CLASSE DE 1984
(Class of 1984)
Andy é o novo professor de uma escola barra pesada americana, um local onde a entrada possui até mesmo um detector de metais para tentar conter a violência. Comandados por um jovem chamado Peter Stegman, os alunos vêem o professor como uma ameaça e tentarão agir de todos os modos mais assustadores para tentar impedi-lo...
CRÍTICAS
Alguns filmes não podem ser chamados de "filmes de terror" simplesmente porque não têm elementos sobrenaturais, como fantasmas, zumbis ou vampiros. Entretanto, estas histórias mais realistas, porém não menos violentas, acabam assustando ao abordar não o terror sobrenatural, mas sim o terror da vida real, aquele que vemos todo dia quando abrimos a janela de nossas casas ou saímos pra rua para enfrentar um novo dia. CLASS OF 1984, exibido nos cinemas e na TV no Brasil como CLASSE DE 1984 e lançado em vídeo com o título ESCOLA DA VIOLÊNCIA, é uma destas histórias assustadoras do cotidiano. Trata-se de uma produção barata e violenta realizada em 1981 por Mark L. Lester (o mesmo do "clássico" COMANDO PARA MATAR), e lançada no ano seguinte, 1982. Como o título em português já diz, a trama enfoca um futuro (na época em que foi feito) onde a criminalidade e a violência tomaram conta das escolas americanas, na forma de jovens delinqüentes.
O que mais chama a atenção é o quanto o filme é visionário: na época em que foi rodado, ele não passava de uma história de ficção escrita pelo próprio diretor Lester, com a ajuda de John C. W. Saxton (também escreveu o slasher movie FELIZ ANIVERSÁRIO PARA MIM) e do futuro diretor Tom Holland, que estrearia como cineasta em 1985, no cult movie A HORA DO ESPANTO. Tudo aquilo que o trio escreveu lá em 1982 hoje é uma triste realidade: alunos e professores vão à aula armados, há detectores de metais e policiais na entrada das escolas e os estudantes se preocupam mais com venda de drogas e brigas de gangues do que em aprender. Hoje isso tudo parece familiar - ainda mais com os massacres em escolas nos EUA, onde jovens malucos saem fuzilando professores e colegas. Mas naquele distante 1982 (mais de 20 anos atrás!), CLASSE DE 1984 era, ironicamente, uma obra de ficção!!!! Bons tempos aqueles!!!!!! O "1984" do roteiro, provavelmente, era uma referência ao clássico livro de George Orwell.
O roteiro enfoca o drama de um professor de música, Andrew "Andy" Norris (Perry King, que interpretou o presidente americano no blockbuster O DIA DEPOIS DE AMANHÃ). Ele é transferido para uma escola pública chamada Abraham Lincoln High School, que fica num bairro barra-pesada, para substituir um pobre coitado que, supostamente, se machucou gravemente ao "cair das escadas". O professor quer ensinar, mas a garotada não quer aprender. Acontece que a maior parte dos alunos são delinqüentes comandados por um riquinho chamado Peter Stegman (Timothy Van Patten, de CATACUMBAS), um daqueles vilões tão filhas da puta que dá vontade de chutar a TV quando ele aparece. O confronto entre Norris e Stegman é inevitável, pois o professor está decidido a mudar a triste realidade da sua turma, enquanto o jovem vê sua liderança ser ameaçada por aquele "adulto arrogante". O que começa como trocas de insultos e pequenos vandalismos logo evoluiu para a inevitável violência, incluindo humilhações, estupro, agressões e morte, claro.
Como eu já escrevi, não se trata exatamente de um filme de horror. Mas, para mim, nada é mais assustador do que uma história que realmente pode acontecer na vida real, como esta, onde os marginais se escondem atrás do fato de serem menores de idade para poderem cometer atos de violência e até de assassinato (algo semelhante ao que acontece hoje, principalmente no Brasil). Afinal, estes pequenos marginais sabem que nada vai lhes acontecer mesmo, de uma forma que a gente se pergunta: "Este é o futuro?". Dentro desta idéia, a frase no cartaz do filme é irônica e pessimista: "Nós somos o futuro, e nada pode nos impedir!". O pior de tudo é constatar que, no filme, uma minoria está na escola para aprender, e uma maioria para brigar, traficar drogas e arrumar confusão - muito semelhante, eu diria, às grandes escolas públicas dos nossos dias atuais. A música-tema do filme, chamada I´m the Future, é do roqueiro Alice Cooper.
Se à primeira vista CLASSE DE 1984 parece um daqueles dramalhões cheios de clichês sobre o confronto de alunos e professores (tipo MENTES PERIGOSAS, com Michelle Pfeiffer), pode esquecer: aqui não existe meio-termo e o pobre professor Norris acaba se rebaixando de ser humano a selvagem, descendo ao mesmo nível dos seus inimigos para aniquilá-los de forma violenta, vingando-se de tudo que sofreu ao longo do filme. O roteiro inclui algumas cenas fortes e memoráveis, como aquela em que um velho, amargurado e alcoólatra professor de biologia, chamado Terry Corrigan (interpretado pelo falecido Roddy McDowall, de A HORA DO ESPANTO), cansado de falar para as paredes e viver com medo, resolve levar um revólver para a sala de aula e ameaçar os estudantes de morte para conseguir lecionar. Quando o colega Andy tenta impedí-lo, a expressão de Terry é ao mesmo tempo melancólica e alegre, e ele diz: "Mas por quê? Veja só, eles estão até aprendendo!".
Mas o roteiro apela mesmo é para o sensacionalismo, e logo a relação dos professores com os alunos violentos começa a escapar do controle. Tudo acaba num duelo sangrento, com braços serrados a sangue frio, cabeças rachadas, pessoas incendiadas vivas e por aí vai. Um filme sensacionalista sim, mas mesmo assim intrigante e que mantém a atenção até o final. CLASSE DE 1984 também marca uma das primeiras aparições cinematográficas do futuro astro adolescente Michael J. Fox (este é seu quinto filme), interpretando Arthur, um dos únicos bons estudantes num universo de violentos marginais. E é claro que vai acabar sobrando para ele também, justamente por querer ser bonzinho e ajudar o professor...
Como todo bom filme sensacionalista (e este segue a linha do "clássico" DESEJO DE MATAR), o roteiro aqui é moralmente discutível, ainda mais quando o filme começa a mostrar o professor se revoltando e matando os alunos encrenqueiros que transformaram sua vida num inferno. Entretanto, da forma como a história é conduzida e considerando tudo que o "heróico" professor Norris sofre ao longo da 1h30min de projeção, nem o mais cruel dos neo-nazistas iria torcer contra o professor em sua sangrenta batalha contra os estudantes-problema. Mesmo que tenha envelhecido bastante (principalmente no figurino "punk chique" usado pelos jovens), continua um ótimo filme, que mantém a atenção do início ao fim. CLASSE DE 1984 ganhou má fama na época de seu lançamento, justamente pelo tema. Em uma das cenas, por exemplo, o desprezível Stegman encara Norris e diz: "Você precisa aprender que eu sou o futuro!". A produção custou pouco mais de 4 milhões de dólares e teve um grande retorno graças à polêmica, pois falando bem ou falando mal, muita gente foi ao cinema conferir o que havia de tão revoltante naquele filme. Parece até que professores "de verdade" protestaram, queixando-se da forma usada pelo professor no filme para resolver o impasse, e em diversos países as cenas mais fortes (estupro, braço serrado...) foram cortadas.
O diretor Mark L. Lester voltou ao tema em 1990, desta vez numa versão anabolizada para os "novos tempos". Como alunos marginais nas escolas públicas já eram uma realidade, e não uma obra de ficção, Lester apelou e fez CLASS OF 1999, por aqui lançado com o pomposo título de A GUERRA DOS DONOS DO AMANHÃ (uau!). Este sim envereda para o cinema de horror, ao enfocar uma escola do futuro (no caso, hoje já passado, pois era para ser em 1999), onde os alunos rebeldes tomaram conta da situação, até começarem a ser sistematicamente exterminados por três cyborgs disfarçados de professores. Também é uma produção barata, violenta e interessante, que vale a pena pela profusão de efeitos especiais nojentos e por algumas celebridades no elenco, como Malcolm McDowell e Stacy Keach. Esta seqüência deu origem a um terceiro filme em 1994, chamado CLASS OF 1999 PART 2: THE SUBSTITUTE, e lançada no Brasil como OS DONOS DO AMANHÃ - A LIÇÃO FINAL. Desta vez há um único professor cyborg matando alunos de uma escola pública, no único filme da série sem envolvimento de Mark Lester (a direção é de um tal de Spiro Razatos, mais conhecido como diretor de dublês).
Ainda que os dois últimos sejam mais voltados à ficção, com a introdução de cyborgs na trama, os três filmes de título original CLASS OF... merecem uma conferida, até porque são histórias fantasiosas, mas com um pé no nosso triste cotidiano. Para ver e refletir, antes que realmente sejamos obrigados a usar cyborgs assassinos como professores nas escolas públicas...
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Felipe M.Guerra