O que faz de um filme um Cult-Movie?
Muito tem se falado a respeito do filme Blade Runner: O Caçador de Andróides - dirigido por Ridley Scott -, desde que foi lançado no já distante 1983, já portanto há 20 anos. Confesso que eu, quando o assisti a primeira vez nos distantes anos 80 detestei. Achei um filme sem sentido algum e muito, mas muito chato.
Bem, o caso é que na época eu tinha apenas 10 anos de idade, acreditava em muitas coisas, como por exemplo em Deus, na igreja e no governo. Tempos bons aqueles, de inocência infantil. Era como um Adão vivendo no paraíso. O problema foi que ao comer a fruta do conhecimento, fui expulso do paraíso. Para sempre.
Passados 20 anos, algumas produtivas leituras de filosofia, história, da própria bíblia sob uma ótica mais livre e menos restritiva, que aliás resgatou a grandeza do livro dito "sagrado" (ao meu ver, é realmente sagrado, se é que essa palavra se aplica a alguma coisa nesse mundo, do ponto de vista dos imaginários coletivos, mitologias e obviamente da poesia), mudei o meu ponto de vista. Acho extremamente sem graça os filmes recheados de explosões, tiros, os malditos "diálogos afiados ". Atualmente prefiro os conceitos. Procuro as mitologias. Os enigmas (se bem que isso também está ficando extremamente banalizado).
Mas vamos falar sobre o "Corredor de Lâmina". Sim, essa é a tradução literal do título do filme. É baseado no livro Do android dream a eletric sheep? de Philip K. Dick. , um dos "cultuados" autores de FC modernos, já falecido. Como não li o livro em questão, resta-me falar sobre o filme.
No filme, vive-se em um futuro apocalíptico no qual a Terra extremamente povoada, poluída e globalizada é habitada pela escória (esse comentário não é meu, mas de personagens do próprio filme) da raça humana: Pessoas sem qualificação profissional, de países subdesenvolvidos ou pessoas com propensão a desenvolver doenças genéticas. Claro que ainda há algumas pessoas "qualificadas" para cuidar da desordem, mas são uma minoria. Já os andróides são proibidos na Terra. Triste. Quanto a elite da sociedade, os ricos, os belos geneticamente, enfim, habitam o espaço sideral, onde vivem sendo servidos por escravos andróides.
Os andróides são extremamente parecidos com os humanos, por isso são conhecidos pelo nome de replicantes, tendo inclusive a capacidade de pensar. Até um certo nível são humanos o que desagrada profundamente a opinião pública. São criados capacitados para o trabalho e com capacidade de aprendizado. No entanto, vivem apenas 5 anos, o que impede que desenvolvam emoções como as dos humanos, pelo menos é o que a opinião pública pensa.
Temos aí um dilema: o criador cria a criatura, mas não quer que a mesma seja como ele, a exemplo do livro do gênesis no qual o homem é proibido pelo criador de comer a fruta da árvore do conhecimento. Uma pessoa que acredita em Deus poderia traçar um paralelo ótimo entre as pessoas e os replicantes, visto que também temos um período de vida limitado, o que nos impede de viver o suficiente para superarmos o criador. Os criador(es) são sacanas, não?
Alguns andróides se rebelam com a situação. Fogem à Terra, ou melhor, ao inferno procurando seus "criadores" em busca de uma solução para suas vidas curtas. Em dado momento, os andróides matam humanos (cadê as leis da robótica de Asimov?) em busca de seu "Santo Graal", mais ou menos como alguns ateus (eu incluso) matam o dito "criador", apagando-o de suas vidas.
Nesse ponto surge o "herói" do filme. O caçador, representando a lei e a ordem, que caça os andróides, matando-os. Sim o criador castiga, é cruel e violento. Há um segundo enredo, na qual somos apresentados a uma bela andróide, diferente dos outros. Ela tem memórias artificiais (um dos temas preferidos de Phillip K. Dick) e vive mais tempo (esse detalhe só é revelado no final) e existe a suspeita de que o próprio caçador seja um andróide. Temos então novamente a dicotomia homem-criador. Onde acaba um e começa o outro?
Há uma intensa perseguição, no sentido figurado, é claro, no qual os andróides são mortos, ou morrem sozinhos pelo dispositivo de salvaguarda, menos um, o líder, interpretado pelo grandioso ator holandês Rutger Hauer (na verdade, o único ator de verdade do filme), que aliás, acredito ser o personagem principal do filme. Temos um grande encontro entre criador e criatura, o homem e o andróide, o caçador e o caçado. Só que nesse momento o papel se inverteu: o caçador vira a caça, está desarmado e prestes a cair do alto de um edifício. A inversão se acentua, e o andróide salva a vida do caçador. Nesse momento ele torna-se o humano. Uma mensagem piegas, é verdade, mas interessante.
O porquê de tal atitude se explica pelo fato do replicante estar morrendo vítima da "salvaguarda dos 5 anos". No final de sua triste vida, ele talvez acredite que nada é mais valioso que a vida. Mesmo a de um caçador, que exterminara vários de seus colegas. Ou talvez estivesse pedindo perdão ao criador pelos seus pecados. É comum alguns ateus convictos fazerem isso (nessa eu não vou cair não) e salvarem o "criador". Leonardo Boff relata o caso de Darcy Ribeiro. Triste mas cai como uma luva.
No final o caçador leva a mocinha andróide pra passear. Há uma série de questões e personagens secundários que não foram abordados aqui. O que é humano? O que não é? Por que o Harrison Ford aceitou fazer esse filme, se ele não entendeu o roteiro? A última é mais fácil. Porque ele pensou que todo filme de FC seria sucesso depois de Star Wars e é menos inteligente do que eu.
O filme foi um estrondoso fracasso. As platéias da época esperavam algo mais tipo "Indiana Jones", ou uma aventura escapista, não um filme que levantasse questões. Com o tempo porém, o filme ganhou um status cult, sendo revisto em cinematecas e tornou-se um sucesso em vídeo.
Talvez se tivesse sido produzido em 1968 o filme teria sido um sucesso. Poderia ser a antítese de 2001 de Stanley Kubrick.
Alessandro Julien de Souza
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CURIOSIDADES
- Inicialmente, Dustin Hoffman foi o ator escolhido para interpretar o personagem de Harrison Ford, Rick Deckhard.
- O comerciante de cobras que aparece na rua tem uma minúscula tatuagem na nuca. Se você observar a imagem vai reconhecer a nave Millenium Falcon, pilotada por Harrison Ford em Star Wars.
- A Millenium Falcon também pode ser vista em outra cena. Repare na seqüência em que Deckard e Gaff se aproximam do quartel da polícia: no canto esquerdo inferior do enquadramento, uma réplica da nave pode ser vista, dando a impressão de ser um prédio. A produção decidiu usar este truque em cima da hora e, para isso, utilizou um modelo projetado por um dos designers de cenário do filme.
- Durante a decolagem do carro onde Deckhard se encontra, repare no vídeo mostrado na tela do computador do veículo. Em Alien, o Oitavo Passageiro (1979), também dirigido por Ridley Scott, o mesmo vídeo pode ser visto na tela do computador da personagem Ripley – note a palavra “purge”. A diferença é que, em Blade Runner, as imagens apresentadas são coloridas.
- Um erro que alguns espectadores notam diz respeito ao número de replicantes. Este equívoco é “consertado” na cotinuação da história, que nunca foi filmada. Na verdade, ela foi novelizada e lançada em forma de livro, onde revela-se que Deckard é o replicante remanescente. Ridley Scott fez uma declaração a respeito em julho de 2000, e causou muita discussão entre os fãs do filme. Harrison Ford deu uma entrevista dizendo que tinha feito um acordo com o diretor, onde ambos concordaram que “Deckard definitivamente não era um replicante”.
- A seqüência final do filme, na qual vemos Deckard e Rachael dirigindo pelo campo, contém imagens não utilizadas por Stanley Kubrick em O Iluminado (1980).
[Fonte Cinema em Cena]