DETOUR - ROTA 666
(Detour)
Um grupo de amigos, voltando para casa depois de uma noite de rave, decide pegar um desvio pelo deserto e fatalmente se depara com uma quadrilha de canibais, que aguarda ansiosamente pela próxima refeição...
Inspirado em Quadrilha de Sádicos...
CRÍTICAS
Quem freqüenta locadoras rotineiramente deve ter percebido um fenômeno esquisito nos últimos meses: pequenas e obscuras distribuidoras, ostentando nomes como Ocean e Casablanca, tem entupido as prateleiras com "lançamentos" em DVD que nada mais são do que produções baratas e desconhecidas lançadas há vários anos em seus países de origem. É algo semelhante ao que acontecia no auge do VHS, quando um montão de selos desconhecidos se dedicava a lançar todo tipo de tralha por aqui. E qual não foi minha surpresa ao entrar na minha locadora e descobrir, entre as novidades, um filme chamado ROTA 666 (já existia um outro filme com este título, estrelado por Lou Diamond Phillips), com uma capinha bem familiar. Eu já tinha visto aquela capa antes, num DVD que consegui numa viagem à Argentina no começo de 2005.
Minha versão se chama DESVIO AL INFIERNO (Desvio ao Inferno), e, quando comprei, não conhecia nada sobre o filme. Resolvi arriscar primeiro porque custava alguns poucos pesos, e depois porque o resumo no verso da capinha era animador: "A perfeita mistura de QUADRILHA DE SÁDICOS e O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA - Um grupo de psicopatas canibais espera a chegada da noite para atacar um grupo de jovens no deserto", e bla bla bla. Tive que voltar para o Brasil e chegar em casa para colocar o disco rodar e descobrir que o título original do filme é DETOUR. Com esta informação, pude pesquisa na Internet e descobrir que trata-se de uma produção americana feita em 2003, diretamente para o mercado de vídeo, e que estava sendo filmada praticamente ao mesmo tempo de WRONG TURN - PÂNICO NA FLORESTA, só que com outro título, HELL'S HIGHWAY. Os produtores resolveram mudar para DETOUR (Desvio) quando viram que WRONG TURN estava fazendo sucesso, e queriam faturar algum em cima disso. Lembra até certos produtores italianos... Até a frase da capinha é meio picareta: "Um caminho errado ("wrong turn"!!!) e você é carne fresca!".
Verdade seja dita: DETOUR - ROTA 666 é um filme divertidinho, ainda mais para aqueles amantes dos slasher movies tipo SEXTA-FEIRA 13, que acham que os anos 80 não deveriam ter acabado. Mas, simplesmente, não tem nada de novo: é a mesma velha história contada do mesmo velho jeito, com um péssimo elenco, mas uma direção inspirada e toques macabros que mantém a atenção, além de um ritmo frenético e até certo suspense. Acredito que a Casablanca Filmes lançou-o nas locadoras brasileiras agora, com três anos de atraso, para tentar aproveitar o burburinho em torno do remake de QUADRILHA DE SÁDICOS, dirigido pelo francês Alexandre Aja.
Agora, se eu fosse Wes Craven, a primeira coisa que faria seria processar os produtores de DETOUR - ROTA 666, que não passa de um remake disfarçado (e não-assumido) de QUADRILHA DE SÁDICOS, trocando apenas os personagens (de uma família em férias para um grupo de jovens que volta de uma rave) e os criminosos (de uma família de canibais deformados pela radiação para um grupo de psicóticos canibais enlouquecidos por alucinógenos). Todo o resto é igual, numa refilmagem quase cena a cena do clássico de Craven - mostrando que o diretor e roteirista Steve Taylor deve ter visto muitas vezes QUADRILHA DE SÁDICOS.
DETOUR - ROTA 666 começa com uma introdução absolutamente dispensável onde um casal de lésbicas (nova moda nos filmes de horror americanos) passeia de carro pelo deserto até que algo as faz parar. Logo, surge um sujeito com duas enormes garras de metal, à la Wolverine, e dilacera ambas. Entram os créditos, com cenas de rave intercaladas a rápidos takes de corpos sendo esquartejados, provavelmente as duas lésbicas desafortunadas. Não demora para conhecermos nossos "heróis": sete panacas, divididos em três caras e quatro gostosonas, que andam o filme inteiro de shortinho e biquíni, ou então de peitos de fora.
O líder do grupo é Neil (o péssimo Brent Taylor), que dirige o trailer de seus pais levando na carona os amigos Loopz (Aaron Buer), um irritante rapper que fala como negão, apesar de ser branquela; Lee (Ryan De'Rouen) e sua namorada Michelle (Jessica Osfar), mais as gatas Tara (Ashley Elizabeth), Harmony (a gostosíssima Jill Jacobs) e Cashie (Kelsey Wedeen). Se o detalhe do grupo estar de trailer dirigindo pelo deserto já lembra QUADRILHA DE SÁDICOS, as semelhanças não param por aí. Voltando da rave, os garotos fazem uma rápida parada em um daqueles postos de combustíveis abandonados no meio do deserto (tal qual QUADRILHA...), onde o atendente tenta dissuadí-los a seguir por um caminho alternativo pelo meio do deserto (tal qual QUADRILHA...). Claro que os jovens não dão ouvidos; afinal, querem ir por aquele caminho justamente para procurar uma lendária plantação de peyote (planta alucinógena que cresce no deserto), que pretendem colher e vender em casa. Que idéia de jerico...
Não demora muito para o trailer passar por uma placa que diz "Os invasores serão devorados" e, logo em seguida, sofrer um acidente, ficando impossibilitado de seguir viagem (tal qual QUADRILHA...). Vendo que não há o que fazer, o grupo resolve se separar para buscar ajuda (tal qual QUADRILHA...): enquanto Neil caminha todo o trajeto de volta até o posto (tal qual QUADRILHA...), Lee e Michelle resolvem escalar uma colina próxima para ver se conseguem sinal em seus telefones celulares, e Loopz fica no trailer com Tara, Harmony e Cashie. No começo tudo é festa, com as meninas tomando banho de sol e conversando animadamente sobre o tamanho de seus peitos e bundas, enquanto o irritante rapper fica enchendo o saco com suas gírias que imitam o cantor Eminem.
Mas não demora para os canibais mostrarem a cara. Neil, que foi buscar ajuda no posto, é a primeira vítima (tal qual QUADRILHA...), sendo atropelado pela caminhonete dirigida por dois malucos, terminando com as duas pernas quebradas. Então, o sádico que parece ser o líder dos canibais crava seus ganchos metálicos no tórax do rapaz e o arrasta até a caminhonete. Lee e Michelle, que transam despreocupados na colina, são os próximos a morrer. Logo, os sobreviventes ficam preocupados com o desaparecimento dos amigos e percebem que alguém os vigia (tal qual QUADRILHA...). É então que os canibais atacam, cercando o trailer (tal qual QUADRILHA...), e obrigando os "civilizados" jovens a se transformarem em assassinos (tal qual QUADRILHA...) para sobreviver, matando seus algozes com o mesmo requinte de crueldade com que foram recebidos (tal qual QUADRILHA...).
Embora DETOUR - ROTA 666 se desenvolva rapidamente, prendendo a atenção do espectador com o ritmo frenético, o roteiro falha, principalmente quando comparado à sua principal fonte de inspiração, QUADRILHA DE SÁDICOS. Se no filme de Wes Craven havia uma família de canibais, em DETOUR - ROTA 666 existe uma verdadeira quadrilha, com uns 15 malucos que ficaram doidões e canibais depois de abusarem do peyote cultivado na região (que consomem regularmente para despertar suas tendências homicidas!!!). O problema é que tirando dois deles, que tem o visual mais elaborado, os outros canibais são apenas uns manés de camiseta e calça jeans, o que não é nem um pouco assustador - parece que o diretor Taylor simplesmente mandou um monte de extras correrem pelo set. Muito diferente de QUADRILHA DE SÁDICOS, onde os canibais tinham um visual assustador e um figurino lembrando que, afinal, eles viviam há anos no deserto.
DETOUR - ROTA 666 também faz citações explícitas a O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, principalmente no esconderijo da quadrilha de canibais, todo enfeitado com crânios, ossadas e pedaços de cadáveres, além de ostentar os restos dos jovens assassinados pendurados em ganchos, pingando sangue. O nível de violência é relativamente interessante, embora o filme prefira mostrar apenas o "depois" dos assassinatos, e não o "durante" - talvez a produção barata não tenha permitido a realização de efeitos especiais mais eficientes. Se nem tem comparação com o clima assustador e sádico dos dois clássicos em que se inspira, DETOUR - ROTA 666 tem pelo menos duas cenas bem feitas e sinistras, que dão um banho no seu rival WRONG TURN. Em uma delas, que parece citação a O SILÊNCIO DOS INOCENTES, os sobreviventes recolhem uma das amigas desaparecidas para dentro do trailer, toda ensangüentada, só para descobrirem, tarde demais, que é um dos canibais, "vestido" com a pele e o escalpo da garota morta!!! Em outra cena, semelhante, um dos canibais usa a cabeça de um rapaz assassinado, enfiada numa estaca, para atrair seus amigos até a moita onde ele está escondido.
Infelizmente, o fato de ser tão parecido com suas fontes de inspiração transforma DETOUR - ROTA 666 em uma diversão acéfala, daquelas que não fazem qualquer diferença e você acaba esquecendo rapidamente. Rápido, barato e divertido, mas dispensável e facilmente esquecível. Para quem gosta de conhecer produções obscuras e relembrar os velhos tempos de QUADRILHA DE SÁDICOS e O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, o filme de Steve Taylor é uma boa pedida - mas sempre sem grandes expectativas. Mas para quem espera algo no mínimo próximo ao clássico de Wes Craven, o melhor é deixar este na prateleira e esperar pelo lançamento do remake, infinitamente superior e muito, mas muito mais violento. Este aqui parece um "Pânico em qualquer coisa" se comparado ao remake comandado por Alexandre Aja.
Como curiosidade, várias frases engraçadinhas nos créditos finais, incluindo a frase "Nenhum animal foi machucado na realização deste filme, a não ser que você conte as carcaças de animais penduradas no posto de gasolina (mas elas já estavam mortas quando as colocamos aí!), ou a dedicatória: "Agradecimentos especiais a Jason & Leatherface, H.P. Lovecraft e Bruce Campbell". Interessante, também, é constatar que a mesma produtora de fundo de quintal responsável por DETOUR - ROTA 666, a The Asylum, lançou neste ano (2006) uma nova versão pirata de QUADRILHA DE SÁDICOS, chamada HILLSIDE CANNIBALS, e ainda mais "fiel" à obra de Wes Craven. Eles não têm vergonha na cara, mesmo...
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Felipe M.Guerra