço aquele demônio fedorento...
- Angel sempre deixa o trabalho pesado pra nós...
- Falando nele, será que ele não vai sair do buraco hoje?
- Acho que a história de Howard o afetou, mostrou pra ele que todos têm seus demônios para enfrentar... E Howard não soube. Deixou-se ser dominado. Poucos suportariam o que Angel suporta... Espero que ele se dê conta disso. Depois de tudo que passou, Angel ainda se reergueu e agora ajuda as pessoas. Angel está deixando seus demônios dentro de si e se recuperando, enquanto outros soltam os demônios e desaparecem.
- Angel não se dá o valor que merece...
- Mas nós podemos ajudar.
- Se ele deixar...
- Ele vai... É só darmos um tempo pra ele.
Em seu apartamento, embaixo do escritório, Angel está mais satisfeito consigo mesmo. Relembrando momentos de seu passado, ele notou que o que ele conseguiu, o que ele se tornou, era muito improvável. É algo que dá um sentido a sua existência. E foi só pela vontade de se recuperar que ele se tornou o que é hoje em dia. O que ele é? Angel acha que é apenas alguém que tenta fazer o melhor que pode, todos os dias. Talvez tudo se resuma nisso. E apesar de achar que ainda merece sofrer, é impossível não pensar se ele também não merece um algo mais além da gratidão que recebe das pessoas que ajuda, algo mais além de viver pelos outros. Afinal, essa é sua única satisfação no mundo. É isso que o mantêm. E ele realmente acha que é bom há muito tempo e que se pudesse ter alguma felicidade, isso o ajudaria a lutar contra demônios, e contra seus próprios demônios. Mas ele não se acha injustiçado. No final de tudo, Angel percebe que esta não é a questão. A questão é acreditar em um amanhã melhor. E por incrível que pareça, Angel acredita. Ele não sabe explicar, mas ele percebe que a cada dia que passa, a cada lição que aprende, a cada alma que salva, ele nota que recupera um pouco de sua própria alma. A questão é acreditar no ele faz. E ele agora acredita. Mas e sobre Wesley e Cordelia? Qual é o papel de seus amigos nessa história?
Sunnydale, 1998
Buffy e Angelus travam sua luta derradeira na mansão Crawford, enquanto Xander, com o braço quebrado, briga com vampiros e tira Giles daquele lugar. No hospital da cidade, Willow, seriamente machucada, faz um feitiço para reaver a alma de Angel.
Essas lembranças passam lentamente pela cabeça de Angel, que finalmente entende.
No presente...
Angel sobe até o escritório, onde estão Cordelia e Wesley.
- Preciso falar com vocês dois.
- Tudo bem. - Cordelia fala.
- Qual é a questão, Angel?
- A questão, Wesley, é que eu preciso de vocês. Sem vocês, eu não conseguiria. É tudo difícil, mas vocês estão sempre presentes. Talvez até abdicando das suas vidas pessoais para isso, às vezes. Eu quero dizer que o trabalho que estamos realizando, é de nós todos. Nós somos uma equipe e vocês são fundamentais pra mim. E se um dia, eu chegar a ser algo mais, vocês terão sido decisivos. Vocês me fazem acreditar em algo mais. E é isso que me motiva. Essa é a questão.
FIM
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