CAMPO SANGRENTO
(The Greenskeeper)
Este thriller co-dirigido e co-escrito por Kevin Greene conta a história de um psicopata que ataca num clube country freqüentado pelos ricaços da cidade. As primeiras vítimas são atacadas com uma tesoura de cortar arbustos. Todos acreditam que os crimes foram cometidos por um funcionário do clube, tido como morto há anos. Allen, o filho da dona do local, passa a ter horríveis pesadelos envolvendo o assassino. Para seu desespero, ele acredita ter alguma conexão com o criminoso. Enquanto isso, alguns jovens sócios estão despreocupados com o perigo e organizam uma festa com muito sexo e bebidas. O assassino decide participar da festa, desta vez munido de equipamentos de golfe. Somando forças com a bela Elena, por quem é apaixonado, Allen tenta salvar os seus amigos e inicia um jogo de gato-e-rato com o psicopata.
CRÍTICAS
Cada vez que eu vejo uma bomba como CAMPO SANGRENTO, a primeira coisa que me passa pela cabeça é como tanta gente se envolve num filme tão ruim. Quer dizer: além dos atores propriamente ditos, pelo menos mais 30 pessoas trabalharam em CAMPO SANGRENTO: os diretores, os roteiristas, o cameraman, os produtores, os produtores-executivos, os técnicos de efeitos especiais, os dublês... Será que no meio de toda essa gente alguém realmente acreditava estar fazendo um bom filme? Pior: como é que estúdios ainda financiam slasher movies, o subgênero terrorífico mais batido da história do cinema? Será que eles acham que ainda podem tirar um sucesso de bilheteria da milésima trama sobre jovens sendo perseguidos por um assassino mascarado???
Bom, para quem não sabe, em 2001 eu mesmo me aventurei no território dos slasher movies, fazendo um filme amador que ganhou uma bela repercussão no país - até matéria na revista SET e reportagem na Rede Globo. Apesar de ser um grande fã dos velhos slasher oitentistas, eu sabia que ninguém mais iria engolir o filme se eu levasse a coisa a sério - Wes Craven já tinha pensado a mesma coisa bem antes, com sua trilogia PÂNICO. Por isso, meu ENTREI EM PÂNICO AO SABER O QUE VOCÊS FIZERAM NA SEXTA-FEIRA 13 DO VERÃO PASSADO é uma paródia do gênero, talvez a única forma de filmar outra trama sobre adolescentes sendo perseguidos por um maníaco.
Infelizmente, os produtores de CAMPO SANGRENTO não pensaram como eu. Eles devem ter imaginado que poderiam fazer um filme de terror assustador e interessante, apesar de mostrarem apenas os mesmos clichês de sempre, sem qualquer tentativa de inovar ou surpreender. Até introduzem um assassino com visual bacana, o "Greenskeeping" (Jardineiro, creio eu...), que usa um tesourão de jardineiro para matar nas primeiras cenas. Por isso, cheguei a pensar que era um remake disfarçado do ótimo THE BURNING, de 1981. Infelizmente, não é. Na verdade, nem sempre o Jardineiro Assassino usa sua tesoura. Às vezes, ele prefere despachar suas vítimas com acessórios encontrados no campo de golfe - sim, a história se passa num campo de golfe! Vê se tem cabimento!
Esta bomba é de 2002, mas acabou sendo lançada no Brasil apenas no final de 2004 - nem deveria ter chegado aqui! Acredite se quiser, mas TRÊS diretores são os responsáveis por este atentado ao bom cinema: Kevin Greene (também roteirista e ator), Adam Johnson e Tripp Norton. O roteiro é de Greene mais Alex Weir, e a produção teve um orçamento em torno dos 80 mil dólares (só não sei onde torraram tanta grana, pois o que vemos na tela parece ter custado 80 reais!).
A história (???) começa introduzindo o herói, um gorducho chato, bobo e antipático chamado Allen (um "ator" chamado, vejam só, Allelon Ruggiero!!! E que apareceu, vejam só de novo, em SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS!!!!!!). O mané está tendo pesadelos envolvendo um jardineiro assassino. Allen é, ele próprio, um jardineiro (ou melhor, assistente de jardineiro), trabalhando no country club do seu tio e padrasto. O rapaz é o perfeito "looser", mas mesmo assim tem uma namorada gostosona e riquinha chamada Mary Katherine (a delícia Allison Kulp), que quer realizar uma festa no country club, à noite, e para isso conta com o abobado Allen, que tem a chave dos portões.
Enquanto a festa é planejada, à beira da piscina, o professor de tênis surge, no "momento clichê" dos filmes do gênero: "Fazer festa aqui é uma péssima idéia! Vocês não sabem o que aconteceu há 15 anos?". E aí ele contra a história sobre o Jardineiro Assassino, que sobreviveu a um incêndio e ficou horrivelmente deformado - olha THE BURNING aí de novo! Por julgar que a culpa era do pessoal do country club, ele jurou matar todo mundo. Agora, e vejam só a inconsistência do roteiro, o tal Jardineiro vive numa cabana "abandonada" próxima ao country club, e em 15 anos ninguém nunca pensou em chamar a polícia ou mesmo o Exército para tirar ele de lá!!!
Logo que a festinha começa, todos vão sendo despachados brutalmente da mesma forma burocrática e sangrenta de sempre. Ou, para quem nunca viu um slasher movie antes (porque nasceu ontem): saiu para ir ao banheiro, para passear na floresta, para transar ou para fumar um, MORREU! Chega a ser incrível como o filme tira o espectador para otário, tentando criar algum suspense, quando qualquer um sabe que todos os manés do filme vão morrer e somente o Allen e o interesse romântico dele vão viver!!! Portanto, CAMPO SANGRENTO até teria certo valor se partisse logo para o besteirol assumido. Mas não, o filme prefere se levar a sério! Inventa uma reviravolta final (previsibilíssima, por sinal!!!!) para justificar os crimes do Jardineiro, e ainda um momento que é clichê desde STAR WARS, aquele em que o vilão revela ser o pai do herói - e não estou entregando nada, porque qualquer um vai deduzir isso desde a primeira cena do filme, tal o amadorismo do roteiro! E como tudo é levado tão a sério, o que fica no final é o gosto da enganação, pois a produção se transforma em comédia involuntária, sem assustar, sem ter suspense, enfim, sem nada!
Além disso, o roteiro todo tem um constrangedor "ar gay". Um personagem teima em achar que tudo é gay (de séries de TV a Jimi Hendrix), o policial do filme é gay (daqueles bem fiasquentos, que anda rebolando), a câmera dá closes em rapazes sarados de sunguinha ou na bunda branca dos mesmos rapazes quando eles estão seminus, e assim por diante. O cúmulo do homossexualismo é a cena onde uma mocinha, perseguida pelo assassino, liga para a polícia (o tal tira gay) e ele diz que está ocupado; no momento seguinte, vemos um oba-oba na delegacia, com os policiais dançando de sunguinha e sacudindo suas algemas, como se fosse um show do Village People!!! É o fim do mundo!!! E no meio desse festival de boiolagem, o único par de seios que aparece em cena (por alguns segundos) não chega a compensar.
Mas o mais constrangedor é o total amadorismo de todos os envolvidos. Tudo bem que os atores são ruins, mas isso já virou uma espécie de tradição em filmes de horror classe C. O que não dá para engolir é diálogos pavorosos como a mocinha rica se lamentando: "Meu pai só me deixa ter um BMW! Eu odeio ser pobre!". Ou então os dois caras conversando sobre como as belas moças fazem cocô: "Aposto que as gostosas cagam borboletas que saem voando, e nem precisam passar papel higiênico", filosofa o galã de rodoviária. Argh!!!
CAMPO SANGRENTO seria um festival de ruindade se não tivesse algumas cenas razoavelmente sangrentas. Nada que já não tenha sido feito antes - e melhor -, mas pelo menos mantém a atenção entre uma cena gay e um diálogo ridículo. Como eu escrevi anteriormente, o Jardineiro Assassino adora usar apetrechos de golfe para despachar suas vítimas, desde tacos até aquele aparelho usado para lavar as bolas de golfe (onde é colocado o pênis de um infeliz), passando pela ferramenta usada para cavar os buracos no gramado, que o assassino usa para "cavar um buraco" nas costas de um imbecil, na melhor cena do filme. Outras mortes incluem um prego enorme saindo de uma daquelas máquinas que disparam bolas de tênis (e que atinge um cara bem no meio da testa, fazendo jorrar um absurdo rio de sangue), e, na grande piada, um regador de jardim sendo enfiado no tórax de outro sujeito, fazendo jorrar jatos de sangue!!!
Pena que a execução de tudo seja primária. Talvez numa homenagem a Ed Wood, os diretores alternam cenas da festinha à noite com takes da sede do country club em plena luz de um final de tarde (!!!). Também insistem em usar raios para iluminar o assassino na noite escura, esquecendo-se que não está chovendo e nem há qualquer sinal de tempestade - e esquecendo também que um raio não cai meio segundo depois do outro, imagine então 10 deles em seqüência! Mas o mais grosseiro, o mais feio, o mais ridículo é o horrendo erro de montagem, quando vemos o ator que deveria estar morto e sentado numa cadeira de salva-vidas LEVANTANDO-SE!!!!! Acontece que a tal cena deveria ter sido mostrada num momento anterior, mas acabou indo parar ali, quando o cara já estava morto! Pode isso???
Se mesmo depois de tudo isso você ainda não se convenceu da ruindade do troço, deixem eu lembrar apenas que quando fui na locadora, meu amigo proprietário do estabelecimento queria me empurrar o filme DE GRAÇA. Depois, disse algo que eu ainda não entendi se é elogio ou ironia: "Até o teu filme é melhor que essa porcaria aí!". Na dúvida, vou encarar como se fosse elogio...
O mais interessante de CAMPO SANGRENTO é quando, numa curiosa auto-crítica, Allen e um amigo assistem, na TV, a um slasher movie "fake" chamado O LEITEIRO. Enquanto o amigo exalta os pontos positivos da produção, Allen, que sonha ser roteirista de cinema, sintetiza o tal filminho de uma maneira crítica, como se estivesse falando do próprio filme em que está integrado: "Tem um assassino mal-feito perseguindo adolescentes promíscuos, algumas cenas de nudez, algumas garotas... Provavelmente vai faturar uns trocados... Mas e onde está a arte?". Foi justamente o que eu me perguntei após ver esta bomba. É uma pena que para cada SAW - JOGOS MORTAIS tenhamos que aturar 30 CAMPOS SANGRENTOS...
HISTÓRIA: 
GORE: 
EFEITOS: 
DIVERSÃO:
Felipe M.Guerra