UM POUCO DIFERENTE por Luciano Milici
A menina, como todos da cidade, havia sido avisada sobre os perigos de andar pelas frias e escuras ruas à noite.
Os adultos falavam sobre assaltantes, estupradores e outros tipos de monstros que vagavam na cidade molestando jovens meninas, presas fáceis e indefesas. Monstros horríveis, sanguinários e impiedosos. "Monstros invencíveis" diziam.
Da mesma forma, os amigos da escola falavam de heróis: Pessoas que enfrentavam os monstros e, invariavelmente, os destruíam. Seres extraordinários, com poderes e força incríveis.
Mas a menina, apesar de avisada, não acreditava em nada disso.
Saíra tarde da noite, escondida, para visitar o namorado que morava do outro lado da cidade.
Alheia aos avisos dos adultos e dos amigos da escola, a menina caminhava indefesa, sem notar a estranha presença que a observava e a seguia, espreitando nas trevas.
A figura não era humana, apesar das aparências.
Era uma espécie de morto-vivo poderoso, imune ao tempo e às doenças. Imortal, força sobre-humana e apetite voraz por sangue. Era um vampiro.
Pulando de telhado em telhado, aquele bizarro ser seguia a menina esperando a melhor hora para interceptá-la. Pescoço liso, macio, jovem. Sangue quente e pulsante.
Sem que a moça percebesse, o monstro desceu por uma canaleta e passou a segui-la pela calçada. Passos silenciosos de predador infernal.
Um breve som fez com que a moça olhasse para trás. Nada viu. O ser das trevas foi rápido e as sombras o acolheram.
A moça continuou andando, sem olhar para trás, passos rápidos de quem lembrou-se do aviso dos adultos.
O vampiro seguiu. Boas presas devem fugir, bons predadores deve caçar. Lembrou-se que, nessa cidade, haviam outros como ele e a última coisa que ele queria é que outro de sua espécie a encontrasse primeiro. Aí seria uma briga. E das feias.
A moça olhou para trás novamente e viu algo se escondendo rapidamente. Algo ou alguém? "Seria um monstro?". Pensou e riu para si.
De tão comum, a cena poderia ser descrita como um conto de fadas moderno: Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau.
Troque o casaco vermelho por um moletom velho e o lobo mau por um demônio sem alma sugador de sangue e o resto fica parecido. Toda cidade é uma floresta e a moça, indo visitar seu namorado, não levava doces consigo, mas a doçura do amor. Bonito, não?
Seria. Se o monstro, ao notar que sua futura vítima se aproximava de uma esquina, não resolvesse encurtar o conto de fadas e acelerar seus passos.
Correu, mas não alcançou a moça que, aparentemente ignorante ao fato, dobrou a esquina.
Rapidamente, o monstro fez o mesmo mas, para sua surpresa, a moça havia desaparecido! O quarteirão estava vazio, como se a moça fosse um fantasma, o que não era impossível uma vez que monstros existem realmente, dizem os adultos.
Antes que o atacante pudesse perceber o que estava acontecendo, a menina o surpreendeu surgindo por trás, agarrando-o e trançando os braços como se quisesse esmagá-lo.
Sem mesmo precisar olhar para trás, o vampiro exclamou:
- Buffy!
E virou-se para ela, que disse:
- Nós não havíamos combinado que eu iria até a sua casa, Angel?
- É que eu resolvi fazer uma surpresa!
Um beijo apaixonado selou o encontro do casal que continuou a caminhada de mãos dadas pela bela Sunnydale.
- Eu percebi que você havia me visto! - brincou Angel.
- Até parece... - respondeu a caçadora.
- Da próxima vez vou trazer uns amigos.
- Que tal se nós praticássemos durante o dia?
- Engraçadinha!
- Desde quando vampiros andam com estacas no bolso?
- Estaca? É que estou contente em vê-la!
- Angel!
- Brincadeira! É que você esqueceu essa lá em casa, na minha cama, e você sabe, eu tenho o sono agitado, de repente eu rolo na cama...
- Ia ser mais pó para faxineira aspirar!
- Buffy!
Assim, o casal de namorados seguiu pela calçada sem imaginar que morte, maldições ciganas e muito sofrimento os aguardavam na próxima esquina. Sua única certeza era que heróis e monstros existiam, só que não da forma como os adultos e os amigos da escola falavam.
Só um pouco diferente.
FIM
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