Hamilton Deane - o Homem que Levou Drácula para o Teatro
Orivaldo Leme Biagi
 | O livro Drácula, de Bram Stoker, não fez, no momento do seu lançamento, o sucesso que seu autor desejava, situação que se repetiu ao longo dos anos subseqüentes - ou, em outras palavras, Stoker não pode ver o sucesso da sua criação em vida. Apesar do livro ter sido vítima de plágio pelo diretor cinematográfico alemão Freidrich Wilhelm Murnau no clássico Nosferatu, foi o teatro, e não o cinema, quem imortalizou a obra de Stoker e o personagem Drácula. E quem levou Drácula aos palcos pela primeira vez foi Hamilton Deane.
O dramaturgo e diretor Hamilton Deane nasceu perto de Dublin, na Irlanda, sendo que sua família era dona da propriedade adjacente à do pai de Bram Stoker, sendo que a mãe de Deane conheceu o próprio Bram Stoker na juventude. Deane iniciou sua vida no teatro ainda jovem, estreando, em 1899, na Henry Irving Vacation Company (nota: Stoker também trabalhou para Henry Irving em Londres por muitos anos). Nos anos 20, Deane formou sua própria companhia de teatro. |
Hamilton Deane já pensava em transformar Drácula em peça de teatro antes de formar a sua companhia. Não encontrando um roteirista para fazer a peça, o próprio Deane, quando teve de suspender suas atividades por causa de uma gripe, escreveu a peça. Ao contrário de Murnau, Deane entrou em contato com a viúva de Stoker, Florence, e negociou os direitos para a representação.
Para transformar o livro em peça, Deane descartou o início e o fim da história (que ocorrem na Transilvânia), transformou o personagem Quincey P. Morris em mulher (por causa do tipo de maquiagem que sua companhia utilizava na época) e, no lugar de mostrar um Drácula perverso e sinistro, transformou-o num representante da realeza capaz de conviver na sociedade britânica. Deane foi o primeiro a fazer com que o personagem Drácula se vestisse com roupas de gala e capa (de ópera).
Depois de pronta, Deane submeteu sua peça à aprovação governamental em 1924 e a licença foi concedida em 5 de agosto do mesmo ano, mas com uma alteração: não poderia ser mostrado para o público a fixação das estacas para matar Drácula. Para tal, os personagens juntaram-se em volta do caixão bloqueando a visão do público.
A peça estreou em Derby, Inglaterra, apenas três anos depois de pronta (14 de fevereiro de 1927), pois Deane (que, nesta versão, faria o papel do arquiinimigo de Drácula, Abraham Van Helsing) temia que ela fosse arrasada pelos críticos ingleses. A maioria da crítica realmente não gostou da peça, mas o público a lotou em todas as suas apresentações. Ao final do verão, Deane transferiu a produção para um teatro maior, o Duke of York e, depois de um comentário casual feito por um repórter, Deane criou um dos mais criativos golpes publicitários da época: contratou uma enfermeira para estar presente em cada apresentação da peça para ajudar os espectadores que se sentissem mal ou desmaiassem.
O desejo de Deane de voltar para o campo criou um certo desentendimento entre ele, Florence Stoker e um dos seus apoiadores, Harry Wartburton. Este último realizou uma segunda versão da peça (com a aprovação da viúva Stoker), que estreou em setembro de 1927, mas fracassou. Deane manteve a companhia em Londres, mas o sucesso da peça alastrou-se e, logo, existiam três grupos diferentes encenando a peça fora de Londres. Uma das lendas da época: pessoas memorizavam cenas inteiras e as gritavam antes dos atores pronunciarem suas falas. Mais do que apenas lenda, era exatamente assim que os rivais de Deane (e aproveitadores) conseguiram as falas da peça.
Em 1927, Horace Liveright comprou os direitos americanos de Florence Stoker e contratou o jornalista John L. Balderston para adaptar o texto para o palco de Nova Iorque. O trabalho de Balderston foi o de rescrever a peça de Deane, embora o nome deste tivesse sido mantido nos programas e nas diversas revisões que Balderston efetuou. O sucesso da peça nos teatros de Nova Iorque estimulou a Universal Pictures a fazer um filme com o personagem. Bela Lugosi, que atuava na peça em Nova Iorque, aceitou também atuar nas telas e fez grande sucesso. O sucesso do filme também ajudou Deane: o público inglês exigia a permanência da peça.
Em 1939, Deane interpretou Drácula pela primeira vez. Neste mesmo ano, ele levou sua peça para a companhia Lyceum Theatre, onde Stoker trabalhou enquanto escrevia Drácula e onde encenou uma leitura única de seu texto para estabelecer os direitos de dramaturgia (após uma breve encenação de Drácula, seguida de Hamlet, o histórico teatro inglês fecharia para sempre). Numa das encenações da peça, o próprio Bela Lugosi estava na platéia e, encerrada a peça, foi abraçar Deane: a "criatura" reconhecia o valor do "criador".
A última representação de Deane como Drácula se deu em 1941 no teatro St. Helen, em Lancastershire. Deane morreu em 1958. Sua versão da peça caiu em desuso, com a maioria das novas gerações preferindo a versão de Balderston.
Artigo escrito e pesquisado por Orivaldo Leme Biagi, tendo sido publicado originalmente no fanzine "Juvenatrix", editado por Renato Rosatti.
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