APÓS A MORTE
(Ghost Watcher)
Uma perturbada mulher, com fobia por espaços amplos, se vê em meio a uma crise após se trancar num apartamento que, apesar de ser aparentemente normal, revela-se mal assombrado. Buscando ajuda através da Internet, ela conhece uma charlatã que se diz caçadora de fantasmas. Porém, apesar de usar da má fé para enganar outras pessoas, ela verá que dessa vez o terror pode ser real e as conseqüências nada agradáveis.
CRÍTICAS
Nos últimos tempos, o Brasil está vivenciando uma verdadeira enxurrada de filmes obscuros feitos direto para o mercado de vídeo. Distribuidoras de todos os calibres, das majors às mais bagaceiras, têm enchido nossas locadoras com porcarias diversas, algumas delas realizadas em vídeo digital. A notícia ruim é que a maioria é lixo, como ETERNO, CIDADE SOMBRIA e SETE MÚMIAS. A notícia boa é que às vezes aparece algo minimamente interessante em meio às dezenas de tralhas. Arrisque uma espiada em APÓS A MORTE, tradução ridícula para GHOSTWATCHER (algo como "Observador de Fantasmas"), um dos lançamentos. Ainda que este filme bem amardozão esteja longe de ser algo brilhante ou memorável, há um pouco de imaginação e boas idéias aqui e ali para justificar pelo menos uma assistida num sabadão à noite.
Eu confesso ter ficado um pouco decepcionado ao voltar da locadora e, conferindo o trailer já em casa, perceber que era mais uma produção amadora em vídeo digital - até porque raramente sai algo de bom nesse estilo. E eu também estava escaldado após a bomba CIDADE SOMBRIA. Mas o trailer de APÓS A MORTE era minimamente interessante, com uma frase que deixa o cara curioso: "Imagine se você não pudesse sair de casa, mas algo não te deixasse ficar".
A história é centrada na bonitinha Laura Kove (Jillian Byrnes). Ela passou por um forte trauma no Halloween do ano anterior, quando foi perseguida por um maníaco (Michael Myers?), e desde então não sai mais de seu apartamento. Ela sofre de agorafobia (medo de lugares abertos), e portanto vive fechada, considerando-se segura atrás da porta com diversas trancas e um sistema de alarme que não permite a entrada de invasores. Laura trabalha como publicitária pela Internet, recebendo serviços por e-mail e telefone, e a única visita "humana" é da amiga Nikki (Marianne Hayden), que volta e meia aparece para lhe entregar mantimentos e cigarros. Uma vida triste e solitária, em resumo...
Pois não demora muito para estranhos fenômenos começarem a assombrar a solitária Laura. Primeiro ela é atacada pelo seu grampeador (sério!); depois vê-se às voltas com a luz do armário, que não pára de acender sozinha; por fim, os remédios no armário de seu banheiro trocam de lugar magicamente. Tudo muito assustador, não é? hehehe. Brincadeirinha. Logo a assombração no apartamento de Laura mostra a que veio. Uma noite, ela deixa sua filmadora ligada no quarto para registrar a possível entrada de algum intruso, acreditando que quem está aprontando com ela é algo "humano". Então ela capta uma aparição fantasmagórica e resolve pedir ajuda. Porque, devido à agorafobia, por mais assustada que ela fique, não consegue fugir dali. Legal, não?
Fuçando pela Internet, a garota encontra uma página chamada "GhostWatcher" (olha o título do filme ali!), administrada por uma suposta "especialista" no assunto chamada Elizabeth Dean (a gata Jennifer Servary, em seu único filme até o presente momento). O site está repleto de webcams aparentemente ligadas em casas assombradas e coisas do gênero. Mas a parte mais interessante é o "serviço de assinante", onde uma webcam revela algo menos fantasmagórico e mais excitante sobre a bela Elizabeth. Porque até os caça-fantasmas precisam apelar pra pornografia na hora de ganhar um dinheiro extra, não é verdade?
Mesmo percebendo que o serviço não é lá muito confiável, Laura não vê outra alternativa para resolver seu problema de assombração e "contrata" Elizabeth. Acostumada com todo tipo de malucos, a cética caça-fantasmas não acredita em uma palavra da traumatizada agorafóbica, mas mesmo assim tenta ajudá-la, deixando no apartamento da cliente alguns aparelhos para captar fantasmas. Depois, sai investigando por conta própria o mistério por trás do ataque que deixou Laura traumatizada, no Halloween anterior. Ela descobre que um psicopata chamado Malcolm Dixon, obcecado pela garota, matou toda a sua família e depois cortou-a com um punhal. Em seguida, desapareceu misteriosamente, deixando Laura com medo de um novo ataque. Será Dixon o fantasma que assombra o apartamento da moça, ou haverá algo mais?
APÓS A MORTE tem uma história bem diferente. Pena que o melhor do filme seja enquanto os personagens estão confinados no claustrofóbico apartamento de Laura, monitorando as aparições fantasmagóricas através de gravadores ativados por voz (algo que lembra o recente VOZES DO ALÉM), equipamentos especiais para monitorar movimento e webcams. Quando o roteiro sai do apartamento e leva as personagens para uma casa abandonada distante dali, a maionese desanda e o filme começa a perder o rumo. Até porque, a partir deste momento, ficam bastante óbvias as limitações da produção, e vem à tona aquele ar trash de filme amador.
Vou apenas dizer que, numa das boas cenas de suspense destruídas pela produção paupérrima, Elizabeth e Nikki vão visitar um velho casarão quando está anoitecendo (óbvio!), em busca de algo ou alguém. Como Laura se recusa a sair de casa, a dupla leva câmeras e microfones para que a amiga possa acompanhar tudo do seu próprio apartamento, pelo computador - num toque A BRUXA DE BLAIR. Então, Elizabeth e Nikki passam por alguns acontecimentos apavorantes, e o espectador até fica meio tenso com aquele clima de câmera amadora, sacudindo para lá e para cá... Infelizmente, porém, logo aparece um zumbi pra lá de fajuto, com uma maquiagem de teatrinho de jardim-da-infância, perseguindo as duas garotas, e aí o filme resvala de vez no ridículo. Sério: dá vontade de desligar e ir correndo para a locadora pedir o dinheiro de volta! Mas não faça isso, continue firme até o fim. Embora sejamos brindados com mais algumas cenas bem imbecis, APÓS A MORTE tem uma conclusão decente e bem realizada, sem o excesso de efeitos especiais e violência explícita que caracteriza os filmes amadores do gênero.
Também é preciso valorizar pelo fato de APÓS A MORTE ser um projeto dos sonhos do seu realizador, David A. Cross. Este é seu primeiro filme, e o pobre coitado fez praticamente tudo: dirigiu, escreveu o roteiro, editou, produziu e até compôs as músicas da trilha sonora! Ele até consegue criar um clima de suspense na primeira parte e consegue manter a atenção do espectador mesmo quando viaja um pouco além da conta. Mas percebe-se claramente a pobreza da produção, e isso atrapalha um pouco o resultado (principalmente nas cenas que envolvem maquiagem e efeitos especiais). Cross também precisa aprender a utilizar os efeitos sonoros de maneira eficiente. Numa cena, por exemplo, Laura está trancada em seu apartamento e um blecaute a deixa no escuro. Dois raios iluminam a sala e a moça sozinha; quando o terceiro raio ilumina o cenário, há um fantasma deformado ao lado da moça, mas o susto passa batido porque não vem acompanhado daquele "TCHAMMM" característico - a que o cinema de horror atual nos acostumou, diga-se de passagem...
Mas mesmo que o "faz-tudo" Cross seja bem-intencionado, alguns momentos grosseiros do roteiro são imperdoáveis, como o fato de Laura identificar com a maior facilidade um trajeto de 30 quilômetros que fez... encapuzada!!!! Sim, porque ela garante ter "sentido os movimentos do carro" onde estava presa virando à esquerda e à direita, pode? Isso sim que é memória!!! Outra que é difícil de engolir é o fato das moças serem perseguidas por um morto-vivo homicida numa noite e, no dia seguinte, praticamente esquecerem tudo para realizar uma festa de Halloween com os amigos - e Laura até chega a esquecer temporariamente da sua agorafobia para sair do apartamento e ir à festa, na casa de Elizabeth, quando antes não saía do lar nem amarrada. Cross também comete aquela típica mancada de diretor estreante, de achar que heavy metal combina com cenas de horror e violência...
Se APÓS A MORTE chama a atenção é pelo roteiro bem construído, que envolve uma interessante investigação e não entrega logo seu mistério. A maneira como trata a possessão espiritual também é diferente da média do gênero - uma personagem, após possuída, chega a comentar que "era como se estivesse respirando debaixo d'água". Há, ainda, a coragem do diretor de ter feito um filme com poucos personagens (na maior parte do tempo, apenas Laura, Elizabeth e Nikki estão em cena), e todos os personagens principais são mulheres - bonitas, por sinal. Só aí, já foge do feijão-com-arroz das produções recentes e vale uma olhada.
O problema, como eu disse anteriormente, é o fato da produção ser muito fraca, o que compromete os sustos. Teria sido bem melhor se Cross mantivesse a história apenas na sugestão, sem representar mortos-vivos e possuídos, pois não tinha dinheiro nem efeitos razoáveis para tanto. No fim, APÓS A MORTE é um belo "rascunho" de filme: com algumas correções nos pontos falhos do roteiro, uma produção melhorzinha e uma manipulação mais caprichada dos sustos e momentos de horror, poderia virar um filmaço - com alguém como John Carpenter no comando.
GHOSTWATCHER foi lançado nos Estados Unidos em 2002 e só está chegando aqui no Brasil em 2005 - ironicamente, o mesmo ano em que o mesmo David A. Cross lançou, nos EUA, seu GHOSTWATCHER 2, trazendo de volta as personagens sobreviventes do filme original para mais uma investigação fantasmagórica. Aí está um cara que acredita em seus projetos... Só falta darem um pouquinho mais de dinheiro para ele poder fazer filmes melhor produzidos! Mas está no caminho certo.
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Felipe M.Guerra