ANO DE LANÇAMENTO
1987 (EUA)
DIRETOR

Kirk Alex

ELENCO
Kim McKamy
Chuck Ellis
Joe Ricciardella
Elroy Wiese
Robert Oland
Mitch Rogers
Rick Lorentz
Bob Joseph
ROTEIRO

Kirk Alex

DURAÇÃO

88 minutos

TRAILER

não disponível

ESTRÉIA NO BRASIL:

DISTRIBUIDORA:

Gemini Vídeo

COMENTÁRIOS:

CANIBAL
(Lunch Meat)


Grupo de jovens se perde numa estrada e é atacada por família de assassinos canibais.

CRÍTICAS

Raras vezes a vida humana valeu tão pouco quanto no filme LUNCH MEAT, produção americana amadoríssima realizada nos Estados Unidos em 1987 e lançada no Brasil como CANIBAL - porque "Lunchmeat" significa "Presunto", e você não se sentiria atraído por uma produção chamada PRESUNTO - O FILME, correto? Trata-se da estréia (e de despedida também, porque ele nunca mais teve outra chance no cinema) do diretor Kirk Alex, que assume ainda as funções de produtor e roteirista. Trata-se, também, de um dos espetáculos mais sádicos e grosseiros que você vai ter a chance de encontrar na prateleira de uma locadora.

CANIBAL é uma cópia óbvia de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, mas atualmente torna-se necessária uma revisão porque esta produção obscura rendeu uma espécie de refilmagem, chamada WRONG TURN, e lançada no Brasil com o título PÂNICO NA FLORESTA. Tirando o detalhe de os canibais da versão moderna serem mutantes imortais (!!!), todo o resto é praticamente idêntico ao filme de Kirk Alex.

O roteiro de Alex é um primor de criatividade: nas montanhas de San Bernardino, na Califórnia, vive uma família de canibais composta pelo patriarca, Paw (Elroy Wiese, com sobrancelhas pintadas estilo Zé do Caixão), e pelos filhos psicopatas Elwood (Mitch Rogers) e Harley (Robert Oland), mais o caçula, um gordo escroto, demente e canibal, chamado Benny (Chuck Ellis). Eles vivem no meio da floresta, onde atacam turistas de passagem para matar, saquear e arrancar seus órgãos internos e carne, que são vendidos para um famoso restaurante que serve "juicy burgers" (!!!).

Quando estão no tal restaurante para vender mais um carregamento fresquinho de carne humana, Elwood e Harley topam com um grupo de seis adolescentes, que está indo de jipe para as montanhas em busca de um final de semana alegre na casa de um deles. O grupo é formado pelo riquinho insuportável Cary (Rick Lorentz), mais Frank (Joe Ricciardella), Eddie (Bob Joseph), Roxy (Kim McCamy), Sue (Patricia Christie) e Debbie (Marie Ruzicka), sendo esta última uma jovem punk que se veste igual à Madonna dos anos 80!

Os seis jovens continuam sua viagem até que, no meio da estrada, encontram placas identificando um desvio. Trata-se, claro, de um truque dos canibais. E os jovens caem, pegando uma estrada secundária de chão batido. Após alguns quilômetros, eles resolvem voltar, mas bem na hora vêem um corpo espichado no meio da estrada. Claro que a garotada vai pensar em ajudar o tal homem, sem nem desconfiar que é uma armadilha. Eddie desce do carro e se aproxima, descobrindo que o homem deitado é Benny; este pula e lhe esfaqueia o pescoço, arrancando um grande naco de carne para comer, frente aos olhos apavorados dos amigos da vítima.

Então o inferno se abate sobre os jovens, quando o restante da família aparece brandindo machados e picaretas. O ataque violento dos canibais é filmado e editado de maneira caótica, e não se sabe o que é edição mal-feita e o que é censura, mas praticamente não dá para entender o que está se passando, quem está morrendo e quem está matando. Acho que a própria distribuidora do filme no Brasil cortou alguns pedaços por conta, pois os cortes ficam bem evidentes na cópia da fita (tipo quando você está gravando algo da TV e dá pause, depois "despausa" para continuar a gravação). Além do mais, o filme que deveria ter 88 minutos de duração acaba apenas com 81... Logo, sete minutos "desapareceram" misteriosamente...

Mas enfim, o que dá para "imaginar" do caótico ataque é que Debbie teve sua cabeça decapitada (Harley se aproxima dela com o machado e então a cena corta grotescamente) e Frank leva uma picaretada no pé, que lhe atravessa o tênis. Os outros todos escapam, inclusive Frank, mancando. Enquanto Paw, Elwood e Harley pegam as bolsas e mochilas das vítimas para ver o que tem de valioso, Benny devora faminto o pescoço de Eddie...

A partir de então, CANIBAL vira uma perseguição frenética pela floresta. Os jovens e os assassinos se dividem em grupos: Cary e Sue correm para um lado, perseguidos por Elwood; Roxy e Frank vão para o outro lado, perseguidos por Harley. E Paw volta para casa levando Benny e sacos de lixo repletos dos pedaços esquartejados de Eddie e Debbie. Durante a viagem, numa cena francamente nojenta e sensacionalista, Benny chega a enfiar a mão no saco e tirar alguns pedaços de carne crua das vítimas, que come como se fosse um lanche qualquer!

A perseguição aos sobreviventes preenche os 60 minutos restantes da obra, o que chega a cansar, pois percebe-se que o diretor estreante tem pouquíssimo domínio da narrativa - repete várias vezes takes dos assassinos andando com suas armas em punho, por exemplo. A maioria acaba esquartejada, mas os jovens indefesos logo se transformam também em bárbaros assassinos, respondendo à família homicida com a mesma violência e crueldade com que foram tratados - uma interessante reviravolta do roteiro, que mostra que a selvageria é algo inerente ao ser humano. O final é parecidíssimo, até demais, com O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, com uma das sobreviventes chegando à auto-estrada e correndo desesperada, sendo perseguida por um dos assassinos enquanto carros passam em alta velocidade por eles.

Nenhum dos atores ou envolvidos no projeto teve outra chance no cinema, a não ser uma delas. Sim, o conhecedor atento de cinema obscuro identificará a peituda Kim McCamy como a futura estrela pornô Ashlyn Gere, que "atuou" em quase 100 produções X-Rated, antes de abandonar as camas para voltar a investir na sua carreira como atriz vestida, fazendo pequenas participações em seriados de TV (inclusive ARQUIVO X) e filmes tipo A VINGANÇA DE WILLARD. Ela estreou no cinema no péssimo DREAMANIAC (1986, de David DeCouteau), e CANIBAL está entre suas primeiras produções, bem antes de migrar para o pornô.

CANIBAL é uma verdadeira raridade do mercado de vídeo brasileiro - nem consta no Videobook, a Bíblia dos filmes lançados no Brasil, que deveria conter tudo que um dia já foi distribuído no país. Eu mesmo só vi a fita uma única vez na vida, e tive que comprá-la pois jamais pensei que veria de novo. A probabilidade da obra um dia ser relançada, ainda mais em DVD, é mínima, pois ela é praticamente desconhecida também nos Estados Unidos. Lá a fita é tão rara quanto no Brasil e não existe em DVD - e nem deverá ser lançada tão cedo. Tente procurar pelo nome do filme no Google e você não encontrará mais que uma dúzia de páginas.

É uma pena, pois CANIBAL merecia ser conhecido... Isso quer dizer que o filme é bom? Na verdade, é horrível. Os atores são péssimos, a história é inexistente (se resume a uma frenética perseguição pela floresta) e a edição é horrenda. O roteiro não se preocupa em trabalhar os personagens, e assim o espectador nunca chega realmente a se importar com o que acontece a eles. Tudo que sabemos sobre os seis jovens, por exemplo, é que são amigos e que um deles, Cary, é um chato. Não há nem tempo para passar outras informações sobre eles, pois em 10 minutos de filme já estão sendo esquartejados! Para piorar, CANIBAL foi filmado com câmera Super 8, aquelas velhas câmeras que o pessoal tinha em casa para fazer filmagens da família! A película em 8 milímetros é granulada e lembra mesmo um filme doméstico, o que, por outro lado, dá um tom de autenticidade, de documentário à produção - tipo O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, que foi gravado em 16mm.

Então você pensa: "Mas se o filme é tão ruim, por que merece ser conhecido?". Bem, primeiro porque é obscuro, e sempre é bom ver estes filmes desconhecidos e "alternativos". E segundo porque, como eu falei no começo, esta é uma das produções mais sádicas que já tive a chance de colocar os olhos, e considerando que sou um adorador das mais sórdidas películas italianas e japonesas, isso não é pouca coisa. CANIBAL nem é tão sangrento quando um CANNIBAL HOLOCAUST, por exemplo, mas o clima de sadismo é tão forte que não tem como não ficar chocado ao ver as cenas em que a família de caipiras trata as vítimas como se fossem, simplesmente, carne (algo que foi copiado, mas nem de perto igualado, no recente WRONG TURN). Um destes asquerosos momentos é aquele em que uma galinha bica uma mão decepada, antes de Benny pegá-la e devorá-la avidamente! Ou então quando Elwood atravessa o pé de Cary com sua picareta, prendendo-o ao solo, e depois não consegue mais arrancar a ferramenta, mas fica puxando-a, alheio à dor atroz que o rapaz está sentindo.

CANIBAL é simplesmente doentio, sem um pingo de ética ou de bom gosto, repulsivo e amoral, daqueles politicamente incorretos até a medula. Faço minhas as palavras do velho Guia de Vídeo Nova Cultural 1992, que deu uma estrelinha para a obra: "Banho de sangue num espetáculo de exagerado mau gosto, sádico do começo ao fim e totalmente impróprio para quem tem estômago frágil". Benditas palavras!

Resumindo: um filme feio, sujo e malvado, como o verdadeiro cinema de horror devia ser. Ruim, sim, mas que mesmo assim merece uma chance. Nunca comer carne foi tão nojento quanto em CANIBAL...

HISTÓRIA:    
GORE:    
EFEITOS:    
DIVERSÃO:    

Felipe M.Guerra

Volta